Acabou mais uma edição do SPFW, com saldo apenas regular para os homens – fez falta a V.Rom. O último dia, porém, reservou bons momentos para quem esperou a temporada inteira por um pouquinho de emoção no árido terreno da moda masculina brasileira – exceção feita ao fortíssimo desfile de Alexandre Herchcovitch. Vão me chamar de azedo, exigente, dizer que não gosto de nada, que nada está bom etc…A questão é que não dá para tapar o sol com a peneira e se contentar com o festival de modelagens erradas, tecidos do terceiro escalão e falta de idéias que teimam em desfilar pelas nossas passarelas. O melhor é que eu acho que o Brasil tem potencial pra fazer boa moda de menino, sim, mas está muito preso a convenções, acomodado, falta ousadia, falta quebrar o círculo vicioso que manda que não se muda porque-não-vende-porque-o-homem-brasileiro-não-entende-porque-não-vende-porque-o-homem-brasileiro-não-entende. Ou então ficamos satisfeitos com moda jovem “mucholoca”, de nicho, que nada acrescenta à cultura de moda do homem brasileiro. Por isso fiquei feliz com o avanço na TNG. Por isso a nobreza de materiais e a ousadia de Alexandre encantam tanto. Pena o Ricardo Almeida não desfilar mais, pena gente jovem como a Stone Bonker, por exemplo, não estar num desses line-ups, pena o João Pimenta estar escondido no breu do Frei Caneca…


Enfim, feito o desabafo, convém dizer que fiquei bem feliz com a coleção de Marcelo Sommer para a sua Do Estilista, ontem, lá na Bienal. Menos pelo clima triste, triste do desfile e mais pela boa silhueta de seus meninos, pelo casting de amigos, pela simpatia das peças sóbrias e com jeitão de usadas – algumas eram recicladas, de coleções anteriores da grife -, que criam desejo ao mesmo tempo em que tem informação de moda – entendem o que eu digo? Marcelo investe numa moda mais real e menos circense e, ao meu ver, ganha muitos pontos na sua relevância para o mercado. Depois de uma estação longe dos desfiles, foi um belo comeback. Volte sempre, Má, mas mais feliz, promete?


Já teve seus 15 minutos de fama hoje? Andy Warhol profetizou e as proporções do que é ser celebridade nos anos 10 do século 21 tornaram-se industriais. E é sobre um cara com tamanha fixação em aparecer que chega a fabricar sua fama a narrativa da coleção de inverno 2010 da Reserva. O CQC Felipe Andreoli introduziu o tema, repetindo o discurso pré-desfile que a grife utilizou na temporada passada com Fernanda Young (é mesmo necessário?), mas foi quando a voz de Susan Boyle ecoou pela sala 3 da Bienal que começou de fato a brincadeira fashion dos meninos do Rio. A primeira coisa que salta aos olhos é a mudança na silhueta. Saem as calças de shape saruel que fizeram a fama – olha ela aí – da marca, para a entrada de skinny comportadas, resinadas e coloridas, combinadas com belos tricôs metalizados, efeito conseguido também com aplicação de resina especial. Detalhes espelhados como broches e botões fazem alusão ao narcisismo do caçador de sucesso instantâneo que, com seu respectivo código de barras aplicado na roupa, caminha como boneco – o make plastificado ajudou na caracterização –, com direito a clone no look de tricô com bermuda sequinha – um dos combos mais acertados do desfile. São excelentes os cardigãs fininhos, com textura de reciclados, em versão twin-set e, mais grossos, com gola xale de gala. A brincadeira de desconstruir o Black-tie, por sinal, foi a parte mais fraca da apresentação, pois a modelagem de certas partes de cima foi bastante prejudicada no emprego de materiais pouco convencionais como o jeans, por exemplo. São boas as botinhas docksides da Sebago e – que bom! – ainda pipoca uma e outra calça de gancho baixo mais contido. Foi impactante o final com a incrível parka refletiva, tricotada com a boa e velha fita cassete. Melhor notícia para quem gostou da mistura de esporte, streetwear e alfaiataria dos meninos da Reserva: aqui (quase) tudo é real, ou seja, vai pra loja.