E hoje, conforme o prometido, tem Entrevista da Semana.
Fabio Santana já foi entrevistado anteriormente aqui no Gamer.br, em 2006, mas isso era quando ele era um “simples” editor de revistas especializadas. Com experiência de mais de 15 anos a serviço do jornalismo de games – passou por publicações como Gamers (na Ed. Escala), EGM Brasil, Nintendo World, SuperDicas PlayStation (na Conrad e na Futuro), Xbox 360, Dicas e Truques para PlayStation, Old Gamer! e Edge (na Ed. Europa) -, Fabão é unanimidade entre colegas, leitores e a indústria. Talvez por isso, recebi com sentimentos agridoces a notícia, em primeira mão, de que ele estaria deixando as revistas para se tornar editor do blog oficial do PlayStation no Brasil.
Mas se por um lado a imprensa especializada perde, a indústria ganha: a Sony Brasil não poderia estar melhor representada nessa recente empreitada visando o contato mais próximo com o consumidor final. Fabio é o responsável pelo conteúdo do PlayStation.Blog, além de se comunicar diretamente com os leitores, capturando esse feedback e transformando em ações efetivas. No meu entendimento, ele é o homem certo para o negócio e tem tudo para se dar bem. Mas é óbvio que os leitores de revistas de games (eles existem ainda!) sentirão bastante a falta…
No papo a seguir, Fabão fala sobre suas novas funções, discute o jornalismo de games e faz previsões para o mercado nacional. Leia, divulgue e não deixe de comentar no final.
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Gamer.br: Você sempre foi sinônimo de jornalismo de games no Brasil. Daí, de repente, se viu diante do desafio de mudar de lado, ou seja, pular para a trincheira do “adversário”. Metáforas a parte, como você enfrentou a questão desse novo desafio profissional?
Fabio Santana: A mudança não foi tão radical quanto pode parecer. Continua valendo o tino jornalístico para pautas relevantes, o cuidado de apurar o conteúdo e aquele preciosismo no trato do texto. O escopo é diferente, é verdade – é preciso pensar na abordagem a que se propõe o PlayStation.Blog, que é um veículo oficial de PlayStation e visa a apresentar a informação com esse caráter, oficial, direto da fonte. Mas não há intenção de embelezar ou mascarar fatos para vender mais. O jogador é um consumidor especialmente inteligente e crítico, e percebe quando há uma linguagem excessivamente marqueteira. Pelo contato que tenho com a equipe global do PlayStation.Blog, tenho tido a satisfação de perceber que os responsáveis pelo veículo são jogadores como eu, e também jornalistas, com essa preocupação de dar espaço ao que vale o tempo do leitor, e de tratar essa informação de uma maneira original, para que seja uma leitura agradável.
Na prática, qual é a diferença em trabalhar para uma grande corporação da indústria e para um veículo de comunicação tradicional? Como suas rotinas se diferenciam?
FS: Como eu disse, no que diz respeito ao conteúdo, à pensata de pautas e tal, pouco mudou. Tenho bastante liberdade para escolher o conteúdo estrangeiro que iremos localizar no PlayStation.Blog BR, e ainda não tive muito tempo para criar matérias próprias, mas já estou alinhando algumas.
Algo que mudou, e que está sendo empolgante, é o contato com os bastidores, com a preparação do conteúdo e das ações que os jogadores vão curtir. Não trabalho diretamente na Sony Brasil, mas na Router Beta, a agência BTL que desenvolve as ações de lançamento e eventos para a linha PlayStation no Brasil. Assim, tenho a oportunidade de participar do planejamento dessas ações e oferecer algum input, tanto como jogador quanto como jornalista.Também estou em contato direto e diário com a Sony Brasil e a Sony Computer Entertainment America para alinhar algumas comunicações. É o caso, por exemplo, das atualizações semanais da PlayStation Store brasileira.
Ainda administro o site oficial, e também estou sempre interagindo com os leitores do PlayStation.Blog, levando suas dúvidas para a Sony e dando a eles um retorno. Muito em breve teremos também perfis nas redes sociais. É gratificante poder agora fazer essa ponte entre os jogadores e a empresa que cria todo esse entretenimento.
