24/06/2009 - 10:44
Descobri hoje, por acaso, graças a uma indicação do estilista Ivan Aguilar, este post assinado e publicado em seu blog pelo Alcino Leite Neto, editor de moda da Folha de S.Paulo. Trata da situação em que se encontra a moda masculina desfilada nos principais eventos do País, sobretudo no Fashion Rio. Por favor, leiam. Diz muita coisa.
OBSERVAÇÃO SOBRE O FASHION RIO E A MODA MASCULINA
O Fashion Rio vinha apresentando um repertório crescentemente rico de moda masculina, como já tivemos oportunidade de ressaltar, Vivian Whiteman e eu. A considerar, porém, os desfiles que exibiram roupas para homens na última edição, exceto por um look ou outro da Redley e da TNG, parece que só existem consumidores adolescentes no país. A falta de grifes que estejam realmente dispostas a criar moda para homens, e não para teenagers, se revelou agora uma das principais carências do Fashion Rio.
Existe ainda no meio da moda brasileira _inclusive entre a crítica_ uma grande ojeriza com a imagem do homem maduro (e falo daquele de 30 anos ou mais), que é associada à caretice e à velhice. Tem gente na plateia dos desfiles que parece ter ânsias de vômito diante da exibição de um terno bem talhado, se este não for na cor laranja e com bordados de toy-art. Com medo de parecerem antiquadas, as marcas que criam para homens traçam um raciocínio simplista, que consiste em associar a moda masculina à roupa para garotos.
O fato de os homens serem menos ousados que as mulheres nas escolhas de seus looks não implica que não haja nada a acrescentar ao design masculino de roupas. Fosse assim, não haveria uma semana de moda masculina em Milão, seguida de outra em Paris. Mirassem apenas os adolescentes, as grandes grifes internacionais voltadas para homens (ou também para homens) quebrariam em dois tempos.
Se isso ocorre no Brasil, é porque têm sido poucas as tentativas, por parte das grifes com efetivo interesse no design, de reformar a imagem masculina madura. Elas praticamente entregaram às marcas de perfil conservador a tarefa de engendrar o look dos homens no país, desprezando um imenso mercado e a possibilidade de introduzir aos poucos novidades a esse público tão desconfiado da moda.
E por que os homens desconfiam da moda? Porque são raras as grifes empenhadas em exibir nas passarelas _sem sensacionalismos e sem propor a eles que cruzem a fronteira dos gêneros sexuais_ novas opções de imagens e roupas para o trabalho, as festas e o lazer.
Para esses homens, os desfiles não passam de coisas para mulheres ou gays. A distância que eles criam da moda _e a moda deles_ promove o que se vê nas ruas brasileiras, particularmente no inverno: os ternos mal feitos, os casacos desengonçados, os jeans em profusão e as camisetas hegemônicas, vorazes, que devoram toda pretenção do estilista ao design e à criação. Sem falar na numerosa quantidade de “homens feitos” que se vestem como rapazinhos indo para o colégio.
Se há um longo caminho para o design de roupas femininas se firmar no Brasil, no campo da moda masculina esse percurso é longuíssimo.
Autor: justum - Categoria(s): moda
Tags: Alcino Leite Neto, Fashion Rio, Folha de São Paulo, Moda Masculina, Última moda
10/11/2008 - 17:27

Jogadores do Chelsea, de Armani
E olha que legais essas duas matérias que saíram no caderno de esportes da Folha de São Paulo, ontem, domingão. Abordam a nova estética dos jogadores de futebol, cada vez mais bem vestidos por grandes grifes. Até nosso desajeitado Dunga vai aposentar os looks duvidosos que usa durante as partidas, já que a Hugo Boss fechou contrato para vestir a Seleção. O texto principal é do Paulo Cobos e o menor é da Vivian Whiteman, abordando o fetiche que despertam os boleiros. Vale a leitura.
ESPORTE FINO
Hugo Boss vai vestir seleção brasileira, que entra na lista de times que vestem trajes sociais de gigantes do mundo da moda
PAULO COBOS
DA REPORTAGEM LOCAL
A partir do ano que vem, Dunga poderá trocar as roupas de gosto duvidoso desenhadas por sua filha por ternos da Hugo Boss, que vai vestir a seleção brasileira em suas viagens e também colocar modelitos à disposição do treinador.
Se optar pelo figurino, engrossará o time de esportistas modelos de grifes famosas.
Seja na Europa, nos EUA e agora com a seleção brasileira, gigantes das passarelas correm atrás de clubes, atletas e técnicos para servirem de garotos-propagandas de seus produtos, que, nesse caso, não são chuteiras, camisetas ou agasalhos.
