Sociedade dopada por Psicotropicos! Pequenas sociedades Secretas. Todo mundo dopado, dopa-minado!
Pequenas Sociedades Secretas
“Me sinto estranho às vezes, ansioso, não sei o que fazer, quero espancar as paredes” – me diz um dos meus vizinhos, ex-editor da revista PRINT, Marty Fox. Com seus 76 anos bem vividos, esse editor e também autor de teatro, é um ser extremamente ansioso.
“Marty, por que você não tenta tomar Rivotril ou um outro ‘benzo’ qualquer?” Ele não quer. Não quer saber de Valium ou Frontal, Lexotan ou esses que baixam a bola.
Mas Marty parece ser um caso único.
A sociedade moderna está dopada. Ou dopa-minada. Ou minada por total! Pior que isso: está psicotropicamente congestionada. Quem dera a palavra psico-trópico tivesse sua base aqui nos lindos balneáreos caribenhos ou brasileiros, movimentos tropicalistas, mas não: mais tem a ver com o famoso livro “Tristes Trópicos” de Claude Levi-Strauss, o mais famoso antropólogo do século XX.
Falo de experiência própria: faz uns dois meses encarei uma psiquiatra em Nova York. Tudo bem. Depois de uma hora e meia de “entrevista” ela anotava algumas coisas que eu não considerava de nenhuma relevância:
1- Você tem pânico quando esta no meio de pessoas?
2- Você tem pânico quando está abrindo a porta ao sair de casa?
A vontade era a de bocejar. Tendo passado por verdadeiros mestres Freudianos e Lacanianos e tomando um poderoso Topamax + Rivotril, desde que ví, da minha janela em Brooklyn, a queda do World Trade Center naquele dia trágico (e ainda tendo que trabalhar como ‘voluntário’ no buraco- ground zero – por 21 dias) eu estava um caco, um estilhaço. Quatro dias depois de 11 de setembro eu era o próprio personagem rasgado de Beckett, com suas roupas empoeiradas…..mente em frangalhos!
Bem, voltando a tal entrevista com a tal psiquiatra: saí de lá com uma prescription (receita) de Lexapro. Primeiro eu deveria tomar 5 mg ao dia e subir para 10 mg no décimo dia.
Eu ainda me lembro de ter perguntado sobre efeitos colaterais: “Não, não terás nada. Imagine. Se, por acaso , no início, tiver algum pânico, alguma tremedeira, como muita ansiedade, quebre uma pílula de Rivotril ao meio e tome”, ela me disse.
Estranho porque, entrando no site do Lexapro, dizia-se que o medicamento era usado justamente para combater o pânico e ansiedade!!!
Tomei por 21 dias e chutei o pau da barraca! Não agüentei. Claro que por alguns dias, o mundo ficou LINDO, deu aquela fome de comer ‘fondue’ e traçar todos os queijos suíços, mas e a libido????
Assim como já havia acontecido com o Prozac, a libido foi dar uma caminhada na Sibéria. Ao contrário do Zoloft (que também experimentei por um tempo, mas abandonei porque é como uma sinfonia de Brahms: não se chega ao orgasmo NUNCA!!!!!) o Lexapro é, sim senhor, um tremendo broxante!
Curioso: faz um tempinho, um amigo muitíssimo querido, também analista, me deu um Viagra pra experimentar. Um dia experiementei. Confesso que minha visão ficou tão blurred (embassada) , tão completamente turva, que PERDI a mulher que estava na minha frente. Me deu até um pouco de náusea e… tudo foi pra baixo!
Voltando pros psicos, ou psycos (como a gente chama os loucos nos EUA), a sociedade parece mesmo não se agüentar! Só mesmo se juntando a essas pequenas sociedades secretas é que se descobre que todos os amigos também estão tomando.
“Lexapro? Porra, tô com ele e não abro, já faz dois anos” Não foram duas ou três pessoas, foram mais de dez. E quem não falou do Lexapro, falou do Effexor, do Praxil, do Wellbutrin ou sei lá do quê; ESTÁ TODO MUNDO DOPADO, ou melhor, todo mundo “seratoninando” com esses SSRI!!!
Que locura! É mais ou menos como entrar em qualquer outra sociedade secreta! Terreiro de umbanda, por exemplo: caminhos sigilosos pra chegar não sei até onde…e, de repente, chegando lá: generais quatro estrelas, policias, artistas, arquitetos renomados, sorveteiros, políticos, etc. Parece o próprio “O Balcão” de Jean Genet!!!