E a parte complexa de trabalhar no “outro lado”? Agora, do ponto de vista do consumidor, seu papel supostamente mudou – você representa a empresa para quem eles reclamam quando se sentem prejudicados. Antigamente, você era o porta-voz desse consumidor perante a indústria. A transição é mais complexa, visto que você ainda permanece sendo um consumidor também?
FS: Vejo mais como uma oportunidade maior do que como uma mudança de lado. A Sony, como um todo, é hoje uma empresa centrada no consumidor, e a chegada dos canais oficiais de PlayStation no Brasil são uma amostra disso. Agora os jogadores brasileiros têm um contato muito mais próximo com a empresa, e podem fazer isso na sua língua nativa. Eu me encontro nesse ponto de contato interessante, em que entendo as necessidades do consumidor, como consumidor que sou dos produtos de que trato, e tenho esse compromisso de fazer valer essa voz do povo, como jornalista que continuo sendo, e posso levar esse feedback para a empresa da qual eles possam ter eventuais dúvidas ou reclamações, e então trazer algo de volta, na forma de uma solução ou posição oficial. Não foi uma transição complexa, mas talvez a oportunidade de fazer mais.

Fabio em sua primeira aparição como editor do blog PlayStation, em julho último
Sei que é difícil falar sobre isso nesse momento, mas… Os leitores órfãos de seu trabalho opinativo, será que poderão sonhar com você comandando algum veículo de informação independente novamente? Ou esta é uma página virada em sua carreira?
FS: Olha, não tenho o hábito de planejar muito a minha carreira. Meio que miro uma direção geral e me condiciono um pouco a arriscar uns passos para lá, mas sem forçar nada, sem ficar encanado com isso. Agora estou bem atarefado com tudo isso, estou bastante realizado e não pretendo fazer nada diferente tão cedo – meus projetos costumam ser de longo prazo. Está sendo legal a transição do impresso para o orgânico meio online. No futuro, talvez eu queira estar ainda mais próximo da indústria. Ou não. O fato é que continuo a escrever e não pretendo deixar de fazê-lo.
Sua trajetória é uma das mais impressionantes desse mercado, levado em conta que você fugiu do caminho tradicional “faculdade-estágio- emprego etc”. Chegar à posição que está hoje me parece a cereja do bolo. Olhando para trás, como conseguiu essa trilha vitoriosa? Como foi chegar daquele tempo antigo, quando você nem pensava em trabalhar com a Gamers, até aqui, um executivo engravatado?
FS: [Risos] “Executivo engravatado” passou longe aqui. Ainda tenho muito do garoto com o brilho no olhar por poder escrever sobre games – inclusive o jeans e a camiseta do jogo favorito. Mas, de fato, o alcance e as responsabilidades aumentaram muito ao longo desses anos todos. A que atribuo isso? Às pessoas. Não fossem pelas pessoas que deram oportunidades, por aquelas que tanto ensinaram, por tantos que estiveram lado a lado construindo, eu com certeza não teria conseguido fazer as coisas bacanas que pude fazer. A disposição das pessoas sempre supriu minhas faltas – de conhecimento, de experiência, de formação etc. Eu meramente procurei absorver o que tinha a aprender de profissionais como você, Eduardo Trivella, André Forastieri, Théo Azevedo, Felipe Azevedo, Humberto Martinez, Nelson Alves Jr., Gustavo Petró, Roberto Araújo e tantos mais. Tive a grata oportunidade de conhecer tanta gente boa no que faz.
Falando sobre jornalismo propriamente dito: atualmente, com o imediatismo das redes sociais e a democracia dos blogs opinativos, qual é o papel do jornalista tradicional? Para que vamos servir? O que o futuro reserva para o jornalismo profissional diante do quadro atual em que todo mundo possui opinião própria e produz conteúdo?
FS: Espero que preservemos o bom senso numa realidade em que as pessoas, inclusive jornalistas, muitas vezes usam a boca (ou os dedos) antes do cérebro, geralmente seduzidos pela audiência. O jornalista deve ser preciso sem se precipitar, deve analisar fatos, ouvir pessoas, vislumbrar a dimensão real das coisas, e isso demanda tempo. Quero acreditar que o profissional que atente a esses valores do ofício será sempre apreciado e necessário.
