26/09/2008 - 11:48
Samba Final
(Estou cego de verdade)
Miami- South Beach.
Quando quero dar um pulo para fora de mim mesmo e ver o mundo de fora, venho para cá. Por quê? Porque Miami não existe! Amo essa milha e meia do Ocean Drive, aqui no Art Deco District.
Amo essa total liberdade de TUDO num dos estados mais conservadores. E fiz questão de fazê-lo, a poucas semanas das eleições, justamente na noite ou no dia em que, AFINAL, teremos o tal debate entre McCain e Obama, do qual o primeiro tentou escapar.
Ontem, na Casa Branca, McCain deferia qualquer pergunta a seu financial advisor. Obama foi lá, convocado por Bush, o que eu também acho um absurdo. Mas á essas alturas o que eu não acho um absurdo? Só falta o Hugo Chavez aparecer aqui em Miami e dirigir um táxi! Enfim, Obama laid out. Como se fala? COLOCOU seu plano durante 40 mintutos.
McCain Calado.
A CNN capitalizou: eles levarão o debate para as TVs do mundo e não mais somente à ABC.
SINFONIA dos DES-DITOS 3
Capa do New York Times de hoje, vista de Miami, é muito engraçada. Aqui, do meio de las putchas, do meio desse caos fantástico que amo, mi-amo, e onde a mansão de Versace virou um private hotel (o que será um “private hotel”? Hummmm…), a foto de Obama e McCain andando PARECEM meia ABBEY Road, ou seja, Half Beatles.
Já que só restam dois deles mesmo, será que a semiologia está implícita?
Paul MacCartney
Ringo
John (McCain)
Barack
Eles não estão andando numa “zebra Crossing” e nem estão em West Hampstead ou em Kilburn ou sequer estão no mesmo lugar. Mas me faz pensar.
Me faz pensar que há 20 anos atrás, quando meus nervos não estavam tão a flor da pele ainda, mas a pele recebia mais flores do que hoje… eu escrevi e montei um espetáculo chamado “Movimentos Obsessivos e Redundantes para Tanta Estética”: M.O.R.T.E.
Bete Coelho, Damasceno e Edílson Botelho, e um enorme elenco de brasileiros, levaram ele para o mundo. Até para Taormina fomos, Zurich e o escambau, fomos.
Ele era uma homenagem àquele que amarra e sufoca TUDO, embrulha tudo como se fosse um PACOTE, o artista Christo. E, dentro da peça, o personagem principal ouvia um relógio tic- tac dentro de um outro ser grávido. Era um homem- bomba quando ainda não tínhamos homens-bomba, que horror! Esse personagem principal (na primeira versão, Bete Coelho, segunda, Edi Botelho), era um escultor que não conseguia esculpir. Por quê? Porque as pedras em que tinham que esculpir já estavam embrulhadas por pano pelo CHRISTO, o embrulhador.
Paralelo com a política, total!
Paralelo com Hamlet, total: todos os personagens eram Hamlet, Ofélia, etc.
Aqui vai, de MIAMI (lembrado por Marina Salomon), o trecho final, o SAMBA FINAL que encerrava o espetáculo:
“Quem faria isso comigo?
Olhe fundo nos meus olhos e diga!
Aqui? Um universo?
Os de cima, os de baixo?
Os menores erros… EU DISSE
Os menores erros EU DISSE
EU DISSE!
LUZ!
SOM!
Palavras!
Mas do que valem?
Nossos poetas estão mortos
Nossa musica não tem heroísmo
Nos não temos corpos, somos fracos, somos rasos
Nossos casos, moribundos.
Julgamentos: cada caso, um acaso.
Nossa obra, uma obra do acaso total.
CLAMO!
EU DISSE
CLAMO!
Que me acordem se eu estiver dormindo
Minha angustia, meu espírito!
CONVOCO!
EU DISSE!
CONVOCO!
Uma NOVA geração de criadores!
Que se afunilem
E que se intoxiquem
E ouçam os lamentos das cidades!
