
Hoje foi dia de discussão sobre o momento atual da moda masculina no Brasil no Pense Moda. Eu participei da mesa e queria aqui dividir minhas impressões com quem não pôde estar lá e abordar alguns pontos que, a meu ver, fizeram com que o debate ficasse aquém das minhas expectativas (e também das de outras pessoas que já vieram falar comigo).
Antes de tudo, queria dar um pitaco sobre os debates anteriores: a apresentação do fotógrafo Mariano Vivanco e a conversa sobre como conciliar liberdade de criação com a necessidade comercial de marcas e revistas. Bom, sobre o Mariano pouco a dizer além de enaltecer sua simpatia e recomendar um passeio pelo site do moço, bem legal, sobretudo na seção de vídeos, muito bem realizados e ótimo complemento para o trabalho de fotografia em si. É realmente um dos grandes nomes da nova geração. A discussão seguinte mexeu muito mais com as pessoas, pelo simples fato de ter pego no calo tão incômodo que é a questão da cópia e da falta de originalidade na moda publicada nas principais revistas do País. Praticamente todo mundo que ali estava (convidados e platéia) estava envolvido no assunto, seja como peça da engrenagem (stylists, fotógrafos, jornalistas, diretores de arte…), seja como consumidor do produto. Achei que se bateu muito na tecla da falta de tempo das revistas mensais em estudar melhor aquilo que vai se fotografar e no conflito que têm os fotógrafos em ter que se adaptar às necessidades comerciais das publicacões. Não acho que os prazos apertados sejam limitadores de boas idéias e nem que as revistas realmente podem (no sentido de podar, gongar, limitar) tanto assim o trabalho de stylists e fotógrafos. Na minha opinião, o problema é que, como disse bem o fotógrafo Bob Wolfenson, integrante da mesa, o brasileiro sofre de “ejaculação precoce”, ou seja, quer tudo pra já, não tem paciência em entender o nosso mercado editorial, cobra muito porque compara o tempo inteiro nosso trabalho com o de fora. As pessoas nem se preocupam em saber quais as condições que temos por aqui para realizar um trabalho de alto nível, que esbarra em pouca roupa de qualidade, verba mínima e um número limitado de veículos que topem apostar em informação de moda. Tem um ponto fundamental nesse debate todo: enquanto ficarmos procurando a tal identidade brasileira nas fotos, nas roupas, na atitude, etc…vamos ficar andando em círculos, procurando pêlo em ovo. Temos é que vender produto de qualidade, independente de RG, pois a tal identidade vai aparecer naturalmente, seja na atitude da modelo (somos naturalmente sexies, é fato, e isso por si só já é um sinal de “identidade”), seja na maneira com que montamos a matéria, ou nas locações, ou ainda na luz natural que temos em nosso país tropical. Façamos boa moda e relaxemos com as comparações, até porque eu não acho que exista mais essa coisa de cópia chupada em nossas revistas. E se existe no prêt-à-porter (e tudo bem, pois compra o original quem quer e quem pode, não é mesmo?), porque cobrar tanto das nossas publicações? Isso ainda está em formação, como nosso mercado de moda INTEIRO. Por fim, que tal o Brasil todo parar de praticar o mais novo esporte nacional, que é meter o pau na Vogue? Pelamordedeus, é a impressão, é o papel, são falhas de digitacão, é a cobrança de não apresentar o que sabe-se lá quem espera. Ah, chega, né? Soa como mágoa de caboclo, coisa de recalcado, pois eu aposto que se fossem todos convidados a colaborar não recusariam. Nas condições em que é feita, sorry, mas é a melhor revista de moda que temos. E nem venham falar de Mag e Key, pois são perfis completamente diferentes de publicacão. Enfim, falei demais para finalmente entrar no assunto de meninos, que é o que mais me interessa aqui.
