24/07/2008 - 11:50
Pequenas Sociedades Secretas
“Me sinto estranho às vezes, ansioso, não sei o que fazer, quero espancar as paredes” – me diz um dos meus vizinhos, ex-editor da revista PRINT, Marty Fox. Com seus 76 anos bem vividos, esse editor e também autor de teatro, é um ser extremamente ansioso.
“Marty, por que você não tenta tomar Rivotril ou um outro ‘benzo’ qualquer?” Ele não quer. Não quer saber de Valium ou Frontal, Lexotan ou esses que baixam a bola.
Mas Marty parece ser um caso único.
A sociedade moderna está dopada. Ou dopa-minada. Ou minada por total! Pior que isso: está psicotropicamente congestionada. Quem dera a palavra psico-trópico tivesse sua base aqui nos lindos balneáreos caribenhos ou brasileiros, movimentos tropicalistas, mas não: mais tem a ver com o famoso livro “Tristes Trópicos” de Claude Levi-Strauss, o mais famoso antropólogo do século XX.
Falo de experiência própria: faz uns dois meses encarei uma psiquiatra em Nova York. Tudo bem. Depois de uma hora e meia de “entrevista” ela anotava algumas coisas que eu não considerava de nenhuma relevância:
1- Você tem pânico quando esta no meio de pessoas?
2- Você tem pânico quando está abrindo a porta ao sair de casa?
A vontade era a de bocejar. Tendo passado por verdadeiros mestres Freudianos e Lacanianos e tomando um poderoso Topamax + Rivotril, desde que ví, da minha janela em Brooklyn, a queda do World Trade Center naquele dia trágico (e ainda tendo que trabalhar como ‘voluntário’ no buraco- ground zero – por 21 dias) eu estava um caco, um estilhaço. Quatro dias depois de 11 de setembro eu era o próprio personagem rasgado de Beckett, com suas roupas empoeiradas…..mente em frangalhos!
Bem, voltando a tal entrevista com a tal psiquiatra: saí de lá com uma prescription (receita) de Lexapro. Primeiro eu deveria tomar 5 mg ao dia e subir para 10 mg no décimo dia.
Eu ainda me lembro de ter perguntado sobre efeitos colaterais: “Não, não terás nada. Imagine. Se, por acaso , no início, tiver algum pânico, alguma tremedeira, como muita ansiedade, quebre uma pílula de Rivotril ao meio e tome”, ela me disse.
Estranho porque, entrando no site do Lexapro, dizia-se que o medicamento era usado justamente para combater o pânico e ansiedade!!!
Tomei por 21 dias e chutei o pau da barraca! Não agüentei. Claro que por alguns dias, o mundo ficou LINDO, deu aquela fome de comer ‘fondue’ e traçar todos os queijos suíços, mas e a libido????
Assim como já havia acontecido com o Prozac, a libido foi dar uma caminhada na Sibéria. Ao contrário do Zoloft (que também experimentei por um tempo, mas abandonei porque é como uma sinfonia de Brahms: não se chega ao orgasmo NUNCA!!!!!) o Lexapro é, sim senhor, um tremendo broxante!
Curioso: faz um tempinho, um amigo muitíssimo querido, também analista, me deu um Viagra pra experimentar. Um dia experiementei. Confesso que minha visão ficou tão blurred (embassada) , tão completamente turva, que PERDI a mulher que estava na minha frente. Me deu até um pouco de náusea e… tudo foi pra baixo!
Voltando pros psicos, ou psycos (como a gente chama os loucos nos EUA), a sociedade parece mesmo não se agüentar! Só mesmo se juntando a essas pequenas sociedades secretas é que se descobre que todos os amigos também estão tomando.
“Lexapro? Porra, tô com ele e não abro, já faz dois anos” Não foram duas ou três pessoas, foram mais de dez. E quem não falou do Lexapro, falou do Effexor, do Praxil, do Wellbutrin ou sei lá do quê; ESTÁ TODO MUNDO DOPADO, ou melhor, todo mundo “seratoninando” com esses SSRI!!!
Que locura! É mais ou menos como entrar em qualquer outra sociedade secreta! Terreiro de umbanda, por exemplo: caminhos sigilosos pra chegar não sei até onde…e, de repente, chegando lá: generais quatro estrelas, policias, artistas, arquitetos renomados, sorveteiros, políticos, etc. Parece o próprio “O Balcão” de Jean Genet!!!
