Welcome to Rio, Woody Allen: But “Bullets Over Broadway?” In Rio it will be “Bullets Over My Head”. The Beautiful City is actually one of the most dangerous cities in the world. No matter what they try to tell you!
Sete dias no Rio (Seven days in Rio)
(Reportagem da Folha de São Paulo, eu, Gerald, em azul)
Em sete dias, o tráfico abateu o helicóptero da polícia no Rio de Janeiro, matando três policiais, carbonizados. A cena chocou a todos, correu o mundo, tornou-se logo o emblema trágico de uma situação social que vinha enquadrar a fantasia olímpica no país real.
Sete dias depois, impressiona como a imagem envelheceu. Na terça-feira, o que escandalizava era o cadáver acomodado dentro de um carrinho de supermercado, nos arredores do morro dos Macacos. Resposta do tráfico ao cerco policial? Acerto de contas? Até ontem à noite, não se sabia ainda nem a identidade da vítima, no IML à espera de reconhecimento. Numa semana de mortes por atacado, o defunto anônimo do varejo do crime também ficou no passado. A divulgação das imagens do assassinato do coordenador do Afro Reggae, Evandro João da Silva, ocorrido no centro do Rio, no domingo à noite, estarrece, ate agora, o país.
Dear Mr. Allen: I will not, cannot, translate this catastrophe in its entirety. But I’ll do in parts, as in parts of bodies, hoping that you’ll get the idea. Seven Days in Rio: It has been a week or so that the druglords or traffickers have shot down a police helicopter, killing and charring the three cops inside the chopper. The scene seemed to shock everyone and the photos were published world over (I hope you saw them, Mr. Allen, wherever you are): they became the very symbol of a tragic social reality which only came
to break the dream of an Olympic fantasy or spell Brazil had been
living under. But Brazil has always lived a dream which never really came true.
And with the current president – Lula – corrupting and distorting all the facts… from A to Z, is nothing but a temporary populist. I hope that you will understand that the country (with an enormously high rate of illiteracy and famish) is far closer to a Stalinist regime, than one tends to see reported in the world media.
But the chopper falling, the buses burning and all that, are old news. On the following Tuesday, only 4 days after the tragic weekend (featuring something around 35 deaths), what really (REALLY) scandalized the media and population alike (or so it seemed), was the finding of a dead body crumpled and stashed into a supermarket cart, left behind or abandoned around one of the most violent favelas (slums). Might it have been payback from the cops? The police killing a civilian for the losses suffered over the weekend? No matter. No problem. Also images of the past. A few days ago, a PACIFIST, from a well known group named AfroReggae (devoted to getting minors out of drug dealing and into rehab programs through music), Evandro Joao da Silva was mugged, shot p
oint blank, in the very center, downtown of Rio.
Enough? Of course not. The police was called, came and RELEASED the assailants….and , AND (with his heart still beating) the cops ran away with his expensive sneakers and some piece of the equipment of the “nearly dead”. Now, these are scenes you might expect to see in a late night Reality Show in the US or in a documentary about Africa, right? Or in a parody about violence by Quentin Tarantino. But they are actual fact which (amazingly) they hid from your sister as she visited the City some weeks ago. I’ll continue in Portuguese.
Os policiais passam pelo local instantes depois do assalto e ignoram o corpo que agoniza no chão; a seguir, roubam o que os ladrões haviam levado da vítima, deixando-os ir. Basta assistir à sequência: seria difícil imaginar algo mais chocante. Não, não ha nada mais chocante. Nem o que eu via pela TV acontecendo em Soweto, África do Sul.
Vitimada pelo tráfico no sábado, a polícia no domingo atuava como bandido do bandido. Caso isolado? Gostaríamos que sim, mas é obvio que não. Um dos elementos de farda era responsável pela SUPERVISÃO do policiamento da área. Atende por capitão Denis Bizarro (o nome do animal não poderia ser mais apropriado). Evandro não era uma pessoa comum. Vítima da tragédia consumada em parceria entre criminosos e agentes do Estado, ele vem sendo descrito pelos jornais como um “mediador de conflitos do tráfico em favelas”. Entender o que seja essa figura socialmente emblemática é parte do problema. Também em vida, Evandro não deixava de ser um sintoma da falência do Estado. Um estado (Brasileiro) beirando ao Stalinismo: delirante, mentiroso e corrupto.
Lula, o delirante, nada diz com nada.
“Seis corpos foram encontrados ontem-sétimo dia consecutivo de conflitos urbanos no Rio- na favela do Fumacê, em Realengo, zona oeste do Rio. Os cadáveres estavam sobre uma carroça num matagal da favela. Segundo a Polícia Militar, eles foram jogados no local durante a madrugada.
Em cinco ações policiais deflagradas nas zonas oeste e norte, 12 pessoas foram presas e dois menores, apreendidos. Houve também apreensão de armas e drogas. Na Penha (zona norte), um confronto entre a polícia e traficantes da facção CV (Comando Vermelho) nas favelas Merindiba, Quatro Bicas e Vila Cruzeiro feriu ao menos três moradores e causou um incêndio em um apartamento. Os três moradores foram baleados na Vila Cruzeiro e hospitalizados. O caso mais grave é de Severino dos Santos, que levou um tiro no rosto. Ele tem uma bala alojada na nuca e respira com ajuda de aparelhos. Brunio de Barros, 86, foi alvejado no tórax e prossegue internado. Expedito Rodrigues, 57, atingido por um tiro de raspão na perna direita, já deixou o hospital. Incêndio Já o incêndio, que não feriu ninguém, foi causado pela explosão de algum tipo de munição e queimou…..
Dear Mr. Allen: I’m writing from Paris. If only we could go back to that scene in your own movie (I think it was shot at the Whitney or at the Guggenheim, not quite sure), where you and a girl are standing in front of a Pollock painting: all you want is to seduce her into a fuck but she goes ranting off into the theory of semantics and quantum physics of the layers of ‘meanings’ of what Pollock meant to say. Rio is, in many ways, a jaw breaker. A Pollock gone bad.
It’s quite troubling and sort of disturbing to know that you were offered 15 MILLION USD to shoot a movie in Rio to make the City look ‘good’ for the 2016 Olympic Games. Knowing your work as I do, I find that troubling. In Annie Hall you go through the trouble of taking “the real” Marshall MacLuhan from behind a cardboard cutting of himself only to to prove to an arguing couple (the guy trying to impress the gal with false intellectual pretenses), that what the young jerk standing in line was wrong. I think, Mr. Allen, that you’ve always been on the side of JUSTICE. From Stardhust Memories to Radio Days, Husbands and Wives, Manhattan, Take the Money and Run, Cassandra’s Dream (with music by my collaborator and friend Philip Glass (http://www.vimeo.com/2988089), and all of your outstanding work, one thing does stand out: the quest for justice.
