30/11/2008 - 17:18
O IMPÉRIO DAS MEIAS VERDADES
New York – Brecht, o Bertold, assim como Chaplin, foram perseguidos pelo macartismo. Foram investigados por Hoover e foram blacklisted e perseguidos pela bruxaria. Também milhares de escritores, cineastas, atores acabaram nos fornos da perseguição! Muitos colaboraram, como sempre colaboram, e entregaram os outros para se SAFAR. No espetáculo (bem autobiográfico) “Rainha Mentira” eu contava episódios sobre a minha própria família: odisséias nada simpáticas através do Terceiro Reich, que Ruy Castro e a Cia. Das Letras resolveram distorcer de tal forma num livro horrendo, que acabou por causar, indiretamente, a morte da minha mãe, poucos anos após o lançamento dele.
50 ANOS DE ILUSTRADA. PÓS-TUDO
(50 anos de cultura)

Recebi aqui o livro e estou até agora meio bestificado. Quero dizer, bestificado de uma forma boa. Muito boa.
A seleção feita por Marcos Augusto Gonçalves nos seis meses em que teve para cavar nos calabouços dos arquivos de 50 anos de cultura do caderno, resultaram num livro incrível e… Não posso deixar de REGISTRAR aqui a minha enorme gratidão pelo destaque dado ao meu trabalho e a essa figura que lhes escreve.
Entre outras várias entradas e fotos, na página 236, por exemplo, fico lisonjeado em aparecer numa entrevista que o Otavio Frias Filho fez comigo em 1988 (caramba! O tempo!). Transcrevo um trechinho:
“Gerald Thomas e a Impossibilidade de Dizer”
…Arte é uma coisa menor. A ciência, hoje em dia, é muito mais artística do que a Arte, só que não é entretenimento. A Cibernética, a Matemática que se estuda de dez anos para cá é uma coisa muito mais artística. Ela é hoje o que o teatro foi para os gregos. Está para nossa civilização como Freud esteve cento e poucos anos atrás. Pela primeira vez a Física está usando termos místicos, falando de “a coisa”. Eles não têm coragem de falar em deus ainda, mas daqui a pouco vão admitir um deus, não por forças místicas, mas porque as equações derramam nisso aí. A Arte hoje em dia é uma arte de declamação e falha, inclusive, nisso, porque é adornada, decorada com artificiozinhos. Pegue qualquer pintura: ela não é a síntese da nossa existência resolvida nem a problemática da nossa existência por resolver.”
(Janeiro de 1988)
Tem mais, mas só transcrevo isso, porque já está ótimo. O livro é uma homenagem à cultura, a brasileira, se é que existe isso. Existe. A Santíssima Trindade do Teatro, como Nelson de Sá assim a batizou, está lá: Zé Celso, Antunes e eu. Eu e Bete. Bete e eu, o eterno casal. O casal que nunca se vê. Já não vejo a Bete há (desde que o Muro de Berlim foi erguido em 1961… ooops!)
De resto, estou sem tempo para me estender numa grande coluna porquê, numa troca de e-mails ontem com o Vamp, questionamos o quanto vale o Blog, o quanto ocupa o nosso tempo ficar analisando o chat dos comentaristas entre si próprios. Ao mesmo tempo, o blog é para isso mesmo. As contradições e suas sombras, os nicknames e as pessoas iradas que parecem tudo saber, nada saber, curta memória e aqueles que curtem a memória.
Jurei que não escreveria nada hoje, Domingo, dia de chuva em NY e encontros com gente do passado, e com uma papelada enorme aqui diante do computer. O quê? Como? Sim! Uma compilação de COLUNAS e artigos e mais colunas e peças escritas e livros de compilações de tudo e pós-tudo.
