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08/01/2009 - 16:50

Os Dois Baracks e Uma MaMa

                                              

 

 (Foto de Gerald Thomas, do celular)

Há cerca de um mês estava tudo tranquilo. Quer dizer, tranquilo…Nunca nada, ever, está tranquilo. Mas Ellen Stewart, a fundadora do La MaMa ETC (Experimental Theater Club, que cunhou esse termo, ‘teatro experimental’), estava em seu apartamento, no 5 andar acima do teatro onde comecei minha carreira ‘oficial’ com as peças de, bem, vocês sabem de quem. De um irlandês famoso, o mais genial: Sam Beckett. E, até semana passada, nosso presidente Barack Obama ainda estava no Havaí de férias e o bombardeio entre Israel e o Hamas ainda não havia começado. Não era Natal ainda. Jesus ainda não havia nascido.

Bem. Os dois Baraks, ou Baracks, saíram de seus refúgios e Ellen Stewart entrou, em estado grave, para o hospital, para o refúgio de uma UTI. Algum paralelo? Talvez. Ontem, ao visitar a minha mamma, a pessoa a qual devo toda minha vida teatral, ela me dizia: “temos dois Baraks, dois Baracks, você precisa escrever sobre isso. E precisa escrever sobre como os judeus sefaradins são perseguidos por vocês!”

Eu, Mamma? Eu não persigo….

“Você, é maneira de dizer… vocês ashkenazis”

Ela se referia aos milhões de judeus Yemenitas, Etíopes e Somalianos ou  Egipcios ou Iraquianos e aqueles nascidos em solo “palestino” de cor escura. “São tratados como nós, negros, éramos, ou ainda somos, pelos brancos, aqui e no mundo”.

Sim, Ellen sabe tudo sobre racismo. Vinda de Chicago para New York nos anos cinqüenta pra trabalhar como estilista na loja Sack’s Fifth Avenue, ela tinha que entrar pela porta dos fundos. Era a única estilista negra. Lutou, berrou, esperneou e ralou até que chegou onde chegou: Fundadora do mais reconhecido teatro experimental do mundo, aquele que trouxe (da Polônia) Jersy Grotowsy e Tadeuz Kantor ou, do mundo, Peter Brook, Kazuo Ono, ou de paises confinados,  ou reduzidos a trapos, dezenas de artistas do palco  pra cena do East Village e deu ‘voz’ pra companhias como o ‘Mabou Mines” (de onde surgiu Philip Glass), e tantas milhares de outros, como Sam Sheppard ou até Robert de Niro e Bob Wilson….Ellen é, como diz Harvey Firestein (autor de “Torch Song Trilogy”), “Ellen é responsável por 80 por cento do que está nas telas e nos palcos americanos” (entrevista a Vanity Fair de anos atrás).

Estamos confinados.

Até semanas atrás, Ehud Barak, ministro da defesa de Israel e ex- Primeiro Ministro (deposto em 2000 ou 2001, não me lembro), era considerado um homem praticamente morto na vida política israelense. Ele é membro do mesmo partido trabalhista (o de Golda Meir e Ben Gurion, o fundador do Estado de Israel)…. ah, e, by the way, Barak é sefaradim , portanto não muito popular entre os “brancos” como Benjamin Netanyahu, também ex-primeiro ministro, educado aqui nos States, um perfeito sotaque inglês americano, um cara que era visto jogging em Central Park, digo, o Natanyahu.

Bem, ninguém está mais falando assim de Ehud Barak agora, nesse momento. Essa guerra contra o Hamas ou contra os palestinos, depende de como vocês queiram ler, é uma guerra ‘tida como pessoal’. Paralelos com George W Bush e o Iraque? Sim, já que o Pai, George Bush “Senior”, dono da guerra Desert Storm deixou o ditador Saddam Hussein, intacto? “W” foi lá e, crau! Estamos onde estamos. E a dívida? E a dívida humana?

Paralelos? Ontem, conversando pausadamente com a Ellen (nome da minha mãe biológica também), no hospital – (e não riam) – “Beth Israel”, ao sair para comprar uma barra de chocolate pra ela, perguntei pra alguns médicos judeus orthodoxos o que achavam do atual conflito: “DISGUSTING ! “Em tantos anos de intelligence gathering, deveria se achar uma outra maneira de desmantelar um grupo terrorista como o Hamas”. Já outro me dizia…”Crush them all” (massacrem, amassem todos!).

