25/10/2009 - 12:35
A prática das ”férias” é uma criação surgida após a Revolução Industrial e a subversão da relação tradicional dos homens com o tempo.
Se alguém perguntasse a um camponês da Idade Média se ele pensava em ter “férias” isso não lhe faria qualquer sentido. Para os homens até o momento da separação da força de trabalho (detentida pelos “trabalhadores”) dos chamados “meios de produção” (máquinas, terras, equipamentos em geral, capital, detentidos pelos proprietários) a vida decorria num contínuo circular, marcado pelo tempo natural (dos eventos da natureza, como as estações do ano) e pelo tempo religioso (das festas e comemorações, quase todas elas também ligadas ancestralmente ao tempo natural e aos fenômenos da natureza).
Com isso a vida decorria sem a expectativa de uma corrida em direção a um fim, a um ponto de chegada, ela era a manifestação humana de um ciclo de nascimento, morte e ressurreição. E isso muito antes do surgimento do cristianismo ou mesmo fora das fronteiras do cristianismo.
A infinidade de sepultamentos em posição fetal dos nossos ancestrais agricultores do período neolítico insinuam a idéia de que, assim como as sementes, nossos corpos eram depositados na Terra-mãe, para que morrendo pudéssemos renascer. E assim eternamente, sem um fim, sem um ponto de chegada.
No cotidiano dos povos trabalho, descanso, diversão, devoção eram práticas que não estavam marcadas, dissociadas umas das outras, fragmentadas, compartimentadas em dias ou horários específicos. Aliás, a própria vida era percebida como um todo e não como algo composto de “partes”: minhas horas de trabalho, minhas horas de descanso, minhas horas de lazer, meu momento de devoção, etc.
Isso tudo começa a se separar com mais clareza a partir do século XVIII quando a lógica do trabalho industrial começa a invadir e pressionar a vida das pessoas. O cotidiano dentro da fábrica independe dos eventos naturais. A noite é subvertida com a iluminação artificial, o trabalho não é mais voltado para a produção de elementos essenciais à vida, mas a produção de artigos comercializáveis, os trabalhadores não dominam mais todo o processo produtivo, mas se especializam em partes específicas dele.
Em contraposição a dilapidação da vida dessas pessoas o movimento trabalhador se organizou e passou a exigir direitos básicos, mas dentro da nova lógica de tempo, de trabalho e mesmo da vida como um todo.
E nisso se inicia uma longa luta que se extende até hoje: direito a descanso semanal remunerado, limite de horas trabalhadas, compensações por acidentes, aposentadoria, licensas de saúde e…férias.
Por isso não fazia sentido falar em férias a um trabalhador que não vivedsse na lógica moderna do trabalho e da organização temporal. Férias, em suma, é a utilização de “tempo acumulado” pelo trabalhador ao longo de períodos de ocupação, tempo este a ser “gasto” de modo concentrado e não distribuido ao longo do ano como nas folgas. Idéia maluca essa, é claro, de se “acumular” ou ”guardar tempo” para se gastar depois.
Mas é o mundo em que vivemos. E assim, usando meu “vale-tempo”, minha “bolsa-tempo”, estou saído de férias e retorno no fim de novembro. Neste intervalo vou tentar escrever de vez em quando de onde quer que eu esteja.
E como diriam lá pras bandas do sul de Minas Gerais: Inté.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura
Tags: Férias, Origem, Revolução Industrial, Tempo, Trabalho
20/10/2009 - 07:12
Já está se transformando numa tradição: todos os anos, quando chega o período pré-vestibular, acabo fazendo um balanço da carreira de história, da formação dos novos historiadores e do mercado de trabalho. De certa forma vejo isso como um “conselho de colega de profissão” aos milhares de candidatos que tentarão ingressar nos diversos cursos de história espalhados pelo Brasil.
A carreira ainda se divide em duas grandes “especializações”: o bacharelado, voltado para a formação de pesquisadores e, posteriormente, de professores do ensino superior e a “licenciatura”, destinada aos que pretendem se tornar educadores dos ensinos fundamental e médio.
No caso da licenciatura a situação é relativamente mais simples por um lado, e mais complexa por outro: as transformações pela qual o ensino de história nos niveis fundamental e médio vem passando acompanham a transformação do ensino em geral. No caso específico do ensino de história cada vez mais se valoriza a formação reflexiva, investigativa e crítica ao invés da conhecida insistência no “conteúdo”. É claro que isso não significa que os novos educadores possam desprezar o conteúdo simplesmente, mas ele deixa de ser o objetivo para ser o “meio”, o veículo através do qual os alunos são convidados a pesquisar e criticar (no sentido de “discernir”, “refletir” e não de “falar mal”) a trajetória dos grupos humanos ao longo do tempo.
Para isso o educador tem cada vez mais que dominar o uso de diversos suportes ou ferramentas pedagógicas: música, cinema, iconografia, recursos digitais, etc. Além do mais, exige-se também a disposição para dialogar com jovens que estão sendo alfabetizados e aprendedno a se relacionar com o conhecimento de um modo profundamente diverso daquele que se empregou até hoje, graças, em grande medida, a difusão das novas tecnologias da informação.
Em resumo isso significa que o grande desafio do ensino atual, e para o futuro imediato, será conciliar a formação necessária e desejável com um mundo de informação extremamente mutante e de uma rapidez inimaginável. Crianças e jovens que se alfabetizaram pela internet antes mesmo de aprender formalmente o B-A-BA.
Além disso o educador terá de se defrontar com a permanente disputa entre autonomia e liberdade dos alunos, entre responsabilidade e maturidade, desafios que tornam as salas de aula num espaço nem sempre pacífico.
Para os que não pretendem passar pelas salas de aula e buscam cursar o bacharelado em história os desafios são de outra ordem e não desprezíveis.
No Brasil criou-se a cultura de que o historiador – bem como parte significativa dos cientistas sociais – não tem um papel prático, pragmático, produtivo no cotidiano da sociedade. Os historiadores se contentaram – boa parte deles, jamais todos, é claro – em comodamente dizer que seu papel era o de “criticar a sociedade”, numa argumentação também cheia de arrogância.
A consequência disso foi que, enquanto os cursos de história se multiplicaram pelo país, o mercado de trabalho para os bacharéis, mestres e doutores em história cresceu proporcionalmente. Quando ingressei no curso de história da Universidade de São Paulo, no final dos anos de 1990, um concurso para professor do Departamento contava com três ou quatro candidatos em média. Hoje os concursos chegam a ter quase vinte candidatos, quando não superam esse número.
O que isso significa?
