Demorou, mas não falhou.
Publico agora a parte 2 da Entrevista da Semana com Milton Beck, da Microsoft Brasil (a parte 1 está aqui). Neste segmento da longa conversa, o executivo responsável pelo lançamento do Xbox 360 no país fala de maneira franca sobre vários temas, de pirataria a banimento de consoles modificados, da chegada da Sony à não-chegada da rede Xbox Live, de impostos a jornalismo. Tire um tempo para si mesmo, leia tudo e não deixe de comentar no final.
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Gamer.br: O dia 1º de dezembro marcou o aniversário de três anos do Xbox 360 no Brasil. Como a Microsoft avalia esses três anos? Todos os produtos planejados foram lançados? As vendas de games e consoles ficaram no patamar esperado? Poderia ter sido melhor ou foi melhor do que poderia?
Milton Beck: Como em todo projeto, há coisas que foram bem e outras que não foram tão bem. O fato de termos lançado o 360 já foi uma coisa boa. O primeiro Xbox nós não conseguimos lançar aqui. Então, o fato de o console ter sido lançado no Brasil permite que o consumidor vá a uma loja “normal” e tenha uma experiência de compra em um ambiente seguro; ele pode comprar um produto parcelado, com suporte estabelecido; tem acesso a um website em português com as informações dos produtos; tem a possibilidade de comprar os jogos quase que simultaneamente com o dia do lançamento; e permite que os pais saibam que o produto que estão foi certificado pelo Ministério da Justiça. Aqui há um consumidor ávido por games. Na indústria de consumo no Brasil, de um modo geral, o videogame está no top five da lista de objetos de desejo. Infelizmente, o produto não está ainda em um patamar de preço que possa atingir mais gente do que gostaríamos.
O que influencia diretamente no preço cobrado nos videogames?
MB: São dois os grandes fatores que influenciam. Um deles é a falsificação, que vem caindo, já que o consumidor cada vez mais entende as desvantagens do produto ilegal. E tem o problema da carga tributária, que é muito importante quando se fala sobre esse tipo produto, e é o que o torna realmente um pouco caro para grande parcela da população. Portanto, o fato de a Microsoft ter entrado no país é importante. Até 2006, não havia ninguém por aqui – nem a Microsoft, nem qualquer outra fabricante. O mercado era muito voltado para games de PC, muito por causa do tamanho da base instalada no país. Nesse mercado, o Brasil ainda é o quinto ou sexto do mundo. Quando a Microsoft entrou com o Xbox 360, ela estimulou muitos publishers a olhar o Brasil com olhos diferentes. Imagine que você é um publisher, olha o nosso mercado e vê que nem Microsoft, nem Nintendo ou Sony estão atuando: talvez você direcione seus esforços para um outro mercado. Na hora em que a Microsoft entrou, abriu os olhos de muita gente. Então, muito do que se vê hoje em termos de mais distribuidoras de jogos, desenvolvimentos de empresas criando games, jovens estudando, eu diria que a Microsoft tem uma corresponsabilidade – ou uma parcela – nesse desenvolvimento.
Eu sei o quanto você é cuidadoso para falar sobre a concorrência, mas não é interessante o fato de os publishers não conseguirem seguir o modelo de negocio que a Microsoft executa no Brasil? Por que a atuação da Microsoft é mais intensa do que a dos concorrentes? É por causa do tamanho da empresa?
MB: São várias coisas. A Microsoft está já há 20 anos no Brasil. Foi um processo de aprendizado grande. Existe, de verdade, uma cultura de comprometimento com o país e com o consumidor. Agora, eu entendo que para muitas empresas de fora, quando olham para o Brasil, não é fácil tomar as decisões de entrada em um mercado onde é muito difícil de operar. Se você é uma empresa de software que enfrenta certa burocracia para trazer o produto e fazer com que chegue à mão do consumidor final, acaba optando por trabalhar onde conseguirá chegar mais rápido aos seus objetivos. É duro dizer que uma empresa deveria fazer diferente, afinal, cada um sabe onde lhe dói o calo, né? O Brasil está na crista da onda, todo mundo olha para cá, sabe o tamanho do potencia do país. Agora, as decisões de cada um, sobre por que não crescem ao tamanho ideal… Tem muito a ver com as características do mercado. E é um mercado difícil de operar.
