Vídeo do desfile de verão 2010 da Yves St. Laurent, um dos mais impressionantes da temporada parisiense. Stefano Pilati consegue apresentar o que há de mais novo e instigante na moda masculina atual, numa casa super tradicional, mas que está sabendo amadurecer em grande estilo, com frescor e ousadia na medida certa. Enjoy.
Aprendi uma coisa durante a temporada de moda de Paris: nunca despreze um convite para o desfile de uma grife pouco conhecida, obscura e com menos apelo do que os grandes nomes, você pode se arrepender. Por pouco isso não aconteceu comigo. Ocorre o seguinte: assessores de imprensa que cuidam de apresentações badaladas trabalham também para marcas menores, iniciantes (ou nem tanto), com menos visibilidade. Claro que a gente sempre quer assistir aos maiores e melhores, mas acaba sendo incluído no sitting destes nomes alternativos também. Recebi convite para os desfiles da franco-italiana U-NI-TY e da coreana Wooyoungmi e hesitei, “será”? Bom, como não tinha nada a perder em conhecer, a curiosidade falou alto e lá fui eu.
A U-NI-TY nasceu em 2004 e tem como mote misturar o charme e o conforto do vintage com elementos clássicos do guarda-roupa masculino, além de uma pitadinha de militarismo aqui e ali. O que eu vi na coleção de verão 2010 foi exatamente isso. Coletes, chapéus, alfaiataria em padronagens clássicas como o Príncipe de Gales, tudo tradicional, mas com shape atual. É uma grife comercial, sim, mas que tenta fugir do convencional dando ares cool a peças fáceis de usar, que não chocam homem algum e que poderiam sair direto da passarela para seu guarda-roupa. Tudo que muito homem procura quando olha para a moda. Calças folgadas, mais curtas, linho, jeans cru ou destroy, blazers levinhos e amassados, bem na pegada comfort que domina a moda atual. Para arrematar, scarfs de verão no pescoço, daquelas que não esquentam, só acrescentam estilo. E nos pés, sandálias de couro. Parênteses: está na hora de nós, brasileiros, que vivemos num país tropical, com calor de rachar no verão, deixarmos pré-conceitos e julgamentos de lado para adotar, finalmente, roupas que condizem com nosso clima. As sandálias e as tais bermudas urbanas, que deram tanto o que falar há pouco tempo pelos blogs afora, estão em cada esquina de Paris. E com resultados bem elegantes, sim senhor. Se você segura a onda e acha que tem a ver com seu estilo, pode abusar. Até eu, antes reticente, estou cada vez mais convencido de que pode dar certo. Prometo tentar no próximo verão. Voltando à U-NI-TY: nem tudo funciona, tem até umas peças meio duvidosas mas, no geral, é uma grife super honesta. Pode servir de exemplo para muita gente no Brasil.
O caso da Wooyoungmi é diferente. A grife completa em 2009 seus 50 anos (!) e, como a maioria dos orientais, tem uma boa dose de conceito embutida na roupa e na apresentação. Construção: essa é a palavra-chave a ser lembrada quando se analisa uma roupa feita pelos coreanos que por aqui pipocam durante a temporada de moda ( conheci outra grife, no salão Rendez-Vous, chamada Hoon, que me deixou boquiaberto com o primor de acabamento de sua alfaiataria ). A Wooyoungmi tem loja no Marais e desfila em Paris desde 2003. Sua linha masculina foi lançada em 1988 e, para o verão 2010, buscou inspiração no universo dos pintores. De telas ou de parede, tanto faz. Antes do desfile, realizado no Palais de Tokyo, um vídeo projetava e demonstrava diversas técnicas de pintura, com um resultado artsy super poético. Quanto às roupas, construção, lembram? Então tome zíperes e aberturas inusitadas, efeitos de trompe l’oeil que simulam shorts e bermudas sobrepostas a calças, silhueta folgada e uma bela alfaiataria com pegada esportiva. A cartela de cores lembra a dos uniformes de pintores, desde o azul característico dos macacões até os cáquis, presentes em lindos trench-coats amassados. Conceito com qualidade. Adorei.
Ah! Outra coisa que me fez perceber que não se deve desprezar os pequenos é que todo mundo vai em todos os desfiles. De Didier Grumbach a boa parte da imprensa especializada, todos estão ali para conferir o novo, que amanhã poderá ser o hot ticket.