Aqui, um trechinho de uma coluna que escrevi para as contra-capas do “Caderno B”, do JB, das terças (esta de 15 de abril de 2003, o ano em que voltei a morar em Londres):
“…Quem lucra? Quem perde? É complicado. Uma nova ordem econômica mundial está se formando. Evidente que os americanos já estão com total controle sobre o petróleo iraquiano. Ao mesmo tempo, o Congresso Americano não debate mais as questões que estavam massacrando há seis meses (Enron, WorldCom, Inclone, AOL-Time Warner e outros escândalos corporativos). Os ingleses, que nunca aderiram ao EURO, se juntaram com os americanos e, ao que me parece, o alvo é continuar a procurar inimigo do “eixo diabólico”… Já que a Al Qaeda está aí e tudo que aconteceu foi o seguinte: já que não conseguiram, até hoje, encontrar o Bin Laden, foram atrás do Saddam Hussein.”
Quem diria, quem diria… relendo isso 5 anos e meio depois não dá um CERTO CALAFRIO????
Caramba! Já escrevi em tantos jornais e de tantos cantos do mundo, desde Zagreb, Budapest, Miami, Tel-A-Viv, Tucson (Arizona), Munique, Chapada da Diamantina, até sei lá onde. Me pego lendo colunas como “Sir Fernanda Montenegro” ou “Um ano sem Paulo Autran” ou “Doutor Sergio Britto”, o homem de teatro que me levou ao Brasil e a quem sou e serei eternamente GRATO - porque sei ser GRATO, SIM - sempre e que me deu “Quatro Vezes Beckett” de presente em seu “Teatro dos Quatro”.
Era uma versão de “Beckett Trilogy” daqui, aquela com o Julian Beck no palco. Sérgio me levou pro Rio uma, duas vezes. A segunda foi pra fazer o “Quartett”, de Heiner Mueller, com ele e Tonia Carreiro. Ambas as montagens nos renderam prêmios Moliere.
Numa conversa com meu amigo Caetano Vilela, ele me dizia que o teatro não se prestigia mais; não existem mais prêmios e que os prêmios de hoje surgem de pequenas panelinhas. Eu ouvi, pensei e pensei de novo.
Tudo já foi mais glorioso. Deixei meu prêmio Moliere cair no chão de propósito e recusei a passagem em econômica da Air France porque… porque eu ia daqui de NY para Paris anyway, então para que ir do Brasil, apertado, sendo que aqueles QUINHENTOS MIL dólares de mídia que NÓS rendíamos a eles, por causa daquele evento (sendo os 6 melhores do país) não podia, ao menos, nos render assentos em classe executiva? (Um ano depois de meu protesto, parece que virou executiva, sim)
Este livro me traz muitas memórias. O Brasil precisa delas. Um país que quer apagá-las, como o Incêndio do Teatro Cultura Artística, o fogo mais metafórico da história.
Obrigado, galera, por terem deixado ser quem eu sou!
Somando e dividindo tudo, só tenho mesmo a dizer:
OBRIGADO, estou super de BEM com a vida!
Gerald Thomas
(O Vampiro de Curitiba na edição)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: "PÓS-TUDO", "Rainha Mentira", Antunes, Bertold Brecht, Bete Coelho, Caderno B, Caetano Vilela, Chaplin, Cultura Brasileira, Heiner Mueller, Ilustrada, Julian Beck, Marcatismo, Marcos Augusto Gonçalves, Moliere, Nelson de Sá, Otavio Frias Filho, Paulo Autran, Ruy Castro, Sergio Brito, Teatro Cultura Artística, Tonia Carreiro, Zé Celso
26/09/2008 - 11:48
Samba Final
(Estou cego de verdade)
Miami- South Beach.
Quando quero dar um pulo para fora de mim mesmo e ver o mundo de fora, venho para cá. Por quê? Porque Miami não existe! Amo essa milha e meia do Ocean Drive, aqui no Art Deco District.
Amo essa total liberdade de TUDO num dos estados mais conservadores. E fiz questão de fazê-lo, a poucas semanas das eleições, justamente na noite ou no dia em que, AFINAL, teremos o tal debate entre McCain e Obama, do qual o primeiro tentou escapar.
Ontem, na Casa Branca, McCain deferia qualquer pergunta a seu financial advisor. Obama foi lá, convocado por Bush, o que eu também acho um absurdo. Mas á essas alturas o que eu não acho um absurdo? Só falta o Hugo Chavez aparecer aqui em Miami e dirigir um táxi! Enfim, Obama laid out. Como se fala? COLOCOU seu plano durante 40 mintutos.