Cada professor dos cursos com programas de Pós-Graduação stricto sensu (os que atribuem títulos de Mestre e Doutor) orientam vários alunos, até dez ao mesmo tempo. Entre mestrado e doutorado – requisitos exigidos na maioria dos concursos para professor de ensino superior em universidades públicas – o aluno passa cerca de seis ou sete anos estudando antes de ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, a cada sete anos em média temos um crescimento de – por muito pouco – 300 ou 400% de novos mestres e doutores aptos a concorrerem a vagas de professores em universidades.
É claro que a abertura de novos cursos jamais poderá acompanhar tal oferta de profissionais. Ao mesmo tempo os professores não podem recusar novos orientados de pós-graduação pois isso faz parte das suas obrigações enquando docente de uma universidade pública.
O resultado é que hoje o sistema de reposição dos quadros de historiadores dedicados ao ensino superior se degradou terrivelmente e beira o colapso.
Obviamente que nem todos mestres e doutores se tornarão professores universitários, mas as demais possibilidades “tradicionais” de trabalho para os historiadores (em museus, arquivos, centros de pesquisa, etc.) também não acompanhou o crescimento da oferta de profissionais.
Parte significativa da responsabilidade dessa situação deve-se a própria categoria, que com uma falta de objetividade incrível, sequer conseguiu regulamentar a profissão, o que significa que não existem atribuições exclusivas ao historiador (como nas áreas de restaura de patrimônio, estudo do mesmo, redação de livros didáticos de história, etc.) determinadas por lei.
Mas, apesar do cenário pouco animador, acredito na incrível capacidade do ser humano de se reinventar e solucionar na prática o que falta na estrutura júrica ou burocrática.
Com isso vemos cada vez mais historiadores ocupando espaços em áreas diversas: atividades relacionadas a proteção e gestão do patrimônio cultural, cinema, teatro, jornalismo, produção cultural, consultorias específicas, até mesmo escrevendo novelas e desenhando enredos de escolas de samba.
Há quem veja a dedicação do historiador à essas atividades como algo “aviltante” (como vi certa vez uma professora aposentada da USP dizer). Eu, da minha parte, vejo nessas atividades o futuro da profissão.
Não vejo esse futuro apenas como uma opção de mercado de trabalho, mas como um encontro esperado há séculos entre o historiador e a sociedade, entre o formado e aquela que lhe custeou a formação, como ocorre em tantas outras áreas.
Contudo, isso exige do formando uma mudança de atitude e de perspectiva diante da carreira e da própria vida. Atuar no cotidiano da sociedade, e não apenas dentro dos muros das universidades, implica em ter que refletir sobre a dimensão ética de seu trabalho, de suas escolhas, responder pelas suas opções, se envolver diretamente em debates, disputas, como ocorre com as demais profissões – e que, para o licenciado em história sempre foi algo muito mais familiar do que para o bacharel.
Isso exige também que os formandos estejam aptos a dialogar com outras disciplinas, com profissionais que tenham formações radicalmente diversas como um engenheiro, um administrador, um biólogo, que estejam aptos a trabalhar em equipes multidisciplinares e se ver como um membro de um “time” e não como uma “Diva”, tal como a formação clássica insinua.
Em suma, vejo um cenário desafiador para os(as) novos(as) historiadores(as), o que é bom (para quem gosta de desafios, de “construir soluções”). E é bom também porque o(a) novo(a) historiador(a) terá que ser, antes de tudo, um(a) “cientista cidadão(ã)”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história
Tags: Bacharelado, Carreira, Curso, Formação, História, Licenciatura, Mercado de Trabalho, Profissão
16/10/2009 - 06:58

Quem é você? A qual grupo humano pertence? O que é esse grupo?
Respostas à perguntas aparentemente tão simples são em geral infinitamente mais complexas. Comece definindo: brasileira(o), morador(a) de tal lugar, adepto de um credo religioso. Cor de pele, profissão, ideologia política, praticante de algum esporte, interessado em alguma atividade adicional.
É isso tudo – e muito mais – suficiente para definir o que alguém é ou o que um grupo é? A impossibilidade em se reduzir o que um ser humano, ou um conjunto de seres humanos, é explica a dificuldade em encontrar e delinear o que habitualmente se chama de “identidade”.
O documento de identidade, o famoso RG, apenas nos reduz a um pequeno conjunto de informações burocráticas que nos ligam ao longo de nossas vidas ao Estado, à unidade política a qual estamos associados do nascimento à morte, mas jamais seria o suficiente para que pudessemos dizer quem é “alguém”.
A coisa apenas se complica quando ampliamos esse conceito de “identidade” para grupos formados por milhares ou milhões de indivíduos: o que é ser brasileiro? Chinês? Operário? Negro? Mulher? Ambientalista? Universitário? Militante partidário?
As ciências humanas – ou sociais – trabalham constantemente com o conceito de identidade, mas, na maioria das vezes incorrem numa espécie de pasteurização das relações humanas, da plasticidade das culturas e do livre arbítrio de cada ser humano.
Basta examinarmos alguém próximo a quem conheçamos razoavelmente bem, com pouco tempo observaremos uma série de posturas, atitudes que são contraditórias se colocadas frente a frente com a idéia de uma “identidade homogênea”.
Nem todas as atitudes do militante condizem com essa condição, o adepto do Partido Comunista que adora os jogos da NBA, a feminista que sempre sonhou em cuidar das crianças, o operário que adora música erudita e não suporta música popular, o universitário que prefere ir ao pagode do que ao show do Chico Buarque. Em verdade toda idéia de “identidade” esbarra no estereótipo e na prática histórica dos grupos humanos de buscar reduzir o diferente a meia dúzia de características, em geral opostas àquelas que imaginamos definirem o grupo ao qual pertencemos.
Todo diferente é um “bárbaro” em alguma medida como definiam parcialmente os gregos antigos, procedimento que carregamos ao longo dos milênios e que é tão difícil de ser vencido.
Recentemente o pensador francês Jean-Pierre Warnier propôs que o termo “identidade” seja substituido por “identificação”.
A diferença básica entre “identidade” e “identificação” é que o segundo conceito opera sobre o princípio da plasticidade e da volatividade das culturas, das relações humanas, dos gostos, das opções pessoais, situação que se ampliou – ou explodiu? – com o estreitamento das relações entre povos e grupos humanos diversos com as tecnologias da informação que avançaram a velocidade da luz na segunda metade do século XX.
Talvez por isso mesmo as situações que nos insinuam paradoxos tenham se multiplicado exponencialmente: japoneses que abraçaram a causa de grupos africanos ou que vêm ao Brasil tocar nas baterias de escolas de samba nos carnavais, jovens de periferias brasileiras que se identificam com ícones da política do mundo islâmico, palestinos que torcem para a seleção brasileira, alemães e holandeses que usam penteados iguais ao de Bob Marley, argelinos nos “banlieu” franceses que se identificam com os afegãos que tentam atravassar o Canal da Mancha em Calais. É claro, os grupos ainda mantêm conjuntos de valores e ítens (como bens materiais, origem étnica, nacional ou religiosa) que lhes garante a coesão, mas essa já não é vista como era há três ou quatro décadas. O mundo se complicou.
