
Na semana passada, você conferiu a primeira parte da entrevista exclusiva com Bertrand Chaverot, o responsável pelo estúdio de criação da Ubisoft em São Paulo. Agora, você confere a segunda parte da recheada entrevista (prometi para sexta, mas não foi possível postar – culpe o sistema). Bertrand falou muita coisa interessante sobre o mercado nacional, politicagens e mencionou aquilo que só o brasileiro tem – sempre no bom sentido. Confira o papo e não deixe de comentar no final.
Gamer:br: Como você acha que o profissional brasileiro pode contribuir na criação e elaboração dos jogos? Ou você acha que a cabeça dos criadores de jogos funciona da mesma forma, seja lá qual for o país de origem?
Bertrand Chaverot: Nosso objetivo é criar times mais polivalentes, mais femininos e mais loucos, capazes de criar universos e personagens originais, com profundidade para criar marcas internacionais que pudessem virar quadrinhos, filmes etc.
Você acha que a iniciativa da Ubisoft pode estimular outras empresas estrangeiras a fazer o mesmo, ou seja, instalar escritórios ou estúdios no Brasil?
BC: Absolutamente. Esperamos que outras empresas venham. Significaria que o ecossistema brasileiro virou mais acolhedor para a criação de produtos multimídia. Vou lhe dar um exemplo de um problema atual grave: importação de kits de desenvolvimento. Para fazer um jogo Nintendo, Sony ou Microsoft cada programador e cada dois artistas devem ter um kit desses.Esses kits são vendidos pela Nintendo/Sony/Microsoft e o valor é significativo. Não tem como fugir disso. Para importar essas maquinas para o Brasil, você paga 100% de impostos em cima do valor, do transporte e do seguro. É um absurdo total, uma lei contra-produtiva e anti-Brasil. Não tem como produzir essas pequenas máquinas no Brasil. Isso mata definitivamente a competitividade do país. O Brasil tem leis feitas para manter o país no antigo mundo das fronteiras fechadas. Não funciona mais. Tem que ser mais ágil e mais esperto que os outros, acreditando nas suas próprias forças. Vamos tentar liberar a importação desses kits com os órgãos políticos responsáveis. E se conseguimos isso, vai ajudar as empresas brasileiras – e as estrangeiras que virão depois – a desenvolver jogos com custos mais competitivos e se concentrar em inovação e criação em vez de problemas de alfândega.
E no que diz respeito ao mercado de consoles? A presença “física” da Ubisoft aqui faz diferença na redução de preços dos consoles da Nintendo (Wii e DS), Sony (PS3, PS2, PSP) e Microsoft (Xbox 360)? Ou a influência não é sentida?
BC: Nossa prioridade é favorecer a criação local de videogames.
Quanto ao consumo local, vamos trabalhar como outros atores da indústria dentro da ABES (Asociação Brasileira de Editores de Softwares), para obter redução dos custos de importação. Mas demora, porque é um assunto mais complexo que não inclui só os videogames. E [isso] não é prioridade, porque videogames ainda são vistos de maneira negativa. Nossa chance é que a nova geração de políticos que está chegando ao poder é nascida na década dos 60 – foi a primeira geração a jogar e curtir os videogames. Eles sabem que games de qualidade podem ser bons para desenvolver os pequenos, relaxar os adultos e, ultimamente, com os jogos sociais do tipo Rayman Raving Rabbids para Wii, fazer crianças e adultos passar momentos extraordinários rindo e fazendo exercícios físicos, em vez de assistir passivamente televisão no sofá como uma família de “couch potatoes”.
Por que o escritório da Ubisoft, que você comandava até o começo da década, fechou? O que levou a isso?
BC: Não fechou. Tirou um cochilo. O faturamento era bom, mais não era significativo [em relação] ao nível mundial. Em 2003, sabíamos que o mercado local de venda de videogames oficiais não ia crescer a curto prazo no Brasil, porque o mercado de PC estava reduzindo. Era o fim do PS2, e o PS3 ia ser lançado daqui a pouco no mundo, mas não no Brasil. Então, era melhor investir em outros países mais promissores e voltar mais tarde para produzir.
Você morou em São Paulo por um bom tempo, e agora está de volta. Com seu olhar de estrangeiro, defina: o que o brasileiro tem de melhor, profissionalmente falando? E no que ainda pode melhorar nesse sentido?
BC: Acho que as duas maiores qualidades dos profissionais brasileiros são: a resiliência, essa capacidade inalterável de sempre se recuperar e achar soluções criativas, apesar de todos os arcaísmos administrativos, fiscais e trabalhistas do país. E em segundo lugar, o “team-spirit” [espírito de equipe], que leva o grupo para cima usando bom humor e generosidade. Comportamentos egoístas são sempre a pior estratégia a longo prazo. Profissionais brasileiros sabem isso naturalmente, faz parte do DNA brasileiro: a longo prazo, trabalho, generosidade e bom humor não podem perder.
No que diz respeito ao mercado de games, o Brasil tem jeito? Veremos os consoles oficialmente no país a preços acessíveis, e os games sendo lançados simultaneamente?
BC: Vamos tentar fazer nossa parte com ações concretas para isso acontecer o mais breve possível. Vamos continuar a encontrar políticos brasileiros para explicar seriamente com muitos dados detalhados o que esta acontecendo nessa indústria, o que poderia acontecer no Brasil e convencê-los que não é mais uma indústria de nicho para moleques estúpidos, mas uma área estratégica da indústria do conhecimento, que relaciona muitas áreas e ciências – artes digitais 2D e 3D, animação de objetos virtuais, efeitos especiais, roteiros interativos, sociologia, psicologia, inteligência artificial, ciências da computação, linguagens de programação, linguagens de script, redes, gestão de bases de dados, arquitetura, design, internet, criação e animação de universos e comunidades virtuais, sons, músicas etc…
Nos Estados Unidos, o faturamento da indústria de videogames em 2007 superou o faturamento das indústrias de cinema e de música juntas. E em 2008, até o fim de julho, o faturamento da indústria de software já cresceu 41% se comparado com o mesmo período de 2007. Nunca houve um crescimento tão rápido de uma indústria de entretenimento. Nossa indústria só tem 30 anos. Com 30 anos de idade, nos anos 20, a indústria do cinema ainda fazia filmes em preto e branco ou levemente coloridos, e o Douglas Fairbanks fazia declarações de amor mudas para Mary Pickford. Temos muitas inovações pela frente em nosso mercado: em 2009, vai ser lançado Avatar, o primeiro jogo next gen em 3D da Ubisoft. Espero que seja lançado simultaneamente no Brasil.