21/08/2008 - 01:25
UM DIA IREMOS DESAPARECER
GERALD THOMAS
Eu geralmente me incomodo quando percebo que pessoas muito próximas a mim não conseguem arcar com críticas. Digo, não estão mais acostumadas ao sistema mais simples, aquele do parlamentarismo: ouvir duras críticas e rebatê-las, sem ter chiliques, tremeliques, ataques de pânico histriônicos e saltitarem acrobaticamente, água saindo pelos poros e olhos, como se fossem bufões numa péssima imitação dos Simpson’s se os personagens estivessem todos “ligados” de cocaína! Hoje, basta uma mera crítica, uma mera coisa que chamávamos de “discussão racional” e pronto: lágrimas e SURTOS PSICÓTICOS. Passos em círculos para todos os lados, berros, acusações em volumes de discoteca e dedos como se fossem canhões belicosos em Fallujah atrás de insurgentes!
A frase que tornou a minha Electra Com Creta famosa – “Está estabelecido o conflito” – já não existe mais! Agora, depois de uma mera discussão existencial ou de um desabafo, a frase estaria mais pra “Está estabelecido o SURTO”!
Caramba, anda-se inflamado! E essa inflamação, pergunto eu, não seria fruto de pouca vivência em grupo? Ou de pouca noção Histórica? Sim, deve ser isso: pouca noção histórica. E ainda tem a indústria farmacêutica que está deixando todo mundo meio “surtado” e viciado em calmantes.
Ufff!
Também me incomodo quando vejo algum intelectual usando uma tragédia natural ou uma guerra, por exemplo, para traçar metáforas com o mundo fantasioso e lúdico do palco ou da prosa. No caso, então, estou incomodado comigo mesmo. Sou dramaturgo, sou dramático e estou apavorado com o que vejo com a passividade do mundo. “Qual passividade?”-você pergunta. Ah, ainda bem que a pergunta veio a tempo. Nem havia me recuperado do incêndio no Teatro Cultura Artística ou a quantidade de galões de açaí que comi depois que postei o texto sobre o bendito produto/commoditie… ou o acidente da Spanair… já logo me voltam as maladias do mundo.
Aqui nos EUA vivemos grudados em números. Números percentuais. Estatísticas. Como diria o Targino, estatísticas estocásticas. McCain contra Obama, 1 por cento, 5 por cento, quem será o Vice-presidente, quem será o nome nas convenções que vêm por aí daqui a dez dias? Sou bombardeado por emails do partido democrático, sou bombardeado por telefonemas, sou bombardeado por especulações o tempo todo. A cada quatro anos meus nervos se mudam para Sibéria ou para debaixo do mar e visitam Jules Vernes e voltam cheios de algas e ….
As campanhas políticas são como as discussões caseiras ou de pessoa para pessoa, só que num macrocosmo: trata-se de explorar o que há de mais pobre e o de mais podre: a miséria humana misturada ao mais puro sadismo e seus conchavos psicológicos para ver se “colam”. Jornalismo também é feito assim. Somos vítimas, leitores e retratados, em seus piores preconceitos e fetiches mal resolvidos.
As notícias têm como objetivo nos destruír, rasgarem a alma do ser humano com a falta de palavras/conteúdo ou perspectivas.
Parece um livro que Paul Auster plagiou de Beckett, não me lembro o nome agora, onde uma menina procura, na terra esquecida e perdida, um ente querido que não encontra. Sim, Auster imita Beckett: voltamos ao mestre irlandês em “The Lost Ones“, uma prosa cheia de nichos e gente perdida, uns procurando aos outros.
Não parece ser a vida hoje? Pois parece. Talvez seja a minha percepção de mundo, mas em Darfur a situação NUNCA esteve tão horrenda e o mundo nunca esteve tão calado. Quanto à industria da guerra, ela não passa de uma metáfora mesmo, uma commoditie como o açaí do artigo anterior ou uma foto no livro da Lenise: ninguém mais relaciona uma foto a nada: ninguém mais relaciona conteúdo à forma de coisa alguma. Ninguém está nem aí!
O ser humano virou um lixo informatizado, uma besta que lê computador e que quer consumir a última novidade aqui nas lojas caras sem nem ter idéia do que é ORIGEM, forma: pergunte a alguém o que foi a Bauhaus! Como? Quem foi Gropius? Como?
Um bando de seres com cremes caros nas caras com seus iPhones nas mãos checando NADA e mandando seu chatsinhos pra nada e lugar nenhum e reclamando de barriga cheia, até que um dia….
Até que um dia vira uma bomba. Até que um dia a casa cai. Até que um dia a morte chega perto. Até que um dia a cara do inimigo não será mais objeto ridículo de propaganda e uma Dresden será encontrada arrasada ou uma Hiroshima dizimada. E aí, quando a guerra aterrissar no quintal, todos exclamarão num uníssono “WOW, como isso pode acontecer????”