Pesos pesados do mundo fashion, como Armani, Dolce & Gabbana e Ralph Lauren, e gigantes dos ternos, casos da Hugo Boss, Paul Smith e Joseph Abboud, acertaram nos últimos meses longos contratos para vestir atletas, fora de campo, e também os técnicos -estes últimos, por poderem usar seus produtos durante os jogos, viraram alvos preferenciais.
Na última segunda-feira, 26 dos 30 treinadores da NBA, a liga americana de basquete, assinaram um contrato de três anos com a Joseph Abboud, marca dos EUA de roupas masculinas, que já tinha um acerto com os técnicos da NFL, a liga de futebol americano.
Cada treinador teve suas medidas apanhadas pela empresa, que vai colocar US$ 500 mil em seus produtos à disposição dos técnicos, cujas silhuetas que fogem do padrão de modelos são tidas como um atrativo.
“Para nós, é uma forma fantástica de mostrar nossos ternos para os homens americanos com todo tipo de corpo”, diz Marty Staff, o presidente da empresa americana.
Entretanto é na Europa que estão as mais ousadas parcerias entre o esporte e a moda.
Capa do Batman
Na Inglaterra, a Armani vai vestir o Chelsea até 2010. Até Luiz Felipe Scolari, famoso por seus agasalhos, já posou como modelo com o terno desenhado pela empresa italiana -mas o treinador ainda resiste a usar o traje durante as partidas.
Uma linha completa foi feita para o clube, que também pode ser comprada nas lojas Armani na Inglaterra -os ternos chegam a custar mais de R$ 3.000.
“O tema dos super-heróis é muito forte na minha mente no momento. Espero que meus ternos tenham um efeito similar ao da capa do Batman para os jogadores do Chelsea”, filosofa Giorgio Armani, o dono da grife, sobre a parceria.
No milionário futebol inglês, logo surgiu um contra-ataque à Armani. Em maio passado, o Manchester United assinou por três anos com a Paul Smith, grife de seu país que também aposta alto na moda masculina.
O fundador da marca, que dá seu nome a ela, relata o motivo principal do acerto.
“O Manchester United tem uma base grande de torcedores por todo o mundo. Sei que meus clientes no Japão, na Coréia, em Hong Kong e em todo sudeste asiático ficarão interessados na parceria”, diz Paul Smith, prevendo que a força do clube impulsione suas vendas.
Na Itália, a Dolce & Gabbana levou para o Milan e a seleção daquele país a mesma ousadia que fez da marca uma das preferidas do mundo pop -Madonna é uma das clientes.
No início deste ano, a grife estendeu seu contrato com o Milan até 2010. Segue fazendo um calendário com fotos ousadas de jogadores do clube (no deste ano Alexandre Pato aparece com a cueca à mostra).
A Hugo Boss, que, além de fornecer ternos, vai pagar cerca de US$ 200 mil por ano para a CBF pelo direito de vestir a seleção brasileira, tem hoje contratos com o Bayern de Munique e o Real Madrid.
Na Olimpíada de Pequim, em agosto passado, a delegação americana usou roupas da Ralph Lauren nas cerimônias de abertura e encerramento.
BOLEIROS DE TERNO ( OU SEM ) SÃO FETICHE DA MODA
VIVIAN WHITEMAN
DA REPORTAGEM LOCAL
Os ternos são um clássico do guarda-roupa masculino. Atualmente, além de uma certa elegância sóbria, são símbolos de poder, especialmente os assinados por grandes estilistas. E, se o recheio de uma dessas preciosidades da moda for um astro do futebol, nasce um novo hit de vendas e de mídia, como Kaká com a Empório Armani.
As mulheres (e uma penca de garotões, embora muitos futebolistas não gostem de tocar nesse assunto) suspiram. Os homens investem no look poderoso, para atrair olhares e impor moral. É um tiro certo.
Armani também fez os ternos oficiais dos garotões do Chelsea. Os modelos investem no marinho clássico, mas seguem tendências de moda, como as pernas bem ajustadas e o fechamento com apenas dois botões, mais moderno.
O Manchester United, prestigiando os criadores ingleses, escolheu Paul Smith, um dos maiores nomes do mundo na alfaiataria. Corte seco e preciso, calças também ajustadas, um primor. Cristiano Ronaldo, por exemplo, arrasou na foto de divulgação, um verdadeiro top.
A Hugo Boss, que tem longa tradição de bons ternos, foi escolhida para botar Dunga e sua equipe na linha e também deve mandar bem. Só vai ser mais difícil acertar o corte de pernas justas em atletas mais baixinhos, de coxas grossas. Enfim, nada que não tenha conserto.
Porém quem entende melhor o status -altamente sexual- do terno na sociologia da moda atual é a Dolce & Gabbana, que veste a seleção italiana.
