iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

04/05/2009 - 23:18

A Ditadura do Oprimido

.
Por: O Vampiro de Curitiba

 

 

O post anterior, no qual Gerald Thomas comenta sobre o falecimento do teatrólogo Augusto Boal (ver abaixo), suscitou um debate aqui no Blog. Houve certa confusão sobre o que se habituou chamar de “Teatro do Oprimido”. Na realidade o próprio conceito de “oprimido” escapou daquilo que originariamente Boal tinha em seu ideário.

Tem muita gente misturando conceitos e realidades diversas. Uma coisa é a busca da conscientização e expressão de setores marginalizados da Sociedade. Outra, totalmente distinta, é achar que toda e qualquer pessoa possa ser ator ou diretor de teatro. Aliás, é preciso salientar algumas diferenças: Arte é Arte, panfleto é panfleto.  Teatro é Teatro, circo é circo. Ator é ator, platéia é platéia. Confesso que me sinto constrangido quando vou assistir  uma peça de teatro e o ingresso custa menos que o estacionamento. Acho que o ingresso deveria ter um valor muito maior do que se é cobrado. Agora, eu quero pagar um valor justo para ver um Nanini, uma Fabiana Gugli atuando. Mas não, atualmente todo mundo é ator. Tem mais gente no palco do que na platéia.

Essa questão de tornar tudo “popular” não é, infelizmente, algo que ocorre somente no meio artístico. Nas escolas, por exemplo, são os professores que são influenciados pelos alunos. Ao invés de o professor ensinar matemática, ele quer “entender” a realidade do aluno. Deu no que deu: a educação pública no Brasil é uma das piores do Mundo. A balbúrdia chegou até ao Supremo Tribunal Federal (STF). Dia desses, num total descontrole, o ministro Joaquim Barbosa começou um bate-boca com seus colegas numa sessão que chocou os telespectadores que assistiam a TV Justiça. Joaquinzão, ministro do Supremo escolhido por Lula, se ofendeu com o corretivo dado pelo presidente do Supremo e resolveu prolongar a baixaria. Disse que Gilmar Mendes deveria “ir ás ruas”. O que é isso, gente? Joaquinzão, pelamordedeus!, é o Supremo quem deve levar seus valores aos cidadãos, não o contrário. O povão quer mais é o linchamento, a pena de morte, o olho-por-olho, etc. Um ministro do Supremo deve aprender na Academia, não nas ruas!

Agora, a baixaria mesmo se dá é na Internet. É uma característica mundial a perda de leitores da mídia impressa para a Internet. O que faz com que todo mundo tenha blogs, twitter e o escambau. Jornalistas que levaram um pé-na-bunda da grande Imprensa têm na rede um local para publicar suas “opiniões” (na maioria das vezes opiniões do Governo de plantão), seus “serviços”. Os conceitos e valores mudam conforme seus negócios. A Privatização, por exemplo, que era demonizada por esses setores demagógicos, passa a ser vista como exemplar. Claro, isto com o devido patrocínio da empresa privatizada. E lá vai a manada de (e)leitores tentar se adequar ao novo “contexto”.

Pensa que essa vulgarização de tudo é privilégio da República das Bananas, caro leitor? Não, a imbecilização se dá no Mundo todo. Na Inglaterra chegou-se ao cúmulo de “enfeiar” uma cantora, Susan Boyle, para torná-la mais “popular” e assim conquistar o grande público. Sabe como é, né? É “gente como a gente”. Aqui o que difere é que a coisa fugiu do controle. Essa aberração chegou não apenas ao Teatro, à Escola, à Internet ou ao STF. Alcançou o Planalto. Óbvio, quem nada de braçada nesse mar de idiotice é o Grande Guia dos pobres e oprimidos, o Rei das Metáforas Pobres, o Bananão da Silva. A Saúde é um caos? A Educação é um lixo? Ah, não se apeguem a detalhes! Ele é “gente como a gente”. Ninguém sabe por que, mas amamos nosso presidente.  Eu amo tanto que até lhe ofereço um sucesso bem, digamos, popular:

 

Povão oprimido:Você não vale nada,
Mas eu gosto de você!
Você não vale nada,
Mas eu gosto de você!
Tudo que eu queria
era saber por quê.
Tudo que eu queria
era saber por quê.

Você brincou comigo,
bagunçou a minha vida.
E esse meu sofrimento
não tem explicação.
Já fiz de quase tudo tentando te esquecer.
Vendo a hora morrer
não posso me acabar na mão.
Seu sangue é de barata,
a Boca é de vampiro.
Um dia eu lhe tiro
de vez meu coração.
Aí não mais te quero
Amor não dê ouvidos
Por favor, me perdoa
Tô morrendo de paixão…

Bananão da Silva: Eu quero ver você sofrer
Só pra deixar de ser ruim
Eu vou fazer você chorar, se humilhar
Ficar correndo atrás de mim…

 

Hare Bába!!!

É nóis na fita, mano!