As múltiplas etnias estão sendo comprimidas a um só sólido bloco de lama e fezes. Isso se chama hoje de força de trabalho. Mesmo indignado com a propaganda eleitoral e as eternas promessas e mentiras ainda não desisti: e mesmo assim essas interpretações literárias ou dramáticas de eventos catastróficos como política e História ainda me movem, mas também me incomodam profundamente porque conheço as repetições. Estou diante de uma fogueira de vaidades, e os fatos não mentem e… É, não há mesmo jeito de escapar de um paralelo dramatúrgico. Mas ainda não sei bem qual, já que ainda não há desfecho. Estamos sempre em pleno primeiro ato e ele não termina nunca!
E como a desgraça ainda está em progresso, digo as desgraças no mundo, e não se sabe aonde irão dar, não se pode compará-las a nada, absolutamente nada, mas nesse momento cada ser que se pronuncia por ter uma opinião (foi assim que comecei o artigo) parece ser tratado como um louco, um bárbaro tártaro vindo do buraco mais fundo da humanidade dantesca.
Iconoclastia? Desconstrutivismo?
Mortos! Não parece haver mais aquele paraíso realmente democrático e parlamentarista de poder-se discutir, divergir amistosamente. Agora as divas estão soltas e fora de suas jaulas. Os dias de Sartre e as longas conversas parisienses são uma mera triste lembrança.
Esse novo milênio é para se respirar fundo, olhar através das pessoas e pensar 9 vezes antes de se pensar em falar a verdade.
Artigo dedicado a Mikhail Gorbachev e os Estilhaços soviéticos. Ele acabou tendo que liberar aquela merda toda por causa da geada do trigo numa jogada que Reagan oportunizou. Naquela época chegávamos ao fim da Guera Fria. Que saudades da Guerra FRIA!
Gerald Thomas,NY agosto de 2008
(Vamp na edição)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: "The Lost Ones", açai, Bauhaus, Beckett, campanhas políticas, commoditie, CONFLITO, críticas, Darfur, desconstrutivismo, Dresden, Electra Com Creta, estatísticas, EUA, Fallujah, Gropius, Guerra Fria, Hiroshima, icnoclastia, iPhones, Jules Vernes, Lenise Pinheiro, MacCain, Mikhail Gorbachev, Obama, parlamentarismo, Paul Auster, Sartre, Sibéria, Spanair, SURTO, Teatro Cultura Artística, vivência em grupo
20/08/2008 - 01:02
Açaí em NY
Há uns dias, meu amigo Sérgio Dávila, da Folha e do concorrente UOL, escreveu uma matéria sobre o Açaí em Washington e mencionou a mesma MEGA cadeia de supermercados orgânicos Whole Foods. Mas a matéria me deixou irritado pelo seu amadorismo. Sérgio está longe de ser um amador: tanto não é que eu mesmo escrevi o prefácio de seu livro sobre o 11 de setembro aqui em NY.
Aqui então está a matéria que escrevi pro suplemento “Equilíbrio” (também da Folha) há dois anos, acho que em meados de 2006. O que me irritou é que o Sergio ignorou o mais popular produto, o Sambazon, esse que ganhou todos os prêmios possíveis e é igualzinho à fruta batida nos BB Lanches ou Polis Sucos da vida (pra quem é do Rio).
TÍTULO DA MATÉRIA DA FOLHA
“Produtos orgânicos feitos à base da fruta típica do Pará ganham espaço nas lojas e cafés da cidade norte-americana [...] Além de rico em vitamina E, o açaí tem proteína, fibras e minerais como ferro, fósforo e calcio”
GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK
Nova York: tem mais açaí daí aqui do que aí. E chega de rimas. O fato é que, em cinco quarteirões de Nova York, ou de qualquer capital americana, é impressionante notar a quantidade de açaí que existe no mercado. Desde que o Dr. Perricone (dermatologista e expert em antioxidantes em geral) e até Oprah Winfrey, a diva da TV diurna, começaram a botar a boca no mundo sobre o produto, não há mais quem o freie! Se, em São Paulo, eu tenho que procurar por bairros (e não exagero) até conseguir achar um lugar simpático como o Amazon’s, na esquina da Jesuíno Arruda com a João Cachoeira, no Itaim Bibi, (nao existe mais em 2008!!!, faliu!), ou lugares muito específicos ligados ao norte do Brasil, no Rio cada loja de sucos de esquina vende o suco ou a polpa batida há mais de duas décadas e meia.
Mas aqui em NY ele é encontrado nas suas mais variadas formas, sabores, concorrências e embalagens -de maneira a confundir o consumidor.
O líder no mercado é o Sambazon, que também planta, replanta e tem todo um projeto “integrado” com os indígenas da região Norte do Brasil.
O açaí deles é orgânico e tanto pode ser vendido em barras (polpa) quanto naquele “Rio style berry blend“, que eu como às colheradas, batido com guaraná (já estou ficando roxo!), e há até a nova invenção do grupo: os “smoothies”. O que vem a ser um “smoothie”? Uma espécie de shake, talvez, em sua embalagem sensual. E esses “smoothies” combinam chocolate com açaí, manga com açaí, acerola com açaí e por aí vai. É necessário apontar que os americanos são muito mais criativos que os brasileiros quando sabem que têm nas mãos um antioxidante que vale ouro.
