26/02/2009 - 15:48
New York – Tem datas que não nos falham. Nossos mestres, nossos grandes mestres, ou momentos como o assassinato de JKF, a crise dos mísseis, a foda do “Último Tango em Paris”, a queda do muro de Berlin e, por exemplo, o tiro que o ditador da Romênia, Nicolae Ceaucescu levou na frente das câmeras de TV. Para o espanto de todos, aquilo foi chocante. Mesmo para aqueles que, como eu, haviam feito demonstrações nas ruas contra o Nixon e a guerra do Vietnam e queríamos ver os Stalinistas todos atrás das grades, eu, um pacifista por natureza, fiquei assustado com aquele tiro.
Por que digo isso? Por causa do tempo/espaço onde estamos e ocupamos quando algo dessa magnitude acontece. Assim como a morte repentina e precoce do “monstro sérvio” Milosevic (numa cela em Haia), a morte de Ceaucescu me marcou porque eu ensaiava o meu “Sturmspiel” no teatro estatal da Baviera em Munique com um vasto elenco. Todos comentamos o evento naquele dia. Alguns extras eram romenos. Eu tinha uma namorada (mezzo soprano) chamada Ruxandra Donose, que vinha de Bucarest e cuja família havia sofrido nas mãos do ditador. E, no teatro, Andrej Serban, havia sido “resgatado” por Ellen Stewart, anos antes. Décadas antes. Ainda jovem. Senão, teria entrado nos fornos da ditadura daquele terrorista no poder.
Tudo isso pra introduzir um belíssimo artigo de Caetano Vilela sobre ARTE e ESTADO. OS DOIS não se misturam. Quando um quer entrar no outro não HÁ MAIS ISENÇÃO POSSÍVEL.
Mesmo de forma mais branda (no teatro estatal de Munique – no meu caso no Cuvillies Theater), a pressão de Klaus Everding, (secretário de cultura de toda a Baviera na época), já era uma interferência gigantesca. O Muro de Berlim ainda não havia caído. Ainda vivíamos a guerra fria. Enfim, ao belíssimo artigo de Caetano:
Do Blog do Caetano Vilela:
Ao trabalho camaradas, organizem um movimento e façam a máquina produzir!
.
“Nós artistas de uma hora para outra nos transformamos todos numa espécie de ‘ativistas humanitários-culturais’! Não basta a ‘nossa causa’ é preciso ter “contrapartida social” para isso e aquilo e agora também nos exigem “medidas preventivas contra o impacto ambiental negativo”… que ‘po*&%$%a’ é isso? Tudo agora tem de ser carbon free, sustentável, ecológico, etc.
E eu digo: “é só uma pecinha de teatro senhor!”, “é apenas uma ópera madame!”, “é só um showzinho presidente!”
Qual o papel do Artista na burocracia contemporânea deste rosário sem fim ‘pseudo politicamente correto’? Produzir/Poluir?
Tá certo também que parte da ‘classe’ exigiu seu reconhecimento depois de palestras, encontros e ’sufrágios democráticos’ (contando os braços erguidos ‘a favor’) num movimento batizado de “Arte contra a Barbárie” (!), resultando dentre outras aberrações ‘excludentes’ num tal “Fomento para as Artes”.
É isso então, lutaram contra a ‘barbárie’ (seria o ‘capitalismo do teatrão’), ganharam o ‘fomento’ e hoje são todos ‘ativistas’ de plantão defendendo o seu espaço (físico) alugado produzindo pouco para pouquíssimos (às vezes até muito para ‘muitíssimos’, mas não faz diferença), fazendo muito barulho para não largarem o ‘osso fomentado’.
Viraram ‘educadores’, plantaram sementes (paúba?), reciclaram seus programas (ou ‘pogrom/погром’) em troca de quê?
Nem prêmios nos credenciam mais. Um Shell (poluidora?) desacreditado vale hoje muito menos do que o antigo Molière (passagem para Paris ida e volta sem nenhum dinheiro!). Prêmios também viraram ‘contrapartida social’ das empresas que usam artistas como mico de circo: Prêmio Bravo, Contigo, Coca-Cola, etc… nenhum deles trazem público e muito menos prestígio.