E essas “identificações”, elementos que são somados no interior de cada indivíduo e com intensidades diversas, que os ligam a outros indivíduos espalhados pelo globo através de uma rede de comunicação complexa e cheia de meandros e armadilhas (televisão, rádio, internet), se faz e desfaz o tempo todo, com volatilidade jamais vista ou imaginada. Apoios a governos, ONGs, grupos de ativismo podem se fortalecer ou ruir em espaços temporais diminutos com a divulgação de dados de uma balanço financeiro, de um escândalo, de uma atitude incorreta.
Dias atrás o principal candidato a direção da Unesco – braço da ONU dedicado a Ciência, Educação e Cultura -, um embaixador egípcio, viu sua campanha ruir e sucumbir diante da embaixadora belga diante da divulgação de comentários a respeito dos judeus e de atos que teria cometido contra a liberdade de expressão quando ocupava o cargo de ministro da cultura do Egito. Grupos ligados aos direitos humanos, a liberdade de imprensa, ao patrimônio, entre outros, moveram suas peças no tabuleiro para forçar a derrota do egípcio, contrariando todos os prognósticos de três ou quatro semanas atrás.
De fato vivemos e veremos cada vez mais um mundo organizado pelas “identificações”, pela livre associação – e tentativa constante de manipulação – dos indivíduos, pelo envolvimento em ações, valores e princípios que, mesmo que mantenham características regionais fortes (como a causa indígena no Xingú ou na Amazônia), passam a compor um conjunto de “pautas” globais. O que não significa em absoluto o fim das especificidades locais, regionais, mas apenas uma ampliação e complexificação dos envolvimentos humanos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura
Tags: Ativismo, Identidade, Identificações, Política, Populações
13/10/2009 - 07:07

Museu é um lugar onde são reunidos objetos de arte, históricos, arqueológicos, antropológicos ou de qualquer outra forma “colecionáveis”, os quais são expostos ao público com fins diversos, certo? Parcialmente certo, ou, melhor dizendo, cada vez menos certo.
Na realidade os museus vão continuar sendo “também” isso, mas não somente. Há muito os museus (”templo das Musas” do antigo grego) passaram a ser muito mais do que espaços onde se encontram coleções de coisas diversas (animais, obras de arte, objetos “históricos”) para serem também instituições de pesquisa, de ensino, de educação e, há menos tempo, talvez, de lazer.
Mas uma das constantes dos museus – a de serem instituições localizadas num único edifício ou num conjunto de edifícios associados, fechados e longe da luz do dia – está lentamente perdendo sua hegemonia para dar espaço, justamente, às áreas amplas, abertas, nas quais a própria paisagem e o ambiente fazem parte da “coleção” do museu.
No extremo sul de Portugal, a oeste, encontra-se o “Promontorium Sacrum”, faixa de Europa encastelada sobre penhascos que foi citada pela primeira vez nos textos gregos da antiguidade, há mais de 2500 anos. Para os romanos ali estava o ponto onde Hercules realizara um de seus 12 famosos trabalhos, abrindo com os braços uma passagem pelo Mediterrâneo. Para além de Gibraltar ergueram uma pedra cerimonial a qual batizou o local: O Promontório Sagrado, o qual já em tempos de portugueses passou a ser referenciado pela corruptela do nome romano e se tornou Sagres.
Em Sagres – no promontório, na imagem acima - foi erguido um farol, uma fortaleza e uma gigantesca Rosa dos Ventos já no século XV, muito provavelmente na época de Dom Henrique o Navegador, irmão do rei de Portugal e Mestre da Ordem de Cristo. Dom Henrique recebeu a alcunha de “O Navegador” justamente por ser o grande incentivador das navegações portuguesas, as quais gerenciava a partir da cidade de Lagos, próxima ao promontório.
Em torno de Sagres surgiu, inclusive, a história da lendária “Escola de Sagres”, núcleo formado por Dom Henrique reunindo os maiores especialistas em navegação conhecidos à sua época, de todas as etnias, credos e cores. Lenda popularizada e romantizada, mas que jamais se deu tal como nas histórias.
Como, então, colocar dentro de um museu um farol, uma cidade e um promontório, e mais ainda, um mar e um oceano, além da luminosidade, do vento, dos odores, componentes todos que trazem o visitante para uma experiência de instantes que o carregam para a história antiga ou para o século XV, como o Navegador olhando no horizonte seus navios se afastando rumo à África?
Os Museus a Céu Aberto, como vêm sendo chamados, buscam justamente essa dimensão “experiêncial” ampla que somente o contato com o ambiente é capaz de proporcionar. Nesses lugares edifícios, sítios arqueológicos, paisagens, elementos naturais, populações de animais selvagens e, até mesmo, comunidades locais compõem um todo que somente faz sentido se mantidos íntegros, no conjunto.
Na Europa são dezenas de experiências já, a maioria delas associada ou ao período neolítico ou à Idade Média (o que permite, inclusive, algumas ações de gosto questionável como a de colocar a população local empregada no museu vestida com trajes de época). Há, também, cidades que se tornaram quase inteiramente um conjunto de bens históricos ou arqueológicos, como Évora e Óbidos também em Portugal, exigindo uma mudança na forma de ver esses elementos e buscando integrá-los num mesmo plano, compondo, enfim, um museu a céu aberto não pensado dessa forma desde o início.
No Brasil algumas iniciativas começam a ganhar força, como o conjunto da Serra da Capivara no Piauí, de longe a melhor experiência brasileira (embora com vários problemas e desafios a serem vencidos), mas ainda não temos um projeto que pense desde o início o conjunto de bens, de patrimônios, móveis e imóveis, materiais e imateriais, culturais e naturais, como uma unidade e no qual nós mergulhamos em busca de uma experiência ampla e não apenas de informação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico, Política ambiental, Política cultural
Tags: Céu Aberto, Museologia, Museus, Portugal, Sagres, Serra da Capivara
06/10/2009 - 07:04
Ouvi durante estes dias, desde a escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016, opiniões que vão de um extremo a outro. Uns acreditam que a vinda das Olimpíadas será um ótimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro e para o Brasil em geral. Uma oportunidade singular para que problemas crônicos – como saúde, transporte, segurança – sejam resolvidos, uma injeção maciça de capitais no país, projeção internacional, etc. A outra parte pensa diametralmente o oposto: uma singular oportunidade para que a corrupção exploda, um desperdício de recursos e esforços, uma inversão da ordem das coisas, realizar uma Olímpiada num país que trata tão mal os esportes em geral e, especificamente, os amadores.
O fato essencial é que a campanha brasileira para trazer as Olímpiadas em 2016 era essencialmente um ato político amplo, uma ação no campo das relações internacionais e do posicionamento das nações no tabuleiro global.