I beg you to use an automatic translator to go through this text, or simply google “recent outbreak of violence in Rio”. There has been plenty of reporting in the New York Times and in the Guardian as well as any and every paper in the world. You are, without any doubt, a GENIUS. And by being one I feel terrible when I see or feel that they’re trying to TRAP you. What I’m writing to you here is, somewhat based or inspired in your initial scene of CELEBRITY, when the low flying plane writes HELP in the skies.
You are one of the only auteurs-filmmakers in this world and you, as well as Kubrick saw a reason to leave the US and film (or/and) live abroad. But please do not buy into this trap, unless, of course, you’re fully aware of what you’re getting yourself into (with the usual humor, deprecating self, etc). The rest is up for grabs.
LOVE
Gerald Thomas
www.geraldthomas.com
Continua em português:
Coordenador ainda estava vivo, diz o José Junior. Pois é, isso é o mais trágico desse MUNDO CÃO!
Anderson afirma que chegou ao local 50 minutos após o crime e que o coração da vítima ainda batia; “PM me disse que isso era normal” José Júnior, do Afro Reggae, chamou PMS acusados de abandonar vítima sem socorro de “marginais, criminosos fardados”
- É pouco, Junior. Esses caras não são mais seres humanos. Não têm mais do que chamá-los. Na hora em que aconteceu, eu estava online e liguei pro Zuenir. Uma loucura.
A Polícia Militar vai investigar a participação de outros policiais suspeitos de omitir socorro ao coordenador do Afro Reggae,
- Aha! Claro que vai. E, como qualquer investigação no Brasil? Onde dá? Onde? Que horror de piada!
Evandro João da Silva, morto depois de ser baleado no centro do Rio de Janeiro, no final de semana passado. Segundo o músico Anderson Elias dos Santos, amigo da vítima que chegou ao local 50 minutos depois do crime, o coração do coordenador ainda batia. “Um PM me falou que isso era normal e que ele já estava morto, mas não sei se o militar verificou”.
- Super normal. Depois que a gente morre, o coração continua batendo, os braços se mexendo e a boca falando. Os olhos piscam, o cu caga, o pau mija, ou seja, tudo continua igual. Nem o teatro do absurdo teria chegado a esse ponto.
Actually, Mr Allen, maybe you do have a point after all, given that you do accept the offer. Rio is the city of the absurd. Whatever it is that Adamov, Ionesco (let’s leave Beckett out of this) weren’t able to stage, Rio is outdoing them all. So, if you do go ahead with this offer and DO NOT end up with a bullet in your skull, all I can wish you is….Good Luck
GT
PS: Please, Mr. Allen, don’t get me wrong. I LOVE Rio. I LOVE Brazil. What I don’t love or endorse is the current state of affairs or regime. Whoever Lula endorses (most likely) will be voted in, since voting in Brazil is obligatory. Strange, isn’t it? He, Lula, trades food baskets for votes. In the meantime, these Drug Lords are holding the population as hostages making ground beef of them all.
Importante artista e ativista da China fala à Folha sobre arte e política no país; chinês se recupera de cirurgia após apanhar da polícia
RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM (Folha de S Paulo)
O ativismo político do mais famoso artista da China foi parar nesta semana em uma sala de cirurgia na Alemanha.
Um mês após apanhar da polícia chinesa em um protesto e sofrendo dores de cabeça, Ai Weiwei, 52, precisou da intervenção do bisturi para conter um sangramento interno.
Ai lançou uma campanha para dar nome às crianças vítimas do terremoto do ano passado em seu país, depois que o governo abafou o escândalo das “escolas de areia”.
Morreram em escolas de construção precária 5.535 crianças.
O governo calou o protesto dos pais das vítimas, que foi encampado pelo artista. Seu popular blog foi bloqueado em maio. No Twitter, também bloqueado na China, ele postou fotos pré e pós-cirurgia, feita em Munique.
O aumento do confronto verbal e físico entre Ai e as autoridades chinesas coincide com o auge do reconhecimento de sua obra. Ele foi para a Alemanha abrir a exposição “So Sorry” (sinto muito).
Até novembro, a maior retrospectiva de sua obra está em cartaz no museu Mori, de Tóquio, com 26 trabalhos desenvolvidos entre 1994 e 2009. A exposição apresenta os interesses múltiplos de Ai, da instalação e fotografia à provocação política e arquitetura.
Ai é conhecido por ter participado na concepção do Estádio Olímpico de Pequim, convidado pelos arquitetos suíços Herzog e De Meuron, o chamado “Ninho de Pássaro”.
De sua prancheta saíram mais de 50 construções, entre edifícios comerciais, residências, restaurantes e até uma vila de ateliês para amigos artistas, no bairro de Caochangdi, em Pequim.
Serpente e fadas
Em Tóquio, sua obra mais recente é uma longa serpente formada por centenas de mochilas escolares e que dá voltas pelo teto do museu.
“Depois do terremoto, havia milhares de mochilas espalhadas, única lembrança das crianças. E a serpente, para os chineses, sempre indica o perigo que está à espreita”, disse Ai para a Folha na semana passada, quando já se queixava de dores de cabeça.
Sua grande retrospectiva em Tóquio, visitada pela reportagem, também apresenta vídeos e fotos da performance que fez na Documenta de Kassel, em 2007. Em “Conto de Fadas”, ele levou 1.001 chineses que nunca tinham viajado ao exterior para o evento artístico na Alemanha, acompanhados de 1.001 cadeiras no estilo da dinastia Qing.
“Ocidente e Oriente precisam se encontrar, com o medo e a curiosidade que isso implica”, diz. “Acho que os participantes acham que aquela pequena cidade encantada alemã é o Ocidente. Voltaram mais confusos, o que é bom para a imaginação e a fantasia”, brinca o artista.
As galerias da pequena Kassel tiveram seus dias de superpopulação com 1.001 chineses de um lado para outro.
Várias obras tratam da nova China. Duas grandes tigelas estão recheadas de pérolas cultivadas, como por venda a quilo. “O luxo, quando em excesso, fica banal”, diz. “A China de hoje é obcecada em ficar rica e o Partido Comunista está cheio de corruptos, que não sabem como gastar”, diz.