Ainda falando sobre essa dificuldade do mercado brasileiro…
MB: [Interrompe] Só para usar as palavras certas, talvez o termo correto seja dizer: é desafiador trabalhar com games no Brasil. Este é um mercado em que basicamente as empresas dependem da venda de jogos e em que a falsificação no setor de software é muito alta, apesar de estar melhorando. A Microsoft, outras empresas de software, o setor público, estão todos trabalhando com o mesmo objetivo, mas obviamente não é um caminho que vá se resolver com uma bala de prata de um dia para o outro. E o fato de os impostos sobre os consoles serem muito altos serve como um estímulo para que o cara entre no mercado paralelo. E muitas vezes ele é estimulado – pelo próprio vendedor do mercado paralelo – a comprar um console modificado para rodar softwares piratas. Aí é muito complicado. O custo de desenvolvimento de cada jogo é altíssimo, pode chegar a US$ 40, 50 milhões. O custo de tradução e dublagem é alto, o custo de marketing é alto, ou seja, a receita gerada precisa ser proporcional.
Há anos você está envolvido nessa união das empresas em torno da diminuição da carga tributária junto ao governo. Ao que consta, esse projeto acabou parando nas mãos de alguma instância superior e não avançou mais, e dificilmente será trabalhado em 2010, já que é ano de eleições presidenciais. Existe alguma novidade nessa história?
MB: De verdade, eu não sei se parou em alguém. Eu já fui várias vezes para Brasília, com vários representantes da indústria, para demonstrar os benefícios que o pais teria com uma redução de impostos. Existe uma boa aceitação e um entendimento do caso. Eu não sei dizer se está amarrado com a eleição. Não tenho esse conhecimento político todo. Mas não houve nenhuma sinalização de que o negócio parou e não vai andar.
Mas está andando ou não?
MB: Bem, andando significaria que mudou. Mudou, não mudou: está igual. Não é igual a um processo de doença, que vai melhorando. Para mudar algo, tem que acontecer algo. Hoje você tem um IPI [impostos sobre produtos industrializados] de 50% sobre o preço do console.
Qual é a proposta de vocês? Reduzir esse IPI para quanto?
MB: A valores parecidos com os da indústria eletrônica em geral. Em torno de 10, 15, 20, conforme o tipo de produto.
Mas vocês estão se movimentando para saber qual a situação atual da proposta?
MB: A ABES [Associação Brasileira das Empresas de Software] tem interesse em trabalhar esse assunto, porque obviamente quanto mais aumenta o mercado oficial, mas a indústria de software se desenvolve. Por exemplo, não existe uma indústria local com capital o suficiente para criar um game como Halo, ou Call of Duty, mas poderia haver um crescimento de desenvolvedores de jogos menores, com outro nível de sofisticação, que poderiam ser comercializados a outra faixa de preço. Mas se tudo é vendido por aí a R$ 10, não há como criar essa “escadinha”. Tudo isso é muito ruim para a indústria em geral.
A pirataria de jogos do Xbox 360 é mesmo um problema para vocês atualmente? Há dados que comprovem isso?
MB: Eu diria que, hoje, 90% é falsificação.
Tudo isso? É surpreendente. Posso afirmar que, em tantos anos trabalhando nessa área, não lembro de uma época em que tanta gente afirma usar produtos originais…
MB: E olha que tem mesmo. Você está certo, no sentido em que está mesmo diminuindo [o uso de pirataria]. Por exemplo, se compararmos a imprensa especializada de alguns anos atrás, era normal ver as revistas falando de produtos falsificados, e até dando dicas de jogos desse tipo. Mas hoje está muito melhor do que há anos. Mas é um caminho bem longo. A falsificação não é uma coisa que dá para falar que “é do Brasil”. É no mundo inteiro. Por aqui, a polícia tem feito um bom trabalho, as entidades estão fazendo um bom serviço de conscientização… Mas isso não é algo que vai mudar de um dia para o outro.
