Brasília estava vivendo um momento de euforia às vésperas da posse de Fernando Collor de Mello, depois de mais de duas décadas de ditadura.
Desembarquei na capital para cobrir a posse de Collor. Na época, chefiava a sucursal do Rio de Janeiro da revista Exame.
Na sala de despacho das bagagens do aeroporto de Brasília, um senhor aguardava sua mala na esteira.
Solitário, sem nenhum assessor, aquele homem poucos dias depois seria eleito vice-presidente da República, e dois anos mais tarde, assumiria a Presidência da República.
Naquela hora, estranhei o fato de Itamar Franco estar solitário naquela sala. Só mais tarde entendi.
Em meados de 1994, a poucos meses de deixar a Presidência, tive a oportunidade de entrevistar Itamar Franco em seu gabinete no Palácio do Planalto.
A ansiedade era grande. A entrevista já tinha sido marcada e desmarcada algumas vezes. Seria a minha primeira entrevista exclusiva com um presidente da República.
Até que num belo dia, na parte da manhã, o então ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, ligou e confirmou a entrevista para o dia seguinte à tarde.
Fomos eu e Ângela Coronel, que chefiava a sucursal de Brasília da Exame, para a entrevista.
Itamar Franco nos atendeu na hora.
Imediatamente tratei de ligar um dos dois gravadores que tinha levado. Afinal, o gravador não podia falhar.
Itamar Franco pediu para não ser gravada.
Saquei então de um dos três blocos de anotações e de uma das quatro canetas. Nada podia dar errado.
Itamar Franco também pediu para que não tomássemos nota.
Alertei ao presidente que a entrevista não seria em “off”, jargão jornalístico usado quando a fonte da informação não pode ser divulgada, e ainda que seria em formato pingue-pongue (de perguntas e respostas).
Itamar Franco disse que sabia disso, mas queria testar nossa memória.
A entrevista foi relaxada, ficamos à vontade, e, no final, nos levou para uma salinha escondida atrás de um biombo. Lá ele tinha posto uma pequena mesa com uma garrafa de café e uma cesta de pão de queijo.
Comemos um pão de queijo, tomamos um café, e Itamar brincou dizendo que iria deixar o governo em pouco tempo e nem o café mais o serviam. Daí aquela mesa.
Saímos dali e fomos direto para a máquina de escrever (as famosas pretinhas) na sucursal de Brasília da Exame para tentar não perder na memória tudo que Itamar tinha falado.
Eu e Ângela até que conseguimos. Foram quatro páginas na Exame.
No dia que a revista saiu, o ministro Henrique Hargreaves me ligou para cumprimentar. Disse que o presidente tinha gostado muito. Passamos no teste da memória de Itamar.
Morreu um homem simples, um homem do bem.