Isso tudo me remete a uma única coisa!!! Ao meu mestre Samuel Beckett, cada dia mais montado e cada dia mais trivializado! Abro as páginas dos jornais do mundo e, dá-lhe Beckett. Desde os “Dias Felizes”, com a Fiona Shaw, até o Micha Barishnickov, fazendo os Beckett Shorts (Eh Joe) ou Peter Brook, passeando pelo Brasil e pelo mundo com seu pocket Beckett e Ralph Fiennes e Liam Neeson interpetando, entre outras coisas “First Love” (Primeiro Amor), no Lincoln Center Festival.

Foto: Gerald Thomas e Samuel Beckett em Paris, 1984
Ah, que saudades do Lincoln Center Festival! Eu e as Fernandas (Monetenegro e Torres) fazendo o nosso Flash and Crash Days. Eu nem sabia que, aqueles sim, eram dias…felizes. Explico: a enorme empatia entre os textos CINZAS de Beckett com os dias de hoje não são à toa! Uma maneira de sair desse tom cinza é tomando antidepressivo. O outro, é formar , ou fazer parte, como fiz por anos a fio, anos e anos, dessa sociedade (agora nada secreta) de aficcionados por textos de Samuel Beckett, que celebram o eterno lamento do berço até o túmulo (the same old moans and groans from the cradle to the grave).
Encarar a realidade custa caro: com psicotrópicos, mais caro ainda. Talvez, colocar um manto cinza e recitar no palco, dia após dia, “Imaginação Morta, Imagine”, ainda seja a farsa mais holística de encarar a vida de frente, já que sabemos como somos e quão frágeis somos perante a imensidão do desconhecido de nossas próprias mentes.
Gerald Thomas
(na edicao, obrigado: Vampiro de Curitiba)
Autor: gthomas - Categoria(s): Sem categoria Tags: anti-depressivos, becket, drogas, Freud, Lacan, libido, Prozac, Rivotril, Samuel Beckett, world trade cen, wtc
lembrei de vc falando um dia no ensaio: vcs querem modificar o que se não conseguem modificar nem a si próprios? nunca esqueci isso Gerald.. é como se o todo o mundo estivesse lutando pra fora sem vencer nem a briga interna, fala-se tanto em salvar o mundo mas talvez o problema seja que o ser humano está esquecendo de que é apenas um partícula nessa imensidão, uma raça que se super valoriza até certo ponto e não aceita que também pode se extinguir por causa de seus medos, então, a partir daí, gera o caos.
lindo texto!!!
bjs
concordo.
até porque já tomei e vc sabe que hoje recuso. até o fim. prefiro pirar. minha terapeuta sabe. no máximo, tomo chá de erva de são joão. ahahah
G: vc precisa conhecer um antigo professor meu, Julio Groppa Aquino. vcs precisam conversar. procure no google. ele dá aula na educação, usp. mas não é idiota. ahahahaha pelo menos, acho…. ahahaha afinal, faz tempo que não falo com ele.
bj
contrera
Wilde no seu “the importance of being earnest” já reclamava que todo mundo “quer ser espirituoso… já é o mal de todos. Quem me dera que sobrassem alguns pobres de espírito”. Pois os que sobraram estão no seu texto amor! Pobres de espírito, bem dito, que não exergam a vida com os óculos ‘purple’ de Hoffman… por falar nisso “com Brahms nunca se chega ao orgasmo” é demais… hauahuahauah
Vamos receitar Shostakovich nos consultórios, a ‘trepada de Katerina Ismailova’ com seu amante Sergei em “Lady Macbeth from Mtsensk”com os instrumentos ’sonorizando’ o coito é melhor que qualquer Viagra… e olha que levanta hein!
beijo
Matéria bem atual. É real e não surreal essa história de todo o mundo dopaminado. Reexame interior parece ser a solução.
Estou eu lendo o texto compenetradíssima, pensando na barra que foi encarar aquele desastre horrível, e assim, sem mais:
“é como uma sinfonia de Brahms: não se chega ao orgasmo NUNCA!!!!!”
É UM DOM!!!!!!
EU SEI BEM.
EU CONHEÇO ISSO BEM.
COM OU SEM É UMA MERDA.
MAS NÃO ABRO MÃO DA MINHA DEPRESSÃO. O QUE EU FAÇO É APENAS ME BLOQUEAR E DORMIR ALGUMAS VEZES MAIS TEMPO QUE O RESTO DAS PESSOAS. NA ULTIMA PASCOA DORMI UMAS 20 HORAS SEGUIDAS.
NO PROXIMO NATAL, QUE CULMINA COM MEU ANIVERSARIO MALDITO DOIS DIAS DEPOIS JA FAÇO PLANOS. DORMIR UMAS 40 HORAS.
