Que fique claro desde a primeira linha que eu acho, sim, que a Casa de Criadores merece e precisa existir no cenário da moda brasileira. O que lhe falta, na minha opinião, é foco e capacidade de síntese. Quando parecia que ficava mais claro que o evento deveria ser enxugado, eis que ele infla, passando de três para seis dias. É louvável a busca por novos formatos, por mais interação com seu público e por alimentar um papel pensante na moda com a inclusão de palestras e debates na programação. Até aí, ok. Mas alguém me explica o porquê do Walério Araújo desfilar sozinho na segunda-feira? E nos dias de desfiles no shopping Frei Caneca – aqueles nos quais a gente volta pra casa perto da meia-noite, com a sensação de que não devia ter saído – falta, a meu ver, uma peneira muito maior dos participantes, um rigor no quesito moda e criação que se perdeu há algum tempo. Ou será normal a gente sair de uma sessão de cinco ou seis desfiles lembrando apenas de um?


Esse um, ontem, foi, de novo, João Pimenta. Dando seqüência ao seu exercício de mixar universo feminino com masculino, João fragilizou vaqueiros e matutos que, apesar de serem marmanjos barbados, andam sem cerimônia por seus hectares a bordo de vestidos de cintura marcada, aventais e babados, muitos deles. Depois de realizar desfiles monocromáticos em branco e preto, desta vez os tons escolhidos eram terrosos, derivados de marrons, ferrugem e alaranjados, numa camuflagem típica da lama da fazenda. Muito linho, sarja e camurça, em uma silhueta que começou volumosa e terminou ultraskinny, sempre acompanhada de botinhas tipo Zebu, cano médio ou alto. Excelentes as jaquetinhas curtas usadas sobre os ombros. Tudo com acabamento impecável, consistente, bem-amarrado. Como tem que ser uma coleção, se quiser ter o mínimo de futuro comercial. Tá, tudo bem, nem tudo o que o João Pimenta faz é possível, usável, de fácil digestão, mas é o que mais próximo chega da palavra moda – no sentido amplo da palavra, se é que me entendem – no line-up da Casa de Criadores.


Pra mim – e eu já dei essa opinião ao vivo para os mais próximos -, um evento de novos talentos não deve ter o formato de Fashion Week independente. Não se sustenta. O melhor exemplo desse tipo de projeto vem de Londres (de onde mais viria?) e se chama Fashion East, Fashion Fringe, New Gen, Vauxhall Fashion Scout ou On/Off, eventos que acontecem PARALELAMENTE à Fashion Week local, garantindo mídia e público especializado. Maria Prata fez um belo post a respeito, há pouco tempo. Aí eu pergunto: por quê insistir em ser grande, em montar equações para se encaixar no calendário, se a receita está lá, toda pronta para ser adaptada e, assim, ter mais chances de ser relevante no cenário fashion local? Sabe quantos estilistas desfilam no Fashion Fringe? Três. Devidamente selecionados e aprovados previamente a partir de critérios muito bem definidos. Não dá pra querer ser uma mistura de SPFW com Pense Moda. Com 30 desfiles medíocres enfileirados em uma semana de evento, não dá mesmo para almejar a consistência que um evento como a Casa de Criadores merece ter. Cada um no seu quadrado.
Quero dizer que esta crítica é construtiva, pois a CdC é o único evento que temos para a turma mais nova e eu quero mais é que estes tenham seu espaço para fazer desabrochar seu talento. Vou continuar indo aos desfiles, como forma de demonstrar meu apoio, claro, mas pelo bem do evento, de quem desfila e da moda nacional como um todo, há de se evoluir, por favor.