Dificilmente a exposição será apresentada em Pequim. “Para a censura chinesa, arte só cabe se for propaganda ou inofensiva”, diz. “Mas sou otimista, algum dia vou exibir aqui.”
Ele não se empolga com os 60 anos da chegada do comunismo ao poder, que serão comemorados com pompa em 1º de outubro.
“Se eles não têm coragem de concorrer em eleições, se os burocratas estão ricos, se nosso povo é pobre, não há o que comemorar. Deveria ser tempo de silêncio, de reflexão.”
Ai só celebra o fim da bolha da inflacionada arte chinesa, graças à crise econômica internacional. “O mundo da arte como um todo precisava dessa chacoalhada. É uma lição para novos comportamentos; tomara que não só na arte.”
No Twitter, ele disse ontem que vai se recuperar logo. “Sou um artista bem-sucedido, posso me tratar bem. Milhões recebem o mesmo tratamento da polícia, mas sofrerão essas dores pelo resto da vida.”
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ANÁLISE
Arte e política inseparáveis
MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL
Ai Weiwei tem uma concepção muito particular do que é ser artista. “Acho que todo artista é um ativista e um bom ativista pode ser um artista”, disse no mês passado.
No caso de Ai, a definição não é um jogo de palavras. Arte e política -especialmente a política de terra arrasada da ditadura chinesa em relação à tradição- são polos inseparáveis de sua obra. A graça do trabalho dele é que a política não elimina as leituras infinitas da obra, não é o panfleto de um sentido só.
A história pessoal de Ai talvez ajude a entender essa concepção de arte. Quando era criança, seu pai, um dos grandes poetas da China moderna, foi mandado para o interior para limpar latrinas -era um castigo que visava reeducar a família “burguesa”, nos tempos da Revolução Cultural (1966-1976).
Após cursar cinema em Pequim, Ai conseguiu uma bolsa para estudar na Parson’s School de Nova York no início dos anos 1980, quando a cidade fervia com novos artistas, bandas punks e new wave e toda a arte conceitual dos anos 60 estava ao alcance das mãos.
Não é por acaso que um dos trabalhos de Ai cite frases de Marcel Duchamp, o artista que redefiniu a arte no século 20 ao transformar objetos ordinários em arte, e de Mao Tse-tung, o ditador que tirou a China da Idade Média.
É com esse mundo díspar, que equilibra Duchamp e Mao, que Ai faz o seu acerto de contas particular. Vem daí, talvez, o peso dramático de alguns dos seus trabalhos -e drama era tudo que a arte conceitual e o dadaísmo queriam matar. Ele faz trabalhos com mochilas de crianças mortas num terremoto, com madeira de templos budistas de mil anos que foram demolidos por ordem do Partido Comunista, com pés de imagens budistas destruídas. Usa tijolos de casas do século 14 que foram derrubadas em Pequim no ano passado para a cidade abrigar a Olimpíada 2008.
Para quem estava acostumado a uma certa assepsia da arte conceitual, é uma porrada. Para quem acha que assuntos mundanos e de interesse imediato não deveriam ser tratados pela arte, é um lembrete de que tudo pode ser arte; só depende da ação do artista.
O rigor formal é uma das estratégias que Ai usa para fugir do panfleto. Tudo é muito simples, mas quase nada é de entendimento imediato.
A faceta ativista de Ai não se restringe à arte. Ele cutuca o autoritarismo chinês em seu blog, no Twitter, em exposições que age como curador ou ao criar um bairro de artistas independentes em Pequim. Quando o governo chinês bloqueou seu blog, ele se recusou a continuar a fazê-lo nos EUA. Queria falar com os chineses. É por isso que virou um dos mais fortes candidatos ao exílio. A China não tolera dissidentes com seguidores.
Ecoando discurso de um fumante inveterado, seu personagem em “Restos”, monólogo de Neil LaBute que estreia em São Paulo dia 20, ator Antonio Fagundes critica a Lei Antifumo e diz que vai “peitar” a medida e acender cigarro em cena
Rafael Hupsel/Folha Imagem
Antonio Fagundes, 60, que vai estrelar o monólogo “Restos’, sob direção de Márcio Aurélio; ator encarna fumante que, durante velório, relembra a relação com sua mulher, vítima de câncer
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LUCAS NEVES
DA REPORTAGEM LOCAL
Se todo ator incorpora traços dos tipos que interpreta, parece que Antonio Fagundes, 60, escolheu o que levar de seu personagem em “Restos”, de Neil LaBute, antes da estreia no dia 20, em São Paulo, no teatro Faap: o ataque à patrulha antitabagista.
Em cena, dirigido por Márcio Aurélio (”Agreste”), ele encarna um fumante inveterado que repassa -com suspiros saudosistas e certa birra dos modos contemporâneos- as fases de sua relação com a mulher cujo corpo está sendo velado.
Ela morreu de câncer, ele está na fila. Pouco importa. “Guardem seus panfletos ou qualquer outra merda sobre o assunto, ok? A vida é minha, pelo menos o que resta dela”, diz à plateia.
O texto de LaBute é farto em rubricas que pedem um cigarro à mão. Mas a Lei Antifumo que entra vigor na sexta no Estado de São Paulo impede que atores fumem em cena sem autorização judicial. É aí que Fagundes toma emprestado o tom incisivo do personagem:
“Vou peitar isso e fumar. Temos um problema de censura. É um precedente grave se a gente não fala nada. Fiquei surpreso que os fumantes tenham ficado quietos. O brasileiro está muito quieto para tudo. Espero que os fumantes não votem nas pessoas que aprovaram essa lei. É engraçado, porque parece que o [governador José] Serra é ex-fumante. Não tem coisa pior do que ex”.
Para Fagundes, “começa assim; amanhã, vão dizer que não pode beijar na boca porque passa gripe suína; depois, não pode mostrar assassinato [em cena], porque é contra a lei. As pessoas ainda não perceberam, a liberdade não se perde de uma vez. Os puritanos proibiram o teatro na Inglaterra por décadas pois achavam que era satânico. Caminhamos para isso”.
Sem patrocínio para a montagem de “Restos”, o ator também tece críticas ao debate sobre a reforma da Lei Rouanet, que concede às empresas que investem em produções artísticas isenção de parte do Imposto de Renda devido.
“As pessoas que redigem a lei deveriam entender o mecanismo de produção de teatro, saber quanto custa manter um espetáculo em cartaz, anunciar num jornal. Não tem ninguém nessas comissões que já tenha feito teatro? [Quando se fala em mudar a lei] Dá a impressão de que é um movimento rancoroso, do tipo “só estes caras que não precisam [por serem famosos] recebem dinheiro”. É claro que precisam!”
