Importante artista e ativista da China fala à Folha sobre arte e política no país; chinês se recupera de cirurgia após apanhar da polícia
RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM (Folha de S Paulo)
O ativismo político do mais famoso artista da China foi parar nesta semana em uma sala de cirurgia na Alemanha.
Um mês após apanhar da polícia chinesa em um protesto e sofrendo dores de cabeça, Ai Weiwei, 52, precisou da intervenção do bisturi para conter um sangramento interno.
Ai lançou uma campanha para dar nome às crianças vítimas do terremoto do ano passado em seu país, depois que o governo abafou o escândalo das “escolas de areia”.
Morreram em escolas de construção precária 5.535 crianças.
O governo calou o protesto dos pais das vítimas, que foi encampado pelo artista. Seu popular blog foi bloqueado em maio. No Twitter, também bloqueado na China, ele postou fotos pré e pós-cirurgia, feita em Munique.
O aumento do confronto verbal e físico entre Ai e as autoridades chinesas coincide com o auge do reconhecimento de sua obra. Ele foi para a Alemanha abrir a exposição “So Sorry” (sinto muito).
Até novembro, a maior retrospectiva de sua obra está em cartaz no museu Mori, de Tóquio, com 26 trabalhos desenvolvidos entre 1994 e 2009. A exposição apresenta os interesses múltiplos de Ai, da instalação e fotografia à provocação política e arquitetura.
Ai é conhecido por ter participado na concepção do Estádio Olímpico de Pequim, convidado pelos arquitetos suíços Herzog e De Meuron, o chamado “Ninho de Pássaro”.
De sua prancheta saíram mais de 50 construções, entre edifícios comerciais, residências, restaurantes e até uma vila de ateliês para amigos artistas, no bairro de Caochangdi, em Pequim.
Serpente e fadas
Em Tóquio, sua obra mais recente é uma longa serpente formada por centenas de mochilas escolares e que dá voltas pelo teto do museu.
“Depois do terremoto, havia milhares de mochilas espalhadas, única lembrança das crianças. E a serpente, para os chineses, sempre indica o perigo que está à espreita”, disse Ai para a Folha na semana passada, quando já se queixava de dores de cabeça.
Sua grande retrospectiva em Tóquio, visitada pela reportagem, também apresenta vídeos e fotos da performance que fez na Documenta de Kassel, em 2007. Em “Conto de Fadas”, ele levou 1.001 chineses que nunca tinham viajado ao exterior para o evento artístico na Alemanha, acompanhados de 1.001 cadeiras no estilo da dinastia Qing.
“Ocidente e Oriente precisam se encontrar, com o medo e a curiosidade que isso implica”, diz. “Acho que os participantes acham que aquela pequena cidade encantada alemã é o Ocidente. Voltaram mais confusos, o que é bom para a imaginação e a fantasia”, brinca o artista.
As galerias da pequena Kassel tiveram seus dias de superpopulação com 1.001 chineses de um lado para outro.
Várias obras tratam da nova China. Duas grandes tigelas estão recheadas de pérolas cultivadas, como por venda a quilo. “O luxo, quando em excesso, fica banal”, diz. “A China de hoje é obcecada em ficar rica e o Partido Comunista está cheio de corruptos, que não sabem como gastar”, diz.
Dificilmente a exposição será apresentada em Pequim. “Para a censura chinesa, arte só cabe se for propaganda ou inofensiva”, diz. “Mas sou otimista, algum dia vou exibir aqui.”
Ele não se empolga com os 60 anos da chegada do comunismo ao poder, que serão comemorados com pompa em 1º de outubro.
“Se eles não têm coragem de concorrer em eleições, se os burocratas estão ricos, se nosso povo é pobre, não há o que comemorar. Deveria ser tempo de silêncio, de reflexão.”
Ai só celebra o fim da bolha da inflacionada arte chinesa, graças à crise econômica internacional. “O mundo da arte como um todo precisava dessa chacoalhada. É uma lição para novos comportamentos; tomara que não só na arte.”
No Twitter, ele disse ontem que vai se recuperar logo. “Sou um artista bem-sucedido, posso me tratar bem. Milhões recebem o mesmo tratamento da polícia, mas sofrerão essas dores pelo resto da vida.”
———————————————————————————————————–
ANÁLISE
Arte e política inseparáveis
MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL
Ai Weiwei tem uma concepção muito particular do que é ser artista. “Acho que todo artista é um ativista e um bom ativista pode ser um artista”, disse no mês passado.
No caso de Ai, a definição não é um jogo de palavras. Arte e política -especialmente a política de terra arrasada da ditadura chinesa em relação à tradição- são polos inseparáveis de sua obra. A graça do trabalho dele é que a política não elimina as leituras infinitas da obra, não é o panfleto de um sentido só.
A história pessoal de Ai talvez ajude a entender essa concepção de arte. Quando era criança, seu pai, um dos grandes poetas da China moderna, foi mandado para o interior para limpar latrinas -era um castigo que visava reeducar a família “burguesa”, nos tempos da Revolução Cultural (1966-1976).
Após cursar cinema em Pequim, Ai conseguiu uma bolsa para estudar na Parson’s School de Nova York no início dos anos 1980, quando a cidade fervia com novos artistas, bandas punks e new wave e toda a arte conceitual dos anos 60 estava ao alcance das mãos.
Não é por acaso que um dos trabalhos de Ai cite frases de Marcel Duchamp, o artista que redefiniu a arte no século 20 ao transformar objetos ordinários em arte, e de Mao Tse-tung, o ditador que tirou a China da Idade Média.
É com esse mundo díspar, que equilibra Duchamp e Mao, que Ai faz o seu acerto de contas particular. Vem daí, talvez, o peso dramático de alguns dos seus trabalhos -e drama era tudo que a arte conceitual e o dadaísmo queriam matar. Ele faz trabalhos com mochilas de crianças mortas num terremoto, com madeira de templos budistas de mil anos que foram demolidos por ordem do Partido Comunista, com pés de imagens budistas destruídas. Usa tijolos de casas do século 14 que foram derrubadas em Pequim no ano passado para a cidade abrigar a Olimpíada 2008.
Para quem estava acostumado a uma certa assepsia da arte conceitual, é uma porrada. Para quem acha que assuntos mundanos e de interesse imediato não deveriam ser tratados pela arte, é um lembrete de que tudo pode ser arte; só depende da ação do artista.
O rigor formal é uma das estratégias que Ai usa para fugir do panfleto. Tudo é muito simples, mas quase nada é de entendimento imediato.
A faceta ativista de Ai não se restringe à arte. Ele cutuca o autoritarismo chinês em seu blog, no Twitter, em exposições que age como curador ou ao criar um bairro de artistas independentes em Pequim. Quando o governo chinês bloqueou seu blog, ele se recusou a continuar a fazê-lo nos EUA. Queria falar com os chineses. É por isso que virou um dos mais fortes candidatos ao exílio. A China não tolera dissidentes com seguidores.
Europa, em algum lugar (não aguento mais) – Calma. Não fiquem nervosos. Não serei daqueles que participam da teoria da conspiração que diz que Neil Armstrong nunca colocou os pés na Lua porque tal missão nunca houve e que tudo não passou de um filmezinho rodado num estúdio do Texas, longe de Hollywood, dirigido, na época, por um razoavelmente jovem Stanley Kubrick que, de tantas ameaças para NUNCA revelar o fato, acabou se refugiando na Inglaterra, morrendo de ódio da “pátria materna”.
Claro que não: ameaças assim, se fossem verdade, acabariam virando presunto no East River ou em San Fernando Valley.