O Vampiro de Curitiba

 

Autor: gthomas - Categoria(s): Colaboradores Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,
03/05/2009 - 03:45

Boal Morto: Quantos Ainda Pensam a Sua “Própria” ARTE?

A tristeza da perda e a imbecilidade do dia a dia

 New York- Não posso dizer que não fiquei triste com a morte do Boal. Óbvio que fiquei. Fiquei triste com a morte de um artista. Quantos deles temos hoje em dia? Poucos.

Muito poucos.

Se você liga a televisão ou vai ao cinema pode medir: vai ouvir a palavra KILL ou MATAR ou MORRER a cada 3 minutos (se não mais) e o Ibope exige que os programas sejam baseados na vida e na relação polícia versus bandido e os procedimentos legais: são milhares de programas, em milhares de formatos. Na política é a mesma coisa. A retórica é a mesma.

Pontes explodem, carros explodem, pessoas explodem. Raramente nota-se que já existiu uma sinfonia como a de Mahler, a SEGUNDA, a Ressureição, para ser mais preciso. Poucas vezes a mídia, seja ela qual for, nos remete a uma sinfonia de Beethoven ou a uma ópera da Wagner. Não há mistérios! É a violência que dá audiência mesmo. E, se não é a violência bruta, a crassa, então é o melodrama barato, estúpido. E se não é isso, somos consumidos pela notícia do PÂNICO (como o terror da gripe suína e outras coisas do tipo. Nossa vida sempre em “perigo de vida” e a tal chamada guerra dos mundos, que Orson Welles tão magnificamente satirizou pelo rádio). Ah…

Boal morreu. Seu Teatro do Oprimido não era a “minha coisa”. Mas faz pensar. Faz pensar o que ele pensava sobre seu teatro. E isso não é pouco. E nos faz pensar sobre a vida, ou melhor, a morte.  Os grandes artistas, ou melhor, a ARTE GENIAL, como a de Mahler, como a de Beckett, como a de Joyce ou a de Gogol, Tolstoy ou Conrad ou seja lá qual for seu autor predileto, faz pensar sobre a morte: como deve ser, como somos imbecis com nossos valores materiais aqui nesta terra. Claro, Goethe e seu Fausto, assim como Marlowe e seu Fausto. Shakespeare e as comédias trágicas e as tragédias trágicas ou as moderadas.

O sistema nos traiu. Sim, fomos traídos. Somos todos cornos! Estamos vivendo há uma década, ou mais, sob falsas pretensões e sob falsos valores esperando um messias.

Somos uns imbecis achando que o dia de amanhã será melhor porque o politico A, B, ou C nos salvará da crise absoluta do sistema vigente. Não nos salvará.

E Boal nisso tudo? Bem, Boal tinha suas convicções. Podia não me convencer com seu teatro “em prática”, mas ele já previa e já cantava essa bola há muito tempo. Qual bola? A de que somos cornos de um sistema que nos trai. Mas ele, diferente do Living Theater, diferente dos outros que cantavam a mesma bola, levou seu teatro pro lugar do consumo: o supermercado, ou o lugar onde se consumia aquilo que o sistema martelava na gente! Teatro de Martelo! Um ensaio permanente e inocente (até) de como fazer de corno um sistema que nos faz de corno. Boal estudou aqui na Columbia University e fez grandes amigos.  Mas era outra era, outro tempo.

Esse tempo hoje:

Um bando de imbecis tweetando, ou twitando, como preferirem, achando que estão na “última”, exacerbando o ego e elevando o seu anonimato berrando pros oito cantos do mundo o “nada” do que fazem todos os dias. Que lindo! Já o teatro do invisível de Boal já cantava a bola justamente desse invisível ou desse oprimido (que somos nós, todos nós. Não necessariamente se fala de uma CLASSE, e sim de um estado de ser).

A Arte volta a fazer parte de nossas vidas e de nossas lágrimas. Tentei resistir e não escrever, pois não gosto de escrever emocionado. Augusto Boal morreu e com a morte dele se percebe que morreu um artista.

Isso deixa a ARTE num estado de fragilidade. Ou com a imunidade baixa, fraca.

O mundo não é feito, mas “está” feito de programas que trivializam a alma, que derrubam o ser humano para um lugar onde ele não merece estar: a sua pior ignorância.

É isso. Escrevo pois pesa o peso da M.O.R.T.E. e, nesses dias de angústia, a falta de um ser que construiu um vocabulário teatral é realmente triste. Muito triste.

Quantos construíram um vocabulário teatral?

Quantos sequer “pensaram” sua arte?

Estamos sendo traídos pelo sistema: talvez seja hora de pararmos de nos acusar uns aos outros e pensarmos na CENA de ORIGEM. Sim, aquela que os filósofos invocam quando têm de enfrentar a GRANDE CRISE, ou melhor,  GRANDE ARTE, ou seja: a morte!

 

Gerald Thomas, 3 de Maio de 2009.

.

 

(O Vampiro de Curitiba na edição)

 

Autor: gthomas - Categoria(s): artigos Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,
Voltar ao topo