Até então as candidaturas brasileiras haviam sido tratadas como risíveis – sobretudo a de Brasília – e o país como um todo tomado como um grande bananal. O que pesou para o resultado radicalmente diverso entre a primeira campanha e a atual Rio 2016, além da óbvia questão técnica envolvida, foi o posicionamento político do país, o qual se tornou muito mais agressivo (sem que isso implique, obviamente, em questões de “uso de força”).
Uma série de fatores corroboraram: a estabilidade política, a economia em desenvolvimento seguro e sustentado sobre pilares bastante ortodoxos, iniciativas (insuficientes, mas indicativas) para diminuir a exclusão e o abismo social brasileiro, a melhoria de índices de desenvolvimento humano, uma maior presença do país nas questões internacionais e de modo autônomo, sem rezar pela cartilha dos EUA, a aproximação com os países do BRIC (além de nós a Rússia, Índia e China), além do envolvimento com as nações africanas e da América do Sul, a criação do G20 com o Brasil a frente, a descoberta de reservas gigantescas de gás e petróleo na costa nacional.
Sem todas essas movimentações seria inimaginável pensar que o resultado das eleições do COI na sexta feira fosse diverso do que ocorrera até então: provavelmente Chicago vencendo (para não repetir o continente a receber os jogos) com um lobby fortíssimo dos EUA, tal como ocorreu na eleição de Atlanta, os europeus alinhados em torno da comodidade dos países ricos e desenvolvidos e olhando com muito desdém para as candidaturas fora do eixo América do Norte – Europa – Ásia rica.
Por sua vez o comentário de Lula a respeito da conquista da “cidadania mundial” com a vitória é absolutamente realista: depois do reconhecimento “material”, através da economia profundamente “pé no chão” do Brasil (diferente de muitos paises que continuam patinhando na crise), é necessário avançar com o país nos bens “simbólicos”, nas conquistas de valor estratégico, diplomático, como no caso da Copa do Mundo de 2014 e agora no das Olimpiadas de 2016.
A estratégia brasileira tem sido profundamente bem sucedida: cada vitória no cenário internacional alavanca a candidatura brasileira na próxima disputa, a se observar: o aumento de influência no FMI e uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A história das Olímpiadas no século XX é um pouco também a própria história política do século. Além do caso “máximo” dos boicotes recíprocos entre os EUA e a URSS durante a Guerra Fria (nos jogos de 1980 em Moscou, sem os EUA, e em 1984, Los Angeles, sem a URSS), há que se lembrar da terrível Olímpiada de 1936 em Berlin, com a tentativa nazista de provar a suposta ”supremacia ariana”. Tentativa, aliás, fracassada diante dos passos do genial corredor negro estadosunidense Jesse Owens.
Em 1968 ficou marcada a imagem dos atletas negros dos EUA no pódio com os punhos levantados e a luva negra, símbolo dos Panteras Negras, protestando contra a discriminação racial em seu país, gesto que lhes custou as medalhas olímpicas. Anos depois, em Munique, na então Alemanha Ocidental, a politização dos jogos apareceu em frente as câmeras de TV no terrível desfecho do sequestro dos atletas israelenses pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro.
Em geral apontam como diferença essencial entre as Olimpíadas Modernas e as da Antiguidade Grega a extrema politização das atuais. Sim, é fato que os jogos atuais são profundamente políticos, como é fácil perceber pelo histórico, mas, teriam sido os jogos da Grécia Antiga muito diferentes neste aspecto?
Nos acostumamos a imaginar a política como um universo a parte, autônomo, sem ligação com as demais atividades humanas. Essa divisão é recente na história do ocidente e, em verdade, é mais clara como “discurso”, como “área de estudo”, do que como elemento da vida humana.
Os jogos da Grécia antiga (e quando falamos Grécia antiga temos que pensar num “espaço cultural”, numa região que compartilhava parte de uma cultura, não num “país” como a Grécia atual) também traziam muito das relações políticas em seu interior. A vitória de um atleta nos jogos sagrados era uma afirmação da superioridade de sua cidade-estado sobre as demais naquele ramo de atividade, além de demonstrar o apreço dos Deuses por aquele mortal, que, a partir daquele instante, entrava para o panteão dos homens que seriam lembrados pelas gerações futuras, praticamente um herói.
A suspensão dos conflitos durante os jogos Olímpicos trazia para dentro destes as rivalidades estabelecidas fora, as guerras, pendengas comerciais, rixas históricas. Até mesmo a definição dos Deuses protetores de cada cidade-estado trazia essa dimensão política, visto que em diversos casos a escolha de um Deus por uma cidade previa uma disputa mitológica entre dois ou mais concorrentes.
Em Atenas, por exemplo, diz a lenda que a cidade seria dedicada a divindade que desse o presente mais útil aos homens. Palas Atena, disputando com seu tio Posseidon, enviou aos homens a oliveira, e com isso venceu a disputa. Disputa, vitória, honra, poder, influência, bens simbólicos, diversos elementos que estavam há dois mil e quinhentos anos do mundo grego antigo tanto quanto no nosso.
Por isso se há algo diverso entre as Olimpíadas Antigas e as Modernas esse elemento deve ser procurado no campo da economia, do mercado, não no das relações e valores políticos envolvidos no que, a princípio, é uma disputa “sagrada”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura
Tags: Grécia., Jogos Olimpicos, Olimpíadas, Política, Rio de Janeiro
01/10/2009 - 06:54
As transformações nos ambientes – que se aceleraram nas últimas décadas – vêm provocando não apenas o aumento do risco de desaparecimento de espécies biológicas e paisagens, como, também, de modos de vida tradicionais.
No nosso litoral comunidades de pescadores tradicionais estão diminuindo em ritmo acelerado devido a diversos fatores: a pesca indiscriminada por empresas do setor, as quais promovem arrastos com redes gigantescas, capturando uma quantidade de animais maior do que a que o ambiente consegue repor, além de animais em idade prematura, impedindo a reprodução. Também o aumento da poluição do oceano, sobretudo nas áreas mais próximas às costas e nas regiões mais densamente povoadas e o próprio descontrole dos pequenos pescadores concorre para a degradação do ambiente que fatalmente levará ao desaparecimento dessas populações.
Em algumas regiões, como em São Paulo, são chamados de “caiçaras”, em outras apenas de pescadores. Suas formas de existência mudam um tanto de região para região, mas, de modo geral, se assentam em alguns traços culturais comuns.
Esses pescadores, a grande maioria vivendo em pequenas comunidades, espalhadas em enseadas, praias isoladas, ilhas, canais ou estuários, tem na pesca e na coleta de animais marinhos ou associados a esse ambiente (como siris, caranguejos, moluscos diversos, as vezes algumas aves), a base tanto de sua alimentação quanto de sua economia.