Não, não serei um daqueles que defenderá a tese de que aquela missão lunar era mais uma arma de propaganda na Guerra Fria contra os soviéticos na corrida do ouro pelo espaço! Não.
Afinal, I’m a proud American e tenho que estar orgulhoso de tudo aquilo. Mas… ok. Digamos que, mesmo com as sombras enganosas no chão, vindas de várias fontes (quando o sol seria a única) e tantos outros erros… No que deu aquilo tudo? No que dá o programa da Nasa, que custa milhões e milhões de dólares? Não sou contra, sou a favor. Inclusive gostaria de ser passageiro de um desses space shuttles.
Mas morreu Walter Cronkite. Esse, cuja voz atravessou todas as décadas. Foi a voz dele que ouvimos quando JFK foi assassinado e foi ele que chorou abertamente diante das câmeras da CBS News, assim como foi ele que repetiu as palavras de Armstrong “foi um pequeno passo para o homem, mas um enorme salto para a humanidade”. Cronkite, o pai dos âncoras americanos, não sobreviveu para ver esse dia, o dia da comemoração do Tanto Faz.
(Fabi Gugli, em “Luar Trovado”)
Sempre fomos obcecados pela Lua. Afinal, fica esse “negócio redondo” pendurado ali de noite, às vezes gigante e amarelo e misterioso e… perto. “Pierrot Lunaire”, de Arnold Schoenberg (foto acima) foi algo que montei, faz uns dois anos. Coloquei o cenário na lua, vendo a terra, assim como havia nos prometido na década de oitenta. Reagan, precisamente. Os presidentes com suas mentiras. “Teremos um entreposto na lua, onde as pessoas poderão passar a noite, e um shuttle disponível para passageiros”. O único progresso que tivemos na aviação foi um retrocesso: o único supersônico que voava comercialmente era o Concorde, e ele foi retirado de circulação. Estamos de volta aos vôos mais longos e desconfortáveis.
Ah, e o que mais? Do ponto de vista sociológico: Woodstock , realizado lá pelos dias 17 de Agosto de 1969, e mais três dias (ou seja UM MÊS após a pisada do homem na lua), representou muitíssimo mais no campo do comportamento, da conquista das nossas liberdades, etc. E custou bem menos. Ah, e aquilo aconteceu. Como eu sei? Porque peguei o último dia daquela lama deliciosa.
(Walter Cronkite, o anjo americano)
Walter Cronkite dizia que a coisa mais fácil é entrar numa guerra, a mais difícil, sair dela. Tendo se aposentado e passado o posto para o “durão” Dan Rather (que também já dançou), ele virou uma espécie de ‘father figure’, uma espécie de voz da razão para a América. Ou seja, o que Johny Carson era na comédia, Cronkite era na vida política. E era um extremo crítico do governo Bush.
Michael Jackson também não sobreviveu à data, já que ele foi o criador do “Moonwalk”.
Tom Wolfe estava certo: o mundo (the race: a corrida) pelo espaço é tão cínico quanto a fogueira das vaidades. “Quem ficou com os melhores alemães do terceiro Reich?” – referindo-se aos cientistas e “rocketmaniacs”, como Werner Von Braun, pai das V2 que bombardearam parte de Londres e outras partes da Inglaterra. Passada a guerra, ninguém estava interessado em gênio cientista nazista morto: queriam eles VIVOS!
A guerra fria estava em seu início. A disputa pelos “melhores alemães” estava acirrada. Os USA ficaram com Von Braun e por isso… a Lua? Talvez? Agora já estamos em Marte e temos um Hubble com tremendos problemas (mas fotos ótimas).
Entendo a nossa fascinação com o Universo. Claro que entendo. Morria de medo dos programas do Carl Sagan ( we’re just a billion of a billion of a billion of all this). Sim, somos, como diria meu mestre irlandês: uma “speck of dust”. Uma poeirinha. E olhamos o céu escuro, através de nuvens escuras e nos convencemos de que existem forças superiores e que teremos outras vidas e que não estamos sozinhos.
É isso. Acho que estamos em busca de irmãos. Somos os terrestres solitários. Mas se somos tão solitários, por que não somos mais solidários? Como “humanidade” não temos jeito! Não conseguimos um único dia de paz, seja em termos de terrorismo, de roubo, de sacanagem com o outro. Seja o mundo de mentira que despejamos sobre quem está em volta, ou as mentiras que recebemos de cima, criando esse iceberg que se derrete lentamente com o aquecimento Global.
Então é por isso? Tentamos achar alguém aí na imensa escuridão, que não acaba, para declarar guerra ou entendermos o que já fomos ou o que seremos? Ou para, finalmente, entendermos o quanto tempo perdemos brigando aqui nesse planeta? Coisa, aliás, que em Woodstock já havíamos descoberto em três dias de pura paz e amor.
G20 (à distância, de New York): Michelle Obama está se tornando uma espécie de replacement (linda, inteligentérrima e elegante que é) de Lady Diana. Ontem, em Londres, o que se viu foi uma família REAL cumprimentando a outra família REAL. E os tablóides que não cobriam a porradaria na “City” (Bank, etc), comparavam ela à Jackie Kennedy, ou à nova princesa, cuja morte em Paris até hoje é envolvida em mistério.
Confesso uma coisa: não, não confesso nada. Uma convenção enorme dessas não passa de um show. O que importa lá são os pequenos encontros. O “tete a tete”. O resto é a chamada “photo-opportunity”. Não muito diferente do teatro. São aquelas fotos que a gente tira ou que tiram da gente para publicidade: nada mais constrangedor do que foto posada. “A Po(u)sada das Fotos”. Poderia haver uma po(u)sada dessas. Ninguém iria alugar um quarto lá.
Aliás, o mau teatro tem vários quartos na “Po(u)sada das Fotos”. Político não é bom ator. Alguns foram bons e tinham assinatura: Churchill, por exemplo. Outros foram os maiores canastrões da História: Hitler, Stalin, Franco, Pol Pot, etc. Por acaso, canastrão mata, trucida, tortura e tem prazer em ver a morte lenta. O melhor político de todos: Chaplin.
O Presidente Obama, ainda ontem, pediu para que os líderes mundiais focassem numa solução (falando sobre o colapso financeiro), em vez de ficarem apontando dedos ou tentando culpar esse ou aquele (Bush, Reagan, Clinton ou seja lá quem for). “É o sistema em si que está podre, os bancos deveriam nos proteger”, dizia Brown. Ora, Gordonzinho! O sistema é TODO ele baseado em ESPECULAÇÃO, darling, haven’t they told you that? Proteger? Sério?Investimento é para proteger ou para satisfazer a “ganância daqueles que JOGAM?”
Um dia antes da chegada de Obama, Brown dizia isso. Depois desembarcou Michelle Obama e o Reino Unido se calou, os queixos caíram e Brown (ainda atordoado com os olhos azuis de Lula) desconversou diante de Obama. É, o discurso era completamente outro. Quase um Rei Claudius diante de um Polonius. Já não sei mais quem está tentando abafar as mentirinhas de quem! “UM MERCADO CONSUMIDOR FAMINTO”, falava Obama, dizendo que provavelmente não se voltaria a isso tão cedo. Confesso que… Confesso que nada! Nada.
