E é isso e você já deve estar sabendo:

KINECT é o nome oficial do Project Natal. Apesar de que o nome não foi falado em nenhum momento no evento da Microsoft que rolou na noite de hoje, no Galen Center, em Los Angeles.
O nome do novo acessório/aparelho/tecnologia para o Xbox 360 apareceu escrito em letras garrafais nos painéis e telões, mas o narrador ainda assim insistiu no final que nós acabávamos de presenciar a “experiência do Project Natal”.
Pois então, a Microsoft gastou quilos de dinheiro e de ideias de marketing para alardear sua mais nova invenção. E aqueles que tiveram o priviégio de acompanhar a experiência ao vivo também serviram de cobaias vivas para o sucesso da apresentação.
Mas será que dá para falar que foi um sucesso? Porque as opiniões ao final do evento eram diversas, mas não ouvi nada de muito positivo. Não exatamente criticando o aparelho, e sim a maneira maluca que a Microsoft inventou para divulgá-lo.
Eu vi gente dormindo – sem figura de linguagem, roncando mesmo – durante a apresentação. E mais uma meia dúzia de pessoas sentadas no chão, exaustas, torcendo para tudo acabar logo. Porque a Microsoft fez mais da metade de seus convidados – 90% dos jornalistas brasileiros presentes inclusive – permanecer em pé durante todo o evento de quase três horas de duração. Pode isso, Arnaldo?
Foi assim – e foi inacreditável, por isso que faço questão de descrever tudo.
***
A fila diante do Galen Center atravessava o quarteirão (dê uma olhada nessa foto publicada pelo site GamesRadar e veja se encontra alguém conhecido nela). Não percebi, mas os convidados que se posicionavam para entrar no enorme pavilhão (o mesmo local da coletiva da Microsoft em 2009) portavam pulseirinhas de cores diferentes. Alguns tinham as verdes; outros, as laranjas. E as pessoas foram divididas por cores logo diante da entrada. Quem possuia a laranja ia para o lado direito (eu saberia depois, para a plateia). Os de pulseira verde iam para a esquerda. Imaginei que fosse só uma questão de dividir o público em setores diferentes, mas era mais do que isso. Não sei qual foi o critério usado, mas o fato é que eu, com meu pedaço de plástico verde enrolado no punho direito, fui conduzido para um balcão onde me foi oferecido… uma túnica branca!
Sim, a Microsoft nos pediu gentilmente que usássemos um traje por cima de nossas roupas. Os gentis profissionais que conduziam todo o processo pediam paciência, e que ao final seríamos recompensados pelo mico. E alertaram que deveríamos devolver a túnica ao final do evento. Colocada pela cabeça e presa com dois botões próximos ao colarinho, ela se assemelhava a uma camiseta de futebol americano, daquelas com ombreiras, soltinha embaixo. Não houve quem não ficasse ridículo usando aquilo. Tudo pelo show, imaginei. Aliás, pensei de tudo na hora: será que o traje estaria equipado com sensores invisíveis que nos fariam “sentir” o Natal funcionando direto em nossas peles? Não era bem isso, vim saber depois. Infelizmente, não nos foi permitido fotografar ou filmar aquele momento bizarro. Mas já deve ter foto rolando por aí, procure para ver.
Bem, todos lindamente trajados, fomos conduzidos a uns corredores escuros decorados com plantas e luzes negras que unidos aos efeitos sonoros, contribuiam para criar um clima instigante. Imagine o planeta onírico de Avatar, ou um parque temático que tentava reproduzir a sensação do filme. Não havia quem não ficasse curioso com tudo aquilo. Lá fora, na entrada do Galen Center, já dava para sentir algo vindo nesse sentido: diversos dançarinos do Cirque du Soleil faziam coreografias, rufavam tambores e emitiam sons guturais bem ensaiados. O traje era típico, algo entre o selvagem e o carnavalesco a la Joãosinho Trinta. Seria a experiência do Project Natal um retorno aos nossos insitintos mais primais? Uma forma de se conectar à natureza e aos nossos antepassados? Eram os deuses astronautas? Para onde vamos, de onde viemos? Nenhuma dessas questões cruciais para a humanidade me foi respondida nesse evento.