Que se estrangulem, mas achem a geometria das cidades!
CONVOCO!
EU Disse. Convoco. Um novo Parangolé Brasileiro!
E Que chova sobre a NOSSA POESIA!”
.
Não faço mais teatro. Faço ópera. Ópera seca. Há anos digo isso e há anos faço isso. Só que agora mais do que nunca.
Estou constrangido pela falta de pensadores no mundo. Constrangido pela falta de loucos, obcecados, visionários. Parece que só existem os políticos e os que entretém os políticos com shows ou com consentimento. O nojo nacional é, antes de mais nada, um nojo cultural. E não adianta centralizar informação e distribuir verba. Isso vira FBI sangrento e burocrático e, para minha infelicidade, não parece mais ópera.
M.O.R.T.E.
(Movimentos Obsessivos e Redundantes pra Tanta Estética), há mais ou menos vinte anos.
Desabafo – espetáculo de Gerald Thomas com a Cia. de Ópera Seca de 1990, endossado em South Beach em Sept 2008.
(Na edição, O Vampiro de Curitiba)
PRATICAMENTE ACABOU O DEBATE: DEPOIS COMENTO: TÉCNICAS BÁSICAS DE DEBATE: McCAIN: EU ESTIVE MAIS TEMPO AQUI. EU CONHEÇO AS TÉCNICAS E ESTRATÉGIAS MELHOR MEU FILHO, GAROTO, “O QUE O GAROTO (OBAMA) NAO PARECE QUERER ENTENTER (what the Senator doesn’t seem to be able to understand) over and over and over.
ESSA É A TATICA
NÃO OLHAR NUNCA NOS OLHOS DE OBAMA
RIR SEMPRE NA HORA DA RESPOSTA DO OUTRO
É ISSO
SERÁ ISSO
E PROVAVELMENTE SERÁ ELEITO
FALO DE McCAIN, o Quarto Beatle. Não falou dos Weapons For Mass Destructions no Iraq que não existiam, não falou do massive tax break pra elite, não falou que o Irã era mais enfraquecido com a presença de Saddam Hussein.
SÓ TEM UM PROBLEMA: MCCAIN ESTÁ AQUI HÁ MAIS TEMPO, SIM!
MCCAIN ASSINOU MAIS ACORDOS SIM!
E JUSTAMENTE POR ISSO
JUSTAMENTE PORQUE FEZ ISSO E AQUILO
JUSTAMENTE PORQUE CONHECE AS ENTRANHAS DOS MECANISMOS
É QUE ESTAMOS NA MERDA EM QUE ESTAMOS!
É QUE ESTAMOS NA MERDA EM QUE ESTAMOS!
É QUE ESTAMOS NA MERDA EM QUE ESTAMOS!
Mas é assim!
Chega!
GT
Do New York Times de sábado:
The two men met for 90 minutes against the backdrop of the nation’s worst financial crisis since the Great Depression and intensive negotiations in Congress over a $700 billion bailout plan for Wall Street.
Despite repeated prodding, Mr. McCain and Mr. Obama refused to point to any major adjustments they would need to make to their governing agendas — like scaling back promised tax reductions or spending programs — to accommodate what both men said could be very tough economic times for the next president.
For the first 40 minutes, Mr. Obama repeatedly sought to link Mr. McCain to President Bush, and suggested that it was policies of excessive deregulation that led to the financial crisis and mounting economic problems the nation faces now.
“We also have to recognize that this is a final verdict on eight years of failed economic policies promoted by George Bush, supported by Senator McCain — the theory that basically says that we can shred regulations and consumer protections and give more and more to the most and somehow prosperity will trickle down,” Mr. Obama said. “It hasn’t worked and I think that the fundamentals of the economy have to be measured by whether or not the middle class is getting a fair shake.”
Mr. McCain became more animated during the second part of the debate, when it shifted to the advertised topic: foreign policy and national security. The two men offered strong and fundamentally different arguments about the wisdom of going to war against Iraq — which Mr. McCain supported and Mr. Obama opposed — as well as how to deal with Iran.