Na verdade o pau quebrou. O G20 ainda nem havia começado (ontem) e a “Obamatrona” já estava a mil por hora. Era encontro com presidente da China, Hu Jintao, e o da Rússia (estamos em plena guerra fria de novo, negociando ‘redução de armamentos nucleares com os russos’, ai que preguiça!). Ah, sim, claro: o fatídico encontro com a minha queridíssima (bored to death) Queen Elizabeth, a rainha em Buckingham Palace. Mais entrevista coletiva, e uma caralhada de… UFA! Mas quem trinfou mesmo foi a Michelle. Só se falava nela na cidade. Só dava Michelle Obama! VIVA!
E os “street fighting men” (uma adaptação coletiva da música dos Stones mais linda que existe) tentando ser contidos pela riot police no distrito financeiro (ha, ha, o William Burdett Coutts e uma filial do Royal Bank of Scotland aos pedaços!). Uma parte da cidade em pompa e circunstância e a outra às pedradas. Ah, a minha Londres que amo! Tudo começa num clima pacifista.Fantasias carnavalescas e tal, até que um, um único joga um sapato e PUM. Vem todos para cima e a coisa explode. Meio bêbados na melhor tradição do hooliganismo ou do punk rock, o pau quebra, o sangue rola, a pedra rola e estão todos stoned!
Vamos fazer um breve exercício de memória: parem por um segundo: foram os bancos e os especuladores que causaram essa porra desse meltdown em primeiro lugar. Foram empréstimos acima da conta, dinheiro de plástico, passos mais largos que as pernas podiam dar… usando, como instrumento colateral, um instrumento complexo como… ah, deixa isso para os colunistas econômicos! Eu sou mais econômico que eles!
Não tem que ter nada de G20, porra nenhuma! Esqueçam essa besteira. Daqui a pouco cresce para G43 ou G59. Não tem a menor graça. Os grandes especuladores estão certos: agora está na mãos de 2: USA e CHINA.
Então, gente fina: é G2 !
E o resto volta para casa em classe econômica e bebe suco de uva de canudinho.
Enquanto isso, amo ver a Michelle dando banhos de elegância por onde passa! LINDA! LINDA!
Bem, hoje é dia de palestra de Zé Celso e eu no TheaterLab (ler post abaixo, por favor)
M.E.R.D.A. para nós.
E G2 para o mundo, gente intrusa! Deixe o Obama conversando com o Hu Jintao. O resto poderia ir alugar quartos na “Pousada da Foto Posada”.
New York – Tudo no Brasil começa em outro lugar. Tudo é imitado. Chega a ser irritante como nada é original. As pessoas me dizem (com dez, vinte anos de atraso), “agora no Brasiltambém já temos …”. Sim, mas até hoje, São Paulo não tem um metro que preste e não enterrou seus fios. Os postes não são somente risíveis. São deploráveis. Os postes são uma anomalia urbana. Há quem venha de “fora” (aliás, esse conceito de “fora” e de “dentro” também é muito peculiar) para fotografar esses postes e seus fios em plena paulicéia, com seus pesados transformadores, etc. Um horror!
Mas faço esse prefácio da imitação por causa desse Big Brother Brasil, essa catástrofe. Nem nome brasileiro tem. “Big Brother”. Sei! Não sabem nem quem foi George Orwell e esse “abestalhamento” monumental que joga o país meio século para trás. Olham a televisão bestificada para ver “quem está com quem”. Cacete!
Mas nem todos os realities shows no mundo são imbecis.
Top Chef e Project Runway são interessantes. Claro, dentro da medida do possível.
Top Chef é um entre tantos programas na TV americana que lida com a situação “Restaurante”: Cozinha, assistentes, frentista, garçom, etc. Julga-se entre os times participantes. Vão-se reduzindo o número dos que estão vencendo. Entramos na vida emocional deles. Aprendemos sobre a vida particular deles, sobre seus sofrimentos e ambições e, obviamente, tomamos partido e começa uma torcida fervorosa.
E como não poderia deixar de ser, odiamos os críticos: afinal, quem são eles? Bandas de rock? Modelitos de fashion? Um único crítico da Zagat ou da Vogue ou Vanity Fair? Unfair.
No final de uma rodada de programas, a equipe de quase vencedores é trazida para New Orleans e a challenge é que se façam pratos ”cajum”, ou seja, da cozinha creole/francesa, apimentados (coisas do Sul dos USA). Enfim. Não importa. O que importa é que o julgamento é rigoroso e que, no final, sairão equipes ducaralho desses programas. Ambiciosos, talentosos e hábeis. Às vezes, futuros gênios da cozinha.
O mesmo acontece com “PROJECT RUNWAY” (tradução possível seria: Projeto Passarela) onde a mesma coisa acontece com jovens que virarão estilistas, costureiros, desenhistas como o Galiano, Herchcovitch, McQueen, etc. As equipes são levadas para as lojas de gente famosíssima como a Furstenberg e é dado o start no cronômetro: eles têm 3 minutos para pegar o quanto tecido quiserem. Depois, mais 3 horas, ou sei lá quanto, para modelarem algo em torno de um tema ou uma época e está cada um por si: de novo, aprendemos um pouco (através de entrevistas individuais) quem é quem, de onde vieram, o quanto são ou não ambiciosos, e no final temos um “winner” para a próxima etapa. Ah sim, tanto no Top Chef quanto no Project Runway, participamos das discussões entre os críticos. Ficamos a par dos critérios de eliminação ou de adoção, etc.
Já o mesmo não acontece na política ou no que é publicado a respeito de resoluções políticas! Por exemplo: a queima de pneus! Sempre queimam pneus. Por que isso, não sei. Mas virou um símbolo! Será que se comeria um pneu queimado, com o molho apropriado? Oficiais americanos afirmam que têm a prova de que existem links diretos entre o Talibã e o Paquistão. Dizem que vem de informantes confiáveis e de “electronic surveillance” (aquilo que George Orwell descrevia como sendo Big Brother, já que ninguém nunca pode provar). Está ai! Os militares paquistaneses e os líderes civis, ambos negam publicamente que tenham qualquer conexão com esses grupos militantes. Ha! Como provar qualquer coisa? Nada prova nada! Então se invoca “electronic surveillance” e pronto. Não resta mais dúvida numa possível próxima invasão militar e sua justificativa perante o Senado. Oh, Jesus!
Vamos voltar pro Top Chef? Não. É bonitinho e tal, mas depois de ver o cara ou a menina tremendo, montando o peixe que já caiu do prato quinhentas vezes e o doce que cozinhou demais e fracassou, que diabos!!!!! Queremos mesmo o quê? Investigar as centenas de incógnitas que ainda permanecem obscuras no verso da nota de um dólar? NÃO, não, não! Deixa aquela pirâmide cortada com aquele olho que emite raios (linda), pois é aquela nota que rege as regras do mundo: desde os pneus queimando até quem vai ganhar o Top Chef ou se o Drug Lord da Rocinha, agora alojado na ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, irá sobreviver ou não!
Olha, uma sugestão: Vamos investigar a vida de Freeman Dyson.
Quem é? O que faz? Venham-me com as respostas. Estou exausto ou então… fica para o próximo artigo, isso é, se não me colocarem num desses eternos pneus que queimam ou se um Top Chef da vida não resolver fazer um prato de inverno meio primavera intitulado “Salada de putos, veados e vagabundos regados a balsâmico”. Ah, estaria me banhando de balsâmico de Modena agora, se o Top Chef fosse gente boa!
– Confesso: Eu tenho problemas quando saio de NY ou Londres. Quando ainda estou no primeiro mundo mas vejo todos de shortinho e sandalhas havaianas… algo está errado. No entanto, sempre volto pra cá. Fazer o quê? Bem, o fato de darem todos os prêmios para um ator (coadjuvante) recém morto é bem indicativo de uma cultura desesperada. Sim, desesperada.
