
Não conheçe o zine Edição de Luxo? Tá na hora. Vai aqui ó, dá para ver as duas primeiras edições online. O terceiro número ganha lançamento neste sábado, ali na parte da frente da loja da Isabela Capeto, nos Jardins. Esta edição é toda dedicada à moda masculina. Tem entrevista com o Vitor Angelo, crônica do Xico Sá e, a pedido da Aline Botelho, que produz a coisa toda, um texto meu sobre o momento do segmento (Ó! Rimou!) no Brasil. Para quem não pode passar nos pontos de distribuição do zine em São Paulo, manda um email pra eles que vai por correio. Enquanto não chega, aí vai meu texto.
MÃOS À OBRA
A moda masculina brasileira tem tudo para repetir o sucesso europeu da última década. Falta aparar algumas arestas e azeitar a engrenagem Por Sylvain Justum
“O homem é a nova mulher”. Talvez você tenha escutado essa frase ultimamente e, tirada de contexto, ela pode ter te levado a imaginar significados sexualmente pervertidos. Nada disso. O sentido aí é dos mais fashion e dá aos machões cada vez mais interessados nas direções tomadas pela moda global o alento de que boa coisa ainda está por vir. Explica-se. Tudo já foi testado e experimentado na moda feminina, que vive de releituras já há algum tempo, enquanto o segmento masculino conhece um boom criativo sem precedentes de dez anos para cá. No Brasil, naturalmente, a marola respinga com atraso e, por conta disso, ainda não atingimos totalmente a temperatura de ebulição. Existem avanços, sim, mas que dependem da combinação de alguns fatores para consolidar-se. E a nossa luta é para que isso ocorra, sempre com o objetivo de acrescentar pitadas de elegância e estilo ao homem brasileiro.
Claro que não dá para cobrar a mesma cultura, a mesma cabeça aberta e naturalidade com que o europeu encara a moda. Estamos no Brasil, afinal, diriam os mais céticos. E, se, mesmo no Velho Continente, cheio de história e tradição, os holofotes só se acenderam de verdade no início dos anos 2000 com o tsunami Hedi Slimane – à época diretor criativo da Dior Homme -, tudo bem então estarmos “atrasados”, certo?. Bem, sim e não. Quando a coisa aconteceu por lá, havia um cenário pronto esperando, aquele consumidor do início do parágrafo estava de braços bem abertos para receber as boas novas. Mas, mais do que isso, mídia e indústria entraram na engrenagem. Por isso o slim pegou tão facilmente nas ruas de Paris, por isso o combo bermuda e blazer virou uniforme de gente interessante nos verões de Nova York e também por isso as cores invadiram de vez o closet dos milaneses. Cores, taí uma coisa que – pelo menos no discurso – nunca foi problema para os brasileiros, não é? De sangue latino como os italianos, somos efusivos, de personalidade extrovertida, portanto colorida. Mas, até pouco tempo atrás, rosa não podia. Era coisa de viado, de mulherzinha. Ai de quem se atrevesse a aparecer com uma pólo do tom da pantera, era excluído e apontado na rua como “o esquisito”. Felizmente, passamos desse estágio, os homens hoje adoram o rosa, viram que faz sucesso com as mulheres, mas ainda temos muito a fazer.
Que tal se as revistas começassem a dar informação de moda de fato a seus leitores? Sim, porque o arroz-com-feijão, o costume com gravata ou o jeans e camiseta eles já vêem na vida real todo santo dia. Podiam abandonar certos preconceitos também. Os homens enrosaram, mas “na capa da minha revista não entra!”. Ou “vamos usar modelos com cara de homem, que esse aí parece uma menina”. Que tal também se as grandes grifes que dominam o segmento saíssem da zona de conforto e pusessem em suas prateleiras algo além do trivial, de sucesso comercial garantido? Se a ideia assusta (“ah, mas meu cliente não vai comprar, vai espantar a freguesia”), então uma saída seria apoiar novos talentos, o que funcionaria como bom marketing inclusive. E que tal se a publicidade parasse de posar de moderna e pelo menos assumisse sua caretice, já que também recua diante do menor sinal de fuga do convencional quando o assunto é moda e figurino? Apesar das barreiras culturais, do atraso da indústria – é notória a falta de mão-de-obra especializada, a alta carga de impostos e baixa qualidade de muita matéria-prima por aí – e da falta de visão dos formadores de opinião, acredito na moda masculina brasileira. O fato de tudo ser muito novo é extremamente positivo. Significa que há toda uma estrada a ser construída – e não remendada. Um bom começo é não subestimar o cliente, afinal ele já é responsável por 30% do movimento das clínicas estéticas. Moda, para ele, portanto, é fichinha. Estamos com a faca e o queijo na mão. Quem corta?