More than anything, Mr. McCain seemed intent on presenting Mr. Obama as green and inexperienced, a risky choice during a difficult time. Again and again, sounding almost like a professor talking down to a new student, he talked about having to explain foreign policy to Mr. Obama and repeatedly invoked his 30 years of history on national security (even though Mr. McCain, in the kind of misstep that no doubt would have been used by Republicans against Mr. Obama, mangled the name of the Iranian president, Mahmoud Ahmadinejad, and he stumbled over the name of Pakistan’s newly inaugurated president, calling him “Qadari.” His name is actually Asif Ali Zardari.).
PS. do Vamp: Sobre o ocorrido: Um vagabundo entrou com nicks de outras pessoas e postou comentários em nome das mesmas. Todos sabemos quem é o vagabundo. Aqueles que deram o e-mail para o vagabundo terão que mandar um e-mail diferente para o Gerald e só comentar aqui no Blog com o e-mail novo. É o preço a pagar por não saberem escolher amizades. Quanto ao vagabundo: Eu sei quem é ele. Ele sabe que eu sei. Eu sei onde encontrá-lo. Ele não imagina quem eu seja. O mundo dá voltas, mas é na reta que resolvemos nossas diferenças. Não hoje, não amanhã, mas resolvemos!
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: "Movimentos Obsessivos e Redundantes pra Tanta Estética, "Sinfonia dos Des-Ditos, Beatles, Bete Coelho, Casa Branca Sout Beach, Christo, Cia Opera Seca, CNN, Damasceno, Desabafo-espetáculo, Edi Botelho, EUA, FBI, Gerald Thomas, Hamlet, homens-bomba, M.O.R.T.E., Marina Salomon, McCain, Miami, New York Times, Obama, Ofélia, Poesia, teatro, Versace, West Hampsted
31/08/2008 - 01:27
Um torcedor do Corinthians desce a pé a Brigadeiro Luis Antonio, feliz da vida. Um vulto sozinho neste frio sábado à noite, nesta rua cinza, cidade cinza, sombras além do cinza, garoa fina e cinza ele toca nos postes como se fossem pessoas. Seu time ganhou.
A cena não deixa de ser sublime, apesar de estranhamente triste e tristemente cinza, assim como Beckett sonhava o mundo. Estranho esse sentimento passageiro de “vencer”, de “ganhar”. Sempre nós, os homens, querendo vencer ou ganhar. Ou colocando nossas mulheres como cavalos ou éguas de Tróia para vencer nossa batalha por nós. Ele, o loner torcedor-sozinho, fantasiado de pierrot, poderia também estar vindo da convenção dos Democratas ou dos Republicanos.
Caramba! Como estou exausto de política! Como estou exausto de retórica. Como estou podremente exausto dessa guerra de nervos que somente se resolverá mesmo é através das urnas, em novembro, nos EUA. E, até lá, será um deus-nos-acuda, um deus-nos-acusa, um rebola hesbollah, um índio a menos ou a mais na tribo. Exausto.
Nessas convenções todo mundo está certo e orgulhoso de que alguém irá “vencer”, “levar o título”, “ocupar o trono”. Nesse catch as catch can, uma mulher estava sendo cogitada por anos, a Hillary, e eis que outra, no partido oposto (um coringa, uma incógnita), a Sarah Palin, leva a cartada. Golpe sujo. Golpe baixo. Política já foi outra coisa?
Como pergunta pertinentemente alguém (será Larry King?): “Ela está preparada para ser a Comandante Chefe?”
A pergunta já inclui a resposta.
Muitas respostas já incluem a pergunta.
Não agüento mais.