Os “Academy Awards” estão passando agora na ABC, mas não estou vendo. Geralmente vejo. Geralmente me divirto. Mas, sinceramente, visto desse ponto de vista estratégico da terra de Juan, Jose, Hidalgo essa América Latina toda misturada a essa Tel Aviv se casando na praia (sempre na praia) – e trabalhando ao mesmo preço que a meninada do Slumdog Millionaire – as coisas não me interessam mais.
Sei que vocês estão apressados. Para vocês aí no Brasil já é praticamente Segunda-feira de Carnaval. Eu só penso na ‘minha’ Mangueira. Espero que ela ganhe, mas nem os jornais brasileiros online tenho lido.
Fato curioso: tendo conversado com alguns ultraconservadores Republicanos que votaram naquele velhinho de 71 anos oponente do Obama (cujo nome nem me lembro mais) sobre os primeiros 30 dias do nosso novo presidente no poder, todos eles se mostravam extremamente entusiasmados.
Estranho, né? Já que estou num Estado conhecido por ser tradicionalmente Republicano e refúgio conhecido de Cubanos no exílio, etc…
Mas mais estranho ainda são os franceses que inundam a cidade e pedem Evian ou Perrier. Ou os Italianos que pedem San Pellegrino ou Panna. Ou os Japoneses que vão comer sushi com Sapporo no Delanos. Ou todas essas nacionalidades que vão no Joe’s Crab Córner e ignoram a tradição do lugar (Stone Crab) e pedem um bife ou uma lagosta vinda do estado de Maine (nordeste daqui!!!!) Será que o brasileiro chega aqui e pede uma Minalba? Ou uma água Prata?
LIMPAR para SUJAR
Ouvi essa pérola de uma chambermaid do hotel, num leve sotaque haitiano. “Rehab pra esse pessoal de Cinema é como essas toalhas sujas que arrastamos pra fora dos quartos todos os dias. É o mesmo ciclo todos os dias. Limpamos as toalhas e deixamos elas frescas e dobradinhas nos quartos dos hospedes todos os dias e, pra quê? Só para recolhermos elas IMUNDAS no dia seguinte.”
É, Rehab é mesmo uma ilusão.
São aquelas toalhas ricas que entram. Algumas não saem. Outras saem e ficam limpas um tempo. Outras voltam para a lavanderia logo, logo. Miami é um dos lugares onde isso está escarrado na cara!
Tenham um ótimo Carnaval!
A estimativa para mortes por overdose para esse fim de semana em Miami: 25 jovens entre 18 e 25 anos e 10 assassinatos relacionados a drogas.
Gerald Thomas
PS: Parece que os espíritos todos se retiraram. Foram-se. Quero dizer, os de LUZ. Aqui embaixo somente os EXÚ! Os outros só voltam na Páscoa. (minha versão: O QUE ELES QUEREM MESMO, SÃO OS OVOS DE CHOCOLATE DAS CRIANÇAS!!!!!! ninguém me engana não!!!!!)
NEW YORK – Eu sei que não é fácil viver afastado do mundo. Sei como é difícil “tentar” estar envolvido e, no entanto, não estar. Imagino como deva ser enfurecedor.
Digo, frustrantemente enfurecedor. O conflito em querer ter o poder e não tê-lo é difícil. Olhar para as grandes nações do mundo e sempre ter que imitá-las, importar seus produtos, “fazer tudo igual, mesmo com anos ou décadas de atraso” acaba virando um recalque. Sim, um furor de racalque.
Do que eu falo? Desse blog, óbvio. E de alguns comentaristas e do Brasil como país, como nação, sempre tentando meter seu bedelho em tudo. Digo, opiniões impressionantes a respeito de tudo, quando não sabem nem onde fica a porra do Yemen, ou sua história.
Uma nação conquista sua história com INDEPENDÊNCIA, sangue, e formula sua CONSTITUIÇÃO através de uma, duas, três ou mais Revoluções. São sanguinárias essas guerras internas, os conflitos internos, e, principalmente, a luta que se trava entre grupos de interesses e a moral da grande maioria silenciosa e os os direitos civis, e a liberdade INDIVIDUAL vai ganhando um preço! Um preço alto.
Poucos de vocês (desculpe se os insulto) têm vida vivida (empírica)em terras estrangeiras de PRIMEIRO MUNDO e tudo que conhecem já lhes chega em segunda mão! E vem destilado, babado, cagado, amerdalhado, assim como os (des)editores bem entendem, já que ninguém entende porra nenhuma: é sentindo o cheiro das esquinas e comprando no coreano que fica aberto 24 horas e cortando legume na calçada de NY que se conhece uma cidade, e não pelos seriados de TV.
Resumido: Vocês aí no Brasil discutem e se arrastam, mandam “Ministro” (eita demagogia populista de merda) para “mediar” a crise entre Israelenses e Palestinos (óbvio que o cara não chegou nem perto ou sentou em poltrona alguma… ). Enfim, o Brasil é um país que se ARRASTA há décadas, há séculos, mas NUNCA CHEGA LÁ. É o tal GIGANTE DOPAMINADO, dopado. Antigamente, dizia-se “adormecido”.
Hoje (antes isso não fosse verdade), infelizmente, não tenho mais esperanças em que ele acorde!Ou roubos, a malandragem instituídas e a…
A CULTURA do COITADINHO… me ouviram? A cultura que apadrinha o coitadinho…
E que, na verdade, ODEIA O VENCEDOR, mas adora dar um tapinha nas costas daquele que PERDE, porque se identifica com aquele QUE PERDE…. gente… que merda! Que merda!
E, no entanto, vocês acham que sabem alguma coisa sobre a Commonwealth Britânica ou como os EUA estão enterrado até os dentes em todos, digo TODOS os conflitos Regionais MUNDIAIS porque, dede Reza Palevi até o Saddam Hussein, até Bin Laden, todos foram,de uma forma ou de outra, oportunizados por uma administração da Casa Branca ou por outra para conter os Russos ou os Iranianos ou os não sei quem, dependendo do jogador de xadrez da hora e de quem estava com a rainha na mão certa.
O Brasil não está nesse meio. Não é um jogador mundial de política! É O PAÍS QUE DETESTA O (assim chamado) “IMPERIALISTA” . Amam nos odiar (me coloco agora como americano, apesar de ser brasileiro também!), mas DEPENDEM DO CONSUMO de produtos importados dos poros até o CHUÍ (Marilena inclusa).
O BRASIL é um país que acaricia o PERDEDOR, é um país que tem ÓDIO do resto do mundo que ATROPELA a economia globalizada por pura falta de competência! Até a India está na frente e a Coréia do Sul, por exemplo… ah, essa já deu o pulo do gato há tanto tempo que exporta tecnologia!
A única coisa sobre a qualvocês podem MESMO ( e com AMBIÇÃO de Phd!) é sobre a PORRA DA NOVELINHA DAS 8, DAS 9, DAS 10, DAS 11, DAS 12, DAS 13, DAS 14, DAS 15…
Ou sobre a impunidade dos salafrários que não vêem o olho da Justiça NUNCA porque num país que não se auto-respeita não existe JUSTIÇA! Existe JUSTIÇAMENTO, ou como dizia-se nos porões do DOI-CODI, “desaparecimento”. Mesmo nos anos Bush que, graças a deus tem 4 dias contados, a pior prisão (Guantânamo) não rivaliza com uma delegacia de polícia comum em, sei lá, preencha a lacuna!
