the Model Alliance

Os escritos do famoso americano radical de esquerda e organizador comunitário Saul Alinsky não são as primeiras coisas que vêm à mente, ao pensar sobre a situação das modelos que trabalham na indústria da moda de Nova York.
A modelo e filmmaker Sara Ziff tem o objetivo de mudar isso.
Sara, uma nova-iorquina que já desfilou em passarelas importantes como Prada e Calvin Klein, vai lançar na próxima semana uma organização dos direitos trabalhistas, com o objetivo de melhorar a força de trabalho americana, geralmente mais associadas com o glamour que as condições precárias de trabalho: a indústria das modelos.
Com 29 anos, Sara diz que modelos não são apenas rostos bonitos e que enfrentam muitos preconceitos. Ela estudou na Universidade de Columbia em Nova York, onde se especializou em ciência política e se deparou com Alinsky e outros heróis do americano anti-pobreza e do movimento dos direitos dos trabalhadores. “Eu acho que Alinsky Regras dos Radicais causou uma impressão muito grande em mim”, diz Sara. “Há um sentido que a moda é frívola e um monte de pessoas não compreendem os modelos que querem organizar por melhores condições de trabalho. Eles provavelmente enxergam a profissão como um privilégio”, acrescentou.

A idéia original de Sara se chama the Model Alliance, e vai começar a receber os participantes a partir de 6 de fevereiro, com o objetivo de contabilizar cerca de 1.500 modelos que trabalham na indústria de Nova York.
Seu objetivo é simples, como proteger modelos de exploração, especialmente de abuso sexual, assim como melhorar a remuneração de seus membros, como também as condições de trabalho. Ela elaborou o “Models’ Bill of Rights”.
O Model Alliance ainda está em conversações com vários grupos sobre um possível esquema em ajudar modelos a obter uma cobertura de saúde decente, refletindo uma preocupação muito comum dos trabalhadores americanos, como os que constroem carros em Detroit ou os que trabalham escolhendo tomates na Flórida.
Sara, no entanto, está convencida de que a Model Alliance não é um verdadeiro sindicado das modelos que clamam por seus direitos. “Nós não somos uma união. Somos um grupo sem fins lucrativos trabalhando com a indústria e tentando estabelecer os direitos básicos”, esclarece.
De fato, que que Sara tenta passar sobre a vida de uma modelo é o longo caminho que ela percorre trabalhando em um mundo que todos imaginam ser glamuroso. Em vez disso, é um trabalho de longas horas com pagamento muitas vezes abaixo do justo. Na verdade, alguns modelos são esperados para trabalhar de graça e outros são pagos em roupas, e não com dinheiro. Eles são prejudicados por serem geralmente tratados como “contratantes independentes”, que lhes dão um direito escasso como trabalhadores, sem dizer que a maioria são muito jovens e vulneráveis à exploração.
O lucro líquido anual de um modelo é de apenas $27.000 dólares por ano, algo em torno de $47.000 reais. “As pessoas estão cegas pelo glamour da indústria. E não estão conscientes da idade de algumas dessas pessoas. Alguns deles são muito jovens, trabalhando sem acompanhantes, e às vezes trabalhando de graça”.
Um problema particular na indústria da moda é abuso sexual. “A agressão sexual – Eu não diria que é comum – mas ela existe”, disse Sara Ziff, que já abordou o mesmo tema em um documentário que ela fez em 2009, chamado de Picture Me. O filme revelou o andamento decadente no mundo da moda, incluindo assédios sexuais por fotógrafos e outras figuras da indústria, muitas vezes em meninas muito jovens.
No site da Model Alliance, os modelos são encorajados a falar sobre seus problemas com a indústria através de testemunhos pessoais: uma inovação que coloca Sara abaixo de seu entendimento de Alinsky. “Ele enfatizou a importância de contar histórias e de como isso é uma atividade muito cinética. Assim, utilizamos experiências na primeira pessoa. Estamos dando voz às modelos”.
Uma modelo chamada Dana Drori, descreveu de seus 15 anos de idade, seus desconforto como um fotógrafo muito mais velho que lhe pediu para tirar a roupa. Outros problemas não têm nada a ver com sexo. Outra modelo, como a Jessica Clark, teme que ela tenha sido “cúmplice na mercantilização dela mesmo” através do uso de sua etnia não-branca como um ponto de venda para o trabalho.
“Ao longo da minha carreira, meus agentes e eu usamos a minha herança étnica e ambígua para tirar vantagem e lucro”, escreveu ela.

Sara diz que vem recebendo respostas de nomes importantes da indústria, que vem apoiando sua causa. Em parte, isso ocorre porque a Model Alliance está buscando um caminho deliberadamente não-confrontacional e também porque, pelo menos quando se trata da questão da proteção contra o abuso sexual, é difícil ser contra.
A organização ganhou o apoio de grandes nomes, como da modelo canadense Coco Rocha, de Chris Gay – presidente da Agência Merilyn, assim como da estilista Diane von Furstenberg, que dirige o Conselho de Estilistas de Moda da América. Ela também está trabalhando em estreita colaboração com a Associação do Patrimônio dos Atores e o Sindicato Americano de Artistas Musicais, para configurar um sistema de comunicação de reclamação em que os modelos podem relacionar problemas de abuso e exploração. Ambos são membros da AFL-CIO, a maior federação americana de sindicatos, dando a Model Alliance um link mais amplo para o movimento trabalhista americano.
Sara pensa grande também. Se a Model Alliance funcionar em Nova York e ajudar a melhorar muitos de seus membros, ela vai querer levar a organização a nível nacional. “Em um mundo perfeito, isso é o que aconteceria”, diz.
No entanto, apesar dos melhores esforços de Sara Ziff, ainda há algo diferente sobre os direitos de um movimento operário, organizando-se na indústria da moda da Big Apple. Quando Sara começar sua movimentação com seus associados na próxima semana, não vai ser com uma marcha pelas ruas. Ou uma venda de bolos ou panquecas para levantar as verbas necessárias. Em vez disso, será com uma noite de sarau e um cocktail no cool Manhattan Hotel Standard.
Foto: Fabio Lage
Foto: the Model Alliance/ Divulgação
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