O nome “Lula da Silva” me enoja, e todo seu ministério! Mas nada mais tenho a dizer a esse respeito. O Real está forte, os restaurantes desta triste Paulicéia estão cheios. São Paulo enche a pança! É o que se faz aqui. O que mais se faria perto da Brigadeiro Faria Lima? Ah sim, os pequenos teatros alternativos que imitam os grandes teatros de GRUPO alternativos do mundo: mas aqui eles adicionam um pouco de cor a esse gris sur gris!
Ainda me preocupo muito em ler e ouvir análises disso e daquilo, mas entro facilmente em nada! De tanto golpe baixo em golpe baixo a coisa vai, que nem me importo mais se McMain pega uma mulher que só viu duas vezes na vida antes… Bah! Política!!! Eu deveria me importar depois de tanto que sofri com o Obama nesse último ano. E agora? Agora é esperar as eleições! Não adianta mais sofrer por antecipação ou por frustração.
A “Sinfonia dos DesDitos” – que pequena revolução!
Escreve o Comandante Peter Lessman, 27 anos de Varig e agora na “Arab Emirates”:
“Tendo a triste lembrança da política Brasileira como pano de fundo, assisti emocionado à Convenção Nacional do Partido Democrata nos EUA oficializando a escolha do seu candidato a Presidente e Vice, assim como também no dia seguinte o show de retórica de Obama aceitando a indicação.
Não consegui desgrudar um minuto daquele espetáculo de democracia e esperança em estado bruto. Do meu quarto de hotel em Bangcoc, acompanhei totalmente fascinado a cobertura da CNN nos mostrando de todos os ângulos possíveis os rostos, expressões e palavras das grandes e pequenas figuras humanas em um grande momento da sociedade americana, comprovando mais uma vez a sua incrível capacidade de reagir efetivamente, e com extremo vigor, quando insatisfeita com os rumos do seu governo e de seu país. Sem contar a grandeza da sua grande adversária derrotada na feroz disputa, Hilary Clinton, quando vigorosamente conclamou a todos para se unirem em torno de Obama, pelo bem do país!
Viajando há quase 30 anos literalmente pelo mundo, este acontecimento mais uma vez confirma o que eu não canso de repetir:
O que realmente diferencia o chamado “Primeiro” mundo do restante não é o dinheiro ou os eventuais rios de petróleo no “pré-sal” de cada país; mas acima de tudo na capacidade, ou não, de cada cidadão entender que a sua conduta e engajamento individual têm um impacto decisivo na qualidade da sociedade na qual ele está inserido, e conseqüentemente o futuro da sua nação…
O sistema deles funciona e se aprimorou ao longo dos anos com muita luta e até de uma guerra interna, e onde mulheres e negros, por exemplo, só conquistaram o pleno direito ao voto há menos de 100 anos.
Mas há duas características fundamentais por trás deste sucesso: os simples e sólidos princípios básicos quando a Constituição deles foi criada há mais de 200 anos pelos chamados “Pais Fundadores da Nação”, e o total comprometimento e vigilância de cada um dos cidadãos para com o seu fiel cumprimento.
E é este mesmo engajamento que tornou possível o “fenômeno” Obama, e TODOS os comentaristas políticos são unânimes em concordar, através do que eles lá chamam de “grass roots movement”. Um movimento “de raízes”, de “base”, onde através do trabalho “de formiguinha” de dezenas de milhares de voluntários de TODAS as camadas sociais país afora, ele obteve o apoio e arrecadou milhões de dólares para ao seu movimento chamado de “Change” (Mudança).
Assim como levou milhões a repetir em coro ao longo da campanha pela indicação de candidato pelo partido Democrata o “yes we can” (nós podemos sim). Com certeza fará o mesmo na Campanha Presidencial contra o candidato Republicano McCain.
E ele reconheceu a importância deste trabalho em um dos momentos marcantes do seu discurso de aceitação da candidatura Democrata ao afirmar: “O que alguns ainda não entenderam é que tudo isto que está acontecendo (o movimento CHANGE que ele lançou) não trata da minha pessoa (it’s not about ME), mas é sobre vocês! (it’s about YOU!)”, em uma extraordinária lição de humildade e liderança que já começou a fazer história.