Uma das maneiras que a Microsoft tem usado para conscientizar, ou definir de maneira mais firme sua postura em relação à pirataria, é com os banimentos de jogadores que utilizam consoles chipados da rede Xbox Live. Existe muita reclamação de consumidores indignados, inclusive no Brasil…
MB: Por que ficam indignados?
Ah, porque eles não acham que deveriam ser banidos, porque a rede está esvaziada, entre outras alegações. Mas alguns leitores do Gamer.br me alertaram sobre outra coisa que pode estar rolando: que a Microsoft estaria ameaçando banir jogadores brasileiros do Live, que usam consoles legalizados, simplesmente porque os brasileiros não poderiam jogar online, uma vez que o serviço não está disponível no Brasil. Isso procede?
MB: Eu não tenho nenhuma informação sobre isso. O que eu sei é sobre o banimento dos consoles modificados. O Live não está disponível no Brasil, isso é ponto sabido. Agora, eu não tenho informação nenhuma sobre banimentos de jogadores que usam consoles que não foram modificados. Estou falando o que eu sei. Não tenho nenhuma informação a mais sobre isso. Falando sobre justiça ou injustiça: na hora em que você compra um console, você está de acordo com a forma de utilização dele. Se você está modificando o console para jogar um produto, você está lesando a empresa que gerou empregos, arriscou, desenvolveu o software, que espera uma remuneração pelo trabalho. É a premissa básica do negócio.
Agora, se coloque no lugar daqueles jogadores que compraram o console, não o modificaram e estão agindo certo. Muitas vezes estão sendo lesados porque outros jogadores estão usando de artifícios para ganhar. Essa é uma maneira de proteger o jogador que quer jogar da forma certa. Eu acho que quem optou por fazer uma modificação sabia muito bem o que estava fazendo. Nós temos que cuidar daqueles que estão jogando de acordo com as regras do jogo.
Justamente por ter sido uma medida drástica, e ter havido muita reclamação, você acredita que exista alguma possibilidade remota de a Microsoft voltar atrás nesse tipo de decisão?
MB: A gente não participou desse processo de decisão – foi uma resolução da corporação. Mas eu não consigo ver muito claramente porque ela voltaria atrás. Não é óbvio para mim quais são as variáveis que fariam a empresa mudar sua decisão.
Vou dar um exemplo: se você trabalha em uma revista e é pago para escrever. Existem todos os custos envolvidos na produção da publicação, e, além disso, eles pagam o seu salário de jornalista. Daí, você faz uma entrevista bombástica. A Rolling Stone publica sua matéria. Um dia antes de a revista ir às bancas, alguém furta um exemplar, escaneia a matéria e envia para milhões de pessoas. Quem vai pagar pelo seu furo de reportagem? Você entendeu? Quem trabalha com conteúdo sabe bem a dificuldade que é. Mas não sei se isso é óbvio para todo mundo.
A Microsoft recentemente anunciou a redução de preço do kit oficial do 360, de R$ 2399 para R$ 1799 [a entrevista ocorreu dias antes da redução do preço para R$ 1499]. Esperava-se que fossem anunciados os lançamentos dos kits Elite e Arcade e a conseqüente descontinuidade do kit tradicional – dando prosseguimento ao que já aconteceu no mercado norte-americano. O que vai acontecer com o Xbox no Brasil afinal de contas? Daria para interpretarmos que a redução de preço do kit tradicional se deu porque novas opções de kit estariam chegando às lojas? Quando vocês vão poder falar sobre isso?
