O primeiro dia da edição de inverno 2010 do SPFW começou animado, em clima rock’n'roll, com o desfile da Cavalera em plena Galeria do Rock, com live act do Mixhell – Layma nas picapes e Iggor Cavalera na bateria. Como se não bastasse, a coleção é boa.


Jeanswear honesto, com cartela sóbria, onde prevalecem cinzas e pretos, com pitadas de dourado aqui e ali, um tantinho de couro acolá. Os meninos foram privilegiados, já que Igor de Barros caprichou na alfaiataria, dando destaque a paletós sequinhos, coletes e calças pregueadas com gancho baixo. A faixa com pinta de black-tie mas com forma de ponta de colete é genial. Os tênis flats também foram uma super bola dentro. Estávamos devidamente aquecidos para o desfile seguinte, da Osklen.


Um inverno de verões remixados. A Osklen olhou para seu próprio acervo de verão para fazer da próxima estação uma viagem em 3D, onde marcham firme avatares urbanos de look quase punk. Personagens de um mundo de fantasia, afinal nada do que vimos ali é real, visto que pouquíssimas peças – talvez os coturnos e algumas leggings – irão parar nas lojas. Estão lá listras da coleção de inverno 2008 (mas não era verão?), inspirada em luzes e texturas das grandes metrópoles e também estampas florais de outras estações. Volumes angulosos saltam de vestidos envelope, tubinhos e tops futuristas, de ombros proeminentes, arrematados por hotpants em pesado e rígido feltro de lã. Conforto? Deixe para o verão. O exército de Oskar anda ereto, encasulado, com postura militar, pronto para batalhas nas ruas das metrópoles ou em Pandora. É impressionante o trabalho arquitetônico nas roupas, conseguido com materiais nada convencionais, como o couro ecológico dublado com sarja, tricô de palha de seda ou tressê do mesmo material. Lindos os tricôs pesadões multicoloridos, refúgios particulares em caso de esfriamento total do planeta. A Osklen consegue mais uma vez deixar uma imagem fortíssima na retina dos fashionistas, mas fica a vontade de conhecer qual será o real inverno da grife.


Mario Queiroz? Bem, depois de finalmente acertar em seu verão, voltou duas casas no jogo da elegância masculina. Em sua coleção de inverno 2010, Mario Queiroz deixa um pouco de lado uma alfaiataria em evolução para aventurar-se pelo streetwear. “Ah, super atual”, diriam os mais antenados. Depois de uma boa coleção de verão, onde shapes, proporções e cartela harmonizavam, eis que a direção muda totalmente. Acontece que o streetwear de Mario é o da Londres dos anos 80, com todos os excessos e demais características duvidosas que a insistente década continua despejando nas passarelas de hoje. Tome cores berrantes como amarelo e vermelho nas jaquetas de náilon – naquela época a gente chamava de japona, lembram?-, listras e quadriculados conversando – e às vezes não se entendendo- no mesmo look, referências esportivas e estampas roqueiras. E, claro, a bandeira inglesa pontuando toda a apresentação, desde o tapete na passarela até patches e buttons nas lapelas dos blazers e jaquetas, passando pelas fivelas grandonas dos cintos. Tudo bem literal. São boas as calças de gancho baixo, os tênis botinha tacheados e os hoodies até que divertem, mas Mario precisa acertar a escolha de seus tecidos para dar nobreza à sua alfaiataria. Vendo o desfile, ficam as lembranças de moda que a maioria de nós quer esquecer. Não é o caso de ressuscitar o que tinha de pior nos anos 80, não é mesmo? Mario diz que se inspirou nas imagens registradas em suas viagens à capital inglesa, há mais de 20 anos. Talvez fosse o caso de atualizar esse repertório visual, para que cessemos o revival e, enfim, haja evolução na moda masculina brasileira. E na de Mario.



A Colcci vem melhorando, há de se reconhecer. Hoje comprovou. Excetuando o primeiro bloco, tingido de rosa, o resto do desfile é bem competente. As feiosas peças em tricô e os inacreditáveis ponchos de plástico transparentes do início do desfile anunciavam o pior, mas a grife se recuperou bem. Monte de peças fáceis de usar, confortáveis, jovens e bem simpáticas. No masculino, ótimas calças e bermudas saruel fininhas, de malha, um tanto de militarismo aqui, outro aroma roqueiro ali e até um surpeendente casaco de pele trataram de garantir mais um desfile acima da média para a grife catarinense. Ponto para o styling de Giovanni Frasson, que mandou muito bem nas sobreposições.
Agora vou ali dar uma olhada nos desfiles de Milão. Volto no próximo post.