A GRANDE MENTIRA DA MÍDIA
Vocês acreditam na mídia? Juram? Sério? Um amigo me liga do Brasil e desabafa. Ele é o Daniel Feingold, um pintor, ótimo, por sinal. Ele não agüenta mais o que lê nos jornais, o que ouve na televisão, o que ouve falar por aí, nos círculos por onde anda. E garanto a vocês, o Daniel, anda por vários círculos.
Ex-morador daqui, de NY, ex-fabricante de pranchas de surf no Rio, ele vive de sua arte, a pintura. Politizadíssimo, ele simplesmente não agüenta mais o lero-lero da midia: “estão todos com o rabo preso, cada um com a sua mentira!”.
A minha opinião não difere muito da dele, não. Quando leio (o pouco que leio) a imprensa brasileira, ela me deixa simplesmente PASMO. Quer dizer, o simples fato de, religiosamente, ás Segundas-feiras, todos os jornais brasileiros estamparem ENORMES, uma foto do GOL do dia anterior, já é, em si, um atestado de… (ah, deixa, estou exausto). Juro, estou chegando no meu limite.
Blog já é um pouco diferente. Existe um pouco mais de autonomia. Mas a quantidade de merda que se escreve, que se twita ou tweeta, é simplesmente “amazing”. Não bastasse a idiotice de receber texto via celular, e a praga do iPhone, do iPod , do iFode, do não fode, agora ninguém mais sai do MYSPACE, ou do FACEBOOK, e realmente estamos em plena crise da idiotice dos idiotas!!!
Bem, aqui nesse blog, estamos chegando perto de completar um ano de hospedagem pelo IG. Somando com o UOL, dá mais ou menos 5 anos e meio de papel-higiênico virtual. Nossa! Quanta coisa já foi escrita. Quanta coisa ainda não foi!
Será que me imagino escrevendo daqui a três meses?
JURO que não sei. Juro!
No estado mental, psicológico e físico em que me encontro, eu marcaria um enorme encontro com todos os amigos do Blog numa… pizzaria vegana. E daria um beijo em todos e partiria no Queen Mary pro Mediterrâneo pra Creta. Pra Eletra Com Creta, pra Carmem Com Filtro Com Creta, Pra Trilogia Kafka Com Creta, ou pra qualquer território teatral concreto, mas não mais pra esse espaço aqui que… sei lá, cabe mais aos comentaristas políticos que se disfarçam daquilo que não são e comentam aquilo que não sabem. Exemplo:
BRASÍLIA - “Aconteceu de novo. Juízes passaram um feriadão num hotel de luxo acompanhados de mulheres ou maridos. Desta vez, eram magistrados ligados à Justiça do Trabalho. A conta do Tivoli Ecoresort Praia do Forte, na Bahia, foi paga pela pela Febraban, a federação dos bancos brasileiros. Os juízes sempre dão a mesma explicação para esse tipo de estripulia. É tudo legal, feito às claras. Um magistrado não se venderia por um fim de semana num resort de luxo com todas as mordomias pagas. Para arrematar, é um “sacrifício” desfrutar uns dias diante do mar. João Oreste Dalazen, vice-presidente do TST e membro do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), declarou ter sido “um sacrifício muito grande” passar o feriado de 21 de abril no hotel de luxo. Em setembro de 2006, o então corregedor nacional do CNJ, Antonio de Pádua Ribeiro…”
CHEGA ! CHEGA! Eu berro antes mesmo de chegar no final (já próximo). Sim, o texto é válido. Aliás, super. Mas parece encomendado pelo GRANDE ESQUEMA. Ou seja, “eu erro e você comenta: certo? E não me acontece nada. E fica tudo por isso mesmo.”
O Brasil é um pais blindado! O ser humano parece cada ver mais blindado também!
Um excelente dramaturgo baiano, Gil Vicente Tavares, ignorado pela imprensa de Salvador, ganha elogios da imprensa européia. Mas em sua própria cidade nao é notado. Eu lhe escrevo pra ignorar a ignorância porque a mídia esta viciada sempre nos mesmos nomes: peguem os cadernos culturais de um mês. Juntem esses cadernos. Façam uma lista dos nomes que saem. É uma vergonha. É sempre a mesmíssima coisa!