Na pesca buscam o que vai para a panela de suas casas, mas também o pouco excedente que será vendido para fora da comunidade. Alguns trabalham eventualmente para outros pescadores, de barcos maiores, ou servem como guias de pescaria amadora. Contudo, todos eles tem a pesca como o elemento definidor de suas vidas, de seu modo, inclusive, de ver e entender o mundo.
Um dos maiores bens dessas comunidades é o fato d epoderem transmitir às próximas gerações uma autonomia enorme com relação a sobrevivência. Em nossas sociedades industriais nenhum pai é capaz de garantir que seu filho terá como se alimentar depois de adulto, mas, embora isso tenha diminuido muito, entre os pescadores tradicionais ocorre o inverso. Cada um sabe que sua descendência será garantida pelo fato de que ao menos os meios fundamentais serão garantidos pela pesca.
Dorival Caymi, um apaixonado por esse universo cultural, eternizou a vida desses pescadores em suas canções e trouxe um pouco dos sonhos, desejos e angústias do viver no mar. A divisão do afeto dos pescadores entre quem está em terra e o que vem do mar, a alegria da pesca bem sucedida, a incerteza de quem vai para o infinito das águas.
Dizem em alguns lugares da Bahia que o pescador de tanto suportar o balanço do mar, estando em terra firme, anda como que embalando o corpo, reproduzindo o movimento do oceano.
Muito antes do primeiro europeu botar o pé no continente americano toda uma cultura da pesca já havia se desenvolvido nos litorais do que hoje chamamos de Brasil. A famosa cultura que construiu os “sambaquis” (literalmente “os empilhadores de conchas”) já era uma cultura de pescadores ao seu modo; nos sítios arqueológicos de sambaquis é muito comum encontrar não apenas as conchas restantes da alimentação, mas outras tantas empregadas como navalhas, como adornos, anzóis rústicos, restos de vários animais marinhos, indicando uma larga utilização dos recursos do mar.
E, por coincidência, estas terras foram colonizadas por outra cultura, justamente aquela que entre as européias havia desenvolvido ao extremo as habilidades para a vida no mar e para a pesca: a portuguesa.
Também em Portugal, desde um passado imemorial, se desenvolveu uma cultura voltada para o oceano. Depois da formação do reino e da constante ameaça de anexação pelos espanhóis o povo português teve de ainda mais investir na exploração do oceano, como única rota, única porta para o mundo e para sua própria sobrevivência material.
Na chegada às Américas uma cultura “náutica” econtrou outra, a indígena dos litorais, sobretudo as do tronco tupi, cuja junção se tornou a base cultural dos nossos caiçaras.
A cultura desses nossos pescadores tradicionais contemporâneos é uma verdadeira síntese das técnicas de navegação, de construção de embarcações, de pesca, de orientação no mar, de conhecimento empírico das condições climáticas, das correntes reunidas pelos portugueses e pelos indígenas ao longo de séculos e séculos de vivência no mar.
Por isso as práticas empregadas por essas populações, como as de Ilha Diana e Monte Cabrão em Santos, ou em Mangaratiba no Rio de Janeiro, ou Matriz de Camaragibe em Alagoas, ou em tantos outros lugares do sul ao norte do Brasil, são ainda tão eficientes para os desafios ecológicos aos quais estão submetidos, conjunto construído através do teste cotidiano de cada elemento ao longo do tempo.
As palafitas, edificações elevadas em pilares para escapar do excesso de umidade, tem sido abandonada em função das construções de alvenaria rentes ao chão, com enormes perdas de qualidade de vida, embora muitos vejam isso como “progresso”. E assim com outros tantos elementos dessas comunidades, passando uma falsa impressão de “melhoria”.
É claro que essas culturas se transformaram durante esses séculos e a transformação é uma condição da cultura, mudar continuamente, mas mantendo a coesão, contudo, depois do encurralamento, agora essas nossas populações de pescadores tradicionais correm o risco de passarem definitivamente para o campo somente da memória, pela aceleração das transformações em nossas regiões costeiras. E nesse caso transformação não significa imediatamente melhoria de vida, até porque essa pode ser obtida sem a desfiguração das culturas.
Conseguir garantir que essas populações mantenham aquilo que consideram importante para si, promover a melhoria das condições de vida delas sem obrigá-las a abandonar sua coesão social, incentivar o uso sábio dos recursos marinhos e costeiros buscando a manutenção do ambiente natural e dos povos que os ocupam, usam e tem nele suas referências simbólicas é o conjunto de desafios que não está pela frente, está agora, com as populações de pescadores dentro do tufão.
E não atropelar tudo sob a justificativa de “promover o desenvolvimento econômico e social da nação”. Se não somos capazes de aprender nada com essas populações tradicionais, nem de garantir que tenham o direito a existência com a manutenção de sua integridade cultural, que tipo de desenvolvimento e de erradicação da miséria seremos capazes de oferecer ao restante de nossa população?
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Política ambiental, Política cultural
Tags: Caiçaras, Pesca, Pescadores Tradicionais
28/09/2009 - 06:51
As cidades tem dessas coisas, uma setorização, ou um “epicentro” de certos movimentos, ofícios, atividades. É assim no Rio de Janeiro, no Recife, em Salvador, em Nova Iorque, Paris, e é em São Paulo.
Mesmo quando se trata de música a cidade tem suas “áreas” históricas, lugares que abrigaram as primeiras agitações de certos ritmos ou ondas. O Bixiga – preciso dizer? – tem sua marca gravada da história do nascimento do samba paulistano. Não só por Adoniran Barbosa, mas também pelos Demonios da Garoa, por Germano Matias, pela Vai-Vai, por Miriam Batucada, Oswaldinho da Cuíca e tantos outros. Não que o samba em São Paulo só existisse alí, mas foi naquele bairro, entre migrantes nordestinos, descendentes de italianos, populações de operários vindos de diversos lugares e com diversos tons de pele, que o samba em São Paulo tomou corpo, a ponto de merecer uma retratação do poetinha Vinícius de Moraes que – em tom de provocação – chamou a cidade de “Túmulo do Samba”.
O movimento Hip-Hop, por sua vez, não seria o mesmo sem o Largo São Bento. Um movimento tão identificado com as periferias da cidade foi tomar forma justamente no coração da urbe, do ladinho do túmulo do Cacique Tibiriçá e dos monges beneditinos. Saudosamente lembram os integrantes do movimento – como Thaide, DJ Hum, Mano Browm, Nelson Triunfo – dos encontros na São Bento (que curiosamente, este ano, durante a Virada Cultural, recebeu o “Baile Black” mais sem graça e sem identidade que já vi, enquanto os grupos de rap se apresentavam em CEUs escondidos e sem nenhuma estrutura ou apoio). Depois os bailes e atividades do movimento se espalharam pelas periferias e nos famosos bailes do Palmeiras (Barra Funda) e outros tantos pontos. Mas a identidade do Hip Hop ficou para sempre ligada a São Bento dos anos de 1980.