Um astro do futebol de terno é um modelo de sucesso profissional e de elegância dentro do mundo masculino, claro. Nas campanhas de underwear da Dolce & Gabbana com a seleção italiana, no entanto, revela-se um outro lado da história.
O boleiro de terno é um fetiche que resume o objeto do desejo de dez entre dez marias-chuteira, das discretas às mais ousadas: jogar longe o blazer de grife e a calça elegante, ambos caríssimos, para encontrar um corpão malhado de super-herói do esporte. Desde que, é claro, ele seja detentor de superpoderes (em bom português, um cartão de crédito sem limites).
Autor: justum - Categoria(s): moda
Tags: Armani, Folha de São Paulo, futebol, Hugo Boss, Paulo Cobos, Vivian Whiteman
02/09/2008 - 00:29
Sorry pelo abandono, gente, mas a vida tá corrida. Editorial pra cá, editorial pra lá, matéria aqui, figurino acolá…e os preparativos para a semana de moda de Nova York a mil. Sim, este blog se muda para a Big Apple, de 05 a 12 de setembro, durante a Fashion Week local. Legal, né? Pois é, apesar de serem desfiles femininos, vou correr atrás de news hypercool por lá e prometo abastecer vocês com a maior freqüência possível, ok? E no final do mês tem Paris!!
Tudo isto para justificar minha ausência por essas páginas, mas garantindo que as antenas continuam ligadas. Tão ligadas que eu não posso deixar de recomendar a quem não ligou as suas e perdeu, no último sábado, o caderno Vitrine, da Folha de São Paulo.
A matéria de capa, intitulada “Chega de consumo ‘contemporâneo’” – muito bem escrita, por sinal – diz muito sobre a situação massificada em que nos encontramos no que diz respeito às nossas escolhas consumistas. Com a “popularização e banalização” do que se convencionou chamar de design arrojado (aquele de sala vazia, aço escovado, madeira e linhas retas) e contemporâneo, vulgo “estilo Wallpaper” (a revista), a tendência (sim, a palavra existe, pelo menos no que toca ao comportamento) entre os consumidores A e B é a da busca pelo novo no passado. Traduzindo: o retrô é o novo sinal de modernidade. O “Wallpaper” ficou para a classe C.
E esse é um movimento geral, na moda (400 lojas especializadas em roupas vintage só em Tóquio), na decoração, nos transportes…Em suma, é a nova faceta do não-conformismo em ser massificado. O consumidor mais sofisticado hoje começa a procurar lojas escondidas, marcas pouco acessíveis e produtos raros, além de dar cada vez mais valor para algo que agregue valor sustentável, ecologicamente correto. Aí está o novo luxo. E por ser ainda relativamente caro, este tipo de produto está fazendo surgir o Scuppie, um ecochic, mezzo yuppie, mezzo hippie, que vai às compras de bolsa de algodão orgânico, mas é capaz de desembolsar R$ 470 mil num carro híbrido. Capisce? Vitor Angelo já havia falado deste fenômeno aqui. Eu confesso ter uma certa preguiça de gente que usa isso tudo para ostentar e se sentir melhor que os outros. Dá um tempo, né? A matéria do Vitrine é excelente e vale muito a leitura. Pede emprestado pro seu amigo, sua mãe ou qualquer um que costume acumular jornais pela casa. (Não consegui achar na net. Se alguém se habilitar, por favor poste o link nos comments pro pessoal, ok?)

E o Pilati, hein? O outro assunto hoje aqui é a metralhadora giratória que baixou no Stefano Pilati, estilista da YSL, em entevista publicada neste domingo, em matéria de seis páginas, na New York Times Magazine. Por favor, leiam a matéria inteira e entenderão por que este cara é um dos maiores estilistas que temos hoje na moda. Entre pitadas de maliciosa arrogância e de um humor bem peculiar, Pilati dispara pérolas inteligentes e sensatas, que cutucam o mundo da moda como um todo e, especialmente, dois ícones pop que beiram a unanimidade.
Explicando a diferença entre ter um dom e ter talento, Pilati cita Madonna e Tom Ford como pessoas talentosas, mas que não tem um dom. “Madonna é uma pessoa talentosa, mas ela não possui um dom. Não é Pina Pausch ou Margot Fonteyn. O mesmo para Tom, que tinha um talento para agradar as mulheres e o mercado, mas não assumia riscos, não desafiava a moda e muito menos suas clientes”. Completa dizendo que todo mundo na YSL odiava Tom Ford e que vinham desabafar com ele. A matéria continua, rica em anedotas, respostas bem sacadas e até revelacões sobre a infância em Milão, com destaque para a relação complicada com os pais em nome do amor pelas roupas. Genial.
Autor: justum - Categoria(s): moda
Tags: Folha de São Paulo, Madonna, New York Times Magazine, Stefano Pilati, Tom Ford, Vitrine