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12/01/2009 - 14:34

Pânico do Mundo?

 

 

 

“Considerando o cenário contemporâneo”, escreve João Carlos do Espírito Santo, “no qual impera o hedonismo em detrimento da razão e das buscas do bem comum, é importante entender em que solo deitamos nossas sementes, aos olhos de quem nos apresentamos.”

Fiquei mudo por um tempo olhando a tela. Sim. Sim. João Carlos é uma pessoa com a qual me correspondo com frequência. Muita frequência. Mais que um ombro amigo, um psicanalista e intelectual que aprecia Rosa, Haroldo de Campos, Joyce e, obviamente, Freud.

Ainda olhando o cenário e tendo um certo pânico do mundo com o que está acontecendo depois que o nosso Governador Patterson anunciou: “O Estado de Nova York está num déficit de 15 bilhões, ou trilhões ou terrabites, ou a minha emoção em descer aqui pra Washington DC pra ver a Inauguration do nosso Obama em OITO dias no meio dessa tremenda CRISE econômica que afeta amigos, parentes, dentes, pentes e escovas de cabelo, caspas, aspas e tal…e Gaza e as mortes e Israel, e Ellen Stewart e as peças de teatro que tenho que entregar e não tenho tempo, tempo, tempo….O MUNDO me consome. Como responder, João? Como?

Respondo citando Artaud:

“Jamais, quando é a própria vida que nos foge, falou-se tanto em civilização e em cultura. Há um estranho paralelismo entre essa destruição generalizada da vida, que se encontra na base da desmoralização atual, e a preocupação com uma cultura que jamais coincidiu com a vida, e que é feita para governar sobre a vida.

Antes de retornar à cultura, observo que o mundo tem fome, e que ele não se preocupa com a cultura; e que é apenas de maneira artificial que se quer dirigir para a cultura pensamentos que estão voltados unicamente para a fome.

O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência jamais salvou um homem de ter fome e da preocupação de viver melhor, e sim extrair disso que se chama de cultura ideias cuja força viva seja idêntica à da fome.

GT: Aliás, citei Artaud, mas não sei se estou de acordo totalmente. Vou te dar um exemplo mais específico, João Carlos. Essa foto ai em cima, dos soldados se abraçando, o que significa isso? O que pode significar isso quando soldados (seja de onde forem) se abraçam e comemoram a vitória? Qual a dívida humana de inocentes do outro lado desse abraço? Quanto custa cada vez que um soldado toca no outro? E justamente nesse momento onde escrevo uma peça chamada Body Parts (Pedaços de um Corpo).

João: Nas buscas do bem comum, é importante entender em que solo deitamos nossas sementes, aos olhos de quem nos apresentamos.

Mas, há sempre uma trilha do meio, uma possibilidade de, sem perder nos princípios básicos, naquilo que nos constitui e nos dá sentido à existência, manter a travessia, coerentemente. Há uma patologia fomentada nos espaços da Internet, que permite, em função do anonimato, expressões que – no tête-à-tête – não aconteceriam, pois covardes não firmam posições, não dão a cara à tapa, são, por excelência CANALHAS.

GT: Vivemos várias vidas. Não vivemos linearmente. Não pensamos linearmente. Daí a importância de Joyce, daí a importância de Pollock. Enquanto dirijo um carro, e no CD player estudo uma opera de Wagner, me emociono com uma ária qualquer, mas não perco o foco de PRA ONDE estou indo e o movimento dos carros. Tenho que frear, quando os carros freiam. Sei que estou indo visitar alguém que me importa, uma visita/appointment que me trará algo de importante: um diretor artístico de uma opera. Portanto, estou nervoso. Tenho, digamos, dois amigos no carro. Eles conversam entre si. A conversa é política. Não posso deixar de ouvir o que dizem e, portanto, “sentir” e me envolver com o que estão dizendo.

1- emoção com a opera que está tocando

2- atenção no trânsito

3- tensão com o encontro

4- prestando atenção às pessoas na rua, aos detalhes dos loucos e não loucos que atravessam a rua, aos “tipos” que me chamam atenção….

5- a conversa que rola no carro

6- desconforto físico, o cinto de segurança que me estrangula, misturado ao cachecol por causa do frio

7- olhando sempre no relógio preocupado com o horário

8- a opera no CD player está chegando a um clímax e eu subo o volume e me emociono mais: isso me traz lembranças de quando eu..(não sei mais, dirigi essa opera em, a, b, c ou d e com quem eu estava nessa época, entende as ramificações?). Ou meus pais me contando sobre essa opera em alemão ou inglês quando menino etc….