O rock em São Paulo ganhou uma projeção incrível no começo dos anos de 1980, com a explosão de bandas como Titãs, Ira! e Cia. Ltda. Esse movimento tomou de assalto o baixo Bixiga, na região do Café Piu Piu, Pinheiros, Augusta e outros lugares transformados em “bunker” do rock nacional.
Depois vieram os SESCs (sobretudo o Fábrica da Pompéia) e as boates, consolidando de vez o cenário rock da paulicéia, mas, mais de uma década antes, o primeiro movimento rock na cidade – digno desse nome – surgiu no bairro da Pompéia e, mais específicamente, numa única rua.
Há quem fale sobre um rock pré anos 60 no Brasil ou em São Paulo, mas seus personagens não chegavam a constituir um movimento e seu legado para a música brasileira foi muito mais pontual. De fato mesmo a coisa se deu ao longo da década de 1960.
Tempos atrás um dos representantes desse movimento – Carlini, líder da banda Tutti Fruti – numa entrevista a Clemente – represnetante d eoutro desses movimentos, o punk rock, muito ligado ao operariado da região do ABC, Moóca e Ipiranga – contava do ambiente que viveu na sua época, justamente na rua em que morava.
Rua Venâncio Ayres na Pompéi viu no prazo de meia década surgirem três lendas do rock paulista: Mutantes, Tutti Fruti e Made in Brazil.
A mais antiga delas, Mutantes, já tocava no Festival da Record onde rolou o bafão de Caetano Veloso, vaiado terrivelmente enquanto esbravejava contra a platéia (e Gil passava uma vergonha dos diabos lá atrás). Isso antes da virada da década. Depois veio a banda de Luiz Carlini, o Tutti Fruti, e por fim o Made. Todos na mesma rua e em tão pouco tempo.
Mais do que apenas uma coincidência geográfica essas três bandas imprimiram uma marca significativa tanto na musicalidade do rock nacional quanto na “forma de fazer” do rock em São Paulo. Pela primeira vez esse tipo de música feita aqui podia dizer que possuia uma “identidade”, a qual, diga-se de passagem, foi incorporada por inúmeras bandas da década seguinte, a de 1980.
Ainda hoje o bairro é ligado a esse passado e o SESC que fica alí se tornou uma referência histórica e musical do rock paulista emergente, é alí um dos lugares onde primeiro se recebem as novas bandas da cidade, e de uns anos para cá, de vários outros lugares do Brasil.
Assim a tradição se firmou, e, assim como no caso de Bixiga, embora a Pompéia não seja o único bairro onde o rock paulista tenha se desenvolvido ele se tornou uma das referências no seu registro de nascimento.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura, História de São Paulo
Tags: Made in Brazil, Mutantes, Pompéia, Rock, São Paulo, Tutti-Fruti
25/09/2009 - 06:40
Quantas vezes você já ouviu dizer que o Brasil é um país pacífico? Que um dos elementos que diferenciam nosso processo de Independência do de outras nações é a ausência de conflitos armados? Que tendemos à acomodação e que países onde há processos mais “violentos” a política em geral é melhor?
Eu ouvi isso durante todos os meus anos escolares, e continuo ouvindo de muitas pessoas, sobretudo as de mais idade. Em geral compara-se a Independência do Brasil com a das antigas colônias da Espanha, onde a separação se deu apenas através de uma longa luta, ou mesmo no caso dos EUA e a Guerra de Independência contra a Inglaterra (culminando no ano de 1776). Comparam ainda a constituição do nosso Estado e dos nossos poderes políticos com a França, onde a Revolução Francesa (de 1789) estabeleceu um marco de rompimento e recriação parcial do país.
Em verdade essas comparações partem de dois conjuntos de desconhecimento e da construção de um mito: o desconhecimento da história dessas outras regiões, o desconhecimento de nossa própria história e a construção do mito do povo brasileiro como um povo pacífico, “afável”, tendendo sempre à acomodação.
A respeito da história desses países seria extenso e nem tão útil assim se extender, vale saber que conhecemos sempre fragmentos e que nem sempre esses povos resolveram suas disputas políticas pelo embate direto. Mesmo quando assim o fizeram as consequências foram desastrosas e traumáticas. A Guerra de Secessão dos EUA, em meados do século XIX, deixou marcas profundas no país e demorou décadas para ser superado o ódio entre o norte e o sul (e com o estabelecimento de uma grande vantagem política para o norte vencedor da guerra).
Da parte do Brasil, por outro lado, frequentemente se “esquecem” episódios que diriam algo bem diverso a respeito de nossa história. Logo após a declaração de Independência a região do Pará e do Maranhão não se posicionou imediatamente a favor da separação com Portugal (na época o Grão Pará e o Maranhão conformavam uma região autônoma em relação ao Brasil). A união com o Brasil somente foi possobilitada graças a força das armas apoiada com negociações políticas intensas. Depois da renúncia de Dom Pedro I, e antes que seu filho e herdeiro – Pedro II – pudesse ser coroado, teve início o que chamamos de “Período Regencial”, o qual o governo era formalmente exercido por um “regente” indicado para tal cargo. Nos anos da Regência pipocaram pelo Brasil movimentos que esperavam uma independência diversa daquela que se estava construíndo, o mais longo desses movimentos, a Farroupilha, somente se encerrou muitos anos depois.
Com o cenário de grande indefinição política que se instalou com a renúncia de Dom Pedro I, uma série de grupos que almejavam formas distintas de independência daquela que se havia estabelecido abriu fogo contra o governo do Império arrastando o Brasil para uma longa década de conflitos armados em praticamente todas as regiões do território.
Depois da relativa estabilidade que significou o II Reinado, com a coroação de Dom Pedro II, o país voltou a se envolver em sérios conflitos: Canudos, o Contestado, a Revolução de 1924, a Coluna Prestes, A Revolução de 1930, o Golpe Militar de 1964 e daí para diante.
Estivemos longe de ser um “povo pacífico”, bem como nos mantivemos distantes de uma democracia consolidada, construída e experimentada cotidianamente, a qual somente se efetivou coma eleição de Collor de Mello (e que deu no que deu).
Contudo, e apesar desse retrospecto, ficamos marcados como “povo pacífico” que não gosta de “embates”. Mito, é claro, que tem algo de razão quando também lembra que nossa incrível plasticidade é um traço cultural marcante, uma incrível adaptabilidade a situações e lugares (herança que herdamos dos portugueses em grande medida). Os mitos, em geral, não são “mentiras”, mas modelações de elementos reais de acordo com fins outros.