McCain Calado.
A CNN capitalizou: eles levarão o debate para as TVs do mundo e não mais somente à ABC.
SINFONIA dos DES-DITOS 3
Capa do New York Times de hoje, vista de Miami, é muito engraçada. Aqui, do meio de las putchas, do meio desse caos fantástico que amo, mi-amo, e onde a mansão de Versace virou um private hotel (o que será um “private hotel”? Hummmm…), a foto de Obama e McCain andando PARECEM meia ABBEY Road, ou seja, Half Beatles.
Já que só restam dois deles mesmo, será que a semiologia está implícita?
Paul MacCartney
Ringo
John (McCain)
Barack
Eles não estão andando numa “zebra Crossing” e nem estão em West Hampstead ou em Kilburn ou sequer estão no mesmo lugar. Mas me faz pensar.
Me faz pensar que há 20 anos atrás, quando meus nervos não estavam tão a flor da pele ainda, mas a pele recebia mais flores do que hoje… eu escrevi e montei um espetáculo chamado “Movimentos Obsessivos e Redundantes para Tanta Estética”: M.O.R.T.E.
Bete Coelho, Damasceno e Edílson Botelho, e um enorme elenco de brasileiros, levaram ele para o mundo. Até para Taormina fomos, Zurich e o escambau, fomos.
Ele era uma homenagem àquele que amarra e sufoca TUDO, embrulha tudo como se fosse um PACOTE, o artista Christo. E, dentro da peça, o personagem principal ouvia um relógio tic- tac dentro de um outro ser grávido. Era um homem- bomba quando ainda não tínhamos homens-bomba, que horror! Esse personagem principal (na primeira versão, Bete Coelho, segunda, Edi Botelho), era um escultor que não conseguia esculpir. Por quê? Porque as pedras em que tinham que esculpir já estavam embrulhadas por pano pelo CHRISTO, o embrulhador.
Paralelo com a política, total!
Paralelo com Hamlet, total: todos os personagens eram Hamlet, Ofélia, etc.
Aqui vai, de MIAMI (lembrado por Marina Salomon), o trecho final, o SAMBA FINAL que encerrava o espetáculo:
“Quem faria isso comigo?
Olhe fundo nos meus olhos e diga!
Aqui? Um universo?
Os de cima, os de baixo?
Os menores erros… EU DISSE
Os menores erros EU DISSE
EU DISSE!
LUZ!
SOM!
Palavras!
Mas do que valem?
Nossos poetas estão mortos
Nossa musica não tem heroísmo
Nos não temos corpos, somos fracos, somos rasos
Nossos casos, moribundos.
Julgamentos: cada caso, um acaso.
Nossa obra, uma obra do acaso total.
CLAMO!
EU DISSE
CLAMO!
Que me acordem se eu estiver dormindo
Minha angustia, meu espírito!
CONVOCO!
EU DISSE!
CONVOCO!
Uma NOVA geração de criadores!
Que se afunilem
E que se intoxiquem
E ouçam os lamentos das cidades!
Que se estrangulem, mas achem a geometria das cidades!
CONVOCO!
EU Disse. Convoco. Um novo Parangolé Brasileiro!
E Que chova sobre a NOSSA POESIA!”
.
Não faço mais teatro. Faço ópera. Ópera seca. Há anos digo isso e há anos faço isso. Só que agora mais do que nunca.
Estou constrangido pela falta de pensadores no mundo. Constrangido pela falta de loucos, obcecados, visionários. Parece que só existem os políticos e os que entretém os políticos com shows ou com consentimento. O nojo nacional é, antes de mais nada, um nojo cultural. E não adianta centralizar informação e distribuir verba. Isso vira FBI sangrento e burocrático e, para minha infelicidade, não parece mais ópera.
M.O.R.T.E.
(Movimentos Obsessivos e Redundantes pra Tanta Estética), há mais ou menos vinte anos.
Desabafo – espetáculo de Gerald Thomas com a Cia. de Ópera Seca de 1990, endossado em South Beach em Sept 2008.
