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Arquivo da Categoria Macau

24/06/2008 - 19:36

Cotidiano na China 6: Cão não é só comida

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Cão fica preso a motoca enquanto espera pelo dono em Macau

Entre as perguntas clássicas que ouço desde que voltei da China está: Comeu cachorro? Não comi, não comeria e pretendo nunca comer. Não que eu seja uma militante da causa da proteção aos animais, tampouco acho que pessoas que o fazem são más e devem ir para o inferno ou algo assim. Nem poderia, pois sou bem carnívora e adoro um churrasco bem farto, com coração de galinha, de preferência. Entendo que esta é uma questão de cultura, mas neste caso, fico com a minha. Adoro cães e para mim eles são, sim, os melhores amigos do homem e da mulher. Terminado o discurso, relato algumas observações sobre o tão famoso hábito chinês:

# A carne de cachorro é menos comum nas mesas da China do que normalmente se imagina. Não é assim em cada esquina que se encontra um churrasquinho de cão, nem de gato. O hábito, cada vez mais em desuso, ainda é cultivado apenas em uma região específica no sul do país.

# Mesmo assim, vi listado no cardápio de um restaurante meu bicho preferido. Confirmando a tese, foi em Guilin, no sudoeste da China.

# O preço era bem salgado, perto de outras refeições. Isso comprova o que li nos guias que levei para a viagem. A comida atualmente é exótica e cara.

# O hábito de comer carne de cachorro é resultado da fome, ou melhor, de grandes fomes passadas pelo povo chinês. Foi na revolução cultural que os bichos deixaram definitivamente de serem animais de estimação para se tornarem comida. Com milhares de pratos vazios, alimentar um animal era considerado um atitude repreensível e burguesa.

# Vivos, observei alguns cachorros passeando com seus amigos humanos, principalmente em Pequim. Nada que se compare à quantidade que há na minha rua no bairro o Menino Deus, em Porto Alegre, onde invariavelmente sempre tem algum cão na calçada, mas em alguns locais já se encontram os bichinhos. Segundo a Jana me contou, os chineses precisam pagar uma taxa anual, relativamente alta para os salários locais, para terem um animal de estimação em casa. Mesmo assim, o número de famílias com cachorros aumenta a cada ano e o de petshops, também.

# Como disse lá no início, sou boba por cachorro e sempre que vejo um paro para olhar e às vezes até brincar. Em Macau, achei esse que tá na foto acima. Tão bonitinho, né? Mas fiquei com pena dele. O dono, que também é proprietário da motoca, o deixou preso no veículo estacionado, enquanto saiu para passear. O bicho não gostou, ficou todo inquieto, mas o chinês não se sensibilizou. Por esta passagem tive a impressão que, apesar de estarem comendo menos cachorros, os chineses ainda não têm os cuidados extremos e o carinho incondicional que cultivamos pelos cachorros por aqui. Será?

Autor: Tatiana Klix - Categoria(s): Guilin, Macau, Pequim Tags: , , , ,
24/06/2008 - 02:56

Cotidiano na China 5: Proibido cuspir

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Em Macau, placa alerta para duas proibições: cuspe e fumo

É necessário proibir o cuspe? Quando o hábito é uma mania nacional, sim. Não é preciso de muito tempo na China para flagrar chineses escarrando, onde quer que estejam – caminhando na rua, de dentro do carro, no ônibus. Não basta botar a saliva para fora, parece que eles se sentem bem mesmo fazendo todo um movimento barulhento que começa no nariz, vai lá no fundo da garganta, passa pela boca até que o cuspe vai com toda força para o chão. Não cultivam o ato apenas as pessoas mais simples ou de pouca de educação. De alguma maneira milenar, aprendeu-se que o que é ruim tem que ser colocado para fora do corpo e mesmo pessoas mais abastadas (principalmente entre os mais velhos) em grandes cidades cospem.

Bem, hábitos são hábitos, e é preciso respeitá-los, mas este é um costume que pode ser prejudicial à saúde da população. O governo da China já se convenceu disso e faz esforços para eliminar o vício. Segundo eu li no livro Um brasileiro na China, do correspondente do jornal O Globo em Pequim Gilberto Scofield Jr., durante a epidemia da SARS, em 2003, os cuspes diminuíram, por conta de campanhas que alertavam para a contaminação a partir das salivas nas ruas. Mas a epidemia se foi, e os escarros voltaram. Este ano, com a proximidade da Olimpíada, a medida adotada em Pequim foi mais radical: uma lei proíbe o cuspe e multa o infrator em 50 yuans (em torno de US$ 7). O objetivo é eliminar o hábito para fazer bonito durante os jogos. Pelo que vi no mês passado na sede dos jogos, acho pouco provável.