Por conta das restrições previstas na Rouanet aos gastos com divulgação, os espetáculos estreiam, segundo Fagundes, com “morte anunciada”. “Você fica em cartaz por pouco tempo. Ou seja, se antes se falava em espetáculos de elite, agora são peças para a elite da elite, porque não são só para quem pode pagar, mas para quem corre para pagar”, observa.Seu Zé e Dona Maria
Ao longo dos 43 anos de carreira teatral, transitou com desenvoltura entre a dramaturgia engajada do Teatro de Arena, musicais da Broadway, montagens de clássicos (como “Macbeth” e “Gata em Teto de Zinco Quente”) e empreitadas de risco, como “Carmem com Filtro”, estreia de Gerald Thomas na cena paulistana. Sempre com uma piscada de olhos para “seu Zé e dona Maria” -como se refere ao espectador pouco familiarizado com teatro.
“Estamos acostumados a ensinar filosofia a quem não sabe ler. Parte-se do princípio de que quem foi lá [ao teatro] sabe tudo”, afirma. “Defendo a tradição teatral para um público que não a conhece. Sempre pensei assim: só vou fazer experiência na minha vida quando tiver feito o resto todo. No Brasil, parte-se para a inovação antes de se ter experiência.”
Daí seu descontentamento com o abandono “da cortina, da sala convencional”. “Criaram-se espaços que não são teatros. Você pode inovar sem deixar de dar ao público conforto. Já cansei de sentar em cima de prego. Não acho interessante. A gente não tem mais maquiagem, grandes figurinos, cenários, efeitos. O próprio texto deixou de ter surpresas.”
Não é o caso de “Restos”, dotado de uma reviravolta que, nos momentos finais, atira no colo do público um segredo oculto pela cortina de fumaça.
Proibição do cigarro no teatro incomoda artistas
Lei que entra em vigor esta semana exige autorização judicial para fumar em cena
Exceção a cultos religiosos não se aplica a espetáculos cênicos; para atores e diretores, legislação ameaça liberdade artística
JOSÉ ORENSTEIN COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Onde tem fogo tem fumaça. E é na boca de cena que a coisa começa a esquentar. A partir de sexta-feira, dia 7 de agosto, entra em vigor em todo o Estado de São Paulo a lei que proíbe fumar em ambientes fechados de uso coletivo.
No extenso rol de lugares proscritos estão cinemas, bares, lanchonetes, boates, restaurantes, hotéis, centros comerciais, bancos, supermercados, açougues e… teatros.
Quem quiser acender um cigarro, cachimbo ou charuto “cenográficos”, deverá pedir autorização judicial, explicando o porquê de a fumaça ter que se espalhar pelo palco. Ao juiz caberá decidir se o fumo é de fato imprescindível na construção dramática.
A medida vem preocupando alguns atores e diretores, que veem na lei um cerceamento da liberdade artística. É o caso da atriz Mika Lins, que está em cartaz no Sesc Consolação com a peça “Memórias do Subsolo”, uma adaptação do livro de Dostoiévski. “Eu fumo dois cigarros em cena, a frente do cenário tem um monte de bitucas. Faz parte da concepção do espetáculo, é quase um acessório de pensamento”, afirma.
“Acho o fim. É um absurdo essa história de ter que se justificar. Sei que tem multa, mas estou disposta a pagar ou recorrer na Justiça”, diz a atriz. A penalidade deve recair sobre o dono do estabelecimento.
Antonio Rocco, que dirige o teatro N.ex.t. -para onde Lins muda sua peça a partir do dia 11-, diz não estar preocupado. “É uma lei de saúde pública. Não foi pensada para espetáculos teatrais. Isso vai mudar.”
Salvo-conduto
Já o ator e diretor Celso Frateschi, em cartaz com duas peças no teatro Ágora -que não utilizam cigarros-, diz achar “patética” a lei. “Se tiver que usar cigarro em cena, vou usar sem dúvida. É uma hipocrisia uma cidade que não controla a poluição dos carros fazer isso. É quase revoltante”, comenta.
Além de tabacarias e afins, cultos religiosos “em que o uso de produto fumígeno faça parte do ritual” têm salvo-conduto.
“É uma incoerência que soa quase como um privilégio. Por que não há uma exceção de natureza artística?”, pergunta o diretor José Henrique de Paula. Sua peça “As Troianas”, em cartaz no Instituto Cultural Capobianco até dia 16, usava cigarros em cena, mas eles foram retirados a pedidos da instituição. “Não era um objeto crucial para a narrativa. Era um elemento que apenas ajudava numa concepção mais realista da peça”, conta.
O diretor do teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, que está ensaiando a peça “Cacilda!!”, com cenas em que se usa o cigarro, dá outra interpretação para a lei: “O teatro é um culto religioso, dionisíaco. Então, tá liberado!”.
“Teatrinho realista”
Rodolfo García Vázquez, diretor da peça “Justine”, que entra em cartaz no final do mês no Espaço Satyros, engrossa o coro: “Eu não sei qual a diferença entre ato religioso e artístico… Por que proibir só na arte?”. Quem tem opinião diferente é Gerald Thomas. Radicado em Nova York, o ex-fumante acha a lei “ótima”. “O cigarro é uma merda, não dá barato, só traz câncer e miséria. As pessoas têm que parar de ver seus ídolos fumando”, diz Thomas. Para ele, não é só questão de saúde. “É uma besteira esse teatrinho realista, que precisa de uma mesa, de uma cadeira, de um cigarro. O artista tem que transcender isso tudo.”
PS: Moral da história: Se não formos capaz de fazer teatro, poesia, qualquer coisa “dependentes” de um “prop”, ou seja, de um objeto cênico ou uma mamadeira qualquer, é porque o ator é muito ruinzinho mesmo, ou porque não consegue mesmo usar o pouco que tem da sua imaginação para criar metáforas e deixar o PÚBLICO pensar ou imaginar coisas. Não é à toa que ninguém aguenta mais essa caretice: pior, essa caretice traz CÂNCER!!!!! Não, Zé Celso, nem TUDO é dionisíaco (tadinho de Dionísio! Daqui a pouco batida de tânsito também é “dionisíaco!”). E beijar, como diz o Fagundes, nada tem com fumar. Não se tranta de censura e sim de BOM SENSO. O público precisa de “roles models”. E os role models podem se beijar à vontade, mas não às custas da maldita indústria tabagista!