Recalque brasileiro por não fazer parte do G8, do G9 e querer inventar um G20 ou cadeiras como um idiótico Sarkozy sorridente aterrisando nas praias cariocas afirmando que o Brasil deveria fazer parte do Conselho da ONU? Que porra de ONU !Talvez a melhor coisa que Israel fez foi bombardear aquela merdinha de esconderijo de ONU que não existe mesmo (moro do lado do prédio feio, ridículo e corrupto chamado UN, aqui na 1 Avenida!)
Fazer parte de uma nação de verdade é fazer parte de um VERDADEIRO RISCO. VOCÊS NÃO SABEM O QUE É ISSO.VOCÊS SEQUER TÊM UM EXÉRCITO DE VERDADE. MARINES, ESTOU FALANDO DOS MARINES OU DA US NAVY, CARALHO!
O que um brasileiro sente quando olha para um soldado marchando em 7 de setembro? Nada. Não sente nada. Vocês não têm história. E se têm, não se orgulham dela. Por isso grudam esses olhos vesgos na televisão e vivem a vida DOS OUTROS, vivem no NOSSO CENÁRIO, FINGEM ODIAR , MAS ENCHEM NOSSAS RUAS, NOSSOS RESTAURANTES, COMPRAM NOSSOS PRODUTOS E POR QUÊ?
PORQUE NÓS INVENTAMOS TUDO!
Basta um mero exemplo para explicar a miséria estúpida em que vocês vivem: olhem o metrô de São Paulo e olhem o tamanho de São Paulo. E olhem a data dos metrôs das outras capitais mundiais. Não preciso dizer mais nada, preciso?
Evocês são um bando de reclamões opinativos.
Ociosos, retóricos, opinativos. Merecem um divã com pregos ou espinhos! Ah, e antes de me virem com respostas levantadas pelo Google (inventado aqui), lembrem-se que TUDO surgiu aqui, a não ser Confúcio ou Sófocles. Até a Bossa Nova veio do Jazz e o Chorinho veio do Blues, seus racistas inconformados com a terra que não brota. Só queima, queima, queima e entra em vossos pulmões para virar, digamos assim… rancor cancerígeno.
Gerald Thomas – NEW YORK, 15/01/2009
(O Vampiro de Curitiba na edição)
16/01/2009 – 16:34
Enviado por: Jose Pacheco Filho
Diverti-me tanto esta tarde ao ler todos os comentários já postados que estou pensando em continuar ficando sós na janela e apreciando.
Salvo brilhantes exceções a maioria confirma as palavras do Gerald.
Nem ao menos param para pensar no que escrevem e mandam para a moderação as asneiras escritas. O pior é que talvez se julguem os verdadeiros donos da verdade.RsRsRS.
O Gerald é e nasceu para ser teatrólogo. Seus textos são como peças que sua mente vai criando e usando o material que ele recolhe no dia a dia.Deve servir de tudo.Pessoas,tipos ,situações,acontecimentos e falas.E aqui no blog,principalmente as falas que são enviadas por escrito.
Gerald ao que eu saiba não é um ator. É antes de tudo um criador e diretor.Dirige e exige que o ator faça exatamente como ele imagina que deva ser a fala e principalmente a postura do dirigido.
Este blog funciona para ele (penso eu) como um celeiro de astros aos quais ele (o autor-diretor) conduz para o lado que ele mesmo deseja.
Seu amor pelo Brasil é evidente e só não percebe que não deseja enxergar senão somente seu ponto de vista pessoal.
O artigo forte lido as pressas leva os exaltados nacionalistas de araque e desejarem jogar pedras na Geni de plantão (no caso o Gerald) e mandam brasa destilando seus recalques e ódios contidos.
Calma porra. Pense antes de vomitar suas fraquezas e inibições.
Leia com auto-critica.Veja o lado bom da critica.
Só critica quem ama. Quem não ama despreza e esquece.
Quem critica com honestidade deseja consertar e melhora.
Gerald está tentando construir e não destruir.
Quem gosta de destruição é terrorista.
Ataque o terrorista. Talvez aquele que está dentro de você.
E aplauda quem merece.
Eu aplaudo o Gerald e outros que aqui souberam ler a mensagem que um autor e diretor escreveram.
Obrigado.
Pacheco.
___________________________________________
Sim, Reinaldo Pedroso, se eh pra me ofender, FORA CARA. Fora.
Contrera: tenho que ler teus comentarios com calma, porque te adoro e tenho que ler com calma e te responder com calma.
Mesma coisa com Tene Cheba que me entendeu mal. Desculpe Tene, acho que vc nao me entendeu direito e um emai pessoal ira resolver isso.
Ezir, mesma coisa.
Quanto ao resto, estou exausto. Vim de uma reuniao e tenho que resolver o que fazer aqui: estamos , OBVIAMENTE, num impasse.
Obviamente num impasse.
alias, desde que a Ellen Stewart me falou “what is this thing you’re writing for….a blog? You must keep on writing for the theater.”
e eh isso mesmo que eu vou fazer.
Paulo Francis – certa vez – falou assim: “Nao vou ficar recebendo ordem de fedelho!” Ele se referia a um periodo da Folha.
Passou. Francis evoluiu. Virou outra coisa.
A Folha evouliu , virou outra outra coisa.
Hoje me perguntaram : “Voce nao vai escrever sobre o aviao que caiu ai em NY?”
eu respondi: NAO SOU REPORTER!!!
me perguntaram em seguida: Voce vai pra posse do Obama? Vai escrever?
Vou pra posse do Obama sim: ESCREVO O QUE QUISER. SOBRE O QUE QUISER. OU QUEBRO MEU CONTRATO COM ESSA PORRA AQUI.
Sim, escrevi um texto sobre o que muitos brasileiros pensam sobre o Brasil.
Se eu tivesse escrito um Texto sobre os Estados Unidos, ah ha ha ha ha ha, talvez os Petistas estivessem construindo estatuas pra mim hoje, de bronze, prata ou OURO.,
Querem saber? Hay gobierno, soy contra. Mas existem sim algumas nacoes mais bem resolvidas. Querem que eu meta o PAU nos rednecks e nos hillbillies daqui? Sem nenhum problema’
Alias, o blog, juntando com o do UOL, em 1 de fevereiro FARIA 5 anos. Ja nem sei o que eh NAO TER UM BLOG.
ENFIM, PASSEI UM ANO OU UM ANO E MEIO
METENDO O PAU EM JOHN McCAIN e todos os Republicanos
no GOP inteiro.
Sofri ate nas maos do Vamp, perdi leitores
Ganhei outros
“Fui livrado” de um site (gracas ao bom deus) de um site (gratuito) que opera – de operar mesmo, no pior sentido) da Florida, mas de brasileiros, da pior especie.
2008 foi um ano pessimo. Pro final foi ficando melhor.
Volto pras minhas encenacoes!
e pra um OTIMO ano Obama
e,
um mundo melhor: espero.
e, sinceramente?
com mais respeito. Um pelo outro. Onde quem le, entende que a leitura as vezes atinge o nervo que o escritor nao enxerga cirurgicamente de PROPOSITO. NAO EH PROPOSITAL.
Jamais trataria o meu leitor assim, propositalmente. Pra que? e Por que?
Nao faz sentido? Mas a critica dura? Ela eh valida sim senhor. E foi atraves dela que movimentos como a Bauhaus e os poetas concretos, os Maravilhosos irmaos Campos atravessaram propriedades inteiras de “wasteland”, ou seja, de terreno baldio…
que vem a ser…
justamente aquilo que o escrtitor ou o poeta nao esperam atingir (mas atingem ao que me parece) no momento de fragilidade UNICA ao se posicionarem perante ao mundo em CRISE num momento da virada crucial de suas vidas
A todo pessoal do IG que tem sido do caralho: meu muito obrigado. Muito obrigado mesmo!