Autor: Tatiana Klix - Categoria(s): Macau, Pequim Tags: ,
16/06/2008 - 03:47

O frio e o chá

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Xícara com design e funcionalidade made in China

Eu sou uma boa tomadora de chá, principalmente quando está frio, como hoje. Quando voltei para casa do meu plantão domingueiro, pelas 23h, o termômetro da capa do clicRBS marcava 8 graus em Porto Alegre e a primeira coisa que fiz foi esquentar água para fazer um chazinho e, quem sabe, me esquentar também. O hábito, que eu já tinha em outros invernos, este ano ganhou alguns requintes chineses. A começar pelo chá, que trouxe da terra onde é a bebida preferida há cinco mil anos. Diferente dos que normalmente compro no Brasil, em saquinhos, o dos chineses é vendido a granel, e as ervas ou flores secas vão direto na água quente. É assim que preparei o meu hoje, numa xícara também made in china (presente da Jana e da Maíra), que além de muito bonitinha, é prática. Para que não seja preciso coar, ela tem um recipiente com furos na base que se encaixa no topo, onde vai o chá. Aí serve-se a água e cobre-se a xícara, para guardar o calor. Quando a água ganha cor e sabor, é só tirar de novo o recipiente com o chá! O que fiz hoje era de uma mistura de flores, bem bom, mas no meu estoque de viagem também vieram os tradicionais verde e de jasmim.

Os chineses e o chá o tempo todo

O meu hábito, que normalmente está relacionado ao inverno, não chega a ter muito a ver com o dos chineses. Por lá, o chá é uma constante nas mais diversas ocasiões, em muitas das quais não estamos acostumados a bebê-lo. Toma-se chá no café da manhã, durante o almoço, na janta, sempre quente. E o verão não diminui a sede de chá, não! Não é preciso pedir, ele sempre vem e, melhor, de graça. Nos restaurantes, por exemplo, antes de qualquer coisa, serve-se o chá. Nos quartos de hotéis sempre tinha uma maneira de esquentar água, xícaras parecidas com a minha e chá, naturalmente. Durante a massagem, de novo, ganhamos chá.

Quase gelado para refrescar

Uma descoberta interessante foi a dos chás gelados, ou pelo menos frios, já que bebida gelada não é o forte da China (nem a cerveja tem essa característica!). Vendidos em cada esquina em garrafinhas plásticas, também em vários sabores, substituem o refrigerante na função matar a sede e refrescar. Eu, que não sou muito da Coca-cola, adorei e fiquei viciada neles. Muitos chineses, no entanto, não costumam comprar o chá pronto na rua. Eles trazem de casa, numa garrafinha portátil (e às vezes já de aspecto meio velho e com a cor de dias e dias de chá pegando) para todas as horas.

Água quente

E quem disse que água se toma gelada? Na China, também se toma quente, sem chá dentro. Sim! Só a água quente, bem quente. Bem, disso eu não gostei, mas provei. Tem gosto de…. água quente.

Chá x Te

No museu de Macau, onde tudo estava escrito em português, aprendi uma lição bem bacaninha sobre a origem da palavra chá. O caractere chinês para a bebida tem duas formas de se pronunciar: uma parecida com chá e outra que soa como te. A primeira é de origem cantonesa, do sul da China, e a do sul da China, e a outra vem do dialeto Amoy, da província de Fujian. Destas duas pronúncias surgiram em todas as línguas a palavra que designa chá. Em português, usamos a expressão cantonesa, por causa da presença de colonizadores de Portugal em Macau no século XVII. Mas reparem ali na foto que nas outras línguas latinas ou anglo-saxônicas prevaleceu a outra origem, que foi levada pelos holandeses. Pelo menos nesta palavra, estamos bem mais próximos dos orientais!

Autor: Tatiana Klix - Categoria(s): Macau Tags: , ,
24/05/2008 - 18:48

Uma china portuga ou a Portugal dos chineses

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Vinte e cinco dias na China foram suficientes para eu quase (mas só quase) me acostumar com a idéia de ser analfabeta. Neste período, só senti certo alívio e até estranhamento em legendas no pouco tempo em que estive em Macau. A ex-colônia portuguesa é de certa forma um oásis linguístico para falantes do português na China. Não que os chineses de lá falem a nossa língua, nem tampouco há portugueses por todos os lados conversando (em dois dias e meio não encontrei nenhum, nem nos restaurantes típicos), mas o barato de Macau para  brasileiros é que TODAS as placas da cidade estão traduzidas: desde as do aeroporto, passando pelas de trânsito até as de lojas e restaurantes.