NUMA DESSAS EU NAO VOLTO. MAS TUDO BEM, TENHO PASSADO AS TARDES PATINANDO NAS ÁREAS ALTAS DA ZONA OESTE PAULISTANA, VENDO DE CIMA A MARGINAL PINHEIROS ENTUPIDA DE CARROS E CARRÕES – VINDOS DE OFFICES MULTINACIONAIS E BLINDADOS (ELES ACHAM QUE SÃO FELIZES) ESTÃO DOPADOS PELO CO2 E PELA VENDA IGNORANTE.
EU PATINO COM O VENTO NA CARA – É BOM. DEPOIS A NOITE, DURMO FEITO UM MORTO. DESLIGO DO MUNDO E CHEGO EM MARTE (MINHA METAFORA PREDILETA) – ANTES TAMPOUCO ESTUDO MEU FRANCES BIZARRE (PORQUE VC ESTUDA FRANCES – ME PERGUNTARAM – VAI VIAJAR E MORAR NA FRANÇA)?????????????
Q porra de França o que – brasileiro lá so se fode. Minha libido tbm ja era – apesar de mecanicamente funcionar (tradução – meu pau sobe normalmente) ahuauhahuauha
Que foto maravilhosa!!!!!!
É pura lógica, uma panacéia apropriada para uma sociedade tão sofisticada, no sentido amplio de sua interpretação.
Eu havia dito aqui BECKETT IS POP BABE
Assisti First Love no teatro Fábrica nao tem um mês…
Se Beckett é pop, o que foi que aconteceu com o Pop dos Pops??? Pop of the Pops on the Tops …opsssssssssss
Sandra e Contrera: vcs deveriam estar ontem no almoco que tive com o Caetano Vilela aqui: o restaurante inteiro morria de rir! Feijoada, o mestre Geraldo, meu xara aqui do….(meu hotel lar em sampa) e um falando sobre as maladias da sociedade moderna.
O cae so tem um grave problema, alias 2
1- Gosta demais demais demais demais da Floresta amazonica a ponto de nao conseguir mais se adaptar a civilizacao
2 – so fala de futebol em seu blog !!!!! Ora BOLAS!
LOVE
G
Pop of the Rocks Mau!
tem que se ficar ligado o tempo todo!
Acho que, ao votar estes oito anos, tomamos, sem pensar, a cápsula da Matrix.
Agora…. o pânico…
Cara
Que fundo de poco,sim? Ah,claro que aqueles foram realmente os melhores tempos de suas vidas,Com as duas fernandas e muito patrocínio,além dos jovens artistas que queria seguí-lo a todo custo. Voce realmente deve precisar de medicacao para reparar tanta tristeza que semeou em volta da sua grande companhia. Acorda.Vai trabalhar.
Acho isso, humildemente, um sinal de avanço. De alguma forma, subvertemos a teoria da evolução, e hordas de depressivos (inclusive eu!) , que sucumbiriam e desapareceriam, continuam aqui, (+ ou -) firmes e (+ ou -) fortes!
Abs.
Corrigindo:
Sua vida(linha um)
Queriam seguí-lo(linha dois)
Fui.
Bem diz o sabio que estudar demais nao faz bem…. pelo tudo que vi, ouvi e li, cheguei a conclusao que inteligente mesmo sao as pessoas simples e humildes que vivem no campo. Elas levantam cedo, comem coisas saudaveis, trabalham sem stress, vivem tranquilas numa vida sem poluicao, falsidades, mentiras, consumismo, se encontram e vivem com os familiares e amigos, conquistantos com o tempo vivido.
Para que serviu tanto os estudos de Oscar wilde ? se morreu na sarjeta… para que serviu tanto a loucura de tantos filosofos?
Agradeco pelo conhecimento que deixaram, principalmente pelos exemplo que deram, de como nao viver bem.
Na verdade acho que a fé em Deus, no ideal de uma vida digna com amor, esperanca, solidariedade, paciencia, trabalho, sentido de utilidade, amizade. Tudo isso faz a vida ter valor e valer ser vivida. Viver como muitos so por dinheiro, status, ambicao, ganancia, consumismo nao ta alegria de viver verdadeira.
Ai gente… agora vai ser a confraria dos depressivos aqui? Acordem.Vao procurar o que fazer.
Meu querido “eu”
quem parece nao ter nada o que fazer eh VOCE (covardezinha )
eca!
sai daqui
procura emprego na bolsa esmola!
ja que me parece mesmo uma desempregada! essa “eu”…
Já examinastes quel é a sua prioridade na vida??
Estás nas fronteiras da grande mudança interna.
É preciso desaprender tudo que aprendemos até agora, para encontrarmos o real sentido da vida.
Está incomodado, “eu”?