Os brasileiros, cansados, sem iniciativa, recorrem ao bom e velho suco de laranja ou aos enlatados. Que pena. Aqui, nas “delis” ou nas lojas dos coreanos, que funcionam 24 horas, você entra e encontra “pomegranate juice with açaí”, da Früttzo, ou um outro, da marca Bossa Nova, um concentrado de açaí adoçado com “agave” (um adoçante oriundo de um cáctus mexicano, um polissacarídeo de assimilação lenta pelo organismo).
São interessantes as diferentes maneiras como se anunciam, como “brigam” para tomar conta do mercado. Mas ideologia mesmo, projeto mesmo, só um deles tem, e a longo prazo: Sambazon.
Seja como for, entrem no site www.sambazon.com -é uma rapaziada engraçada, alegre e que esbarrou no produto porque foi surfar no Brasil na virada do milênio. Só que, desde então, como tudo que floresce nesse país, da Microsoft ao grupo Nirvana, a coisa gera alguns milhões de dólares. E o Departamento de Estado norte-americano, que premia somente algumas companhias por “Corporate Excelence“, escolheu o Sambazon entre seus 12 finalistas em 2006. “Sambazon no Brasil por promover desenvolvimento sustentável na floresta brasileira enquanto melhora a condição econômica dos seus “indigenous people’”.
A soma da criatividade desse mercado com a sede e a vontade de comer é incrível. O que eu acho uma pena é que eu tenha que ralar para achar em São Paulo um produto embalado, certificadamente orgânico, pronto para comer ou beber que venha dessa fruta que somente o Brasil tem a oferecer.
Em cinco quarteirões de Nova York, contei mais de 18 produtos de empresas diferentes contendo açaí.
Em São Paulo, se não souber o lugar certo, acaba-se pedindo um guaraná com gelo e limão que nem sequer contém guaraná. Tudo porcaria química. Que piada malcontada!
“Breaking news”
Eles me pediram para manter segredo, mas aqui vai. Neste ano ainda, o pessoal do Sambazon lançará no mercado brasileiro um de seus produtos, que se chamará Tribal. Dessa maneira, quem sabe, não precisarei mais ficar que nem um alucinado, parando a cada loja de sucos perguntando “Tem açaí natural?”, porque teremos o Tribal.
Aqui a Whole Foods ou a Commodities e a Traders Joe e tantas dezenas de outras nos trazem tantas opções de sorvetes ou outros produtos como o de açaí (até a Tropicana tem uma versao com a fruta) (com tapioca são insubstituíveis) mas, na bolsa, ou no táxi, aos goles, estarei tomando, nas minhas breves passagens por Sao Paulo terei que me contentar com o Tribal, esperando pela minha volta para NY, porque no meu freezer só tem potes e mais potes do sorvete “style berry blend”… Vou parar de escrever e meter a colher! É de salivar!
Gerald Thomas, sempre na frente dos outros que se metem a ser diletantes (Sérgio é amigo meu, mas se meteu a falar de algo que desconhece! Se liga, Davila!)
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O BRASIL DA VALOR AO BRASIL (NO TEATRO) HOJE NA FOLHA

trechos da ilustrada (sobre o lancamento do livro de Lenise Pinheiro)
DA REPORTAGEM LOCAL
A fotógrafa Lenise Pinheiro conta que sua principal inspiração foi o alemão Fredi Kleemann (1927-1974), que, radicado no Brasil, captou importantes momentos do teatro paulistano das décadas de 50 e 60 e se projetou retratando montagens do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). “O modo como usava a luz no rosto dos atores me influenciou bastante, apesar de nossos estilos serem diferentes”, conta.
Outra referência foi a aparição do dramaturgo Gerald Thomas. “Ele sacudiu a cena brasileira. Foi uma chuva de estética. Mudou não só a linguagem do teatro como ampliou suas possibilidades e introduziu um alto nível de exigência e qualidade ao trabalho.”
Por conta dessa transformação, a fotógrafa conta que, assim como atores e diretores, teve de investir na técnica. O que, em seu caso, significava também adquirir novos e mais modernos equipamentos. Personagens O colega Leopoldo Pacheco atribui a qualidade das imagens da artista à “paixão que tem pelos atores, diretores e personagens em geral”. Estão registrados no livro Raul Cortez, Bete Coelho, Renato Borghi, Ney Latorraca, Fernanda Torres, Marco Ricca, Vera Holtz, Pascoal da Conceição e muitos outros.
Um dos destaques é uma série que registra o dançarino japonês Kazuo Ohno se maquiando para uma apresentação, em 1997. Outro é uma sessão realizada com Zé Celso quando este completou 60 anos. “Ela assumiu as rédeas de diretora. Me fechou entre quatro paredes, me dominou, me fez mostrar todo meu corpo.
Foi fantástico.” (SYLVIA COLOMBO)
Autor: gthomas - Categoria(s): artigos
Tags: açai, Brasil, EUA, New York, produtos orgânicos, Sambazon, Sérgio Dávila