LOVE
Gerald Thomas
Quando ouçocertos depoimentos eu simplesmente paraliso. Melhor dizendo, paralisava. Tenho uma arma: o teatro. E outra, a escrita. Mais uma, o berro. E mais uma: o voto: Ainda não completamos um mês desde que Obama foi eleito.
Foi nosso berro, nos EUA, contra tudo que achávamos que estava ruim, péssimo, escroto. Mas, mais que isso, foi um voto de confiança na mudança. Qual? Uma mudança radical de que os “Estados Unidos da Mente” (o nome de um espetáculo que estreei em 2004 no La MaMa, em NY, “The United States of the Mind, Anchorpectoris”) pudessem mandar à merda de uma vez por todas a sua imagem de racismo.
Hoje, dia da consciênscia negra, o Brasil se mostra mais racista do que nunca. Esconde seu racismo. Não somente é regido por brancos, mandado por eles, mas as cabeças ainda viram quando negros entram num restaurante chique ou quando uma família negra entra num Mercedez Benz ou num BMW ou Porsche.
Sim, vão me dizer o mesmo clichê que ouço há 4 décadas e, juro, não tenho mais saco: “blá, blá, blá, não é um problema de cor, mas sim de dinheiro e de educação, de cotas, classe social, disso e daquilo“: BULLSHIT, digo eu.
O que tenho ouvido, vivendo na ponte entre três países, EUA, Inglaterra e Brasil, é o seguinte: Está cada vez mais CHOCANTE a questão racial – pesando contra o Brasil. E deveria ser assim? Pensem, deveria ser assim, Claudia, Luz, Anna, Dynha, Mileny (8 anos), José Junior?
Não quero e não irei entrar em longos estudos sociológicos aqui. Isso aqui é um blog. Mas o Brasil chega a ser um ACINTE na questão racial. Declaram um dia da consciência do negro e acham que com isso alertam para algo. Que imbecilidade! Com isso, só fazem com que as pessoas, nós, os brancos azedos, alguns lotados da grana, planejem suas férias ou feriados alongados na quinta e enforquem a sexta, enquanto os negros subalternos, obviamente, terão que comparecer ao batente – como sempre – num regime quase praticamente “pré-pós” 1888, senão… RUA!!!!
Jean Michel Basquiat foi um dos maiores expoentes JOVENS da pintura americana dos anos 80. Morreu de overdose, mas continua sendo um ícone. Não quero fazer a longa lista, desde Colin Powell até Thurgood Marshall ou a própria Condy Rice ou Clarence Thomas, David Dinkins, Andrew Young, etc., ou de âncoras como Bryant Gumbell ou Sue Simmonse Ed Bradley (60 Minutes) que institucionalizaram muito antes do affirmative action a presença do negro na América. OPRAH WINFREY é a mulher mais PODEROSA do dia a dia da América. O livro que ela diz que TEM que ser lido será lido por 20 MILHÕES de brancos, hispânicos, negros, etc. E aí?
Minha lista poderia ser extensa se eu entrasse no mundo das artes cênicas (Sidney Poitier, James Earl Jones, Denzel Washington, Morgan Freeman, Lawrence Fishbourne, etc… Os altos salários de Hollywood). Dr. Martn Luther King: you did have a dream. We’re getting there. Malcom X, I still don’t know what to tell you, exactly. Jesse Jackson, Reverend Al Sharpton and Congressman Charlie Rangel, well… a new era is starting yes!
Dia da Consciência negra no Brasil pra que a brancalhada encha a cara? Não me façam rir.
No espetáculo que ensaio agora, no Rio, o ator (que acaba de se soltar do “pau-de- arara”, todo cheio de Hema-Thomas, quase cego, quase mudo, vai tateando o chão até que acha uma caixa de vinhos.
“UM BORDEAUX 1933!!!”- ele diz. “Que ano estranho!!” E bebe. E vomita. “Sangue, sangue humano. Sangue da ascenção!”
Continua tateando… e encontra outra caixa. Mais Vinho. Dessa vez um Barolo: “Um Barolo, 1945! A Queda! Numa mão, a ascenção, noutra a queda. Que curioso! Quanto sangue humano não deve estar contido nessas garrafas. Será que até o sangue de… ? Deixa pra lá.
Brasil, acorde: VOCÊ é RACISTA COM OU SEM FERIADO. O GIGANTE COMPLETAMENTE DORMENTE é um pais que adora ver negros no campo jogando ou no palco cantando ou na avenida rebolando e isso me leva a VOMITAR!
Graças a deus eu me orgulho, como não canso de dizer, de ligar a TV na CNN, ou na NBC ou CBS ou seja lá qual for, e ser DALTÔNICO e, chegando agora em janeiro, MORRER de ORGULHO de ter sido parte da campanha do meu presidente, Sir Barack OBAMA.
Se o Obama fala com o Berlusconi, mas não fala com o Lula, pensem:
A América chama “América” por causa do Américo Vespúcio. Ah, sim, quase ia esquecendo o Colombo! E, óbvio, a Itália fala “Euros”. Razões históricas são históricas! Raízes, descobrimentos, sorry: com gaffe e tudo, o “tycoon” da TV, e primeiro ministro da Itália, ainda comanda suas rédeas!
Lula vai ficar na fila, tsc, tsc!
Nunca vi ou li uma semana com tanta BESTEIRA escrita na imprensa mundial (exceto na dos EUA e na inglesa ou alemã!!!). “Superstar” disso e daquilo.
Superstar? Obama é formado em Ciências Políticas pela Columbia University e em DIREITO pela Harvard. E os analfabetos do mundo ou editores diletantes querem lhe dar “conselhos” de “como governar”. Por que será? Para que o mundo continue essa mesma merda em que se encontra? Alguma “political agenda” escondida por trás, seus espertinhos?
Quando um dos fundadores de um dos portais online me falou, no meu próprio apartamento, no Brooklyn (1996), que “em poucos anos não teremos mais jornais”, eu não acreditei. Agora rezo para que seja verdade. Pompa besta! Rezo para que esses escrotos da imprensa (quase toda ela marrom) sumam, desapareçam!
Quem sabe o público não migra logo pros blogs e esquece esses jornais, bem como seus pomposos editores e seus arrogantes opinadores?
Mudando e não mudando de assunto, olhem, ao fim do texto, o que um self made man consegue nos transmitir. Não, não falo de Obama, e sim de Steve Jobs, com legendas em português! Assistam só essa entrevista EMOCIONANTE.
Quando ele fala de “RITO de PASSAGEM”, morte, sucesso, fracasso, aproveitar esse momento (o “agora”)… e não aceitar conselhos de ninguém, muito menos seguir DOGMAS.
Não que com os blogs seja muito diferente da imprensa. Não que alguns blogs não sejam pura propaganda ideológica ou desculpa para descarregar dogma. Mas aqui berramos e não se paga a polpa da pompa! A pompa é descartável e a interação (pelo menos isso) é maior. Com direito DIRETO de resposta!
Pena que George Carlin, o comediante mais áspero dos últimos tempos, não tenha sobrevivido à essa eleição para ESCULHAMBAR esse besteirol de pompa que anda solta pelo mundo: todos querem DAR CONSELHOS A BARACK OBAMA.
O homem ainda nem sentou no Oval Office e os senhores edirores já lhe dão conselhos! Ora bolas, quem são vocês?????