Pois é, meus Brasileiros e Brasileiras: cada país tem o “Fenômeno” que merece certo?
Será que NUNCA aprenderemos a reagir??
Abraços esperançosos de muito longe,”
Peter Lessman.
Minha companhia de teatro finalmente “aconteceu”: ontem, sábado, lá no SESC Paulista. O que significa acontecer? Significa fazer a cena acontecer! Significa entrar no groove, entrar no vivo da natureza viva e nunca morta. E estamos vivos. E o projeto que já mudou de nome (depois de muita raiva minha e muitas dissidências de atores) esta lá, de pé, assim como o teatro está de pé desde Sófocles!
E como o torcedor do time desta capital descendo uma de suas avenidas principais numa falsa alegria passageira, eu, numa falsa alegria passageira, comemoro um dia de vitórias dramáticas sabendo que o povo de New Orleans está fugindo do “Gustav”, marido da “Katrina”, 3 anos depois da devastação, pois é disto que nós somos feitos:
Festas
Vitórias
Devastação
Gerald Thomas
Abaixo, um texto de Artaud (mandado por Marina Salomon) em resposta á minha ira de anteontem no “ Geração Careta”:
“Jamais, quando é a própria vida que nos foge, se falou tanto em civilização e em cultura. Há um estranho paralelismo entre essa destruição generalizada da vida, que encontra-se na base da desmoralização atual, e a preocupação com uma cultura que jamais coincidiu com a vida, e que é feita para governar sobre a vida.
Antes de retornar à cultura, observo que o mundo tem fome, e que ele não se preocupa com a cultura; e que é apenas de maneira artificial que se quer dirigir para a cultura pensamentos que estão voltados unicamente para a fome.
O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência jamais salvou um homem de ter fome e da preocupação de viver melhor, e sim extrair disso que se chama de cultura idéias cuja força viva seja idêntica à da fome.
Nós temos necessidade sobretudo de viver e de acreditar naquilo que nos faz viver e que alguma coisa nos faz viver ¤ e aquilo que sai do misterioso interior de nós mesmos não deve retornar perpetuamente sobre nós mesmos, em uma preocupação grosseiramente digestiva.
Quero dizer que se para todos nós é importante comer, e já, nos é ainda mais importante não desperdiçar nesta única preocupação imediata de comer nossa simples força de ter fome.
Se o signo da época é a confusão, vejo na base dessa confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, as idéias, os signos que são a representação dessas coisas.
Certamente não são sistemas de pensamento que nos faltam; o seu número e as suas contradições caracterizam nossa velha cultura européia e francesa: mas quando é que a vida, a nossa vida, foi afetada por esses sistemas?
Não diria que os sistemas filosóficos são algo que se possa aplicar direta e imediatamente; mas das duas, uma:
Ou esses sistemas estão em nós e somos impregnados por eles a ponto de viver deles, e neste caso o que importam os livros? ou nós não somos impregnados por eles, e neste caso eles não merecem nos fazer viver; e de
qualquer forma, que importa seu desaparecimento?
É necessário insistir sobre esta idéia da cultura em ação e que se torna em nós como um novo órgão, uma espécie de segunda respiração: e a civilização é a cultura que se impõe e que rege até mesmo nossas ações mais sutis, é o espírito que se encontra nas coisas; e é de maneira artificial que se separa a civilização da cultura, e que há duas palavras para significar uma única e idêntica ação.
Julgamos um civilizado pelo modo como ele se comporta, e ele pensa da maneira como se comporta; mas já sobre a palavra civilizado existe uma confusão; para todo o mundo, um civilizado culto é um homem esclarecido quanto aos sistemas, e que pensa através de sistemas, de formas, de signos, de representações.
É um monstro em quem se desenvolveu até o absurdo essa faculdade que temos de extrair pensamentos de nossos atos, em vez de identificar nossos atos com nossos pensamentos.
