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23/10/2008 - 08:33

O que temos “aprontado” no SESC Av. Paulista e também vai virar a BlogNovela

 

KEPLER, O CÃO ATORDOADO

 

Reflexões… (observações dos ensaios)

 

Por Ruy Filho

 

Tentar diagnosticar nossa identidade, já seria um desafio imensurável. Tratar o diagnóstico, então, pelo prisma da arte, associando esta ao poder, torna a abordagem ainda mais complexa.

 

Tudo inicia na exposição de corpos dependurados. Escolha anunciada do próprio criador. “Porque eu coloquei ali”. Mas há mais no que aparenta ser apenas um início de espetáculo. Não são meramente atrizes de ponta-cabeça. Os corpos, expostos como estão, re-significam-se no que possuem de mais óbvio e, portanto, menos percebível ao primeiro olhar já viciado em traduções: são corpos, meramente. Como as figuras de Francis Bacon.

 

Bacon traduz não a mera perda da identidade contemporânea, pois esta seria facilmente confundida com o que há de superficial na maneira como agimos, pensamos e nos mostramos. O que apresenta é nosso interior degenerado, corpos sem pele, cuja estrutura horrível dá imagem, cor e berro a nossas neuroses e solidões desde de sempre, em contínuo.

 

Os dois corpos no fundo do palco são, como se mostram, então, os mesmos e seus próprios duplos espelhados; o corpo sem pele e a casca solta, a voz e o silêncio do próprio criador. E, ao se auto-arremessarem sobre a parede sem exigir qualquer dramaticidade que não o mero gesto, reafirmam sua condição de corpos.

 

Espelhados igualmente, dois outros assumem o palco. Kepler se funde ao seu cão e entrega a este sua reflexão. Tornam-se o mesmo e outro. Enquanto o cão representa a razão, o homem se mostra adestrado e submisso a dar rotina ao animal. Como se estivéssemos cada vez mais voltados a priorizar nossa sobrevivência instintiva ao invés da nossa capacidade em conduzir a outros caminhos, outras possibilidades.

 

A repetição do texto inicial sugere estarmos ainda na mesma cena. Uma reapresentação da primeira. Assim, o animal e seu dono são os mesmos. Tanto quanto os dois corpos dependurados são apenas um. Feito a criação que serve para representar o criador e este a si como própria criação…

 

À razão do cão, contradiz a expurgação descontrolada da merda. Dejeto limitado a existência de um desejo concreto. O corpo absorve o necessário e devolve o que há de mais impróprio pelo resto, pelo lixo. A merda traduzindo, assim, a vida. E, segundo Artaud, representando o divino em nós, pois lembra nossa capacidade em nos purificarmos, a tentativa de sermos melhores do que somos deixando para fora de nossos corpos o que se faz desagradável, e que há algo além. Ou alguém. A merda, portanto, serve de prova da existência de Deus. Deus, entendido aqui, como o maior ou primeiro criador.

 

É disso que tratou Piero Manzoni ao expor seu próprio excremento como obra de arte, ou a Madonna de Chris Ofili, pintura ornamentada por fezes. O que esses artistas estão apresentando é a tese de que o sagrado não existe além e sim no próprio homem, na experiência concreta do corpo que traduz em si mesmo criação e criador. Pois somos o todo e o único, todos e ninguém.

 

Como responder, então, o paradoxo entre “a arte tem a cara do poder” e “o poder tem a cara da arte”? O que parece ser a mesma coisa, expõe uma problemática crucial para chegarmos a tal da identidade. Na primeira questão, a arte é colocada como artifício, instrumento de determinação de uma ordem pela subjetividade da estética; na segunda, o poder se fantasia de subjetividade para esconder sua manipulação. Mas nem tão distantes estão. Equilibram-se na existência do próprio homem como fruto responsável por ambas, já que tanto arte quanto o poder são atributos da necessidade humana de superar o meio, seja ele simbólico (e portanto cultural e natural, entendendo que a origem etimológica das duas palavras são a mesma) ou político.

 

E é esse homem, essa figura, transformada em mulher, que vemos surgir da figura do cão. Se deus é o criador de tudo e todos, então a mulher é responsável pela continuidade da vida. É ela igualmente criadora. A humanidade se configura, portanto, na existência da criação como instrumento de adoração do criador. Adoração exposta em desejo ao próprio corpo, como o streptease do ator (metáfora da necessidade de abdicarmos de nossas máscaras sociais para nos reencontrarmos puros e originais), como a idolatria ao inacessível, ao inquestionável, ao que cala, representado pelo Santo Graal (face existencial de criador supremo).

 

O Homem se afasta de seu duplo. Tem esquecido de compor sua humanidade pela junção do ser e do existir. E a individualidade solitária faz com que, ao nos afastarmos de nós mesmos, nos afastemos de nossa capacidade crítica em ouvir e comparar.

 

Não se trata de valorizar morais ou fundamentos éticos religiosos. Pelo contrário. A peça avança sobre a condição iconoclasta de maneira mais vertical, propondo o próprio homem (criador de si mesmo) como ícone a ser desconstruído ao reivindicar sua capacidade de se recriar e re-significar. Desconfigura a face sagrada e ri de sua face animalesca.

 

A questão, agora, é compreender onde nos reconhecemos então. O que resta deste homem transformado pela história em representação da própria história? Na solidão autodestrutiva, na surdez descomedida, como encontrar nossa identidade?

 

Estamos, como Kepler, isolados por e em nossos próprios discursos. Sem deuses, sem diálogos, sem respostas, pois perdemos a capacidade de fazemos perguntas. Silêncio e ausência. Se tivesse que resenhar sobre nossa identidade hoje, a partir do espetáculo, diria que estamos fadados a fracassar em sermos nós mesmos.