(Na edição, O Vampiro de Curitiba)
PRATICAMENTE ACABOU O DEBATE: DEPOIS COMENTO: TÉCNICAS BÁSICAS DE DEBATE: McCAIN: EU ESTIVE MAIS TEMPO AQUI. EU CONHEÇO AS TÉCNICAS E ESTRATÉGIAS MELHOR MEU FILHO, GAROTO, “O QUE O GAROTO (OBAMA) NAO PARECE QUERER ENTENTER (what the Senator doesn’t seem to be able to understand) over and over and over.
ESSA É A TATICA
NÃO OLHAR NUNCA NOS OLHOS DE OBAMA
RIR SEMPRE NA HORA DA RESPOSTA DO OUTRO
É ISSO
SERÁ ISSO
E PROVAVELMENTE SERÁ ELEITO
FALO DE McCAIN, o Quarto Beatle. Não falou dos Weapons For Mass Destructions no Iraq que não existiam, não falou do massive tax break pra elite, não falou que o Irã era mais enfraquecido com a presença de Saddam Hussein.
SÓ TEM UM PROBLEMA: MCCAIN ESTÁ AQUI HÁ MAIS TEMPO, SIM!
MCCAIN ASSINOU MAIS ACORDOS SIM!
E JUSTAMENTE POR ISSO
JUSTAMENTE PORQUE FEZ ISSO E AQUILO
JUSTAMENTE PORQUE CONHECE AS ENTRANHAS DOS MECANISMOS
É QUE ESTAMOS NA MERDA EM QUE ESTAMOS!
É QUE ESTAMOS NA MERDA EM QUE ESTAMOS!
É QUE ESTAMOS NA MERDA EM QUE ESTAMOS!
Mas é assim!
Chega!
GT
Do New York Times de sábado:
The two men met for 90 minutes against the backdrop of the nation’s worst financial crisis since the Great Depression and intensive negotiations in Congress over a $700 billion bailout plan for Wall Street.
Despite repeated prodding, Mr. McCain and Mr. Obama refused to point to any major adjustments they would need to make to their governing agendas — like scaling back promised tax reductions or spending programs — to accommodate what both men said could be very tough economic times for the next president.
For the first 40 minutes, Mr. Obama repeatedly sought to link Mr. McCain to President Bush, and suggested that it was policies of excessive deregulation that led to the financial crisis and mounting economic problems the nation faces now.
“We also have to recognize that this is a final verdict on eight years of failed economic policies promoted by George Bush, supported by Senator McCain — the theory that basically says that we can shred regulations and consumer protections and give more and more to the most and somehow prosperity will trickle down,” Mr. Obama said. “It hasn’t worked and I think that the fundamentals of the economy have to be measured by whether or not the middle class is getting a fair shake.”
Mr. McCain became more animated during the second part of the debate, when it shifted to the advertised topic: foreign policy and national security. The two men offered strong and fundamentally different arguments about the wisdom of going to war against Iraq — which Mr. McCain supported and Mr. Obama opposed — as well as how to deal with Iran.
More than anything, Mr. McCain seemed intent on presenting Mr. Obama as green and inexperienced, a risky choice during a difficult time. Again and again, sounding almost like a professor talking down to a new student, he talked about having to explain foreign policy to Mr. Obama and repeatedly invoked his 30 years of history on national security (even though Mr. McCain, in the kind of misstep that no doubt would have been used by Republicans against Mr. Obama, mangled the name of the Iranian president, Mahmoud Ahmadinejad, and he stumbled over the name of Pakistan’s newly inaugurated president, calling him “Qadari.” His name is actually Asif Ali Zardari.).
PS. do Vamp: Sobre o ocorrido: Um vagabundo entrou com nicks de outras pessoas e postou comentários em nome das mesmas. Todos sabemos quem é o vagabundo. Aqueles que deram o e-mail para o vagabundo terão que mandar um e-mail diferente para o Gerald e só comentar aqui no Blog com o e-mail novo. É o preço a pagar por não saberem escolher amizades. Quanto ao vagabundo: Eu sei quem é ele. Ele sabe que eu sei. Eu sei onde encontrá-lo. Ele não imagina quem eu seja. O mundo dá voltas, mas é na reta que resolvemos nossas diferenças. Não hoje, não amanhã, mas resolvemos!
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
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