E por quê? Com os prêmios é também a mesma coisa. As pessoas gostam de se auto-celebrar. Acaba sendo uma maneira de se encontrarem, uma desculpa de segurarem uma taça de champagne na mão e um chacoalhozinho de mãos, um apertozinho no cinto, um “sinto muito pela perda” de alguém que morreu, um “parabéns pela tua obra” (sem saber direito se a pessoa é de cinema, teatro ou nenhuma das duas coisas!). Vocês deveriam ver! É patético, mas hilário. Tragicômico. Ou de vomitar! É Dercy Gonçalves puro. “Hoje, homenageio… (…..)… sussurros e mais sussurros (como é mesmo seu o nome?”)
Cerimônias esquizofrênicas que transformam em múmias canonizadas aqueles que morrem! CRUZES!
Agora que passou mais de mês e meio, posso contar. Ah, querem saber? Não vou contar, não. Ah, vou sim! Fica valendo a falsa manchete do O Globo: “Zé Celso lança DVDs em Nova York.”
Jura? Lançou? Onde? Me lembro de ter alugado um espaço, pago por MIM, onde foi PROJETADO as Bacantes para um número de pessoas… E o resto é pura invenção!!!! VIVA O MITO da mentira e GLÓRIA: Tancredo Neves estava morto antes de estar morto!
Ah a mídia… não é, Daniel?
Gerald Thomas
comentario do Feingold
- 12/05/2009 – 15:16Enviado por: Daniel FeingoldCaríssimo,Havia me esquecido que você é um homem extremamente público e que sendo assim, em algum momento mais adiante, caso o conteúdo corrosivo de nossas considerações de ontem perturbasse ainda mais a ineficácia de seus rivotrís, à revelia de minha proferida timidez que teima em esconder minha figura, meu nome também acabaria vindo à público. Como conversamos “quase que” longamente ontem e hoje vejo sua menção à nossa discussão, volto a te dizer do quanto minha dolorosa solidão encontra ressonância em suas reflexões diante da falta de ambição dos habitantes do Brasil. Chamo-nos habitantes porque soa mal essa idéia de “povo brasileiro.” Parece algo cunhado por antigos ditadores e que insiste em progredir por aqui. Aqui a construção moderna da idéia de “cidadão”caiu no domínio compassional e tem ficado a encargo de ONGs beneficentes em vez de estimular uma política pública educacional. Não conseguiremos construir cidadania por aqui enquanto não nos livrarmos do clientelismo, do assistencialismo, do poder retrógrado dos bunkers nordestinos. Cinicamente hoje, mais uma vez nos vemos controlados por um trio oligarca: Sarney, Calheiros, Collor. A perpetuação do retrocesso no poder por mais de 40 anos! Ainda uma terra extensa controlada por famílias dominantes. Repito, há de se temer também o Temer, o agente que aquadrada a figura triangular acima. Todos limpos demais, escovados, enternados cínicos e arrogantes atuam diante de 200 milhões de passivos ilhéus. Sim por que assim nos comportamos, como tal assim agimos. Amedrontados “cercados por todos os lados.” É o teu “lá fora” que, para um surfista como eu, significa_ depois da arrebentação. Trancados dentro de terra imensa, acreditando puramente na informação como agente transformador. Conhecer é enfrentar o risco do desconhecido, é o exercício moderno do espaço público e o enfrentamento das fobias dalí advindas e/ou alí projetadas, é ter que se atritar com a adversidade da vida, com o estranho sem obrigatorimente querer transformá-lo em unanimidade. A tecnologia por si não liberta, a ilusão agora é a de que todos estamos plugados no mundo mas não é assim que funciona. A vida online não é mais provocativa do que o áspero contato do conhecimento que nos obriga o passado como catapulta para o futuro. A tecnologia tem fornecido sem duvida mais informação mas isto sozinho não promove o conhecimento.
