Só pra não dizer que só falei do João Pimenta na Casa de Criadores (e dá pra falar de mais alguém? O abismo é gigantesco…), resolvi tecer umas linhas a mais sobre o que foi visto nos dois últimos dias. Poucas, verão. Entre os meninos, a sempre simpática ADD continua sem inventar a roda, mas mostra-se muito competente em sua proposta de moda fácil, usável e com alguma graça. Acho que para os mais reticentes, é um excelente começo o de botar mais cor em suas vidas, misturar charmosas listras com eternos xadrezes e perder a vergonha de mostrar um pouco mais de perna ao adotar os deliciosos shorts mais curtos da grife. Comercial sim, mas ainda é a linguagem mais acessível para a maioria dos homens.
De resto…um deserto. Nem vou gastar os dedos falando mal das bobagens que vimos ontem porque, assim como 90% dos nomes do line-up, não teria relevância para o futuro da moda brasileira. Fiquei um pouco mais animado com os participantes do LAB que, pelo menos, não se levaram tão a sério desta vez. Contente fiquei mesmo foi de ter conversado longamente, mais uma vez, com Alexandre Iódice, responsável pelo masculino da grife de seu pai, Valdemar, e que realizou uma visita guiada em seu show-room para apresentar seu verão 2010, ontem à tarde.
Alexandre tem uma visão de mercado e de moda masculina surpreendentes para alguém da idade dele e com as amarras comerciais que trabalhar numa grande grife de jeanswear traz para seu dia-a-dia. Esqueça o namorado da Galisteu (afinal, o que a gente tem a ver com a vida privada do cara?), ele é um nome para ser levado a sério, que ainda pode dar muitas alegrias aos homens que se preocupam em andar minimamente alinhados. Claro que suas estratégias têm que ser entendidas de acordo com o público consumidor da Iódice, não adianta cobrar dele algo que deveria ser visto na Casa de Criadores, por exemplo. Mas eu me identifico porque ele, ao contrário de muito peixe grande (ou nem tanto), se esforça para oferecer aquelas sutis mudanças que, daqui a uma década, podem ter contribuído para aumentar a porcentagem de homens mais elegantes Brasil afora. A coleção de verão é dividida em 3 temas (na feminina são 4), que vão sendo lançados aos poucos nas lojas. De novo, as peças preferidas dos brasileiros como bermudas cargo e pólos esportivas estão lá, mas com delicados detalhes que fazem toda a diferença. A bela linha de camisaria vem levinha, lavada e trabalhada dentro do conceito de comfort fashion. As peças com pala de smoking são excelentes. Alexandre é um defensor do crossover entre alfaiataria e casual/jeanswear, e sofre por não ver ainda disseminado entre os brasileiros o hábito de recorrer a esse casamento para um look mais atual. Eu também, Alexandre, eu também. Temos um longo caminho pela frente até construirmos uma cultura de moda entre os homens brasileiros, talvez isso nunca aconteça num âmbito macro (por todas as eternas questões socioeconômicoculturais que já conhecemos), mas se o micro-mas-nem-tanto entender o x da questão, já será uma vitória. A moda masculina brasileira precisa de peças como Alexandre Iódice para crescer. Tem todo meu apoio.
Hoje, durante a gravação de uma matéria com a Mariana Weickert para o GNT Fashion, entrevistamos a consultora de estilo Manu Carvalho e sua pupila, a bonequinha Carolina Dieckmann (é, ela é encantadora, apesar dos notórios casos de chatice). As duas têm uma relação íntima, que já dura dez anos, e que transformou totalmente a Carol não só na embalagem, mas também no conteúdo. Bom, mas o que me faz tocar nesse assunto é o sucesso – modéstia à parte – que fez o figurino da Mari. Usamos um look do desfile da Iódice, um daqueles com ombros pontudos. Super power shoulders, a la Martin Margiela, sabe? Não é todo dia que se recebe elogios de Carol Dieckmann in persona, nénão? Como dei a referência do MM a ela, depois de ter sido perguntado sobre quem tinha feito a brincadeira lá fora (ela é uma fashionista total, muitíssimo bem informada, sim senhor), fiquei com o nome do misterioso estilista belga martelando na cabeça durante o resto do dia. Fuçando no Youtube, encontrei dois vídeos bem bacanas entre os tantos dedicados a ele e decidi dividir com vocês. Um deles introduz incrível e rapidamente a coleção masculina de verão 2009, numa apresentação inovadora e ousada, se pensarmos em universo masculino em geral. O segundo registro é obra de Diane Pernet, em colaboração para o site Yoox, que cobre a exposição-celebracão dos 20 anos da Maison Martin Margiela, realizada em Antuérpia e encerrada em fevereiro. Entrevistas com amigos, artistas e contemporâneos relembram a trajetória do cultuado mestre. Pergunta se ele aparece?
Começou oficialmente a primavera! E a gente continua tremendo de frio aqui em SP…Mas tudo bem, daqui a pouco esquenta e vai dar pra botar em prática uma das tendências mais fortes da moda masculina nos últimos anos. Na era do aquecimento global, a bermuda urbana, que já não é novidade nas passarelas, foi desdobrada em N versões nas mais variadas coleções. Encurtou, afunilou, folgou. A gente sempre se perguntou se ia mesmo pegar nas ruas, e parece que chegou a hora. Vi muitas propostas interessantes em Nova York, super adequadas ao calor amazônico que lá fazia durante a Fashion Week local. Os homens de Manhattan aderiram e juro que a maioria não paga mico não. Por outro lado, uma parte da imprensa gargalha só de pensar na hipótese de substituir o tradicional (e quente) uniforme dos escritórios por alguma variante da calça curta. Enfim, longa e eterna discussão. Entendo quem torce o nariz, eu mesmo sou reticente em mostrar minhas canelas por aí. Mas, com tanto avanço na moda para meninos, será que pelo menos não é o caso de pensar no assunto e – condição básica para sairmos da mesmice – experimentar? Fiquem com o segundo editorial do Hypercool, clicado nas ruas mais urbanas impossível de São Paulo e inspirem-se.
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