Londres- A BBC mostra uma reportagem sobre o Exército Iraniano que luta contra os traficantes do Afeganistão, que trazem heroína através dessa fronteira. Parece ser essa a maior guerra contra o narcotráfico no mundo! Será? Mais uma vez estou diante de fatos produzidos ou reproduzidos pela mídia (parte do artigo anterior, aqui embaixo). Será essa guerra “contra as drogas” maior do que a da… (bem, vocês sabem o que estou pensando. E se não sabem, deveriam saber)?
Recessão: Um dos mais revolucionários e inovadores de todos os tempos, EVER, John Cage, tem uma peça para piano que se chama “SILENCE”. E, nessa peça, um pianista (o original, David Tudor) sentava ao “piano temperado” (uma invenção de Cage, se não me engano), e NADA fazia, por 14 minutos.
Bem, recessão econômica pode ser vista dessa maneira. Algo acontece, sim. Mas nada acontece. Digo, algo acontece, sim. Existe o instrumento, existe um músico e até uma partitura. Existe até uma expectativa enorme de música no ar, mas o que se ouve nada mais é do que um enorme RUÍDO do que habitualmente chamamos de silêncio. Cage compôs isso na década de 50, depois de várias recessões econômicas e artísticas. Depois de uma falência múltipla de órgãos ou valores ideológicos. Fim da Segunda Grande Guerra. Início do Sonho Americano, início de um grande fim. Qual fim?
Aquele que, ao mesmo tempo, Beckett descrevia em seu deserto em “Esperando Godot”. Uma entidade que não vinha. Uma promessa que não chegava.
Até hoje nos sentimos incomodados com a partitura de Cage. Até hoje nos sentimos incomodados com a “partitura dramática” de Beckett com as montagens recentes da Broadway e daqui, do West End. É visível o quanto o “grande público” ainda não está preparado pra “entender” Beckett. Então, “Esperando Godot” é aplaudido por uma platéia que, na verdade, se incomodou com os silêncios RUIDOSOS deixados nas entrelinhas não ditas ou malditas entre Didi e Estragon, ou nos geniais monólogos de Lucky.
Não queremos entender o vazio. Não estamos preparados pra ele. Portanto, a mídia nos enche de ervilhas. Essa reportagem da BBC, assim como ver a foto do jogador Ronaldo em plena capa do respeitoso jornal paulistano em pleno sábado (não é mais só a foto do GOL nas segundas, agora tem jogador na capa, também aos sábados, brasileiros!!!), me deixa um tanto quanto receoso quanto a tentar explicar o inexplicável: “um dia não terei mais nada a declarar”. Sim, um dia, nós não teremos mais nada a declarar.
Estaremos MUDOS diante das conflitantes e concomitantes notícias: nada prova nada. Jura? O exército iraniano? Mas justamente esse Irã que tanto ostracisam???? Caramba! “Sim”, diz um oficial da armada contra as drogas iraniano, “o mundo ocidental nos deve muito, já que um saco desses, nas ruas de NY ou de Londres, custa 80 mil dólares! Mas não nos dão um tostão porque acham que estarão armando o Exercito Iraniano”. Pois é. Está posto o dilema!
Está estabelecido o conflito, como dizia um personagem a outro em “Electra Com Creta!” Ah, os tempos! Como passam…
NADA A DECLARAR:
Temos o instrumento. Temos a partitura. Vemos o que vemos. Mas o que enxergamos? As guerras – apesar de serem aristotelicamente explicáveis e perfeitamente lógicas (se justificadas por um lado ou pelo outro) – não passam de encenações sangrentas e que devoram milhões de almas. Milhões. Não fazem NENHUM SENTIDO. NENHUM.
Me perdoem por não fazer sentido nesse texto. Mas é como estou hoje. Sinto-me como uma massa, como uma pasta, irregular, inexplicável, triste, vazia, ruidosa, sem nada a declarar e, no entanto, querendo dizer tanta, mas tanta coisa e… sem conseguir dizê-lo.
Mas não sou John Cage: não consigo (ainda) criar um espetáculo no qual alguém senta e NADA toca por 14 minutos. Meu recorde foi em M.O.R.T.E. (Movimentos Obsessivos e Redundantes pra Tanta Estética) em que eu coloquei os atores em posição de total estática, rígidos como estátuas de sal e acendi as luzes da platéia, por 7 minutos. Mas isso foi em 1990. Quarenta anos depois de Cage.
New York- Tem gente encenando “Esperando Godot” em tudo que é canto. Aqui em NY é John Goodman (no papel de Pozzo) e o (palhaço) Bill Irwin. E em Londres Sir Ian McKellen e Patrick Stewart são Didi e Estragon. As produções poderiam ser tão “convencionais” quanto aquelas da década de 60, com Zero Mostel e Burgess Meredith.
Nada mudou.
Nada de novo. Lama na cara, roupas rasgadas e com aquele spray típico que falsamente dá aquele look de envelhecido. Beckett está nos grandes palcos do mundo (ou seja, Broadway ou West End), mais uma vez.
Nunca houve tanto Beckett no ‘mainstream’, ou seja, nos grandes palcos dos grandes teatros! Quem diria! Quem diria, hein, Walter Kerr? Esse crítico do NY Times, que renunciou já faz algumas décadas por ter julgado mal “Esperando Godot”, dizendo tratar-se de uma peça “onde nada acontece, em dois atos”, depois reconheceu tratar-se da obra mais importante do século XX. E despediu-se dos seus leitores do New York Times dizendo que, já que havia feito um erro crasso desse tamanho (o de não ter reconhecido o talento de Beckett), quantos outros talentos ele também não teria deixado de enxergar?
Pronto. Fim de Kerr. Fim de Jogo. Foi-se um crítico. Fica Beckett.
O dramaturgo irlandês que eu conheci era muito engraçado. Suas peças e textos são muitíssimos engraçados.Não são hilários somente porque são escritos para palhaços ou ex-palhaços na beira de um ataque de nervos, mas o homem em si era um irlandês tipicamente no exílio (como quase todos).Pensam torto, falam torto, andam com a Irlanda na cabeça, mas não retornam.
Mas chega de Beckett. Será que chega mesmo? Muitos autores são confinados a sua própria memória. Muitos deles vivem numa prisão, mesmo estando livres.
Pois é: outro dia li na Folha Online um triste texto sobre o Boal. O que dizia? Ah, sim, dizia que ele vendia livros em Amsterdam ou qualquer lugar “lá fora”. Ora, que besteira a se dizer sobre o Boal. Com tanta coisa importante a ser dita sobre alguém que “pensou o teatro” como Augusto Boal (mais tarde o crítico da Folha consertou isso, graças a deus), tinha que prevalecer justamente aquilo que o pobre coitado sempre combateu!