Se alguém acha que pode aconselhá-lo, acho melhor sentar debaixo do Minhocão e conversar com os sem-tetos de Sampa!
George Carlin falava muito da falcatrua que dominava a mídia. Não entenderam? Então não me expressei bem. Falcatrua no sentido do pacto-corporativo-orgiástico-governamental-religioso: Sim, falcatrua no sentido orgiástico: a “orgia falcatruada” (falsa, encenada): trepar sem orgasmos, trepar para as câmeras, assim como o famoso beijo da novela, o beijo do cinema!
Editor de jornal deve pensar assim. Carlin estaria acabando com eles.
Querem saber? O público ria de nervoso do humor antipatriótico e agnóstico de Carlin.
Ser “do contra” faz bem a saúde. Não há duvidas. Mas dar conselhos, dá náusea. Carlin torcia a favor mas esculhambava, era áspero. Mas, isso, depois que o homem já tivesse completado 100 dias na Casa Branca, uma espécie de tradição americana. Ou como Cristóvão Colombo talvez dissesse e Vespucio talvez colocasse em seu caderno: “em 100 dias de Oval Office, O Presidente Obama está começando a limpar o lixo deixado por oito anos da administração anterior e, como Professor de Ciências Políticas e História da Lei, encontrou um velho testamento com uma pintura deixada numa das gavetas das galerias da West Wing… ela parecia um ovo colocado em pé.
Um ovo, um novo mundo. O meu ovo, meu novo mundo.”
Cristóvão Colombo.
Gerald Thomas
(Vamp, na edição)
PS: O vídeo com Steve Jobs está em duas partes, a segunda aparecerá automaticamente ao final da primeira, na janela a baixo.
+ O TEXTO DO GUZIK E DO FELIPE FORTUNA E O MAPA ELEITORAL AMERICANO APOS O DEBATE!!!!!
Não parece ser o que parece ser. Mas poderia. O que vocês viram, vocês não viram realmente. Péraí! O que vocês ouviram, vocês acham que ouviram. Ah, os debates. Ah, quem conhece a estratégia deles – right, Ben Stein? Right, Paul Begalla?
Quem articula os debates presidencias são os articulistas, os press agents, os lobbyists e os (….). Aquilo não é exatamente um debate e sim uma sinfonia dos “des-ditos”. Por acaso a peça que estou tentando montar chama-se, justamente, a “Sinfonia dos Des-ditos: Kepler, parte 1”
Ah, sim, Weather Underground. Deixou pro último momento. Pena que McCain não trouxe a tona o grupo Weather Report, aquele em que tocava o Wayne Shorter e, às vezes, um brasileiro, Doum Romão. Subversivos a ponto de terem tocado junto com um terrorista austríaco e outro um cantor e compositor de nome Milton Nascimento.
A coluna de dias atrás de Frank Rich, da Oped page, do N Y Times, estava ÓTIMA. Brincava em cima disso tudo mais que o Dario Fo brincava em cima do orgasmo adulto que escapou do zoológico.
Não, não assisti o debate. Está me fazendo mal ao fígado. Mas a enxurrada de telefonemas e emails de pessoas me contando detalhes é como se… Péraí! Como se nada. Nada mudou.
McCain está apelando, sua cara pelando, digo, Palindo. E não Sarah. A Cagada está feita. Do que se deduz: quem aponta o dedo (dedinho, como o do Lula) está perdendo. E os polls (pesquisas) confirmam isso. Só que não confio nem em polls e nem em poles (postes) (poderia falar algo sobre poloneses também, mas tenho muitos amigos em Varsóvia e em Cracóvia.)
Confio no dia da eleição! O resto é teatro, e teatro RUIM. Péssimo, aliás.
Pior do que esse que Pedro Cardoso tem nos mostrado com seu… falo moralismo, digo, falso moralismo.
Impostos, Impostores, health care, segurança nacional, o cara lá do Weather Underground (pra quem não sabe, não perca tempo pesquisando: não eram os subversivos que a mídia quer fazer parecer: eram cartoons da Disney que mediam a temperatura dos vagões dos metrôs de Londres quando garoava lá em cima!) E olha que McCain nem mencionou The BLACK Panthers ou o Pink Panther com Peter Sellers.
Poxa, acho que teria sido o máximo o nosso POW de plantão mencionar o seriado britânico THE GOONS (onde Sellers começou) junto com Spike Milligan!
Ah, sim, o weather no underground da Northern line anda “rather stuffy!”. Por que será?
Porque eles não gostam do desempenho do McCain. Os seios dele não dão uma boa foto pra página 3 dos tablóides britânicos.
Gerald Thomas
Top News
(Vamp, na edição)
Do Blog do Alberto Guzik:
Fui ontem almoçar com Gerald Thomas. Uma pessoa que amo e vejo muito menos do que gostaria. Ele tem uma agenda atrapalhada, eu tenho outra, então quando ele pode, eu não posso, vice-versa. Vai daí que há meses ele tem vindo regularmente a São Paulo, mais ou menos a cada 30 dias e a gente, que se adora, mal se vê. Desta vez marcamos o almoço vários dias antes e nenhum imprevisto impediu que encontrássemos. Foi meio atribulado por conta da escolha do restaurante. Queria levar Jerry ao Kawai, o japa aqui do lado de casa. Chegamos lá, lotado. Só havia umas mesas ao sol, naquele calor etíope de ontem. Não deu. Jerry disse que não queria almoçar, só tomar chá. Estava sem apetite, arrasado, problemas no trabalho. Lembrei então de um fast food japa que abriu aqui perto, na Augusta, o Yoi. A temperatura ali estava bem mais amena, apesar do barulho da rua. E havia mesas disponíveis. Ficamos lá. Temakis. Comi dois. Estavam bons. E conversamos muito. De nós, de trabalhos, de cidades, de blogs, da crise, da crise, da crise, de ética. Contamos histórias. E Jerry a certa altura observou que para além da depressão, com a qual está lutando faz tempo, ele se sente extremamente cansado. Respondi que sei muito bem do que ele estava falando, sinto a mesma coisa. Jerry respondeu que não acredita. E argumentou: estou trabalhando muito, dando aulas, mantendo o blog, ensaiando, atuando, escrevendo montes de coisas, entre as quais um romance cuja gênese ele acompanha desde o início, e que além de tudo minha aparência é ótima. Eu poderia ter retrucado, da mesma forma, que ele também está com excelente aspecto, pele saudável, olhos brilhantes, não pára de trabalhar e tem uma vida muito mais agitada que a minha desenvolvendo-se em três continentes. Em vez de levantar esses argumentos, disse que se faço tudo isso, é porque me ocupo, me deixo aturdir de tanto trabalho, justamente para não me entregar. Não sou um trabalhador feliz e ajustado. O que faço na vida é laborterapia, pra não pirar e viajar sem volta. Por isso não paro. E Jerry também não pára. (Ele me disse ontem que há décadas não tem férias, férias de verdade. Pelo menos nosso admito que levo vantagem sobre ele. Nessas últimas décadas tive férias e fiz umas viagens bem gostosas.) Bom, no meio da conversa, quando estávamos falando dessa dor que é viver, Jerry me olhou e perguntou: “Será que isso é coisa de judeus?” Páro e penso. Estou falando com um dos homens mais inteligentes que jamais conheci, um dos artistas mais brilhantes do nosso tempo. Não é improvável o que ele sugere. Nós dois, eu e ele, temos origens similares. Pertencemos quase à mesma geração (sou dez anos mais velho que Jerry), filhos de imigrantes judeus que escaparam do massacre nazista na segunda guerra, educados entre dois mundos, estrangeiros na terra natal, estrangeiros no mundo, sempre. Pensei na figura do judeu errante, do homem sempre em busca de um pouso, de um porto. Talvez essa minha melancolia, a tristeza do Gerald, sejam atávicas. Uma condição biológica que nos condena a isso. Será? É tão plausível. A coisa pode vir em nosso DNA. Sei lá. Terminamos o almoço. Jerry precisava voltar ao trabalho para tentar resolver os problemas graves que rondam seu projetado espetáculo. Eu tinha que dar um jeito de pagar contas que venciam, já que os bancos estão em greve. Acabei fazendo isso numa casa lotérica. Há décadas não entrava em uma. Mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez.