A surpresa maior eu tive ao atravessar os tais corredores mal-iluminados. Primeiro, passei por um buraco na parede, que depois percebi ser uma alegoria para ideia de “o virtual entra em contato com o real”: o buraco em questão era uma “TV”, e assim que passei por ele, fui saudado por uma família sentada em um sofá – ou, atores fingindo que estavam diante da TV. Mas só fui entender isso depois. Mais um corredor atravessado, e cheguei ao local de onde eu veria a exibição…
…Era o próprio palco do Galen Center. Ou o espaço onde havia um palco (no ano passado, foi onde se apresentaram os Beatles, o Spielberg e o Tony Hawk). Só que não havia palco, e sim um grande espaço aberto onde se amontoavam os convidados vestidos com as túnicas brancas. Tudo estava decorado com os motivos tribais já citados, por onde circulavam também mais dançarinos vestidos de selvagens. Eles interpretavam seus papéis à risca, se arrastando pelo chão, dando cambalhotas, interagindo com ruídos e fazendo acrobacias em meio à massa vestida de branco. Em uma ponta, uma espécie de altar chamava a atenção. Passado o primeiro susto de estar no meio da arena, fui percebendo os detalhes. Havia uma plateia posicionada ao redor de onde estávamos, e todos também vestiam as túnicas brancas. Só que eles estavam confortavelmente sentadinhos (eram os felizardos da pulseira laranja). No alto, um sofá dependurado a dezenas de metros de altura, com mais atores simulando uma outra família. Telões widescreen exibiam avatares da Xbox Live interagindo em um cenário de selva. No topo, um telão acima de nossas cabeças apresentava efeitos psicodélicos. Aqui embaixo, os selvagens faziam micagens e convidavam alguns para fotos que eram exibidas depois no telão. Em meio a todo mundo, seguranças impediam que qualquer um registrasse o momento com celulares. Foi ali que encontrei os brasileiros – éramos quase 20 ali, anônimos, perdidos entre jornalistas de todo o planeta e muitos outros curiosos (havia até crianças por lá, uma novidade em se tratando de E3).
A situação desconfortável era um convite para as piadas. Só se ouvia as nossas risadas. Os gringos deviam estar achando tudo muito exótico, mas para nós, brasileiros nascidos na selva e acostumados a pular em cipós, toda aquela alegoria estava mais para desfile de carnaval do grupo de acesso do que para evento de altíssima tecnologia. E demorou tanto para enfim começar, que as piadas e trocadilhos foram insuficientes para definir aquele momento único. Estávamos fazendo história, provavelmente. Mas também pagando o maior mico em rede mundial.
E daí começou. Foi tanta coisa que não me lembro mais a ordem, me perdoe. Só sei que os selvagens enlouqueceram e começaram a correr e formaram um totem humano. A criança ruiva que estava no sofá flutuante desceu e foi carregada para o altar. Um elefante (!) mecânico em tamanho real adentrou a arena, montado por uma outra criança de cabelo moicano. Ela foi conduzida até o topo do tal altar, que acabou se revelando uma enorme bola – o logotipo do Xbox. Música alta, firulas, trucagens de Hollywood. Os telões começaram a exibir cenas, e foi aí que a tal palavra KINECT apareceu diante de nossos olhos (mas antes, eu juro que as letras formaram “NEIKCT” – essa, só os brasileiros perceberam. E para bom entendedor, uma sigla idiota basta). E aí, começou a exibição propriamente dita.
Não jogamos o KINECT, só vimos. Ou melhor, vimos uma simulação comandada por atores muito bem ensaiados. O tal menino de moicano logo ganhou uma família empolgada que o acompanhou em sua jornada de entretenimento lá no alto, para todo mundo ver. Diante de uma TV, eles começaram a “jogar” um game atrás do outro. E tome trucagens de Hollywood (Los Angeles é assim mesmo): o cenário onde estavam virou de ponta-cabeça diversas vezes, mas não escutei nenhum “ohhh”, nem um único “ahhh”. Parece que ninguém ficou muito impressionado. Jornalista é um povo muito chato mesmo. Mas, sendo bem sincero, toda aquela exibição cheirava muito mais a uma grande peça de marketing do que uma demonstração realista de um novo produto de tecnologia.