Se falta amplitude à nossa vida, ou seja, se lhe falta uma constante magia, é porque gostamos de observar nossos atos e de perder-nos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, em vez de sermos impelidos por eles.
E essa faculdade é exclusivamente humana. Diria mesmo que é essa infecção do humano que nos estraga certas idéias que deveriam permanecer divinas; pois, longe de acreditar no sobrenatural e no divino inventados pelo homem, creio que foi a intervenção milenar do homem que acabou por nos corromper o divino.
Todas as nossas idéias sobre a vida devem ser modificadas, numa época em que nada mais adere à vida. E essa penosa cisão é motivo para que as coisas se vinguem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas ressurge de repente pelo lado mau das coisas; e jamais se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só pode ser explicada por nossa impotência em possuir a vida.
Se o teatro existe para permitir que nossos recalques tomem vida, uma espécie de atroz poesia se exprime através de atos bizarros, onde as alterações do fato de viver demonstram que a intensidade da vida permanece intacta, e que bastaria melhor dirigi-la.
Porém, por mais que queiramos a magia, no fundo temos medo de uma vida que se desenvolvesse toda sob o signo da verdadeira magia.
E é assim que nossa ausência enraizada de cultura espanta-se com certas grandiosas anomalias e que, por exemplo, em uma ilha sem nenhum contato com a civilização atual, a simples passagem de um navio, somente com pessoas sadias, pode provocar o aparecimento de doenças desconhecidas nessa ilha, e que são uma especialidade de nossos países: zona, influenza, gripe, reumatismos, sinusite, polinevrite, etc., etc.
Do mesmo modo, se achamos que os negros cheiram mal, ignoramos que para tudo aquilo que não é Europa somos nós, os brancos, que cheiramos mal. E eu diria mesmo que exalamos um odor branco, branco assim como se pode falar de um “mal branco”.
Como o ferro aquecido ao branco, pode-se dizer que tudo o que é excessivo é branco; e para um asiático a cor branca tornou-se a insígnia da mais extrema decomposição.
Dito isto, podemos começar a traçar uma idéia da cultura, uma idéia que é antes de tudo um protesto.
Protesto contra o estreitamento insensato que é imposto à idéia de cultura ao se reduzi-la a uma espécie de inconcebível Panteão; o que resulta em uma idolatria da cultura, da mesma maneira que as religiões idólatras colocam deuses em seu Panteão.
Protesto contra a idéia separada que se faz da cultura, como se existisse, de um lado, a cultura, e de outro a vida; e como se a verdadeira cultura não fosse um meio requintado de compreender e de exercer a vida.
Pode-se queimar a biblioteca de Alexandria. Acima e além dos papiros, existem forças: podem nos roubar durante algum tempo a faculdade de reencontrar essas forças, mas não podem suprimir a sua energia. E é bom que muitas das grandes facilidades desapareçam e que certas formas caiam no esquecimento; assim a cultura sem espaço nem tempo contida em nossa capacidade nervosa ressurgirá com uma energia amplificada. E é justo que de tempos em tempos se produzam cataclismas que nos incitem a retornar à natureza, ou seja, a reencontrar a vida. O velho totemismo dos animais, das pedras, dos objetos utilizados para aterrorizar, das vestimentas bestialmenteimpregnadas, em uma palavra tudo o que serve para captar, dirigir e desviar as forças, é para nós uma coisa morta, da qual sabemos apenas tirar um proveito artístico e estático, um proveito de fruidor e não um proveito de ator.
Ora, o totemismo é ator porque se move, e é feito para atores; e toda verdadeira cultura apoia-se sobre os meios bárbaros e primitivos do totemismo, cuja vida selvagem, ou seja, inteiramente espontânea, quero adorar.
O que nos fez perder a cultura foi nossa idéia ocidental da arte e o proveito que dela tiramos. Arte e cultura não podem andar juntas, contrariamente ao uso que universalmente se tem feito delas!”
Antonin Artaud
(O Vampiro de Curitiba na edição)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
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