Como você enxerga hoje a situação do jornalismo de games no Brasil, o dos grandes veículos e o independente? Você deve ter uma visão diferenciada sobre isso, já que agora está “do outro lado”…
FS: Não diria uma visão diferenciada, já que venho recentemente de um veículo independente e, mesmo agora, como representante de canais oficiais, continuo, na prática, sendo parte desse rico ecossistema, né? E minha visão é justamente essa, a de que temos hoje um segmento multifacetado, com meios e abordagens para todos os públicos. O impresso se reinventa com as interações sociais e disponibilidade em formatos digitais, o online avança com a velocidade típica de seu meio, o segmento cresce na TV e as iniciativas independentes se multiplicam pelos blogs e revistas digitais. É verdade que, muitas vezes, ainda é um grande desafio viabilizar os veículos comerciais, mas o amplo crescimento do mercado nacional de jogos tem colaborado para a saúde do segmento editorial especializado. A indústria nacional em maturação é um campo muito mais explorado pela mídia: profissionais brasileiros se destacam lá fora, estudantes e pesquisadores têm projetos premiados, estúdios nacionais diversificam suas operações. As produtoras também dão cada vez atenção ao nosso país, investindo mais em localização ou ações de lançamento e dando melhor suporte ao profissional da imprensa. É um momento fantástico para ser um jornalista de games no Brasil.
Há uns anos te perguntei isso, mas tanto tempo se passou e você passou por tanta coisa que talvez sua opinião tenha mudado: quais são as dicas e toques que você dá para quem quer começar nessa profissão, e se manter bem nela depois?
FS: Não me lembro bem do que falei da outra vez, mas deve ter sido algo do tipo “faça um blog, publique seu trabalho, procure estabelecer e manter contato com gente da área”. Isso continua válido, mas são cada vez mais frequentes os casos em que as empresas buscam estudantes de Jornalismos nas universidades mais conceituadas, para atuarem como estagiários. Muitos não tinham sequer textos publicados, mas se candidatam pelo amor ao hobby e acabam pegando gosto pela profissão e crescendo nela. Agora, para se manter bem, o segredo é ser do… bem. Além do talento e disposição, tem que ter caráter e ser parceiro. São dicas básicas para se obter o sucesso em qualquer carreira, mas sempre é bom ressaltar. Afora isso, é buscar sempre se manter relevante.
E o Brasil dos games tem jeito? Já chegamos no auge, ou estamos longe de chegar no topo?
FS: Jeito ele tinha há uns três, cinco anos. Agora ele já dá são frutos. Com o balanço da economia mundial afetado, países emergentes como o Brasil ganharam posições na fila de prioridades das grandes multinacionais. No segmento de games, vimos a chegada de novas produtoras, que estão investindo em divulgação e no relacionamento com o consumidor brasileiro – sem puxar sardinha, a Sony Brasil já mostrava isso com diversas ações legais de lançamento, e agora se aproxima ainda mais dos jogadores com a presença forte nos canais online. Olhando para trás, estávamos carentes de eventos, agora temos quase um circuito deles. Temos cada vez mais jogos localizados em português, cada vez mais soluções oficiais para problemas antigos, cada vez mais empresas mostrando interesse no nosso país. Então estamos numa situação muito mais interessante que há poucos anos, mas é claro que há espaço (e potencial) para crescermos muito mais. Uma parte importante desse potencial passa pela questão dos impostos, que, reduzidos, tornariam nosso mercado mais competitivo e atraente. Então o mercado já me parece bem encaminhado.
Agora o que eu, pessoalmente gostaria de ver melhorar ainda é a indústria nacional, a criação de jogos em território brasileiro. Gente interessada e talentosa não falta por aqui, então é questão de se criarem as oportunidades. Países como Canadá e França oferecem benefícios fiscais para o setor e geram milhares de empregos. Gostaria muito de ver isso no Brasil um dia.