Vimos eles “jogarem” um game de corrida em um bote dependurado por um helicóptero; uma corrida de carrinhos; um game esportivo com diversas modalidades, de atletismo a futebol, passando por boliche (já viu isso antes?); um game de Star Wars, com direito a luta de sabre de luz e stormtroopers a dar com pau; um game de interação com animais selvagens; um jogo de ioga, ou tai chi chuan, que me lembrou o Flower do PS3; um simulador de dança; e mais alguns que agora não me lembro (era muita informação para se assimilar em pé e olhando para cima). Os atores interpretavam direitinho o script: mexiam os braços e pernas diante da TV de maneira empolgada, com direito a caras e bocas absurdas, comandando seus personagens virtuais nas várias missões seguidas que nos pareciam infinitas. Nada de joystick, nada de bastão: todos os games são jogados só com mímicas e movimentos corporais. Me parece estranho fingir que se joga futebol chutando o vazio. Mais bizarro ainda é manejar uma espada sem segurar nada nas mãos (depois do air guitar, começou a era do air Light Saber, o air football e por aí vai). E não foi porque sabíamos que os atores fingiam estar jogando, mesmo porque, repito, tudo era muito bem ensaiado. A questão é que muitos dos games mostrados não pareciam assim tão revolucionários. Não foram poucos os que desdenharam, dizendo que muita coisa ali já foi vista no Wii da Nintendo. A diferença é que dessa vez não havia um wiimote em mãos para comandar as ações. O que deu para sentir foi a guinada total da Microsoft para o tão alardeado jogo em família. Aqueles não eram produtos para o gamer hardcore, mesmo aquele de Star Wars: pareciam games para brincar, não para jogar. Jogos para reunir o pai, a mãe, o moleque e a irmãzinha em uma atividade familiar saudável. Tanto que, após cada tarefa cumprida, a família se abraçava e comemorava junta as missões cumpridas.
Faltou mencionar um aspecto bacana do KINECT: o chat online em vídeo, com cada participante interagindo com o outro de sua própria casa. Para mim, ficou claro que se abriu a porta do último limite ainda não superado pelos videogames: o sexo. É um tabu que talvez comece a ser vencido com as novas tecnologias (principalmente nesses tempos loucos de Chat Roulette). Mas quero ver se alguma empresa terá culhões de desenvolver um game cujo objetivo é proporcionar prazer (ou algo parecido) ao seu parceiro de jogo. Talvez a Rockstar Games já esteja pensando nisso. Se não está, talvez devesse.
Ah, sim. É preciso dizer o que nós estávamos fazendo vestindo aquelas roupinhas: em dado momento, holofotes de luz negra foram apontados para o público. E aí, as ombreiras das túnicas brilhavam e cores diferentes. Um efeito visual interessante, que deve ficar bem bonito se assistido pela TV (o evento será transmitido aqui nos EUA pela MTV e pela Nickelodeon na terça-feira - ou seja, fizemos papéis de figurantes para um belo show televisivo). Ali na hora, era mais engraçado do que emocionante. Mas demorou muito, e ficamos cansados. Alguns exaustos, sentaram no chão durante os momentos mais “empolgantes”. E houve o figura que dormiu sentado, com a cabeça baixa, sem se importar com a barulheira. Para esse, o futuro do entretenimento é algo de dar sono. Mas eu nem o culpo muito pela grosseria: era tudo muito legal, mas também era excessivo demais. Pelo menos, rolaram uns brindes no final: bichinhos de pelúcia de animais selvagens com plaquinhas penduradas no pescoço, que trazem códigos de barra que poderão ser escaneados pelo KINECT – assim, será possível destravar o tal bichinho para interagir com ele no game.
Pensando bem, a Microsoft fez a coisa certa ao separar a demonstração da experiência do KINECT em um evento a parte. Não seria possível transmitir o recado com tanta pompa e circunstância durante a tradicional coletiva para imprensa, normalmente ditada por números de mercado, datas de lançamento e participações especiais de figurões. A Microsoft quer uma fatia do público casual que a Nintendo roubou para si com o Wii, e fará isso com um produto que visa aprimorar a experiência consagrada pelo console da concorrente japonesa. Não quer dizer que o jogador hardcore - aquele que foi o responsável por fazer do Xbox 360 um sucesso - foi esquecido. Na coletiva que começará em algumas horas, é óbvio que muitos games tradicionais serão revelados. Mas há um cheirinho de mudança de direção e estratégia se desenrolando nesse exato momento. Dá para sentir daí?
Preço, data de lançamento, nomes dos games, estratégia de marketing… tudo será confirmado pela Microsoft na coletiva que irá rolar hoje, a partir das 10h (14h aí no Brasil). Estaremos lá para entender, anotar, aplaudir e, quem sabe, vaiar. Faz parte.
E você, a partir do que eu descrevi – o que achou?
Eu ainda estou digerindo.