A indiferença é triste e gritante.
…
O resultado do que se busca é o contrário, o teatro brasileiro está fomentando o emburrecimento do seu público. Falarei apenas do teatro, já que se abrir o verbo para defender a ‘classe lírica’ serei acusado de defender a ‘barbárie’ produzida pela alta elite! Mal sabem eles que faço ópera ao ar livre em Manaus para mais de 20 mil índios encantados! Seria isso uma ‘medida contra o impacto ambiental negativo’ aceitável? Aliás são 20 mil índios que deixaram de ligar os seus televisores e foram à praça (a pé ou com transporte público movido a energia alternativa!) pública assistir a um espetáculo lírico. Essas coisas enlouquecem críticos da Alemanha, Espanha, EUA, França, etc… todo ano e são publicadas em todas as mídias mas parece que o burocrata por trás do ministério da cultura além de surdo e monoglota é insensível ao reconhecimento do ‘inimigo estrangeiro’. Hummm, acabei falando!
Sou ARTISTA e não EDUCADOR, minha função é outra; deveríamos passar ao largo da catequisação da luta de classes que este governo inflama.
Que as EXCEÇÕES destes casos possam produzir mais e PENSAR este País!
Poucas vezes encontramos um diálogo aberto e honesto nos espetáculos apresentados em São Paulo, comunicar não é mais a razão de estrear um espetáculo, tudo se resume a um sindicalismo frouxo e burro. A obra já não fala por si (que me perdoe Adorno), é preciso fazer um ‘movimento’ (que me perdoe Caetano Veloso)! Uma geração inteira de artistas que começou a respirar após a ditadura ainda está bastante imatura para lidar com certos valores de liberdade e capitalismo (que me perdoe Marx).
Desconhecem princípios sobre a ética (que me perdoe Espinosa) e banalizaram o mal (sorry Hannah Arendt).
Ao final deste governo, nós artistas, nos juntaremos aos milhões de ‘assistidos’ por todas as ‘bolsas sociais’ e nos tornaremos mendigos por anos e anos de uma política populista e melíflua que demorará muito (dependendo dos próximos e próximos governantes) para ser extirpada e repensada.
Claro que quem sofrerá com isso será a Arte, muito antes dos artistas, mas estamos falando de algo supérfluo, não é mesmo?!”
(Vamp na edição)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: Adorno, arte, Caetano Veloso, Caetano Vilela, Educador social, Espinosa, Estado, Hannah Arendt, Karl Marx, teatro
10/12/2008 - 03:16

(Terrorismo real e terrorismo psicológico)
Escrevo às 4 da manhã. Exausto de um dia de ensaio puxado, repetitivo, às vezes frustrante, discussões técnicas, entrevistas, conversas com a equipe e o skype tocando… me encontro entre um ponto FINAL e outro, o de interrogação, assim como o personagem de “Bate Man”, ou “Bait Man” (homem Isca) que estréia em alguns dias.
Muito estranho como nós acabamos sempre no mesmo buraco que os textos que geramos para teatro. Ou será que é justamente o contrário? Pouco importa. A essa hora da madrugada, lutando pra conseguir algumas horas de sono e começar a nova batalha e me pergunto: Por que batalho, me “entrego” ou me confesso através da última fala do ator num palco de terra, caixas de vinho pelo chão, Bordeaux 1933 e Barolo 1945?
Tudo detonado. Nada mais no palco a não ser uma isca, de onde ele estava pendurado no início do espetáculo sendo espancado pela sua própria culpa ou incoerência por estar vivendo e vivenciando o susto de ter nas mãos garrafas de vinho com datas tão significativas e, no entanto, contendo sangue humano.
Assim estou agora. Sentado num hotel, comendo pudim de leite e berrando paro o mundo o que o meu “Bait Man” fala depois que cai num desfile de modas absurdo nos dias de CRASH ECONÔMICO, onde a imagem do EU vai ficar suspensa por um tempo ou entrará num surto psicótico.