 

 

 

Ruy Filho

 

Autor: gthomas - Categoria(s): convidados Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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162 comentários para “O que temos “aprontado” no SESC Av. Paulista e também vai virar a BlogNovela”

  1. Rio Maynart disse:

    Sandra escreveu:

    “O Lúcio disse que eu sou Ying, o Antônio disse que sou homem, a Rio disse que sou emo, o Pacheco (que saudades!) disse que amo a liberdade, e acho que o Gerald me acha careta, e eu me defino como cartesiana. Como sou, se meus reflexos são tão fragmentados e conflitantes?”.

    Sandra você é universalmente PLURAL ou pluralmente UNIVERSAL! É isso aí!!! // rsrs…

  2. Valéria disse:

    OLha, sei que já tem outros posts acima, mas vi este e danei a surtar em voltas intestinas, entranhadas em nada, que não provam nada, mas que deu vontade afogueada de encher o saco e a visão de vocês com as minhas letras concretas que não dão contam do que se passa dentro da minha mente-alma corporal e sentimental (se bem que vcs já não vão ler isso, então melhor! ah ha ha ha):

    E vou pegar só numa ponta do iceberg:

    Esta idéia de autopurificação pela defecação é um caminho bão que bão pra se trilhar com o pensamento, dá pano pra manga! Ou caroço pra manga ah ha ha.

    Juntando isso com o último parágrafo que, se não é o seu oposto, navega em outra direção, só confirma a nossa existência sempre rica e paradoxal:

    “Se tivesse que resenhar sobre nossa identidade hoje, a partir do espetáculo, diria que estamos fadados a fracassar em sermos nós mesmos.”

    Mas me parece que esta frase já parte do princípio de que podemos abarcar o infinito que é sermos nós mesmos.
    Saber de nós mesmos… o quê? Poucas pessoas se perguntam o que elas realmente sentem e querem pra se sentirem bem e verdadeiros consigo mesmo e com os outros neste nosso mundo que temos que andar de olhos atentos e ouvidos abertos! Ser capaz, múltiplo, voraz e fragilmente forte etc…
    O objeto direto do verbo saber tá hoje em: “o que fazer pra me dar bem”…. (bem mal consigo?) e dá-lhe muitas ações e pensamentos que nos afastam de nós, que não sabem de nós, que nos anulam e nos matam com identidades sonhadamente rígidas…

    Parêntesis: Mas pensemos paradoxalmente: junto com a idéia de purificação-defecação…

    E fora o fato de que muita gente, e cada um, cria seus artifícios que, como um fetiche, substitiu não substituindo, marcando logo depois a tal presença da ausência… Bom, tô misturando alhos com bugalhos, que bom!

    Talvez por isso fracassemos… Mas as vias tortas nos levam lá também. Quando vemos ou sentimos que algo não tá bom já é um sinal de que estamos mais perto do que queremos querer, do que somos ou queremos ser, isto é, de uma suposta identidade… De uma força frágil desengessando-se…

    Mas neste mundo de corpos e mentes programados que se propõem concretos, estanques… Como tocar nesta nossa identidade maleabilizante? Aí lá vem o Gerald balançando corpos estanques em fomentação e putrefação…

    Somos assim também, esta “identidade”, esta casca dependurada… e tudo é bom e ruim
    identidade em renovação

    ah esses cadáves cheios de vida!

    A renovação também balança no ar com seu cheiro pútrido, esta germinação às avessas…

    Vamos bater paredes, tambores, panelas.. quem sabe depois a gente em vez de se chocar, se afeta?

    E ver o que não se quer ser, ou ter, já é um grande passo pra… ?

    E prefiro dizer: pra nos aproximarmos de nós mesmos, do que dizer pra sabermos de nós mesmos, isso pelo menos no primeiro passo, ou choque, ou fracasso…
    Parece besteira, mas esta diferença pode ser imensa, cinzenta.

    É tanta palavra que borbulha ao nosso lado nos exigindo um todo que nos englobe e que nos desenigme (mas somos este enigma!)- identidade, humanidade etc – estas palavras-setas que conduzem a um conjunto ( talvez a um perigoso ideal – às vezes pesadelesco), seja ele harmônico ou não…

    Enfim sem fim, estes corpos expostos duplamente – esta fratura exposta que somos, no palco e pelo avesso – podem também apontar pra uma certa defecação-renovação – casca de peles introduz nova pele etc …

    E Gerald põe o dedo na nossa ferida e na nossa amputação… Na dele também, óbvio.

    É sempre uma cabeça separada do corpo e sendo comida, ou alguém sem braço etc. Este mistério que vem da coxia-vida, da vida-coxia

    Mas tenho certeza que ela vem recheada e descascada em humor, este olhar geradianamente vazado e rico de ser.

    Estamos rodeados de facetas de identidades, estes nossos concretos fragmentos, né?

    Se naõ temos mais capacidade de fazer perguntas – ou de ouvi-las, ou de aprofundá-las ou de afetar alguém com elas – parece que já sabemos, ou pensamos ter uma noção, de que sabemos qual humanidade e identidade ideal buscar…

    Inverti e baguncei o texto do Ruy, sorry! Mas no problems, baguncei foi a minha cabeça, no problems!

    Este eterno pêndulo de corpos entre choques e eventos esculpindo em nós veias latejantes e cascas rasgantes! É bão que bão também.

    Mas não saber é um bom começo do recomeço

    Gerald, quando estréia???

    Mas será fracasso o não estar totalmente satisfeito? A flexibilidade do fracasso aponta também pruma identidade rígida em putrefação E em criação ( movimento) e desta forma, quem sabe, aponta pruma certa purificação… Aquela mão, aquele dedo de vida e de prosa de que somos capazes…

    Chega!
    bjim

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