A idéia do Brasil ainda é do “lá fora” e o “aqui dentro”. Vocês vivem numa prisão? Que horror essa mentalidade lusa(justamente TUDO que Boal não representava. Ou não queria representar), de viverem confinados a um país de dimensões continentais mas se comportando como se estivessem naquela ilha minúscula a qual Hamlet, já considerado louco, é mandado pro confinamento: a Inglaterra.
Correção: a minha Inglaterra é enorme! Só Londres… ah, esquece!
Quando eu era macrobiótico era assim. Havia poucos restaurantes aqui em NY.
Eu morava num loft na 23 com Lexington (perto de onde moro hoje – quantas voltas eu já dei em volta dessas ilhas: ah, as ilhas! Que sub-produto mental de nosso estado de ser!) e o Fernando estava com 6 anos. Matriculei-o na Little Red School House na Bleeker com 6 Avenida e, quando estava tudo no lugar, quando estava tudo certo, caí – amarelo como um táxi – com hepatite (que me diziam), provavelmente peguei 6 meses antes visitando presos políticos brasileiros, quando ainda trabalhava para Amnesty International, em Londres.
Os médicos do Bellevue Hospital não sabiam o que fazer comigo! Eu também não. Eu caminhava lentamente os quarteirões do meu loft… Parecia o Lex Luthor, ou o próprio Didi, diante de Estragon tentando achar a sombra de uma árvore. Não haviam árvores nesse trajeto da rua 23 até a 1 Avenida.
Depois de sofrer meses e não ter forças pra me levantar da cama, finalmente a macrobiótica entrou na minha vida: eles, os “Men in Black”, vieram de Boston e esvaziaram minha geladeira! “Como assim? Eu não posso mais beber Coca-Cola? Nem açúcar? Nem pão? Nem queijo?” Eu estava aos berros como uma bicha histérica enquanto o Fernando morria de rir. Os ‘médicos’ macros faziam eu engolir um chá de araruta, gengibre, umeboshi e shoyu. Buuhh.
Três dias depois eu estava de pé e ÓTIMO.
Existe cura para a grande dramaturgia. Existe cura praqueles que se sentem ilhados dentro de suas cabeças provincianas porque nunca ‘pensaram’ suas artes ou nunca deixaram sua marca na história.
Um desses chás, por exemplo, e pimba! Não há limite geográfico que resista! A psicanálise e um chá macrobiótico e seria o fim da dramaturgia internacional. Estaríamos todos curados!
Por que esse post? Porque “a vida tem que seguir seu curso” (essafrase é de “Fim de Jogo”, do mesmo Beckett). Nossa vida, nossa dramaturgia é baseada em nossos traumas e nossos traums (sonhos, em alemão).Não ousem tirá-los de nós!
Os comentários dos últimos dois posts estão excelentes. Excelentes! Na verdade acho uma pena interromper o papo de quase 800 comentários pra ter que iniciar tudo novamente aqui. Mas parece o próprio ciclo da vida, esse “nada” que temos que alcançar, esse espaço NULO (void) no UNIVERSO, a falta de ego, o nosso NADA, como aquela mulher em Rockaby (Cadeira de Balanço) que enxerga a vida através da veneziana ou da persiana e diz assim: “one blind up, fuck life”!
Ah, claro, se hoje ainda sou macrobiótico?
Sou vidrado na Cristiane Amampour. Isso explica alguma coisa? Explica. É uma forma diferente de macrobiótica. Sim, porque se você tem a total compreensão do que significa o yin e o yang, você não precisa mais seguir rigidamente nada. Isso deveria ser um exemplo para os partidos políticos radicais. Isso deveria ser um exemplo para aqueles que colocam bombas em seus cintos e se jogam pra dentro de uma multidão e se explodem.
Isso deveria ser um exemplo de transparência de que estamos aqui num processo temporário e efêmero, quase besta, e que Godot jamais virá. E quem ganha dinheiro, muito dinheiro, doutrinando meninos e meninas dizendo que ele já chegou ou que ele já está aqui, acaba asssado num campo qualquer numa Animal Canibal Pizza ou enterrado até a cabeça como o personagem Winnie em “Oh, Que Belos Dias!”, de… ah, claro, quem mais? Samuel Beckett, evidentemente. O anti-Godot.
Obs: Novos vídeos da palestra em New York no final do post, embaixo das fotos.
O evento de ontem no Theaterlab foi de tamanha importância que só posso dizer uma coisa: proporcionou o encontro que não acontecia desde 1971: Judith Malina (Living Theater) e Zé.
O que dizer de uma obra tão estupenda? Tão… suprema? São quase 4 horas de DVD (e olha que eu odeio ver peça de teatro em vídeo ou DVD), mas aquilo é um filme, com dinâmica e lumiere e espírito de quem vive dentro da física e a metafísica, a dor da vida e a beleza da morte, e a tragédia da besteira de como a humanidade se arrasta através da hipocrisia (clássica, no sentido do erro crasso, clássico). Uma obra! Uma OBRA!
Zé Celso é, de longe, um dos maiores encenadores de todos os tempos “dos mundos”. Claro, vestido de louco, de bobo (fool) ou de puck, como nas Bacantes, ou como um sincero SER Feliniano contador de estórias. Ontem no debate ele berrava, cantava. Eu berrava, mas não cantava. Falávamos de Rivotril e ríamos!
Algumas perguntas pertinentes: “Por que suas produções não viajam?” Eu tomei a liberdade de responder. “São máfias que fazem grupos ou cias teatrais viajarem ou não. Às vezes não são máfias. Às vezes o convite é geníuno. Mas NUNCA se trata do diretor querer ou não. Estamos todos nas mão dos “diretores ou programadores de festivais” ou das grandes casas de teatro no mundo.
É de se questionar mesmo porque o Zé não viajou o mundo nesses 50 anos de Oficina. Mas, querem saber? Ainda terá os próximos 50 para fazer o que não fez até hoje.
Eu não pude deixar de ressaltar a importância de Marcelo Drummond no Oficina nesses últimos 20 anos. Além de ser um ator engraçadíssimo, ótimo, maravilhoso, ele fez a “oficinamachine” (como Hamletmachine de Heiner Mueller) andar. Ovacionei-o de pé!
Hoje eu levo o Zé e Marcelo ao quartel general do Living Theater. E assim, os pingos são colocados nos devidos “is”. Ah, sim! Flora Sussekind estava na platéia. Uma teórica maravilhosa.