Depois de torturado, ou se deixar torturar, pela nona vez num curto espaço de tempo, “Bait Man”, ensangüentado, encharcado de suor e vinho e terra, encara o público:
-“Proteção! Que proteção, porra nenhuma! Isso é o ESTADO entrando em nossas vidas como ESTUPRO! Não, não! Me recuso. Vou para a batalha com um Bordeaux na mão, divino como um ser humano divino, ou com um Barollo contendo sangue humano, porque assim nós somos! Assim sempre fomos.”
Nossa!
Meu desejo é o de atacar, entendem?
Por isso mesmo DEVOREI quatro milhões de metros cúbicos de CONCRETO. É, está tudo aqui dentro. Tudo!
E-N-G-O-L-I-D-O, entenderam? Esse concreto todo!
Aqui dentro. Junto com esse vinho humano.
Uma delícia!
Delícia! Poesia concreta, arte concreta, morte concreta! É, tudo aqui dentro do meu estômago.
E, assim, eu migro pelos mundos, como se fosse o SABÃO nas mãos de Poncio Pilatos ou uma esponja na sola de Mick Jagger. É isso.
Pronto: É o que tenho a dizer, Kurt Cobain!
Ah, aquela parte da tortura… e que ela vale a pena? Deus me livre! A gente diz tanta coisa, né?
Vive tanta coisa, né? Tanto afastamento, tanto silêncio…
SILÊNCIO!
Caramba!
Como a gente vive num tremendo SILÊNCIO que as pessoas nos devolvem… isto é, quando elas não nos POSSUEM, ou querem possuir, elas nos dão os ombros e o silêncio BRUTAL.
Como é BRUTAL o significado de tudo isso!
Como tem gente escondida dentro desse silêncio. É quase como nessas garrafas, mas sem o sangue. Hoje, NEM MAIS SANGUE HUMANO TEM.
POR ISSO ME ESPANCAM! AH, ENTENDI!
BRUTAL, o significado de tudo isso! Gente escondida dentro desse GIGANTESCO silêncio. E nessas garrafas? Todas as obras inacabadas da humanidade?
E os imbecis solitários as bebendo sem saber, nos bares e nos restaurantes, olhando o rótulo, sendo enganados por algum sommelier dando pinta, dizendo: “Bem, esse aqui tem um sabor arredondado e cheio, digamos, com o carvalho ainda no céu da boca, por assim dizer, e a fruta fresca levemente mordida pelo selênio, uma fruta ainda em estado de ‘crescimento’ e portanto algo híbrido, merlot, cabernet e… recém chegado da coleção de um milionário australiano…”
PORRA! Mal sabe ele que lá dentro pode se esconder a obra inacabada de um Franz Kafka ou de um Calderon de La Barca ou mesmo… Ai que desespero! Todo mundo bebendo literatura inacabada ou sangue de assassinos ou mártires e nós aqui, posando de…
Que Tortura! O Analfabetismo! Digo, essa nova forma de braile através da degustação de vinhos humanos. Não funciona! O leitor, digo, sei lá, ficará bêbado e não se lembrará do que leu, ou seja, bebeu!
Educação… pra quê? Ah, para que a gente tenha uma noção de “cultivo da memória” e de “memória da lembrança”, ou vice-versa. Gente! Quem está aí fora?
ÍCARO? ERA ISSO então? Ou Átila? Ou Homero? Ou o quê? O que é para eu aprender aqui? Sério?
Gente, agora é sério!