Nosso debate sobre moda masculina foi…legal, mas poderia ter sido bem melhor. Achei que ficamos presos demais no business, na engrenagem da moda para homens no Brasil, sendo que a gente nem mesmo conseguiu educar direito o consumidor! E teve ainda o loooongo momento Osklen, quase constrangedor. Explico: lá pelas tantas, levantou-se a questão do sucesso que a grife carioca tem alcançado, no Brasil e no mundo, com sua silhueta desabada, novos shapes para o homem do século 21, o que é legal sim para a moda brasileira, mas que não é, de jeito nenhum, a imagem que deve ficar da moda que se faz para homem no Brasil. Enfim, enalteceu-se e criticou-se o Oskar exaustivamente na sala, perdendo tempo e energia ao invés de se falar de tantas outras coisas importantes nesse momento da moda masculina. Afinal, tem mais gente legal fazendo boa moda por aqui além da Osklen, convenhamos. É um case de sucesso? É, mas também de marketing. A saruel e as peças conceituais só vendem nas flagships. No RJ, por exemplo, dá-lhe bermuda estampada e camiseta nos calçadões da vida.
Passamos rápido demais sobre a questão do porque a moda masculina estar num momento tão interessante no mundo todo, assim como qual o nosso papel (os veículos e formadores de opinião) neste processo de mudanças. Achei bom levantar a questão da falta de mão-de-obra especializada, pois quem trabalha com alfaiataria (tão vital na moda para homens) pena para achar bons profissionais. Por isso a importância dos cursos que estão começando a reaparecer. Uma bobagem questionar também a moda regional, insistindo para que a moda do cantor de tecnobrega do Piauí também seja levada em consideração nessa transformação de costumes. Ora, se a gente ainda nem conseguiu apontar os caminhos para o homem da metrópole, usando referências globais, por que já cobrar integração de mercados ainda mais engessados em limitações culturais? De novo a ejaculação precoce. Calma, gente. Tá tudo começando. O boom da moda masculina no mundo tem menos de uma década, e demora pra pegar até mesmo nos grandes centros europeus, imagina aqui na terra do paletó até o joelho? O homem brasileiro, em geral, já entendeu que é legal se cuidar, prestar mais atenção no que veste; já passou da fase de não usar rosa, agora tá no estágio de experimentar novos shapes, fazer misturas inusitadas.
Tocamos no ponto do círculo vicioso da imprensa especializada (ínfima), com conceitos antigos e enraizados naquela velha história de que o leitor não entende, o anunciante vai fugir, etc. Se em algum momento isso não for subvertido, se ninguém der um passo adiante, vai demorar ainda mais. Daí a importância das mídias alternativas, dos fanzines, dos blogs nessa engrenagem. A nova geração de meninos está adorando brincar com moda (alguém aí já passeou pela noite de SP ultimamente? Deram uma olhada nas fotos de adolescentes em Paris?), tem que prestar atenção, pois eles são peça-chave nisso tudo. Teve também um momento de discussão gay-hétero sobre quem ousa mais na hora de levar a informação de moda. Também achei antigo esse tópico. Sim, lá nos anos 90 talvez gostar de moda no Brasil fosse coisa de viado, hoje em dia já evoluímos muito nesse sentido. Muito simplista pensar assim. Para fechar meus dois centavos sobre o assunto (que o post já tá ficando giga e ninguém tem tanta paciência assim), o tema da bermuda urbana: em geral, os integrantes da mesa torceram o nariz, dizendo que é só um nicho que arrisca, que isso nunca vai chegar à avenida Paulista, por exemplo, e que mesmo nas grandes capitais do mundo isso é balela. Uma falta de informação e um universo de pré-conceitos generalizado, nesse caso. Não pudemos nos estender sobre o assunto, porque logo passou-se a outro, mas queria aqui dizer (e o Hypercool divulga essa tendência há tempos) que a dupla bermuda-paletó (ou camisa, ou jaqueta) pegou lá fora sim. Já falei aqui que quando estive em NY, vi vários exemplos bacanas circulando por Manhattan. E vocês devem se lembrar que falei também que foi assunto no NYTimes, que tem agência de publicidade que já adotou e que até a ONU decidiu abrir as portas à novidade em prol da economia de energia com o ar-condicionado, contra o aquecimento global. Isso não sou eu que inventei, é fato. Ejaculação precoce, again. Há dez anos, usar rosa era coisa de bicha. Que tal esperar pra ver se daqui a dez anos os executivos não estarão de bermuda na Berrini? Ah, é coisa de gueto? Talvez, mas é assim que começa. E se nem lá fora usar e difundir moda é uma coisa de suma importância em certas ruas (nas banlieues de Paris pouca gente se preocupa com streetsyle, viu?), porque cobrar isso dos brasileiros, tão bebês no assunto ainda?
Enfim, valeu. Mas rende muuuuuito mais pano pra manga. Quem sabe no ano que vem.