Estou sem palavras deliberadamente porque elas (redondas como as bolas) redundam uma festa orgiástica daquele tamanho, daquela proporção farsesca, comparada com o tamanho da barriga do Pereio ou os pênis e vaginas de tanta gente do coro. É melhor mesmo ficar com as imagens do fogo que queima no planalto central ou no centro do palco do Teatro Oficina em São Paulo e que frita nossos cérebros, assim como frita a carne humana passageira de atores passageiros, da vida passageira, de seres neoclássicos passageiros, dos clássicos em geral e da História que existe em todos nós.
Ah, vai ser uma delícia recebê-lo. Há anos não nos vemos! Escrevo, emocionado e orgulhoso, de Zé Celso e de sua companhia maravilhosa de atores “reais”, nobres, engraçados, farsescos, berrantes, bacantes, na boca do lixo, na boca de cena do teatro aberto ao berro do mundo, ao grito para o mundo: esse mundo que não pára nunca de estar no caos.
Então, eu pego os dois no aeroporto, o Zé e o Marcelo, e os trago aqui em casa para começar uma longuíssima conversa que terá prosseguimento com o testemunho do público no Theater Lab (informações aí em baixo). Zé é o grande artista do teatro, de todos os teatros, de todas as formas de teatro, dos “Sertões” até Schiller, e faz um Hamlet que eu chamei de “O maior Espetáculo da Terra”. E era mesmo. Raramente fiquei tão emocionado em teatro. EVER!!!!
A premissa do Zé em teatro não precisa ser explicada. Como o pessoal aqui vai receber o DVD das “Bacantes”, não sei. São entendimentos e compreensões distantes, já que a carnavalização e a antropofagia não fazem parte (culturalmente) do cotidiano cultural americano. Mas Nova York não é a América, propriamente. A Antropofagia aqui se dá em outro nível: é política. É a fagia mesmo, a do ataque bélico. Não a do ‘happening’, que Oswald de Andrade gozoso misturou na semana de 22, e nem aquela que Julian Beck despiu como se fosse o “Nu Descendo a Escada”, de Duchamp.
Com Zé Celso quero poder enxergar o fantasma, os fantasmas ideológicos que existem em mim. Ou melhor, quero poder enxergar os denominadores comuns que nos unem. Por que falei em fantasma? Porque o pai assassinado de Hamlet era um fantasma e Zé Celso é o pai do teatro brasileiro ainda VIVO e muito vivo, o que talvez nos torne um tanto quanto… Mortos. Na verdade estamos todos imobilizados em nossas ações, como o príncipe dinamarquês. E acho que no “Q&A” (perguntas e respostas), depois da exibição do vídeo, vai rolar muito sobre quem somos, o quanto valemos além das palavras, palavras, palavras.
O Brasil é destaque, mais uma vez, na Imprensa mundial. Já quase cortamos nossas relações com a Itália, agora é a vez da Suíça nos dar uma surra.
Quinta-feira. Eu lavava a louça enquanto minha polaca assistia a GloboNews. “Vamp, venha ver esta matéria! Acho que tem brasileiro fazendo merda na Suíça.” Fazendo merda na Suíça? Eu nem sabia que Lula estava na Suíça. “Você deveria escrever sobre isso.” Não, chega de baixaria! O Gerald quer elevar o nível do Blog. Se eu escrever mais uma linha sobre lulistas, vou ser demitido…
Diogo Mainardi tem um jogo. Este jogo consiste em analisar toda tragédia que ocorre no Brasil e tentar descobrir onde está escondido o petista responsável. Ou irresponsável. Eu, o “Oráculo das Araucárias”, eu, o “Ivan Lessa da Rua XV”, sou mais ambicioso. Meu jogo se dá em nível mundial. Em toda e qualquer grande cagada que aconteça no Mundo procuro identificar onde está o brasileiro que a causou. Estou, inclusive, investigando uns prováveis bisavôs gaúchos de Osama Bin Laden. Tentando resolver mais esta charada e na esperança que a polaca esquecesse a louça suja, fui ao noticiário. Falava a Cônsul (Consulesa é a esposa do Cônsul, viu, Fátima Bernardes?!) brasileira em Zurique. Forte sotaque nordestino. Acusava o povo suíço de preconceito contra brasileiros. Como os skinheads sabiam que a moça era brasileira? A moça falava ao celular com sua mãe que mora em Pernambuco. Achei estranho. Normalmente se fala com a mãe que mora em Pernambuco pelo Skype. Não pelo celular. Não à noite, na rua, caminhando, debaixo de neve… A moça brasileira é branca. Passaria tranqüilamente por uma suíça falando com alguém em Português. Na pior das hipóteses, passaria por uma portuguesa conversando com algum Joaquim da vida. Mas não! Na versão da Cônsul brasileira, com sua longa experiência de dois meses morando em Zurique, tratava-se mesmo de um caso de xenofobia. De preconceito contra brasileiros. Contra nordestinos, só faltou acrescentar.
Não adiantou argumentar que todos os cortes estavam apenas onde a mão da suposta vítima poderia alcançar. Não adiantou o argumento de que seria humanamente impossível alguém fazer todas aquelas inscrições, tão perfeitas, tão simétricas, em cinco minutos, à noite, no escuro, debaixo de neve. Não, não adiantou argumento algum! Lá estava Celso Amorim, travestido de herói do povo oprimido, exigindo explicações do Governo suíço. Chamando não apenas o Governo, mas todo o povo suíço de xenófobo. Lula, é óbvio, também não conteve sua indignação. Disse que os suíços deveriam tratar os brasileiros da mesma forma que nós tratamos os estrangeiros em nosso país. Não acredito que o presidente se referia aos milhares de estrangeiros que são assaltados nas praias cariocas.
A cagada estava feita.
Aí o leitor “imparcial” poderia me questionar: “É Vamp, mas a culpa não foi do pai da brasileira?”. Deixe de lulice, estúpido! O pai fez o que todo pai que recebesse a notícia que ele recebeu faria. Eu faria o mesmo se soubesse que minha filha foi espancada por um bando de neonazistas. Faria de tudo para ajudá-la. E não me venha colocar a culpa na “mídia golpista”! A Imprensa cumpriu seu papel de passar a informação do jeito que a recebeu. O Governo brasileiro é que deveria procurar se aprofundar na questão antes de sair rosnando bobagens, antes de assombrar o mundo com seu complexo de vira-latas ufanista.