Como você aponta, nos jornais daqui, a primeira página de segunda-feira é o lugar da emoção do esporte. O atacante gordo que felizmente continua atacando nos traz felicidade. Outro atacante, de 27 anos, menos gordo porém emocionalmente invaginado, bebe, açoitado pela ausência do feijão, da farofa, da empada, do afeto dos antigos companheiros de infância. Êle quer voltar_ pede o colo da mãe e o afago do povo que penalizado o adota. O “clube X” da oficialidade nacional o adota. A oficialidade nacional é o retrocesso para qualquer luz do espírito. Mais ainda, luz do espírito soa evangélico demais mas, como poderia se dizer hoje no mundo e ao mundo, “espírito das luzes”? O brasileiro não desmama… A mídia copia a forma estrangeira e a classe mérdia, se apronta para consumir a casa a la Miami, o carro tecnológico que deveria ser vendido sem sinalizador lateral já que ninguém aprende a se comportar, pensa só em si, e não sinaliza manobras. As músicas em ingles banal vendem o produto: a casa, o carro, o remédio é tudo igual. Enquanto aberrantes escândalos nos circundam nos congresso e senado, enquanto acontece o retorno das mais desqualificantes figuras políticas deste país, daqueles que impunemente e coniventemente atravessaram uma ditadura criminosa que até hoje não nos permite observar seus arquivos, enquanto esta ópera bufa se desenrola em capítulos sem fim. Uma lei de imprensa, isto é, lei que controlava a imprensa, que punia aqueles que escreviam em desacordo com o status quo, dizem ter sido revogada, isto agora, 40 anos depois de ser instaurada pela ditadura. Daí pensar, à medida que teóricos, poetas, escritores, intelectuais em geral têm sido, na mídia, paulatinamente substituídos por jornalistas medianos, bem pagos, sempre mais suscetíveis ao agasalho do bom salário e à propenção ao acordo pacífico com as ordens das corporações. Não que clame por um chulo puritanismo abstinente ao dinheiro nem a apologia do intelectual ou scholar mas, aponto sim o descaso, o desinteresse, o medo de aprofundar discussões, de trazer à superfície conteúdos embasados nas dúvidas, nas desconfianças de todos, e até porque não, no pensamento mais abstrato, menos causal. Vejo muitos repórteres, basicamente entrevistadores, como são acovardados, instigadores da fofoca, da intriga somente. Talvez porque passaram todas essas décadas temendo ser expurgados e, acho, no fundo, assim acabaram sendo. Existem contudo alguns corajosos que me agradam como o Alberto Dines por exemplo.
Caríssimo, vejo a ambição como uma virtude em oposição ao vazio inoperante da arrogância burra. Não sei o que fazer com esse meu ceticismo pois observo o contingente desta nação sem verdadeira ambição coletiva. Até o melhor de nossa história recente: o neo-concretismo, a bossa-nova, a arquitetura modernista, tem sido mais bem armazenado em registros em outras terras do que aqui. É certo que o armazém não substitui a experiência mas, se a memória escapa, por aí também vai nossa história culta.
Além do nosso inerente judaísmo ateu, compartilhamos intestinos multifacetados que lembram, à distância, as incursões do cubismo analítico de Braque e Picasso, não poderíamos então nos eximir desta propensão crítica e deixar escapar das paletas deste cubismo aquilo que é sócio-político e nos diz respeito. Mas o que vejo, e que ainda instiga, é que acima de tudo continua pulsando o que mais estimamos, o desejo de liberdade. Beijos,Feingold
ah como gostaria de acompanhar tudo, de perto.
Entre todos os vazios, o mais assustador é a melancolia, esta sombra da depressão, entristece os seres sem alguma razão explícita, imobilizando a estes. A ausência da vontade, a intrínseca ausência da vontade, o pontio virtual brota, cresce e alastra -se dentro de ti. O despertar deste vazio, pode estar contido na visão inesperada de alguém, devidamente guardada em alguma caixa, ou em uma frase que dita provoca o nefasto efeito de alguma saudade. Nem o jardim mais florido, enxergamos, nem o céu mais estrelado contemplamos, tudo completamente ausente, todos os sentidos desconectados da alma, apenas varrendo as memórias e tentando deleta-las novamente. Mundo muito complicado este, que reside dentro da caixa craniana.
Claudio, acho que a infância não acabou, mas mudou muito, e não é só por ausa dos adultos.
Minha filha, com 6 anos, já estava enjoada do playground. Hoje, com 8 anos, ela fica negociando para colocar mais atividades em sua atribulada agenda. Eu é que tive que dar um basta: para alguma nova atividade entrar, outra sai, já que o português e a matemática não vão sair. Apesar disso, uma criança é sempre uma criança, e sua alma brilha.
Tene, a tristeza e o medo são emoções caras. Alegria se compra barato.
Sandra,
Você falou de Monteiro Lobato. Eis um dos melhores contos que já li ( de Monteiro Lobato):
“Negrinha
Monteiro Lobato
Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
— Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
— Cale a boca, diabo!
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer…
Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
— Sentadinha aí, e bico, hein?
Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
— Braços cruzados, já, diabo!
Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.
Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste…
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta…
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”…
O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:
— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!…
Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!
Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.
Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.
— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.
Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.
— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.
— Traga um ovo.
Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
— Venha cá!
Negrinha aproximou-se.
— Abra a boca!
Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:
— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida… Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!
— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.
— Sim, mas cansa…
— Quem dá aos pobres empresta a Deus.
A boa senhora suspirou resignadamente.
— Inda é o que vale…
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.
Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.
Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também… Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.
Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?
Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.
— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus… Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.
— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.
Chegaram as malas e logo:
— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.
Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
Que maravilha! Um cavalo de pau!… Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais… Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos… que falava “mamã”… que dormia…
Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
— É feita?… — perguntou, extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
— Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
— Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente… era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha…
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.
Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
Mas, imóvel, sem rufar as asas.
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…
E tudo se esvaiu em trevas.
Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados…
E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
— “Como era boa para um cocre!…”
Monteiro Lobato, natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos “Urupês”, em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — “Onda Verde”, “Idéias de Jeca Tatu”, “Cidades Mortas”, “Negrinha”, “Fábulas”, “O Choque”, etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e dezenas de livros, especialmente de Kipling. Uma vida cheia. E uma grande obra, que lhe preservará o nome glorioso. Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil exemplares de seus livros.
Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor, diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948.
O texto acima foi publicado originalmente em livro do mesmo nome, tendo sido selecionado por Ítalo Moriconi e consta de “Os cem melhores contos brasileiros do século”, editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 78.”
FONTE:
http://www.bancodeescola.com/negrinha.htm
PS: Às vezes eu penso que o Gerald é a Negrinha do Blog… Talvez ele esteja aqui para servir os nossos desejos.
[=
Contrera, quer dizer que junho trará, novamente, um novo Carnaval!
“Voces nao sentem? Eu sinto. Pois, maio esta acabando e eu ja sinto uma especie de Carnaval Universal acontecendo. Dificil explicar: eh assim: qualquer um muda as regras de qualquer jogo, Intepreta o que quizer de quaisquer fatos, Escreve-se besteira apos besteira e mesmo assim, existe um clima exuberante no ar..” (GT)
(http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/2008/05/27/o-carnaval-se-aproximando/)
Esse conto é lindo, [=. E atual.
Pois é… A tristeza é uma emoção cara.
Mas o Gerald é blindado pelas minhas orações. Ninguém o vencerá, a não ser com palavras tão iluminadas quanto as dele.
Bom domingo a todos! Beijos!
17/05/2009 – 08:58
Enviado por: Doido Varrido
“Só não tinha coragem de contar.”
Pacheco palhaço, odioso dissimulado, não sabes nem de ti, vais saber de mim, da minha coragem?
Eu, sim, te conheço, mala ridículo, sem a mínima autocrítica.
Tu, sim, não tiveste coragem de citar meu nome, de dirigir-se a mim.
Venha com, “- Serviu a carapuça?”, para confirmar o que digo.
Reinaldo
17/05/2009 – 20:52
Enviado por: Sandra
A piada não é minha, transcrevi porque achei o desfecho muito engraçado. O censurador não censurou.
Peguei pesado por transcrevê-la? Então, tá, “direito teu”.
Reinaldo
17/05/2009 – 21:10
Enviado por: [=
“Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.”
Não, nunca uma pessoa tão cruel subitamente se apiedaria. (“Como era boa para um cocre!…”)
Se a mesma crueldade lhe fosse aplicada, talvez sim.
“PS: Às vezes eu penso que o Gerald é a Negrinha do Blog… Talvez ele esteja aqui para servir os nossos desejos.”
Para servir os meus desejos, não. Além disto, Gerald não é uma “Negrinha” nem uma “Sinhá”, mas está mais para esta.
Reinaldo
Discussão madura busca solução, não vitória.
Em vez de “- Ó, mundo imundo!”, trocar a passividade pela atividade real.
Este blog é vitrine para vaidades, socialmente inócuo.
Exerci o magistério superior por 33 anos, contribuí para a formação de profissionais competentes e cidadãos pensantes, responsáveis. Aposentado, faço parte do Conselho de Representantes da Seção Sindical dos Docentes da UFSM e contribuo com o “Jornal da SEDUFSM”, de distribuição nacional, com cartuns e charges de crítica social.
Literalmente, plantar abrobrinhas é consequente, dizer, não.