Ou, ainda, como falhei ou fui um sucesso e a casa vindo abaixo e o que eu podia ter melhorado….quando dirigi tal opera…

TANTAS COISAS TANTAS COISAS…

Marcelo Rubens Paiva: Há uns tempos, criticavam uma obra de arte que tivesse começo, meio e fim, “detalhes” que indicavam acomodação e incapacidade de inovação. Podia até ter começo, mas meio e fim, era o fim! A regra: não facilitar para o público. Se quisessem algo mastigado, nem azedo nem amargo, que comessem pizza em frente à TV, gênero inferior e vendido por natureza, dizia-se. O lance era complicar, para indicar o ilogismo da vida e da morte, o lance era confundir, para baixarmos a guarda da audiência, penetrar com um jab nos lapsos, conquistá-la por desvios ao dissecar o núcleo dos mitos e arquétipos; imagens do inconsciente coletivo.

GT: Eu sei, mas isso foi demolido pelos iconoclastas ou pelos desconstrutivistas. Eu fui um deles. Ou o último vírus nessa grave epidemia. E agora? Body Parts? Ainda? Ainda destruindo. Não. Reconstruindo.

João Carlos: O teatro, e você pode desdobrar isso, aprofundar o que te digo, pede engajamento, mesmo que seja o mais superficial, pois a pessoa, dentre todo o universo de peças em cartaz, escolhe uma, organiza sua agenda para também se apresentar publicamente, pactua um tempo de entrega,

Marcelo R Paiva: Um escritor tinha de fazer o curso de mitologia do Juanito Brandão e ter em mãos o dicionário de símbolos de Juan-Eduardo Cirlot. A arte buscava os personagens de sua origem, mas se afastava de seu formato e se inspirava no caos.

GT: Mas o que é o teatro ou esse Pânico do mundo ou essa lucidez avassaladora? Não será uma vontade louca de olhar essa foto e transformá-la numa cena teatral onde a primeira frase diz assim: “amanhã, acordarei melhor, todos acordarão melhor, mesmo sem rins e sem fígados, ou com meio rim, com parte do fígado. Se um “deus” nessa nossa incógnita (não é surpreendente eu estar dizendo isso?) eu jamais teria estado no lugar certo na hora certa. É isso não é? O que me fez estar aqui nesse momento da vida foram as circunstâncias. Eu beijo as calçadas por onde andei por elas terem me dado a oportunidade de ter andado, aprendido a viver the rough side of life muito cedo, mas as beijo. Por isso, Saint Genet. Por isso, sai tão cedo de tudo, sempre saio cedo de tudo e não acredito em sucesso, não acredito nessa superficialidade de sucesso, uma vez que, colocado no CD player ….o Stravinski… “The rite of Spring” …com Leonard Bernstein regendo….e ensinando…., parece que o mundo pode, sim, ter um final feliz e em paz…..

Sim, Graças a tudo. Ellen Stewart está melhor agora, 10 da manhã de segunda nessa gélida New York. Pode piorar à tarde. Tudo me dá medo. São dias tensos. Mas já foi diferente? Quando leio, e com muito interesse, os comentários do Blog, e às vezes me irrito com o nível de agressão, penso em desistir.

Penso em cair fora e seguir os conselhos da Ellen: “escreva pra Teatro, Gerry, esqueça essa coisa de Blog”. Mas eu subo aqueles 67 degraus que me levam ao apartamento dela lá no 5º andar e penso nessa foto dos soldados e nas mortes e nas tantas explosões, e no fogo de uma lareira e na posse de Obama e nas economias falidas e nos seres humanos falidos porque é cão contra cão. Cão come cão!

E o teatro sempre foi o espelho disso: Hamlet, seu melhor expoente até hoje. Ah sim, o canibalismo verbal. Tem aqueles que amam chamá-lo de antropofagia. É que virou, digamos assim, “moda”, roubar e não devolver. Roubam vidas. Roubam identidades. Roubam-nos uma década. Uma década de inutilidades: e agora? Agora é remover o LIXO de nossos quintais. Praqueles que tem um quintal.

Gerald Thomas

Autor: gthomas - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , ,

581 comentários para “Pânico do Mundo?”

  1. lisantannna@hotmail.com disse:

    Como estou moderando o vicio só uso a net no final de semana. Daí leio o que o povo pensou durante a semana. Hoje estou com preguiça. Nem estava a fim de perguntar se alguém viu o Marcelo por aí. Mesmo que tivessem visto não iriam me contar. O mundo conspira contra a minha existência.

    Mas então quem escreveu resolveu contar sobre os seus pensamentos quando estava em um carro. Hoje a tarde tive curiosidade de saber o que o resto do mundo pensa quando v televisão ou dirige ou come (com vírgulas).

    Enfim… Não sou pessoa que consiga manter a palavra dada a si própria.

    Xo ler o outro e tentar não comentar.

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