Rolhas? Sangue Royal? Virar uma Pintura VIVA de Francis Bacon desfilando para ser comprado pelo Damien Hirst e virar uma sátira de mim mesmo? NÃO! Não sou mais quem eu sou porque não estou mais pensando quem eu penso no que estou pensando e vocês nao estão vendo exatamente o que vocês ACHAM o que vocês estão vendo, então sugiro uma… PAUSA de… um mês. Ou então o aplauso que o Próspero pediu ou uma condenação que Prometeus pediu ou então o silêncio que foi concedido a Hamlet pelo Fortinbras porquê…
Porque…
Porque…
Porque…
Gerald Thomas
Dez, 2008
(O Vampiro de Curitiba na edição)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: "Bait Man", Átila, Calderon de La Barca, concretismo, crash econômico, Damien Hirst, Estado, Fortinbras, Francis Bacon, Franz Kafka, Gerald Thomas, Hamlet, Homero, Ícaro, Kurt Cobain, Mick Jagger, Poncio Pilatos, sangue humano como vinho, teatro
01/10/2008 - 07:51
Miami- South Beach
Depois de dias com um post aqui em baixo, que atingiu mais de seis mil hits, sobre pedófilos, me senti na obrigação de relatar um pouco do que tenho assistido numa conferência que aborda assuntos como exilados, desterrados, aqueles que buscam trabalho porque se sentem reféns em seus próprios países. Sei, pela minha família, o que é isso. Digo, ser refém.
Bem, esse assunto também não é exatamente novo para mim, não. Na década de 70 eu trabalhava como voluntário no Secretariado Internacional da Amnesty International em Londres, a favor dos presos políticos, exilados, torturados, desaparecidos, etc., no Brasil. Eram 24 horas sobre 24 horas de trabalho. Trabalhávamos com telex! Urgent Action! Os telegramas para que as torturas sobre A, B ou C cessassem tinham que estar na mesa do Almirante Helio Leite ou Julio de Sá Bierrenbach no Superior Tribunal Militar, em Brasília, em questão de horas e… assinados por chefes de Estados de democracias cristãs européias ou monarquistas! Bem, não vou aqui repetir essa história. Quem sabe, sabe, e quem não sabe, não precisa!
Nunca acreditei que o Estado devesse ter/pudesse ter qualquer tipo de PODER sobre o cidadão! Por que isso? Porque metade da minha família virou carvão em Auschwitz justamente por causa de ABUSO de poder!
Mas, de volta á essa conferência: haitianos, cubanos, mexicanos que cavam túneis ou são trazidos pelos coyotes, ou hondurenhos e mesmo paquistaneses que nada têm a ver com a Al Qaeda, mas tentam a entrada pela costa da Flórida ou Louisiana (via Jamaica ou Trinidad) depositam todas as suas vidas e esperanças para poder entrar aqui. São pessoas ou famílias inteiras que se arriscam a barquinho (aquilo com que brinco nas BlogNovelas e agora estou completamente arrasado pois os vi de frente) e que, às vezes, são interceptados pela Coast Guard Americana e mandados de volta para os tubarões.
Como o Gustavo, um peruano. Uma vez aqui dentro, trabalha como carregador de navios de turistas, como a Carneval Cruises. Não está legalizado e leva insultos de pessoas nessa cidade onde é permitido andar de moto sem capacete. Por que os insultos? Porque não fala uma palavra de inglês. “Mas tudo bem”, digo eu.
“Ninguém em Miami fala inglês: espanhol é a língua oficial”. “No, boss! Los grandes hablan en russingles!”
Ah…
Miami onde tudo é possível. Onde o “concierge” do hotel consegue tudo. Entendem? TUDO (deixem suas fantasias irem longe e os dólares voarem)! Miami, aonde a crise da Wall Street não chegou e onde a Collins Avenue ou a Lincoln Road são povoadas por tijuanos e dependem do serviço de imigrantes ilegais, esse assunto ainda é, continua sendo, o mais controverso.
McCain é, há mais de duas décadas, o senador do estado do Arizona. Quando estive em Tucson, conversei com os motoristas de táxi que vão para caça à noite com night vision. Cada cabeça trazida lhes vale 100 dólares. “Mas não é pelo dinheiro”, brincava um (enquanto eu, entre o espanto e quase lágrimas, me encolhia no assento de seu táxi). “É pelo esporte mesmo!”.
Ontem eu estava numa tal depressão, mas tal depressão que recebi esse e-mail do meu fiel e real amigo, um verdadeiro psicanalista, João Carlos do Espírito Santo. Acho que o conteúdo do e-mail diz tudo. Sobre o meu estado após a convenção, lhe escrevi e ele respondeu:
“… Este era meu medo ao sabê-lo ouvindo os depoimentos: os ecos que despertariam.