Em alguns momentos, me pegava rindo sozinha pelo inusitado da coisa. Uma escolinha infantil, por exemplo, é um centro de explicações, em português, mas aposto que as crianças que a freqüentam não fazem a menor idéia disso. A língua está morta por lá, e todas estas traduções aparentemente são feitas mais por tradição, mas acabam servindo mesmo é de legendas para pessoas como eu, minha mãe e você, quando for para lá.

Além das placas, outras marcas deixadas pelos portugas na península agora autônoma são a arquitetura e a comida. Também me causou estranhamento ver ladeiras (quase como as do pelourinho), igrejas, fortes, azulejos, imagens de santos católicos em plena China! No meio de tudo isso, há templos budistas, muito artesanato chinês e lojas de medicamentos orientais.


A mistura só não é melhor que a da culinária. Passamos muito bem alternando o café da manhã típico chinês, com deliciosos pratos de bacalhau e bolinhos de ovos (conhecidos no Brasil como pastel de Santa Clara).

Surpreendente, mesmo, foi o passeio pela Rua de São Paulo (ahã, assim, mesmo), onde há várias pastelarias que vendem especialidades macaenses. São bolachas e biscoitos, predominantemente de amêndoas, muito leves e delicados, ao lado de finas fatias de carnes diversas (porco, gado, veado) secas e temperadas com algo agridoce. A caminhada valeria só pelo aroma, mas não tem como resistir em experimentar os quitutes e – a Cacá que me perdoe – ficar feliz em dar um tempo dos bolinhos chineses.


Outras curiosidades

- O dinheiro local é chamado de Pataca e tem a cotação parecida com a do dólar de Hong Kong. Aliás, ambas as moedas são aceitas no comércio.

- O clima em Macau é muito, muito úmido, bem parecido com o de Porto Alegre. Nos dias em que fiquei na península, ainda fez muito calor.

- Em locais turísticos e restaurantes, fala-se bem inglês. Mais e melhor que em Pequim e Xangai, por exemplo. No entanto, não encontrei ninguém que falasse português.

- Em restaurantes de comida portuguesa, come-se com talheres ocidentais. Fico imaginando o quão desajeitada pareço aos olhos de quem se entende bem com os palitinhos ao ver como os chineses também se atrapalham com garfo e faca.
- Pelo que li nas placas, tem muitos dentistas em Macau. Vi bem mais que médicos. Será assim também na China continental, onde não conseguia ler nada?

Autor: Tatiana Klix - Categoria(s): Macau Tags: , , ,
24/05/2008 - 17:08

Um outro mundo uma hora de ferry depois

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Arquitetura e culinária portuguesas são marcas de Macau

No último post antes da função terremoto aqui no ida&volta, falava sobre Hong Kong. De lá, ainda fui para Macau, Guilin e Yangshuo, antes de me dirigir para perto do epicentro do tremor. No clima de tragédia, não tinha o menor cabimento postar minhas observações turísticas por aqui. Mas a vida continua na China e continua aqui em Porto Alegre, de onde vou continuar escrevendo sobre o que vi lá no outro lado do mundo. Recomeço, pois, por Macau, uma península bem pertinho da ilha de Hong Kong.

Assim como a ilha, até pouco tempo atrás (1999), este pedaço de terra era uma colônia européia, e hoje mantém uma administração ainda autônoma da China continental. Tem dinheiro próprio (a pataca do Tio Patinhas!), mão inglesa no trânsito e atrai muitos turistas, tudo como em Hong Kong. Separam os dois territórios uma faixa de água do mar, que pode ser percorrida numa confortável ferry. Mas quanta diferença… Apenas uma hora depois de deixar Hong Kong, tive a impressão de que pulei do primeiro para o terceiro mundo sem escalas. O luxo do comércio de marcas (e a pirataria que vem junto), a arquitetura moderna (e as vezes futurista), a limpeza das ruas, as pessoas bem vestidas e antenadas, o metro funcional, as escadas rolantes e passarelas muito bem colocadas na cidade para facilitar o deslocamento de pedestres desaparecem muito rapidamente. Em Macau só se vê luxo (e de uma maneira bem brega) na área dos cassinos, mas o resto da península e das ilhas que percorri tem um jeito meio suburbano, provinciano, um pouco bagunçado, outro pouco sujo, com pequenos comércios e serviços, como carpintaria e sapataria, já antigos para o moderno capitalismo tão bem representado em Hong Kong. A cidade é muito simpática, mas tem um “quê” de atraso que a permeia constantemente.

Incrível como distintas colonizações – lusa e britânica – podem ser tão marcantes na história de um lugar, não?


Imponente cassino Grand Lisboa (ao fundo) pode ser visto de vários pontos da cidade

Autor: Tatiana Klix - Categoria(s): Hong Kong, Macau Tags: , ,
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