Isso tudo me remete a uma única coisa!!! Ao meu mestre Samuel Beckett, cada dia mais montado e cada dia mais trivializado! Abro as páginas dos jornais do mundo e, dá-lhe Beckett. Desde os “Dias Felizes”, com a Fiona Shaw, até o Micha Barishnickov, fazendo os Beckett Shorts (Eh Joe) ou Peter Brook, passeando pelo Brasil e pelo mundo com seu pocket Beckett e Ralph Fiennes e Liam Neeson interpetando, entre outras coisas “First Love” (Primeiro Amor), no Lincoln Center Festival.

Foto: Gerald Thomas e Samuel Beckett em Paris, 1984
Ah, que saudades do Lincoln Center Festival! Eu e as Fernandas (Monetenegro e Torres) fazendo o nosso Flash and Crash Days. Eu nem sabia que, aqueles sim, eram dias…felizes. Explico: a enorme empatia entre os textos CINZAS de Beckett com os dias de hoje não são à toa! Uma maneira de sair desse tom cinza é tomando antidepressivo. O outro, é formar , ou fazer parte, como fiz por anos a fio, anos e anos, dessa sociedade (agora nada secreta) de aficcionados por textos de Samuel Beckett, que celebram o eterno lamento do berço até o túmulo (the same old moans and groans from the cradle to the grave).
Encarar a realidade custa caro: com psicotrópicos, mais caro ainda. Talvez, colocar um manto cinza e recitar no palco, dia após dia, “Imaginação Morta, Imagine”, ainda seja a farsa mais holística de encarar a vida de frente, já que sabemos como somos e quão frágeis somos perante a imensidão do desconhecido de nossas próprias mentes.
Gerald Thomas
(na edicao, obrigado: Vampiro de Curitiba)
Autor: gthomas - Categoria(s): Sem categoria
Tags: anti-depressivos, becket, drogas, Freud, Lacan, libido, Prozac, Rivotril, Samuel Beckett, world trade cen, wtc
24/06/2008 - 12:44
New York – George Carlin está morto. Aliás ele falava muito da falcatrua sexual em tudo. Como? Não entendeu? Falcatrua no sentido do pacto/ corporativo/ orgiástico/ governamental/ religioso: sim…. trepar, em orgasmos, desde o próprio, o gozo, ou o gozo político. Gozava de tudo. E gozavamos com ele. Agora, morto, estamos todos secos. Esse tipo de obituário mórbido nenhum jornal publica. Digo, nós da (ex)contracultura que ainda berrávamos, ainda berramos, ainda tentamos ser politicamente incorretos, estamos um pouco mais amputados, amputados assim como Manhattan ficou no dia em que o Word Trade Center foi derrubado.
As torres gêmeas eram um símbolo fálico, se assim quiserem. Bin Laden derrubou aquilo que Andy Warhol chamava de “nada vezes dois” ou os prédios que eu vi crescer, e que eu chamava de arquitetura da minha era (já que eu os vi tombar da minha janela em Brooklyn), eu os comparava a “Esperando Godot”, uma peça em dois atos onde “nada acontece” (palavras do ex-crítico Walter Kerr). Mas por que tudo isso? Ah sim, porque algo nos calou. Até Carlin… até hoje….mas temos a campanha de Barack Obama.
Carlin, cara, era o MÁXIMO. Sua fase “dura-hippie-FM” começou na década de 70. Mas todo mundo ontem falou sobre isso. O programa do Larry King teve o Jerry Seinfeld e Bill Mahr e outros convidados, e a OpEd page do NYTimes de hoje traz um artigo do proprio Seifeld sobre o mais venenoso “americano-anti-americano” de todos os comediantes (“estou velho mesmo, o que eles podem fazer comigo?”, dizia ele). Morreu mais ou menos dez dias após Tim Russert, e umas três semanas depois de Bo Diddley. Em 2008 é um por semana que vai. Merda!
Querem saber? O público ria de nervoso do humor antipatriótico e agnóstico de Carlin. Mas aqui não se fala em outra coisa senão o preço da gasolina e do barril de petróleo (black gold) e dos Saudis Saudis Saudis (como se fosse uma saudacão!) e de reservas de carvão no Canadá que “viram” gasolina através de um processo químico, e da indepêndencia do Brasil e da Venezuela de petróleo estrangeiro. Ah, fala-se também do etanol e dos carros flex, e está todo mundo sem saber o que fazer com os seus enormes SUVs que “bebem” gasolina!!!! Portanto, a morte de um artista não vale nada. Melhor, vale pouco: a população quer seus carros, suas highways lotadas, suas SUVs e Hummers na estrada e? E o quê? Com o galão a mais de 4 dólares e centavos, está todo mundo com o cu na mão.
O que era lindo ontem, é um monstro hoje!