MB: A pergunta você já respondeu. Não tenho ainda nenhuma informação pública sobre lançamentos de novos consoles. Eu entendo a pergunta, entendo o motivo da pergunta, só não tenho uma resposta para te dar agora.
Ótimo, vou então tocar em outro tema sobre o qual provavelmente você não irá responder, mas vou perguntar mesmo assim: quais os progressos alcançados até agora para o lançamento da rede Xbox Live no país? Quais os empecilhos enfrentados?
MB: Um dos grandes valores da plataforma Xbox é o Live. Nem todo país do mundo onde o 360 foi lançado tem o Live. Para você oferecer a experiência completa do produto, é uma tendência ter o Xbox Live. Há alguns anos eu tenho dado a mesma resposta, e a resposta que eu tenho para dar agora é: nós não estamos alheios a isso, estamos conscientes do desejo do consumidor. Nós queremos lançar, e acho que o futuro está realmente nos serviços online. O aumento das conexões de banda larga no país é um estímulo ainda maior para isso. Mas, infelizmente, eu não tenho nada para anunciar em termos de data. Mas não é preciso tentar nos convencer da importância de ter o Xbox Live aqui. Nós temos advogados, funcionários, todos trabalhando internamente, fazendo tudo o que é possível.
E qual é a atual posição oficial da Microsoft Brasil em relação ao jogador que tenta se cadastrar na Xbox Live usando um endereço internacional? Existe algum discurso pronto, do tipo “esse serviço não está disponível no Brasil”?
MB: Exatamente isso: o serviço não está disponível no Brasil.
Quer dizer, nada impede as pessoas de tentar, afinal, cada um sabe o que faz. É mais ou menos por aí?
MB: Bem, eu não vou colocar suas palavras na minha boca. Mas, simplesmente, hoje nós não temos o serviço disponível no Brasil. Não temos suporte, sistema de billing… Quando não se tem uma ideia total do negócio, não se entende bem quais são as facilidades e as dificuldades envolvidas. Para lançar um produto da forma correta, existem n aspectos, como localização, cobrança, jurídico, suporte, estruturação de servidores… E vai indo. Eu entendo que é difícil para o consumidor saber essas coisas – e não é obrigação dele saber. Nosso papel é explicar dentro do que a gente pode, o máximo possível. O que a gente anunciou quando entramos no país com o 360 foi: o serviço não está disponível e nós vamos trabalhar para lançá-lo. Eu gostaria de fazer um anúncio mais bacana, dizer quando vamos lançá-lo, mas infelizmente não tenho essa data para te falar. O que eu posso dizer é que estamos conscientes e trabalhando duro para isso.
Para terminar, sobre a chegada da Sony ao Brasil: na condição do representante da maior empresa atuante no mercado brasileiro, como afeta positivamente essa entrada oficial da sua grande concorrente, ainda que por linhas tortas?
MB: Por linhas tortas ou retas, eu digo há anos que quanto maior a presença oficial dos grandes fabricantes, melhor para indústria. Do ponto de vista do marketing, isso faz o bolo crescer, e isso é bom para a indústria, para os fabricantes e para o consumidor, que tem uma experiência melhor de compra. Quanto mais concorrentes, quanto mais saudável a concorrência, quanto mais a gente disputar a preferência do consumidor, melhor. Cada empresa tem seus pontos fortes e ninguém está aí por acaso. Não existe empresa ruim nesse segmento, são todas fortíssimas, marcas valiosíssimas com produtos muito bons, tanto Microsoft, Sony e Nintendo. Então, quanto mais presentes estas empresas estiverem, quanto mais conseguirem alavancar o negócio, isso só vai estimular a concorrência, o crescimento, e permitirá que o consumidor faça uma escolha baseada nas características que ele gosta. Eu só vejo com bons olhos. De verdade, fiquei muito feliz que a Sony entrou oficialmente no país, e acho que é super benéfico para o mercado. Agora, sobre a maneira como ela vai entrar: vamos ver, né?