Sim! O desejo de quem minimamente está vivo, é este, anular-se ou explodir toda esta perversão diária. Quando pensamos que chegamos ao final do poço, descobrimos que tem mais um pouco, que alguém escavou mais. Só não tem escada para subir, sair do que os cínicos aprofundam sentados em suas indiferenças, em suas armadilhas em que a palavra dissociou-se da coisa, da referência, e foi à deriva do mau-caratismo.
Sim Gerald e não há sequer consolo pensar que isso está circunscrito a países periféricos, esta é a tônica da contemporaneidade: A ABJETA, sórdida relação com toda a alteridade.
Esta é a herança dos nossos tempos, de nossos territórios: deturpação, esvaziamento da ética, implosão da moral em discurso pervertido, em bestialogias diárias, em sórdidos sorrisos chamados mercados. Reduzem-nos a isso, mercadoria para troca ou para o descarte, o refugo, o lixo.
Mas, previne-te, que nestes ataques intensos às sensibilidades reside o maior ardil, Derrubam, se nos vencem, os últimos resistentes, os que colocam o dedo na ferida, os que nomeiam o que eles negam. Sobrevivemos para ver campos de concentração sem muros, para viver torpor social, ausência de solidariedade. Atravessamos o século XX para entregar, jogar a toalha? De jeito nenhum, vamos a resistência, pois o silêncio é o que esperam para enfim, arquitetar a destruição final. Aqui vale recordar os mortos – todos os que valem a pena prantear – e elevar-se a condição superior do anacrônico e dizes:
NÃO!
NÃO! AINDA NÃO CHEGAMOS AO FINAL, SE SOMOS PONTO É PARA INÍCIO DE PARÁGRAFO.
NÃO! Um seco não, um claro e inequívoco não em nome do SIM, que dás a tantos anos, que teimo em resgatar em meus pacientes, pois do contrário, cederemos às cinzas, ruiremos em nossas vidas com o que ainda espera, com o horizonte do viável.
Recobra-te, em silêncio chora o que está, mas não te renda ao que querem que seja.
Só há um caminho: SEGUIR SEMPRE!
Se ainda houver tempo hoje, responda-me, pois sinto os estragos do dia de hoje em seu mais íntimo ser.
Um grande, solidário, triste e querido abraço.”
João Carlos
Sim, seguindo em frente sempre! Às vezes me pergunto…
COMO?
Gerald Thomas
Ainda em Setembro, último dia do mês, 2008.
(O Vampiro de Curitiba, na edição)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: Almirante Helio Leite, Amnesty International, Arizona, Auschwitz, BlogNovela, Brasília, campos de concentração, Carneval Cruises, cidadão, Coast Guard, Collins Avenue, coyotes, cubanos, democracia, Estado, exilados, Flórida, Gerald Thomas, haitianos, hits, hondurenhos, Jamaica, João Carlos, Julio de Sá Bierrenbach, Louisiana, McCain, mexicanos, Miami, monarquia, paquistaneses, pedofilia, poder, presos políticos, refém, século XX, South Beach, tortura, Trinidad, turistas
05/08/2008 - 11:13
Ai, ai… Se eu ainda bebesse, juro que pediria um Drurys. Que dureza, viu?! Seria tão mais fácil seguir o rebanho, seguir essa corrente-pra-frente e cantar as maravilhas desse Brasil varonil. Elogiar os nossos governantes, agradecer esse povão que vem aqui arrotar sua cafonice explícita, com seu linguajar chulo, seu mau gosto deslumbrado. E ainda receber uns trocados do Governo para isso. Mas, definitivamente, não é esse o meu estilo.