A idéia de “flexibilidade”, “pouca rigidez” veio desde tempos de colônia e das avaliações profundamente estereotipadas de viajantes europeus, parte disso herdamos também de Portugal, que entre os povos europeus – pelo fato de ter assimilado tão bem mouros e judeus e africanos e asiáticos em outros tempos – também gozava da fama de ser “meio flexível demais”.
Ingleses, bávaros, prussianos, tenderam a ser mais rigorosos no juízo dos brasileiros do que outros viajantes de raíz latina, como os franceses.
E essa idéia se transmitiu e encontrou difusores poderosos, como Gilberto Freyre e Paulo Prado, os quais viam como virtude e vício do povo brasileiro uma suposta “plasticidade”, uma “meiguice” que tendia a acomodação ao invés do embate.
Cada um deles escreveu isso e abraçou a idéia por motivos bem específicos, mas isso acabou penetrando também nas interpretações dos historiadores e - em consequência – nos livros didáticos, disseminando ainda mais a versão.
Em suma, nossa história não foi menos ou mais sangrenta do que a de outros povos, embora tenhamos – certamente – nossas especificidades culturais e históricas, e como na letra de Fado Tropical de Chico Buarque temos a capacidade de misturar no mesmo gesto o golpe duro e presto com uma alma que instantaneamente se ressente, verdadeira ou falsamente.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil
Tags: Brasil, Cultura, Mito, Política
22/09/2009 - 07:00
Uma fonte inesgotável de roteiros para o cinema foi desde o seu início, há mais de cem anos, a História. De fato – mesmo sendo suspeito para falar a respeito – acho que poucas coisas são tão fascinantes quanto a própria História. Nela está todo tipo de gênero que alimenta o trabalho do cinema de “contar histórias”: tragédias, dramas pessoais, coletivos, dramas psicológicos, aventuras, épicos, romances, comédias.
É claro que não devemos confundir as “histórias contadas pelo cinema” (ou pela literatura, pelo teatro) com a História (acontecimento, o ocorrido). Assim como a o que os historiadores escrevem a história que aparece nas telonas do cinema é o que chamamos de “representação”, uma interpretação, um ponto de vista a respeito de algo que ocorreu.
Mas, mesmo sendo uma representação e não a ” história tal como ela foi” (se é que existe essa objetividade como algo possível de ser encontrado), o cinema além de diversão proporciona ótimas oportunidades de aprendizado e sempre um bom tema para bate-papos mais ou menos inflamados ou discussões em salas de aula.
Também em termos de “exatidão” há vários níveis de “correção”, ou seja, existem situações um tanto absurdas ou deturpações do sentido da História e há boas interpretações. De qualquer modo é sempre prudente olhar com cautela a “exatidão” da interpretações cinematográficas (até porque não é essa a preocupação nem o objetivo dos cineastas).
Assim há alguns filmes que particularmente adoro e que além de assistir muitas e muitas vezes usei em várias oportunidades com meus antigos alunos (em tempos de graduação, quando trabalhava como professor).
Apesar das críticas à forma de se comportar do personagem principal Gladiador (Ridley Scott, EUA, 2000) é uma recomposição notável do mundo romano no período Imperial. A organização das províncias de Roma, a política, a organização militar, as técnicas de combate. Também sobre Roma é impossível não citar Spartacus (Stanley Kubrik, EUA, 1960) e o período da rebelião dos escravos. O cotidiano dos gladiadores é apresentado de modo bastante aproximado. Mas o melhor de Roma não é um filme, mas a série Roma (duas temporadas). Absolutamente genial, com preciosismo nos detalhes – a ponto de usar quase que somente atores italianos da região de Roma – e dedicada a política que se entranhava cotidianamente entre as famílias de patrícios (a nobreza romana) e se espalhava por entre a plebe na passagem para o Império, do assassinato de Júlio César à ascenção de Augusto.
Sobre nosso período colonial um dos favoritos é 1492: a descoberta do Paraíso também de Ridley Scott (ESP/FRA/ING, 1992). A viagem de Colombo, suas disputas dentro da Espanha, a dúvida dentro dos navios – incrivelmente fiéis -, e o deslumbramento seguido do fracasso do sonho de encontrar as Índias através do ocidente. A Missão, de Roland Joffé (ING, 1986) acompanha o fim do sonho jesuítico nas Américas em meados do século XVIII, quando as missões são debeladas pelos exércitos da Espanha e de Portugal. Lindo, inclusive a trilha sonora do genial Ennio Moriconne. Aguirre, a cólera dos Deuses de Werner Herzog (RFA, 1972) é um clássico absoluto da história da colonização e exploração das Américas, embora seja um filme bem mais difícil de ser assistido.
Tratando-se de história do Brasil um dos meus preferidos é Bye Bye Brasil de Cacá Diegues (BRA, 1972), filme que, sem ser um libelo da luta contra a ditadura, é um vagalhão contra o país que passou a ser construído em busca do sonho do “progresso”, custe o que custar. Do mesmo Cacá Diegues ainda há Quilombo (BRA, 1984) e Ganga Zumba (BRA, 1963), ambos sobre Palmares e o complexo de Quilombos surgidos durante e após a invasão holandesa no nordeste brasileiro.
Ainda há Desmundo (BRA 2003), sobre o período colonial, Ação entre amigos (BRA, 1998) a respeito da ditadura e das sequelas dela, O ano em que meus pais saíram de férias (BRA, 2008), também sobre a ditadura e aluta armada, mas sob a ótica de uma criança, Cidade de Deus (BRA, 2002) sobre a criação do bairro que empresta o nome ao filme e o itinerário da violência do Rio de Janeiro nos últimos trinta anos. A lista seria imensa, contando desde os “blockbusters” até filmes alternativos, curtas metragens, produções estrangeiras de pequena circulação, cinema de arte, sobre temas corriqueiros – como a II Guerra Mundial -, e assuntos mais específicos, como A Batalha de Argel (ITA, 1966) de Gillo Pontecorvo, a respeito da Guerra de Independência da Argélia. Há, até mesmo, os filmes sobre personagens históricos que trazem consigo todo o panorama de uma época: Shakespeare apaixonado, Elisabeth, Minha amada imortal, O homem da capa preta, Sete anos no Tibet, Gandhi, Um grito de liberdade, Bird, Todos os homens do presidente.
E os épicos: Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A ponte sobre o Rio Kway, Quo Vadis?, Ben Hur, Os Dez Mandamentos, E o Vento Levou, El Cid, Passagem para a Índia.
Como nota especial vale lembrar de Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro (ESP, 2006) que sem ser um filme “histórico” especificamente trata como poucos do período da Guerra Civil Espanhola, lírico e brutal ao mesmo tempo.