Estranho isso. Estranho uma ova. Pra quem não conhece o curso da História, tudo é estranho. Tudo é um ninho, tudo passa a ser um passáro sem asas, castrado, em seu próprio ninho, berrando em grego clássico algo como “platão platão, venha pro diálogo!” Ninguem entende nada. Reportagens mil, e o povo começa a entender quem detém o real (real de royal) poder no mundo: os arabes: os Saudis. Ou aqueles que sentam em cima dos terrenos que ainda JORRAM, ejaculam petróleo e mandam em seus preços!
Ah sim, ejaculam.
Mas quem ouviu, desde cedo, como eu ouvi que “um dia, o caseiro largou tudo, e apontou o dedo na nossa cara e nos chamou de JUDEUS, e disse que voltaria com sua turma pra se apossar da casa”, nada assusta. Isso, contava minha minha mãe, meu pai, minha avó, era 1936. Berlim.
Sim, algumas coisas assustam: a dificuldade de se chegar ao orgasmo.
Cade você Willem Reich?
Mas quando se toma antidepressivos o efeito “buffer” eh de fato, estranho. Tentar distinguir entre metáfora e realidade fica difícil. Chora-se com bobagem. A emoção fica longe, porém aqui dentro num ‘rehab’ interno, presa, querendo sair. Estranho mesmo.
Deveria ter um obituário diário para aqueles que não conseguem ter orgasmos: esses antidepressivos deprimem. Não, não é que deprimam. Te afastam da vida. Sim, melhora um pouco. Mas te deixam com o pau na mão.
“TRUE LIES”
Já o filme de 1994 de Jim Cameron, com Schwarzenegger, “True Lies”- “Verdades mentirosas” ou “mentiras verdadeiras” (tanto faz), pode ser uma maneira interessante de nos contar como chegamos até aqui. Digo até aqui, a administração Bush, e a administração do próprio Arnie, hoje governador da Califórnia, republicano com um pé no partido democrático pois é casado com Maria Shriver, uma Kennedy. Arnie está cogitado pra ser um dos membros do próximo gabinete de Obama, se eleito.
Parece mentira. Ou melhor. Parece vidência. Ou estava tudo nas entrelinhas. Já vi esse filme, escrevi sobre ele quando eu tinha coluna no Globo (está no meu livro, o “Encenador de Si Mesmo”), e outro dia ele passou no TNT. Essa “pérola” de 1994, talvez possa nos revelar porque entramos na era Bush do jeito que entramos. E mais: lembram quando Bill Clinton estava sendo investigado por Ken Starr (por causa do blow job de Monica Lewinsky), e Hillary falava de uma “right wing conspiracy” em Washington?
Pois bem. Não estou mais em Graz, Áustria. Estou escrevendo em junho de 2008, New York, e faltam 8 meses pra que Bush termine seu segundo termo. Ufa!
Muito do que a administração Bush pregou (entre o criminoso Rumsfeld e o desastroso Ashcroft) estão estampados nos fotogramas aqui. Está tudo nesse filme: desde as “ameaças” de terroristas islâmicos radicais querendo destruir “uma cidade Americana por dia seja com uma bomba, ou de outra forma”…ou através dos jargões que hoje ouvimos do Al Qaeda. Ou Jim Cameron é vidente ou…sei lá: de qualquer forma o filme é mais que um simples action movie. É genial. Uma triste e bela metáfora pros desatrosos tempos de 2008 (guerra, destruição, ameaças através de terrorismo espalhado pelo mundo usando petróleo como “refém”), só que “released” em 94, ou seja, deve ter sido concebido, produzido, filmado, etc, em 92, 93 , por aí. Hum…!
Sim, Carlin está morto, Arnie talvez componha com Obama (que loucura : cada um tem o Kissinger que merece!), e o posto de gasolina aqui perto é um símbolo fálico de que saem poucas gotas das longas mangueiras de suas bombas. Sinal dos tempos, meninos. A tendência é piorar, diz Frank Sesno, da CNN, um mega repórter. E depois, numa situação de emergência, de offshore drilling, de alternative fuel development, de não sei o que lá, depois que não restar mais uma espiga de milho pra se comer (adeus Andre Valli, Visconde de Sabugosa), porquê foi tudo pro etanol, quem sabe começaremos a gozar da vida e a gozar de novo. A ejaculação nao será mais monopólio dos poços de petróleo.
Gerald Thomas
24 Junho 08
Autor: Ana - Categoria(s): artigos
Tags: 9/11, anti-depressivos, Arnold Schwarzenegger, Áustria, Barack Obama, Bill Clinton, Brasil, carbono, democratas, Encenador de Si Mesmo, George Carlin, Hillary Clinton, Jim Cameron, Kennedy, Maria Shriver, petróleo, Política, republicanos, torres gêmeas, Venezuela, Willem Reich, Word Trade Center