Quando do início do Blog, Gerald Thomas exigiu que não houvesse qualquer tipo de censura aos comentários, nenhum controle, nenhuma restrição, que as pessoas se manifestassem com total liberdade. Pensei comigo mesmo: “Coitado do Gerald, acha que está lidando com dinamarqueses, com noruegueses, suecos. Não conhece as delicadezas de nossos selvagens tupiniquins.” Pois bem: até entendo a manifestação raivosa contra o post que falava de Gilberto Gil. Afinal, Gil é do Governo, é popular, negro, revolucionou a cultura da Banânia difundindo a… capoeira! Como sabemos, é pecado falar em Governo, em quem é popular, negro, e quer salvar a cultura nacional ensinando capoeira às nossas crianças. O que me surpreendeu foi o descontrole dessa gente com relação ao último post, sobre a Amy Winehouse: Gerald não escreveu uma linha sequer, citando, mesmo que de passagem, alguma instituição da Banânia. Não se referiu a nenhum brasileiro, nada! A reação, por incrível que pareça, foi a mesma: “Elitista, arrogante, preconceituoso! Como ousa, esse branquelo, nos ignorar dessa maneira? Estamos aqui, exibindo nossas feridas, mostrando nossos pés inchados, nossas úlceras. Se esse cabeludo não quer nos dar uma esmola, que ao menos nos demonstre alguma compaixão.”
Tadinhos, estão carentes. Não suportam mais a mesmice politicamente-correta dos blogues dos companheiros. Querem vir aqui, em busca de atenção, de um contato com pessoas diferentes de suas laias. Quando se enfurecem com críticas ao analfabetismo de seus governantes, é por sentirem-se atingidos, por se reconhecerem naquelas metáforas pobres, naquelas idéias toscas. Mas não gostam de ouvir críticas que venham “de fora”. Eles têm o direito até de se matarem mutuamente. Literalmente, como no caso de Santo André e Campinas, ou politicamente, como no caso do Ministro que quer acabar com a lei de Anistia com o objetivo porco de atingir Ministros de seu próprio Governo que tiveram passados de seqüestradores, assaltantes de bancos e terroristas. Entre eles, não há meio que não seja justificável por algum fim.
Pois bem! Querem um blog democrático, onde todos possam se expressar livremente? Então, é o seguinte: Terão que aprender também a ouvir. Aqui tem os dois lados, não é só vir buscar o bolsa-esmola, tem de trabalhar também, vagabundos! Ou pensam que por estarem nos governos, nas faculdades, nos sindicatos, todos têm de rezar por suas cartilhas? Coitados, leram algumas páginas de Marx e Gramsci, mas não sacam nada de Foucault! O Vamp vai jogar um pouco de luz nessas trevas ideológicas: O poder não é algo que possa ser conquistado, simplesmente, ao se tomar o Estado. Não, não existe “um poder” que se conquista juntamente com aparelhos de Estado. Os poderes periféricos e moleculares se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da rede social. Quem tem poder é quem cria valores. E os valores que estão sendo criados neste exato momento são os valores do Individualismo, da meritocracia, da liberdade de pensamento e expressão, enfim, tudo aquilo que vocês mais abominam.
Putz!, devo ter estragado o dia de muita gente, he, he… Agora que descobriram que Papai Noel não existe, vão entrar em depressão profunda, tadinhos… Vamos combinar assim: Cada um na sua! Nós fazemos o nosso papel, escrevemos sobre o que bem entendermos. Vocês continuam lambendo as botas dos seus líderes e recebendo como prêmio aquele sanduba de mortadela pago pelo partido. Cada um na sua? Lembrei daquele funk, verdadeira obra-prima da cultura popular. O Gilberto Gil deve amá-la:
“Ado, a-ado, cada um nu seu quadrado!
Ado, a-ado, cada um nu seu quadrado!
Petralhas nu seu quadrado nu seu quadrado!
Gilberto Gil nu seu quadrado nu seu quadrado!
Capoeira nu seu quadrado nu seu quadrado!”
O Vampiro de Curitiba
Autor: gthomas - Categoria(s): Colaboradores
Tags: blog, capoeira, cultura popular, dança do quadrado, Estado, Foucault, funk, Gerald Thomas, Gilberto Gil, governo, Gramsci, ideologia, imprensa, individualismo, Lei da Anistia, liberdade, liberdade de expressao, liberdade de pensamento, Marx, meritocracia, militares, O Vampiro de Curitiba, petralhas, poderes periféricos, povão, valores
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