Para os que gostam de uma moda mais contida, mais tradicional e mais “madura”, em Paris tem também. Ótimos exemplos puderam ser vistos nas passarelas de Paul Smith e Lanvin que, com uma soberba coleção, muda de caminho sem, no entanto, abandonar suas raízes. Lucas Ossendrijver e Alber Elbaz continuam provocando, questionando formas e materiais, brincando com a tênue linha da androginia. Dá pra reconhecer inclusive, as anquinhas nas calças que pudemos ver na coleção de inverno de João Pimenta, que provou estar super em sintonia com o momento da moda global. Ousadias como as sandálias “semi-gladiadoras” (elas estão por toda parte nas ruas de Paris, uma verdadeira invasão, sobretudo nos pés femininos) e brilhos nos materiais se somam à ironia dos falsos bigodes a la Salvador Dalí. Excelente!
Lanvin
Paul Smith mandou bem também, com um desfile que começa variando os tons de cinza, até terminar em total looks de tons pastel e outros mais fortes como o roxo e o turquesa. Tudo bem cortado, seco, com folga no gancho de algumas calças. Detalhe: zero gravatas. Camisas abotoadas até o colarinho, terno ou paletó. Só. Será o fim do nó na garganta? Veja no vídeo a festa da fila final, ao som de Thriller, outra homenagem a Michael Jackson, seguindo o que fizeram Galliano e Hermès.
Como invariavelmente acontece, os representantes japoneses da semana de moda parisiense não decepcionaram, com coleções sensíveis, deliciosas, cheias de xadrezes e cores, puro desejo fashion. Junya Watanabe continua com sua paixão pela reinterpretação de clássicos do vestuário ocidental, principalmente norte-americano. Jeans irresistíveis, paletós sequinhos e cartela de cores precisa. Mandou bem.
Rei Kawakubo faz arte com sua Comme des Garçons. Há quem diga que parou nos anos oitenta, que é roupa pra japonês, pra palhaço, que é impossível de usar etc…Eu, antes de tudo, gosto do que é belo, e confesso que quase choro com as coleções da CDG. Dessa vez não foi diferente. Patchworks, cores, xadrezes, calças soltas, paletós relaxados. Lindo demais. Vejam e formem sua própria opinião.
Descobri hoje, por acaso, graças a uma indicação do estilista Ivan Aguilar, este post assinado e publicado em seu blog pelo Alcino Leite Neto, editor de moda da Folha de S.Paulo. Trata da situação em que se encontra a moda masculina desfilada nos principais eventos do País, sobretudo no Fashion Rio. Por favor, leiam. Diz muita coisa.
OBSERVAÇÃO SOBRE O FASHION RIO E A MODA MASCULINA
O Fashion Rio vinha apresentando um repertório crescentemente rico de moda masculina, como já tivemos oportunidade de ressaltar, Vivian Whiteman e eu. A considerar, porém, os desfiles que exibiram roupas para homens na última edição, exceto por um look ou outro da Redley e da TNG, parece que só existem consumidores adolescentes no país. A falta de grifes que estejam realmente dispostas a criar moda para homens, e não para teenagers, se revelou agora uma das principais carências do Fashion Rio.
Existe ainda no meio da moda brasileira _inclusive entre a crítica_ uma grande ojeriza com a imagem do homem maduro (e falo daquele de 30 anos ou mais), que é associada à caretice e à velhice. Tem gente na plateia dos desfiles que parece ter ânsias de vômito diante da exibição de um terno bem talhado, se este não for na cor laranja e com bordados de toy-art. Com medo de parecerem antiquadas, as marcas que criam para homens traçam um raciocínio simplista, que consiste em associar a moda masculina à roupa para garotos.
O fato de os homens serem menos ousados que as mulheres nas escolhas de seus looks não implica que não haja nada a acrescentar ao design masculino de roupas. Fosse assim, não haveria uma semana de moda masculina em Milão, seguida de outra em Paris. Mirassem apenas os adolescentes, as grandes grifes internacionais voltadas para homens (ou também para homens) quebrariam em dois tempos.
Se isso ocorre no Brasil, é porque têm sido poucas as tentativas, por parte das grifes com efetivo interesse no design, de reformar a imagem masculina madura. Elas praticamente entregaram às marcas de perfil conservador a tarefa de engendrar o look dos homens no país, desprezando um imenso mercado e a possibilidade de introduzir aos poucos novidades a esse público tão desconfiado da moda.
E por que os homens desconfiam da moda? Porque são raras as grifes empenhadas em exibir nas passarelas _sem sensacionalismos e sem propor a eles que cruzem a fronteira dos gêneros sexuais_ novas opções de imagens e roupas para o trabalho, as festas e o lazer.
Para esses homens, os desfiles não passam de coisas para mulheres ou gays. A distância que eles criam da moda _e a moda deles_ promove o que se vê nas ruas brasileiras, particularmente no inverno: os ternos mal feitos, os casacos desengonçados, os jeans em profusão e as camisetas hegemônicas, vorazes, que devoram toda pretenção do estilista ao design e à criação. Sem falar na numerosa quantidade de “homens feitos” que se vestem como rapazinhos indo para o colégio.