PS: Obrigado ALBERTO, SO QUE TEM UM ERRO AI. O MAIS INTELIGENTE EH VC.
LOVE
G
———————————————————————————-
POESIA E TÉCNICA: CAMPOS ALEATÓRIOS
Felipe Fortuna
Encontra-se na internet (e, portanto, ao alcance de todos) a revista MnemoZine, cujo número 4 é inteiramente dedicado a Augusto de Campos: www.cronopios.com.br/mnemozine/. Tanto por sua qualidade gráfica quanto pela pertinência do material reunido (poemas, artigos, depoimentos e traduções), o exemplar virtual de MnemoZine deve ser referência para as publicações literárias que se arriscam na rede eletrônica. Editada por Marcelo Tápia e Edson Cruz, e transformada em objeto multimídia por Pipol, a revista, expandindo-se em www, faz circular a obra do poeta, crítico e tradutor como jamais se pensou: a massa pode agora comer o biscoito fino que Augusto de Campos fabrica desde a estréia, com O Rei Menos o Reino (1951).
Mas a maior circulação do poeta concretista não é tudo: a revista também apresenta textos cinéticos e se vale de recursos sonoros e visuais que trazem à poesia concreta aquilo que não se encontrava na versão impressa em papel. É o que acontece, por exemplo, com os poemas “Osso” e “Intradução: Guillotine Apollinaire”, este último uma composição lúdica e bem-humorada, no qual até a página branca, quando se cortam todas as palavras, também é degolada. Fatos inesperados, escuta-se o poeta a interpretar “Chegou a Noite”, samba composto pelo pai, Eurico de Campos, que contém o verso paulistano “lá vem a gaze da garoa”; e ainda, como em diálogo, o próprio pai a cantar “Samba Concreto”, de sua autoria, no qual garante que num quadro (e não num poema, note-se) feito segundo os princípios do concretismo “havia 100% de expressão e sentimento”.
O importante conjunto de MnemoZine agora se junta à reunião de ensaios organizada por Flora Süssekind e Júlio Castañon Guimarães em Sobre Augusto de Campos (2004), concebida em torno de seis grupos temáticos, entre os quais “Poesia e Técnica”. Em vista das possibilidades abertas à criação artística pelas tecnologias digitais e pelos meios eletrônicos de divulgação, de que tanto se vale a mencionada revista literária, o tema “Poesia e Técnica” revela-se de fato produtivo para uma discussão sobre um aspecto da poesia de Augusto de Campos. Aproveita-se também uma coincidência: a professora Lucia Santaella escreveu um ensaio em MnemoZine (“A Invenção Viva da Poesia Concreta”) e outro ensaio no citado livro (“A Poética Antecipatória de Augusto de Campos”). Em ambos, defendeu a tese de que “a poética de Augusto de Campos é aquela que mais coerentemente permaneceu fiel a seus precursores como Mallarmé, Cummings, Pound, e à própria poesia concreta de que foi fundador e participante. Por isso mesmo, é a poética que antecipou e, no seu desenvolvimento interno, sempre em progresso, veio, ela mesma, desembocar na poesia digital contemporânea.”
É difícil aceitar a integralidade das afirmações acima. A professora aponta, primeiramente, o paradoxo da fidelidade de Augusto de Campos aos princípios ortodoxos do concretismo, que teria conduzido a obra à forma mais atual de poesia (e acrescenta: “por ironia inesperada para os críticos”). Lucia Santaella seguramente não considera o recorte realizado pelos poetas concretos, pela via do paideuma, para assegurar em Mallarmé, Cummings e Pound aquilo que tinha serventia às idéias fixas do grupo: apenas uma parte da obra, escolhidaà la carte. Ao mesmo tempo, persegue o tipo de evolucionismo histórico-literário criado pelo grupo de poetas concretistas – e não apenas por Augusto de Campos – para explicar a poesia que produzem. Sobre o autor, informa que “sua produção poética avançou pari passu,sincronizando-se com o potencial apresentado pelas novas tecnologias”. Por isso mesmo, mencionam-se as palavras “progresso” e “desembocar”: a primeira, com a noção distorcida de que se atingiu um patamar superior ou que o mais moderno é o melhor; a segunda, com a insistência num processo de desenvolvimento (que existiu na ilusão de todos os planos-piloto) que tem um resultado final ou um ponto de chegada.
Mais incongruente ainda é a afirmação de que Augusto de Campos produziu uma “poética que antecipou” a poesia digital contemporânea. Alguns poemas concretos, como “Osso” e “Intradução”, ganharam elementos de visualidade graças às novas tecnologias – mas, infelizmente, na velocidade e na direção que oferece o poeta ou o editor, e não mais nas que o olho do leitor captava ao abrir uma página. Do suporte do livro para o suporte digital, como se vê, há perdas e ganhos. O que falta na argumentação é um sopro de dialética: um artista ou um crítico deveria ficar alerta para a imprevisibilidade e mesmo para as mutações (e não o progresso) que as técnicas impõem sobre o ser em todas as suas atividades, e não apenas as poéticas. Ao tratar das interações entre tecnologia e literatura, Hugh Kenner, emThe Mechanic Muse (1987), soube interpretar que “a tecnologia tendeu a subjugar as pessoas gradualmente, forçando-as a um comportamento do qual não faziam idéia. E ela alterou os seus mundos, de tal modo que um datilógrafo de 1910 não poderia ter imaginado como a sua contraparte de 1880 costumava passar o dia.”
A tecnologia tem a capacidade de alterar os sentidos, sem perder ambivalências e casualidades. O objeto verbivocovisual, por fim, é um ato de criação com fundas repercussões para a literatura, e Augusto de Campos começou a produzi-lo com a tecnologia existente à época: primeiramente, os recortes de letras e palavras impressas nas revistas; em seguida, as folhas de plástico do Letraset. Tivesse escrito seus argumentos nos anos 70, Lucia Santaella afirmaria que o seu poeta antecipou a técnica do decalque a seco!
Por outro lado, talvez haja interesse em distinguir os poemas que, posteriormente, ganharam aspectos inovadores com o uso da técnica digital daqueles poemas que foram diretamente concebidos com os novos recursos. Aplique-se tecnologia digital, por exemplo, a qualquer um dos poemas visuais portugueses do século XVII – e decerto seria obtida outra antecipação.
O poema “SOS”, um dos mais bem realizados de Augusto de Campos, foi publicado emMnemoZine do mesmo modo como está impresso no livro Despoesia (1994). Consulte-se, no entanto, www2.uol.com.br/augustodecampos/clippoemas.htm: ali, “SOS” ganha cor, movimento e som, e se transforma, ao que parece, em outro poema, igualmente extraordinário. O que a tecnologia fez foi transformar ambos os poemas em dois objetos distintos, impulsionados pelos sinais de desespero e de solidão que acompanham cada um de nós desde sempre.