
Dai Fujiwara: Gênio sensível
Fui hoje de manhã ao MAM assistir a palestra do diretor criativo de Issey Miyake, Dai Fujiwara, e saí encantado com as possibilidades que uma mente sensível e super apurada pode oferecer ao mundo da moda. A primeira imagem ao chegar no parque do Ibirapuera foi meio assustadora. Trezentos mil estudantes de moda se amontoavam na porta do auditório em filas intermináveis, alvoroçados e espalhando informações no famoso sistema de telefone sem-fio. “Acabaram as senhas! O cara vai falar em japonês! Não tem fones de tradução suficientes pra todo mundo!” Esperei a minha chefinha (Lilian Pacce, como diz o about me aí do lado) chegar e entramos. Depois de conversar um pouco com Dai e seu assessor (um querido), sentamos e começamos a viagem ao centro do A-Poc (adoro a sonoridade desse nome!), com direito à vídeos incríveis, roupas e referências mostradas in-loco.
O conceitual sistema concebido por Dai e Miyake diz respeito à manufatura das roupas, propondo que o processo seja mais enxuto, sem sobras de tecido e desperdício de energia. Com uma fala tranqüila e pausada (sim, ele falou em japonês e, não, não havia fones pra todo mundo. Eu consegui o meu, ufa!), Dai começou mostrando um incrível vídeo institucional de Issey Miyake, cheio de cores e movimento, que terminava com uma foto do criador em si, como que numa homenagem. Lindo. Foram muitos vídeos, inclusive um gravado na Amazônia (o mesmo que ele mostrou outro dia pra Maria e pro Jeff), chamado de Color Hunting, que registrava uma pesquisa surreal de cartela de cores. Munidos de mil amostras de tecido, de mil cores diferentes, Dai e sua equipe os comparam minuciosamente com as tonalidades encontradas nas árvores, nos rios, nas folhas, a fim de obter uma cartela única, totalmente livre das tendências impostas pelos bureaux de estilo. Impressionante e brilhante.
Voltando ao A-Poc, Dai explicou que o nome nada mais é do que uma abreviação de A Piece of Cloth – pedaço de roupa, de pano – e uma brincadeira com a sonoridade de époque (época, em francês), querendo dizer que é um retrato da nossa, mas de olho na próxima. Pela cartilha do A-Poc, o cliente pode escolher, a partir de um pedaço grande de tecido, confeccionar uma camiseta, por exemplo, com as mangas curtas, compridas, com a gola alta ou careca, tanto faz. Customização na veia. Melhor: é ecologicamente correto. O jeans -outro exemplo-, vem em rolos, desenvolvido e trabalhado sem poluir o planeta. O desbotado das pernas é estampado, ao contrário do processo da maioria das grifes, que chega no resultado final à base de muita lavagem química e desperdício de água. Aí você chega lá e corta sua calça no shape que quiser, e ainda faz sua boa ação ambiental. Questão essa que preocupa muito Dai Fujiwara, por isso ele desenvolve roupas com referências ao vento, à chuva e aos aspiradores de pó, que na sua visão romântica de japonês, servem também para absorver a beleza de cidades como Paris (eu posso com tanta sensibilidade?). O mecanismo do aspirador ele levou lá, e explicou como cada curva e detalhe foi reproduzido em um vestido da última coleção, que ele mostrou ao vivo num manequim. Momento priceless total.
Ao final, rolou um debate entre Dai, a curadora da exposição “Quando vidas se tornam forma: diálogo com o futuro – Brasil-Japão” (tem que ver!! É incrível!), Yuko Hasegawa e nosso nissei-estilista Jun Nakao. Regado a muito café, o bate-papo girou em torno das possibilidades de se criar uma nova realidade para a moda, fugindo do aprisionamento do processo criativo atual, com todos seus vícios e exigências de um sistema canibal. Sobre São Paulo, Dai disse que ficou chocado com os nossos sacos de lixo pretos (Jun fez uma instalação lindíssima na mostra, criando um vestido de noiva todo feito com sacos de lixo). Disse que no Japão eles são transparentes, para que cada indivíduo assuma sua responsabilidade sobre o que joga no lixo. Mais poético impossível, destilou frases de efeito lindas, ora comparando roupas a flores, ora nos fazendo pensar sobre as reais matérias que precisamos para viver.
Por falar em flores, Dai disse que acordou às seis da manhã de hoje, foi ao Ceasa fazer pesquisa e voltou maravilhado. Trouxe de lá uma mini-vassoura de piaçava que, simpaticamente, deu de presente ao Jun. Pra terminar o post em poesia, uma frase de Yuko antes de encerrar o debate:” A roupa não é matéria e sim a atitude de quem a veste. O segredo está no invisível.” Pensamento japa total.