A viagem para a China da minha mãe

A minha mãe, a Irmgard Klix, já apareceu aqui no ida&volta algumas vezes. Primeiro, contribuiu com uma série de posts sobre o tour que fez pela América Latina até Machu Picchu. Depois, foi citada nos relatos da nossa viagem para a China. Agora, ela volta a escrever sobre impressões e sentimentos que teve nesta que foi uma experiência para lá de surpreendente e marcante. Aproveito a introdução do belo texto que vem a seguir para reparar um descuido meu. Mesmo tendo contado várias das passagens que tivemos juntas na China, não havia escrito com propriedade o quão maravilhoso foi tê-la por perto e como me sinto feliz por ter uma mãe tão companheira até para interromper as férias e ir ao encontro de uma tragédia. É a melhor do mundo, viu?
Viajar para a China, por Irmgard Klix
Bem, viajar é algo que aprendi com meus pais e ensinei a meus filhos. Numa visão evolucionista, podemos dizer que a cada geração há o aprimoramento desta questão, pois hoje tenho uma filha que se transformou numa verdadeira viajante.
Quando jovem eu lia bastante sobre a China nos livros da Pearl Buck, nos sobre a história do comunismo chinês iniciado a partir da longa caminhada de Mao Tze Tung, sobre Confúcio, Marco Pólo etc etc e de uma forma não muito precisa sempre imaginei um dia conhecer o país.
A oportunidade se apresentou de forma concreta quando a Janaína Silveira, amiga e colega de profissão da Tatiana, foi residir temporariamente em Beijing, oportunizando-nos a possibilidade de a visitarmos sem nos sentirmos somente turistas, mas um pouco participantes do dia-a-dia. Decisão tomada, embarcamos rumo à China e pudemos efetivamente ver, sentir e viver muitas realidades desse país onde tudo é gigantesco, desde a área até o número de habitantes.
Quem acompanha os blogs das duas jornalistas sabe de algumas histórias de nossa estada por lá, mas quero relatar um pouco da minha experiência pessoal na passagem pela área do terremoto. Tenho dito para as pessoas que não basta viajar para China para ter emoções fortes, mas é necessário estar acompanhada de duas jornalistas e haver um terremoto para elevarmos à enésima potência o contato com o diferente, o inusitado e o que há de mais humano em qualquer civilização.
Quando decidimos ir para a área de terremoto deixamos de ser turistas para então nos colocarmos como pessoas envolvidas numa tragédia que atingiu milhares de pessoas naquilo que há de mais trágico, que vai desde a perda de documentos, objetos, pessoas, casas, entes queridos até a vida. Os aspectos emocionais envolvidos numa tragédia como esta são os mais infinitos e os medos a que somos submetidos em situações extremas nos colocam diante da finitude do ser humano – tão presente mas tão negada por nós humanos.
Os after-schoks (pequenos tremores de acomodação da placa tectônica) que se sucedem a um terremoto da magnitude deste que ocorreu em 12.05.08 chegam aos milhares e, num deles que nem foi tão pequeno – algo em torno de 5,6 na escala Richter -, eu estava no sétimo andar de um prédio de apartamentos em Chengdu. Acompanhava uma moradora de origem espanhola que estava em pânico, sem condições de permanecer em sua casa e buscávamos roupas e documentos para acomodá-la em outro local onde se sentisse mais segura. Para mim foi uma experiência extrema, pois realmente senti medo que o prédio desabasse, mas precisei lidar com o forte pânico da pessoa que eu estava acompanhando.
A China para mim, além de ser um país de belas paisagens, de uma civilização absolutamente diferente da nossa, de uma espiritualidade centrada no crescimento interno de cada um, de muita comida gostosa com temperos exóticos e muito aromáticos, de pessoas e instituições muito controladoras, de uma língua muito complexa, de um nacionalismo exacerbado é também composta de um povo que responde com muita solidariedade, trabalho árduo e humanidade quando se faz necessário, como no caso do terremoto que atingiu milhares de pessoas.






Tatiana Klix