Fiquei pensando na imagem que o Brasil tem no exterior. Mudei de canal. Falavam num caso de canibalismo ocorrido no Amazonas. Preferi enfrentar as panelas sujas. -Polaca, se o telefone tocar, não atenda! Deve ser o Gerald anunciando minha demissão.
O Vampiro de Curitiba
PS. do Vamp: Pessoal, sempre que entrarem no Blog dêem “F5″ para atualizar a página.
Cena da Ópera “Moses Und Aron” (Schoenberg) dirigida por Gerald Thomas.
1998
*”MOSES UND ARON”, de Arnold Schoenberg, na Ópera de Graz. De longe o ponto alto da carreira de mais de 20 anos de Gerald Thomas. Com Arturo Tamayo na regência (um maravilhoso colaborador) e um coro extra da Letônia (totalizando 260 pessoas no palco), essa produção foi uma indignação. Custos? Pornográficos demais para se citar na recessão cultural de hoje. O cenário de Guenther Domenic foi um escândalo (especialmente na cena final, em que o monte Sinai se movia como uma aranha. No topo, o próprio Moisés, gaguejando, sem palavras, olhando para a decadência promovida por Aarão, seu irmão, abaixo).
Thomas ambientou a ópera em um estúdio de TV, como se fosse um programa de entrevistas barato como o de Jerry Springer, em que a platéia se manifesta o tempo todo, gritando, interferindo e assim por diante. Gerald Thomas fez um inventário do desconstrutivismo com essa ópera inacabada, colocando em cena todos os ícones da arte do século 20 (de Duchamp a Pollock, Koons, Warhol, Hélio Oiticica e Christo). A iconoclastia também foi a grande questão, simplesmente porque (por razões muito pessoais) Thomas acredita que o século 20 já analisou tudo o que tinha de analisar, destruiu tudo o que tinha de destruir e colocou sob uma lente de microscópio muito precisa todos os cacos do mosaico que possivelmente existiam. Os semiologistas franceses fizeram sua parte. Agora, como disse Karl Loebl brilhantemente em sua revista ao vivo no canal ORF, “Gerald Thomas muito inteligentemente encenou as conseqüências do conflito entre os dois irmãos e tudo o que pode ser lido no meio”. A produção foi elogiada como uma das melhores de todos os tempos e Nuria Nono Schönberg em pessoa estava lá e pareceu muito comovida com o que viu.
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BURN NOTICE – Uma nota achada num cruzamento perigoso!
New York – Caramba! Percebo que não escrevo artigo novo desde Londres, numa Segunda- feira em que a cidade parou por completo: neve, tudo parado. Até trouxe um exemplar de cada jornal e chega a ser engraçado: “FOREIGNERS , bloody foreigners”. Parece que a neve (a mais forte em 18 anos) e o despreparo são tudo culpa dos estrangeiros.
Virou um Monday, Bloody Monday, ou melhor, um snowy Monday. Todo mundo plantado em seus lugares e xingando um europeu do leste. Até os indianos e paquistaneses xingavam os europeus do Leste!
Mas deixemos a xenofobia pra lá. Outro dia me peguei mandando um alemão pra um lugar terrível, tipo Dachau ou Buchenwald. Logo eu! Numa discussão terrível e apaixonada sobre arte e comunicação apela-se e chega-se a denominadores comuns baixos, baixíssimos! Um horror!
Ontem, após dar uma aula na Julliard (atrás do Alice Tully Hall, onde fiz o “Flash and Crash Days” com as Fernandas em 1992), mal consegui atravessar a rua de tanto vento! Metáfora? Nada. Era o vento mesmo nos levando! Era o tempo real atacando nossas peles nessa temperatura quase primaveril, para essa época do ano, nessa Manhattan.
Louco para voltar pra casa e não para o hospital onde está Ellen Stewart e lidar com médicos e enfermeiras, cada um falando uma língua, cada um falando um dialeto, como se tudo viesse de Punjab ou de… sei lá. Estresse causa isso! O trânsito também causa isso. Vou jogar o celular no lixo! Pronto. Deve ser o início da cura, como disse belissimamente o Billl Mahr ontem no “Larry King Live”, logo antes de sabermos da notícia do crash do avião que levava uma viúva de uma vítima de 11 de setembro. Como falar sobre isso? E como não falar?
“BURN NOTICE” é o seriado mais legal, mais ágil e mais cínico da TV americana. Leva no USA channel e não em canal aberto (ainda). É impressionantemente ligeiro, deliberadamente charmoso, profundo quando quer ser, e diabolicamente romântico e semi-tropical, já que tudo é baseado na vida de um EX isso e EX aquilo e tudo acontece em Miami. Adoramos os rejeitados que dão banhos no sistema e ainda narram como se deve fazer pra construir armadilhas em torno dele.
“Mas a vida não começa hoje nem ontem”, eu dizia para os alunos da Julliard. Ria-se muito. E eu com eles.
“Não, a arte tem mil e dois precedentes. E nós, 44 presidentes!” Eles ouviam, num telão, um crítico ao vivo (Karl Loebl, da TV estatal ORF) fazendo uma crítica linda e comovente da minha encenação de “Moses und Aron”*, de Schoenberg (1998, Graz, Áustria), e é justamente aí que o MUNDO pára. Ah, sim: Quando é que o mundo pára? Quando precisamos que pare para uma reflexão do que fizemos. Quando tem gente em volta precisando de nós e nós precisando dela. Quando a arte de hoje virou uma cópia estranhamente boba da arte de ontem. Não, nada morreu. Mas está na UTI, assim como a Ellen.
Obama e o pacote de estímulo.
Não, de Obama eu falo mais perto de completar UM MÊS. Será que agüento? Será que meu coração agüenta?
“Burn Notice” é um seguimento natural de “Rockford Files” da década de 70, com James Garner, que vem a ser um seguimento natural do detetive Phillipe Marlowe, do escritor Raymond Chandler.
Onde as coisas começam? “Onde nós determinamos que elas comecem”, respondi para uma aluna. Senão enlouquecemos. Estão tentando traçar paralelos loucos entre Obama e Lincoln (sim, mesmo Estado, abolição da escravidão…) e mesmo com o pacote econômico de FDR. Mas não há paralelos. Existem cruzamentos. E, como nos mostram os heróis ou anti-heróis da TV, como Michel Western do “Burn Notice” ou James Garner do “Rockford Files” - como é da história da arte, como Duchamp e o próprio Schoenberg – cruzar verdades ou criar um futuro virtual pode ser perigoso.
Pior ainda: pode ser somente uma tática semântica. Pior ainda: pode ser somente uma arma de propaganda.