Barak está todo prosa: vestido com seu casaco de couro ele está respeitadíssimo entre seus pares no Knesset (parlamento) Israelense. Barack Obama está morando provisoriamente num hotel em DC. Faltam 12 dias para sua inauguração. Todo prosa, e com razão, ele está com seu terno e gravata tentando dar um jeito na economia americana que está um trapo: parece uma dessas fotos que se vê saindo de Gaza. Me desculpem pela péssima analogia, mas era evidente que um paralelo gráfico teria que ser feito.

Ellen Stewart apertava minha mão. Dificuldade em respirar. Mão enfaixada pelas injeções de insulina, etc. Ás vezes encostava a cabeça no meu ombro. Essa cena me é comum há três décadas, afinal, essa é a pessoa que me deu a vida no palco e comemora NOVENTA anos de idade. E me diz….”genocídio de crianças eh imperdoável…sob qualquer circunstancia….e a perseguição entre vocês….”. A enfermeira interrompeu. Era hora dos procedimentos médicos. Saí do quarto. Fiquei em pé no corredor pensando nessa mulher que passou metade de sua vida profissional amando Israel, montando um teatro lá.

Hoje, com o ataque do Hesbollah, ela já está em casa, sempre com a televisão ligada. “Gerald, escreve o que você tem que escrever, mas escreve para o palco. Não entendo isso de Blog que você fala”.

Essa é uma homenagem a Ellen Stewart.  Essa é uma homenagem a todos os que têm uma opinião, seja ela qual for. Mas cuidado: para se ter opinião mesmo, deve se saber onde, porquê e quando. E não arrotar ou reciclar bobagens.

Gerald Thomas

PS: Este artigo só faz sentido se lerem  antes “Israel Sexy”, no post abaixo, com seus quase 700 comentários.

 

(Vamp na edição)

Autor: gthomas - Categoria(s): artigos Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

502 comentários para “Os Dois Baracks e Uma MaMa”

  1. Maycon gomes disse:

    oi muito emocionante ver Paulinho Daflin segurando o caixão de Edith Oliveira ontem. Ele veio para Santo Amaro para ficar perto do samba-de-roda, da chula, do violão de Roberto Mendes e de todos os mestres anônimos que, para além do mestre maior, Gilberto Gil, ajudaram Roberto a construir e refinar seu estilo. Paulinho tinha vindo para ver e ouvir – e terminou vivendo em Santo Amaro por consideravelmente longo tempo. Já faz longo tempo também que ele deixou a cidade. Comove ver o quanto essa cultura – que Edith encarnava – pode atrair jovens guitarristas brasileiros de toda parte. Havia muita gente no enterro. A maioria era de Santo Amaro mesmo. O grupo Vozes da Purificação cantou na capela. Paulinho Daflin segurou a alça do caixão ladeira acima. (Como eu me lembrei de Carlinhos ao sentir a brisa do alto do cemitério, aonde ele sempre nos chamava para conversar, fugindo do calor! Carlinhos era o filho mais velho de Edith, meu irmão-de-leite, a razão de ela ter podido me amamentar quando o leite de minha mãe rareou. Luciano, o filho mais novo, estava lá. Carlinhos, infelizmente, morreu muitos anos antes de sua mãe).

    Edith viveu 94 anos. Sempre foi alegre e gostava muito das coisas da vida. Para olhar-se no espelho e conferir se a roupa estava boa para ir à praça numa noite de novena, ela percutia com os lábios uma batida de samba e dava uma dançadinha, batendo com as mãos nos quadris: não se reconheceria parada e séria. Tocava o prato-e-faca da história do samba (mesmo no Rio, há velhos que lembram das rodas antigas em que às vezes alguém tocava prato; Moreno, meu filho, é um excelente tocador de prato, inclusive tendo tido de repetir o samba em 5 por 4 que tocou em minha “13 de Maio” para uma gravação de Fiorella Manoia: o prato no samba antecedeu Edith e sobrevive a ela, mas todo esse passado e todo esse futuro veio a depender dela: não é natural para nós, seus parentes, chamá-la – ou ouvir chamarem-na – Edith do Prato, mas sabemos que não é descabido).

    Jorge Portugal e Roberto Mendes estavam conversando lá atrás, entre uns jazigos caiados. Nicinha e Elza choravam muito sós, cada uma tão sozinha quanto se pode estar, apesar de estarem juntas e rodeadas de todos nós. Elas pareciam mais escuras, um pouco menores e quase sem volume. Não era propriamente tristeza o que todos sentíamos. Mas Elza e Nicinha, as irmãs biológicas de Edith, tinham muita tristeza adensando as cores de suas imagens e esgarçando-lhes a matéria. Meu amigo Chico Motta, Jota (meu sobrinho querido), Mabel – todos éramos capazes de conversar com alguma animação. Ao descerem o caixão onde estava o corpo de Edith, olhei para Clara Maria e comecei a cantar baixinho “Viola, meu bem”. De modo muito natural, aprofundou-se um silêncio que fez minha voz ser ouvida – e me fez reforçá-la – e aí todos responderam ao chamado do refrão. Transcrevo aqui a letra inteira desse lindo samba tradicional em homenagem à memória de Edith – e consciente de que Heloisa em particular e os blogueiros nossos aqui em geral lembrarão o Sertão metafísico de Rosa:

