
Felipe Paranhos
Eu costumo dizer que o fã e o jornalista de automobilismo em geral são muito cruéis na avaliação dos pilotos. O cara tem 19, 20, 21 anos, e tem de ler e ouvir que não tem talento, que é vaca brava, que só faz besteira, que não tem futuro.
Meu exemplo número 1: Pastor Maldonado. Acompanho a GP2, minha categoria preferida, de perto desde sua criação, muito antes de eu entrar no Grande Prêmio. Vi o venezuelano correr durante quatro anos. Falei mal do rapaz, disse que era o pior piloto das principais categorias — não por não ter talento ou ser rápido, mas pela quantidade de besteiras que era capaz de fazer, arruinando corridas de adversários. Fui até mal-interpretado na ocasião, para variar. Mas acho quis fazer polêmica ao usar o termo ‘pior’, não era bem isso que eu queria dizer.
Pouco depois de escrever esse post, em 2009, percebi que estava sendo injusto com ele que nem todos os que eu criticava. E não deu outra: em 2010, na Rapax, Maldonado foi supremo, dominou a temporada da GP2 e garantiu, com a força do seu patrocinador, sim, mas com ótimos resultados também, sua vaga na F1.
Ainda assim, o agora piloto da Williams entrou na temporada 2011 sob desconfiança, com o rótulo de ‘perigo constante’. Os menos informados trataram Pastor como um pagante qualquer, assim hereticamente, como fazem com Sergio Pérez, este uma grande promessa.
Chego, então, onde queria: falou-se tanto do Maldonado por aí, que quem teve um fim de semana inconstante, repleto de erros e besteiras cometidas na pista, foi Barrichello. Depois de bons treinos livres, errou sozinho na classificação e foi parar na brita, jogando fora o Q2. Largando em 17º, se envolveu em um lance, embora de corrida, que o jogou para último logo depois da partida. E, quando fazia ótima corrida de recuperação, cometeu uma falha infantil, como piloto da GP2, ao tentar ultrapassar Nico Rosberg. Acabou com a corrida do alemão — justamente como Maldonado fazia no passado. Pastor tem 26 anos recém-completados.
Maldonado pode até lembrar na F1 os tempos em que custou o maior orçamento pós-acidente da história da equipe Piquet Sports na GP2. Pode bater nos 18 GPs por vir. Mas não merece mais o rótulo de inconstante dos primeiros anos da categoria de acesso. Tem mostrado o contrário, e o fez em Melbourne, sendo discreto até ser traído pelo carro da Williams na décima volta do GP da Austrália.
Exemplo 2: Vitaly Petrov. Nunca foi brilhante. Mas é esforçado demais, segundo conversei com um ex-colega de trabalho dele na GP2. Com a ajuda do dinheiro russo, andou quatro anos na categoria de acesso, três deles em equipes competitivas — primeiro a Campos e depois sua sucessora, a Addax.
No seu último ano na categoria, foi vice-campeão, atrás de um dominante Hülkenberg. Chegou à F1 pela Renault, equipe em queda, que aceitou o dinheiro — que nem era tanto assim em relação a níveis Maldonadísticos — e o risco de empregar um novato sem conquistas na carreira. Petrov não foi bem na estreia na F1. A Renault enrolou tanto quanto foi possível para renovar seu contrato, mas acabou estendendo o acordo. E Vitaly ouviu — não taaanto assim, porque o inglês já é meio macarrônico, imagina o resto dos idiomas — que era incapaz, fraco, batedor. Afinal, como pode surgir piloto bom da Rússia?
Aí Kubica sofreu o tal acidente no rali. Ficou fora da temporada. E a Renault foi buscar Heidfeld. Petrov ficou quieto, fazendo quilometragem na pré-temporada, conduzindo o desenvolvimento do R31.
Na corrida de abertura do Mundial, Heidfeld foi pífio, eliminado no Q1 da classificação, terminando em 14º a corrida. E Petrov, largando em sexto, subiu no pódio. O automobilismo é muito ingrato com pilotos jovens. Quem sabe Vitaly não dá um banho no ótimo Heidfeld? Claro, os que jogaram o russo aos crocodilos vão esquecer o que já disseram.
A verdade é que muita gente só vê e acompanha a F1. Não vê categoria de base, não acompanha turismo, não assiste o automobilismo de fato, não se informa. E não vê que as coisas mudam.