Por último, Gerald é um artista plástico.
abobrinhas*
P/ Tene Cheba,
Uma singela mensagem-
Tudo Passa
Havia um rei muito poderoso que tinha tudo na vida, mas sentia-se confuso. Resolveu consultar os sábios do reino e disse-lhes:
- Não sei por que me sinto estranho e preciso ter paz de espírito. Preciso de algo que me faça alegre quando estiver triste e que me faça triste quando estiver alegre.
Os sábios resolveram dar um anel ao rei, desde que o rei seguisse certas condições:
Debaixo do anel existe uma mensagem, mas o rei só deverá abrir o anel quando ele estiver num momento intolerável. Se abrir só por curiosidade, a mensagem perderá o seu significado. Quando TUDO estiver perdido, a confusão for total, acontecer a agonia e nada mais puder ser feito, aí o rei deve abrir o anel.
O rei seguiu o conselho. Um dia o país entrou em guerra e perdeu. Houve vários momentos em que a situação ficou terrível, mas o rei não abriu o anel porque ainda não era o fim. O reino estava perdido, mas ainda podia recuperá-lo. Fugiu do reino para se salvar. O inimigo o seguiu, mas o rei cavalgou até que perdeu os companheiros e o cavalo.
Seguiu a pé, sozinho, e os inimigos atrás; era possível ouvir o ruído dos cavalos. Os pés sangravam, mas tinha que continuar a correr. O inimigo se aproxima e o rei, quase desmaiado, chega à beira de um precipício. Os inimigos estão cada vez mais perto e não há saída, mas o rei ainda pensa:
- Estou vivo, talvez o inimigo mude de direção. Ainda não é o momento de ler a mensagem…
Olha o abismo e vê leões lá embaixo, não tem mais jeito. Os inimigos estão muito próximos, e aí o rei abre o anel e lê a mensagem: “Isto também passará”. De súbito, o rei relaxa. Isto também passará e, naturalmente, o inimigo mudou de direção. O rei volta e tempo depois reúne seus exércitos e reconquista seu país. Há uma grande festa, o povo dança nas ruas e o rei está felicíssimo, chora de tanta alegria e, de repente, se lembra do anel, abre-o e lê a mensagem: “Isto também passará”. Novamente ele relaxa, e assim obtém a sabedoria e a paz de espírito.
Em qualquer situação, boa ou ruim, de prosperidade ou de dificuldades, em que as emoções parecem dominar tudo o que fazemos, é importante que nos lembremos de que tudo é efêmero, de que tudo passará, de que é impossível perpetuarmos os momentos que vivemos, queiramos ou não, sejam eles escolhidos ou não.
A ansiedade, freqüentemente, não nos deixa analisar o que nos ocorre com objetividade. Nem sempre é possível, mesmo. Mas, em muitos momentos, precipitamos atitudes que só pioram o que queríamos que melhorasse, e é na esfera dos relacionamentos amorosos que isso ocorre quase sempre.
A calma, conforme o ditado popular, pode ser o melhor remédio diante daquilo que não depende de nós… Manter as emoções constantemente sob controle é pura fantasia e qualquer um já viveu a sensação de pânico ao perceber que o que mais se valoriza está escapando por entre os dedos.
“Dar tempo ao tempo” não é sintoma de passividade, mas de sabedoria na maior parte dos casos.
18/05/2009 – 05:02
Enviado por: Reinaldo Pedroso
“Este blog é vitrine para vaidades, socialmente inócuo.”
Esqueci das exceções, desculpem.
Reinaldo
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…
Privar uma criança de conviver com o pai, principalmente na ausência da mãe, não é só cruel, é criminoso. Se estes adultos arrogantes e pretenciosos pensam que com isto estão conquistando a criança, estão muito enganados. É só uma questão de tempo e a criança vai perceber quem está mentindo e manipulando. E quanto mais tempo durar este “joguinho jurídico velhaco e “eshshshperrrtto”, mais a criança vai ficar ressentida em relação aos “eshshshperrrttos” que se valem da justiça monárquica, cruel e cheia de “jeitinhos brasileiros”. Que tal tentar ser decentes? Pelo menos com a criança. Devolvam o menino ao pai seus pilantras. Tanto os da “familia enlutada” quanto os amigos da “justiça”.
Os aspecto fisico desse cidadão me faz lembrar de Himler, hitler, Goering, SS, holocausto, Gestapo etc…
acho que estou sem a menor vontade de continuar lendo esse blog pois nao tem sentido.
realmente o mundo e movido por 10% dos homens o resto so diz que faz ……