    Vou-me embora pro sertão
    Viola, meu bem, viola
    Eu aqui não me dou bem
    Viola, meu bem, viola
    Sô empregado da Leste
    Sô maquinista do trem
    Vou-me embora pro sertão
    Eu aqui não me dou bem
    Ô viola, meu bem, viola.

    Esse “sô” é “seu”, de “senhor”, ou, como escrevia o próprio Rosa (e que eu, o cara legal do “sifo”, que fui agredido por um professor de sobrenome italiano citado aqui por um companheiro nosso equivocado, prefiro), “seo”. Sei que muita gente pode pensar que é “Sou empregado da Leste/ Sou maquinista do trem”, mas não é não. É o cara pedindo ao empregado da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro (que tantas vezes me levou de Santo Amaro a Salvador), ao maquinista do trem dessa empresa estatal que foi dizimada por Mário Andreazza durante a ditadura militar (na esteira do rodoviarismo desenfreado que veio como indesejável efeito colateral da industrialização de JK, da qual, aliás, Lula é um resultado direto e muitíssimo menos indesejável), que, por favor, o leve de volta pro sertão: ele não se dava bem na cidade, na zona da mata, no Recôncavo; queria o ilimitado.
    Tantas instâncias comprimidas num parágrafo, todas trançadas, pode parecer despropósito. Mas nada é demais para fazer face ao tamanho do acontecimento que é a morte de Edith Oliveira, minha mãe, minha mestra, minha amiga, meu amor, rainha da vida e, portanto, da história verdadeira do Brasil.

    O cara equivocado que ele cita sou eu, pois divulguei o blog na lista da Unicamp e o professor Sírio Posssenti andou por lá num debate sobre linguística com o Caetano.

  2. Mauricio - Barretos disse:

    Eu já estive apaixonado por um médico, mas ele sumiu; então fiquei meio tristinho, mas agora tomei uma decisão!!!!!!!! – Querem saber minha História? Pois bem; tudo começou quando me filiei ao PT. Na mesma hora senti uma coceirinha na parte traseira, ai, ui, e porque não dizer logo não é mesmo? Uma coceirinha no tóba, ui, ai, quanto mais eu me esfregava, mais coçava, e eu me esfregava daqui, me esfregava dali, e o danadinho mais coçava. Xiiii vou ter que ver do que provem esta coceira: E fui ao Médico: Um cara de bigode me atendeu e a coceira aumentou! Quando me chamaram para a sala de consulta, aiii nem gosto de lembrar queridinha, meus olhos brilharam!!, Um baita loirão me perguntou Com seu vozeirão; – Que o senhor esta sentindo? Eu fiquei sem jeito, por uns instantes, mas enfim criei coragem e respondi. – Estou com uma coceirinha, ai, que vergonha; – que é? Pode dizer!- falou ele. – Ai eu criei mais uma pitadinha de coragem, e disse- apontando o dedinho para o rabo!- Aqui ó! E ele; ai genteeee, me mandou tirar a roupa! E eu mais do que depressinha; depois me mandou ficar de quatro: Nossa esta ficando bom, que maravilha, e começou enfiar o dedo no meu fiofó, e perguntar – dói? – Não eu respondia, ele virava o dedo e eu virava o zóio, ele tornava a virar o dedo e eu virava o zóio de prazer gente. – E ele – dói? – E eu não, ele voltava a virar o dedo e eu suspirava de prazer; que bom genteeee; e ai vai vira dedo e vira zoio que não acaba mais! Que vcs acham? Eu me apaixonei; e passei a marcar exame duas vezes por semana, depois três vezes, depois quatro. E chegou uma época que eu queria marcar um de manhã, e outra de tarde. Estava correndo tudo muito bem, e eu fui tão feliz, era um tal de vira dedo e vira zoio, que me levava as nuvens, e eu me deliciando, mas o danadinho deu o fora do hospital e nem deixou seu endereço! Ó mundo cruel! Estou procurando por todos os consultórios, se vc souber onde esta um doutor lindo de morrer, me avisa quero continuar fazendo exame de próstata! Até mais ver, esta é minha triste historinha, de petista fanático do fiofó coçando!

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