Todos temos nossas listas de “preferidos” e facilmente se enchem páginas com eles. De qualquer modo o cinema é um grande divulgador do interesse pela história e, ao mesmo tempo, um voraz devorador de “histórias”, parceria que parece sobreviver a todas as “crises de criatividade” da indústria cinematográfica.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da arte, História da cultura, História e cinema
Tags: Cinema, Épicos, Filmes Históricos
18/09/2009 - 06:55
Oficialmente, hoje, a tortura é proibida na grande maioria dos países democráticos, embora, nos cantos das prisões, delegacias, ou mesmo nos becos e matagais, ela continue sendo praticada também em quase todos os países. Em alguns mais, em outros menos, mas são raros os que podem se orgulhar e dizer sem receio que aboliram a tortura de seus territórios.
De modo “simples” a tortura é a prática de se obter confissões, revelações, informações através da coerção pela dor física ou psicológica. Teóricamente, diante do medo ou da dor o “informante” ou o “investigado” passaria a revelar coisas que normalmente negaria ou esconderia do outros modos.
Se, tecnicamente, a tortura é isso, na realidade tudo é muito mais cruel. Já na esteira das lutas pela redemocratização do Brasil a Igreja Católica encampou uma longa pesquisa sobre o tema, a qual resultou num dossiê chamado “Tortura Nunca Mais”, o qual se tornou um marco da luta pelos direitos humanos. Uma das coisas mais assustadoras revelada pelos testemunhos dos torturados pe a estranha e doentia relação que se estabelece entre torturador e torturado.
Colocado em situação degradante – nú, sujo, amordaçado, amarrado, encapuçado -, absolutamente exposto, indefeso, o ser humano se transforma radicalmente e o torturador, muitas das vezes, penetra no fundo da alma dos torturados, torna-se uma presença na mente além das marcas que deixa no corpo. Ele investiga, te contradiz, expõe detalhes de sua vida, ameaça pessoas que lhe são caras, duvida de você mesmo quando diz apenas a verdade, ou diz apenas o que sabe, a ponto do torturado chegar a duvidar de si próprio. A sanidade mental do torturado se esvai.
O torturador, por sua vez, se apossa do corpo e da alma da vítima, cria uma compulsão doentia, prazer sádico em controlar o outro.
Oficialmente a tortura – seja como punição, seja como recurso de investigação – está banida há muito tempo, processo que começou já na Idade Moderna e foi defendido por pensadores como Césare Beccaria. O processo é bem acompanhado no clássico livro “Vigiar e Punir” de Michael Foucault, o qual, inclusive, começa coma descrição da tortura impingida, como castigo, a um francês condenado a morte por parricídio (assassinato do pai).
Um dos motivos que levou a tortura a ser banida – além da disseminação dos Direitos Humanos – foi a contínua refutação dos testemunhos obtidos sob tortura, procedimento que, na Idade Média, era absolutamente disseminado.
Em inúmeros filmes, e livros, a tortura medieval é apresentada como “o supra sumo” da tortura, coisa que, na realidade, é muito subjetiva e difícil de avaliar. Mas, de fato, era uma prática “aceita”, ou seja, não era errado, ilegal ou imoral, não era anti-cristão praticar a tortura para obter uma confissão ou como punição.
A Santa Inquisição – movimento da Igreja Católica movido para coibir e debelar ações tidas como heréticas (fora do cânone, das regras, da Igreja) – ficou famosa pelo uso indiscriminado da tortura por inquisidores como o espanhol Torquemada.
Rodas para se esticar as pessoas, bolas de metal sobre fogueiras, sacos com animais vivos amarrados as parte do corpo do torturado, prensas de pés e mãos, ferros de marcar, tenazes para arrancar unhas e pedaços de carne, tudo o que hoje vemos como absolutamente degradante como forma de investigação e de justiça.
Mulheres e judeus foram alvos preferenciais da Inquisição e, consequentemente, da tortura. Muitas vezes o torturado chegava a conclusão de que admitir uma culpa falsa era a única possibilidade de morrer com menos dor, de por fim ao sofrimento. Tanto nos casos de acusação de “bruxaria” (o mais recorrente contra as mulheres) como no de acusação por “judaísmo” muitos preferiram confessar qualquer coisa para evitar o prosseguimento da tortura.
O historiador italiano Carlo Ginzburg ao investigar os processos da Inquisição na Ítalia no começo da Idade Moderna observou que até mesmo as confissões eram padronizadas, o que indica que, diante do desespero dos acusados, os inquisidores ditavam admissões de culpa, às quais os torturados apenas respondiam positivamente.
Na realidade todo o sistema de “justiça” era radicalmente diverso do nosso e, sobretudo no caso dos julgamentos pela Igreja Católica, as culpas, muitas das vezes, estava decidida antes do término do julgamento. Por isso, diante da condenação irreversível, alguns “aceleravam” o processo admitindo qualquer coisa.
Quando condenadas a morte na fogueira por bruxaria, caso tivessem confessado e se “redimido”, as acusadas tinham a “benesse” de serem estranguladas antes de serem queimadas, evitando a dolorosa morte por asfixiamento. Caso não confessassem eram queimadas diretamente.
Um dos casos mais horrendos envolvendo a tortura na Idade Média foi o do julgamento dos líderes da Ordem dos Templários durante o reinado de Felipe o Belo. Endividado com os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, o rei francês decidiu “derrubar” a ordem, justamente num momento em que o papado estava quase sob sua tutela. Sem quem lhe fizesse oposição, Felipe os denunciou por heresia e conduziu, através de seus homens de confiança, como o conselheiro Enguerand de Marigny, interrogatórios contra os dignatários da ordem, entre eles o Grão Mestre Jacques de Molay.
Diante da tortura – na qual tiveram suas peles queimadas ou arrancadas, seus corpos perfurados, barbas e cabelos arrancados – os cavaleiros recorrentemente confessavam fazerem cultos ao demônio, terem relações homossexuais, sacrificarem crianças, adorarem deuses pagãos. Justamente a Ordem que encarnou como nenhuma outra o espírito da Cruzada e que se tornou símbolo do poder militar da Igreja Católica!!
Contudo, no dia do interrogatório final os dignitários retiraram todas suas confissões, e denunciaram as torturas. Com isso foram condenados a morte na fogueira e antes que emissários papais chegassem para rever o processo, foram queimados na Ile de France.
Esse episódio, ocorrido no início do século XIV, ainda se repetiria milhares de vezes nos séculos seguintes, até chegar ao ponto de ser considerado uma aberração diante dos direitos humanos e da justiça. Exatamente por isso é importante lembrar desse longo trajeto até aqui quando vemos acusados – independentemente da gravidade das acusações que recaem sobre eles – sendo torturados como forma de obter confissão, informação ou como forma de punição ou castigo. Além de indigna, de degradante, de covarde e criminosa, a tortura jamais trouxe a regeneração ou a verdade, objetivos buscados pela justiça.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História Moderna, História contemporânea, História da cultura, História medieval
Tags: Idade Média, Justiça, Tortura
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