Se há um longo caminho para o design de roupas femininas se firmar no Brasil, no campo da moda masculina esse percurso é longuíssimo.
E em três dias de SPFW já tivemos mais moda masculina do que em todo o Fashion Rio (ô Paulo Borges, acerta isso aí, vai!). Abrindo o evento, o carnaval velado da Osklen, que fugiu da obviedade ao evitar os excessos naturais de coleções calcadas no tema sambista que a gente tanto conhece. A equipe de estilo comandada por Oskar Metsavaht merece mesmo uma reverência, eles deram aula. Muito chic. Hoje tivemos boas idéias na Ellus que, sem revolucionar a indumentária masculina, não compromete e acerta na alfaiataria cinza, elegante e em proporções corretas. A Triton sim, surpreende. Com um quezinho de V.Rom, seus meninos vieram fofos, floridos e docemente caipiras. Excelentes as peças em patchwork combinadas com jeans. Belo avanço. Amanhã tem mais.
…a SPFW, sim, disso você já sabe. Mas o que muita gente esquece é que vai ser dada a largada também para mais uma temporada internacional de moda masculina. Dia 20, sábado, começa a etapa milanesa, indo até dia 23. A partir de 24 de junho, ou seja, um dia após o fim da semana paulistana, é a vez de Paris. Espere ver vários posts a respeito no Hypercool, pois euzinho aqui estarei na Cidade Luz no período dos shows! Pra ir se programando, segue o line-up das duas cidades. Fique ligado!
MILÃO
20.06, sábado
Ermenegildo Zegna
CP Company
Costume National Homme
Jil Sander
Missoni
Burberry Prorsum
Carlo Pignatelli Outside
Les Hommes
Trussardi 1911
21.06, domingo
Bottega Veneta
Frankie Morello
Gianfranco Ferré
Gucci
John Richmond
Vivienne Westwood
Neil Barrett
Emporio Armani
Versace
Alessandro Dell’Acqua
Alexander McQueen
Giuliano Fujiwara
23.06, terça-feira
John Varvatos
DSquared2
Iceberg
Z Zegna
Giorgio Armani
Ermanno Scervino
PARIS
24.06, quarta-feira
Yves Saint Laurent
25.06, quinta-feira
Alexis Mabille
Issey Miyake
Hugo Boss
Francisco van Benthum
Juun J.
Louis Vuitton
Gaspard Yurkievich
Jean Paul Gaultier
Emanuel Ungaro
Dries van Noten
Julius
Henrik Vibskov
26.06, sexta-feira
Junya Watanabe
Blaak Homme
Thierry Mugler
Rick Owens
Walter van Beirendock
Kris van Assche
Comme des Garçons
Cerruti
Givenchy
Tim Hamilton
John Galliano
Raf Simons
27.06, sábado
U-ni-ty
Kenzo
Miharayasuhiro
Tillmann Lauterbach
Bernhard Willhelm
Ann Demeulemeester
Wintle
Damir Doma
Dunhill
Petar Petrov
Hermes
Sébastien D. Rodriguez
28.06, domingo
Bill Tornade
Lanvin
Wooyoungmi
Songzio
Masatomo
Qasimi
Dior Homme
Paul Smith
Agnes B.
Romain Kremer
Postzinho express só pra dizer que não sumi não. É que a vida tá dura, corrida, cheia de novidades, inclusive. E das boas. Não só não abandonei o Hypercool, como andei trabalhando para ele. Vem aí, segunda dia 18, o mais novo editorial do blog!! E, modéstia à parte, ficou lindo demais. As fotos são da fofésima Mariana Maltoni, novo talento e cria de Lilian Pacce, que clicou a linda Izabel Hickmann (sim, irmã da Ana) vestida com roupas de menino. A locação? Não podia ser melhor: uma vilinha dos Jardins inteira em demolicão e, portanto, à disposição. Acordamos cedinho, cedinho, mas valeu a pena. Passamos bons momentos. Depois conto mais. Como prévia, fiquem com uma das imagens produzidas hoje de manhã. Ainda nem editamos, pode ser que esta foto nem entre, mas eu achei bem bonita e dá uma resumida no clima.
Outra novidade (big one!): Segunda-feira eu embarco para Nova York, para cobrir o lançamento do perfume Play, da Givenchy, representando a Homem Vogue. Vai ter eventinho, jantar com a cúpula da maison e, cereja no bolo, entrevista com Justin Timberlake (!) rosto da campanha. Legal, né? Prometo contar tudo por aqui. Por ora, licença que eu vou cantar muito no show do Oasis!!
Imagens dos lookbooks de inverno 2009 de duas grifes relativamente novas e alternativas. A sueca Odeur e a japonesa Julius, que estreou na semana parisiense de desfiles na temporada passada. Caretas e consevadores, abstenham-se.