O que é o Brasil dos Games, Parte 2
Saudações. Já é sexta-feira.
Continuando a série “BRASIL DOS GAMES”, que celebra os cinco anos e o fim das atividades do Gamer.br, convidei o jornalista especializado Fabio Bracht para discorrer sobre o tema. Gaúcho, pensador e multitarefas, ele é o fundador do finado blog Continue.com.br, além de escrever para o site de tecnologia Gizmodo. Confira o texto dele, concorde ou discorde e comente no final.
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O Brasil dos Games está só esperando um headshot
Por Fabio Bracht*
O Pablo é meio obsessivo com esse assunto, diz aí. Em toda entrevista dele, essa é a pergunta que nunca falta. E não é sem razão. Não sei como ele enxerga a coisa, mas para mim a imagem mental é bem clara.
O Brasil dos games é aquele inimigo escroto no qual você já meteu um monte de bala e sabe que está na rapa do tacho, mas que resolveu buscar cobertura. Ele está lá, você sabe exatamente onde. Você move a retícula para o ponto exato onde sabe que a cabeça dele vai estar quando ele resolver levantar. Quando ele fizer isso, boom, headshot. Mas ele ainda não fez.
Desde que eu comecei o blog Continue, em 2008 (e na verdade desde bem antes), o Brasil é essa potência em potencial, só esperando para deslanchar. Olhamos para o México, enchemos a nossa barrinha de otimismo e, a cada mínima notícia boa, a frase “agora vai” é repetida. Agora vai, agora vai, agora vai. Mas nunca irá, meu amigo.
Nunca irá porque já foi. O mercado de games no Brasil não se teleportou de um estado ruim para o estado ideal — único contexto em que a afirmação “agora foi” poderia ser usada –, mas todas as peças estão no seu lugar, em movimento. O Brasil dos games é o gordinho que ainda pesa bem mais do que deveria, mas está indo na academia todos os dias, com acompanhamento e reeducação alimentar. Ele não está lá ainda, mas, segundo a filosofia da inevitabilidade, já pode se considerar magro. É questão de tempo.
A Microsoft está aqui, a Sony está aqui, a Nintendo está aqui meia boca mas uma hora vai ter que cair dentro, as traduções de jogos estão por aqui, as legendas, o World of Warcraft por quinze reais por mês, os lançamentos de Xbox 360 por menos de cem, o Nathan Drake falando português sem chamar a Elena de rapariga. Já temos estúdios, já temos talentos, e com certeza já existe um grande jogo independente em planejamento ou produção em algum canto do país, sobre o qual nenhum de nós sabe nada a respeito. Se o Jason Rohrer consegue no interior dos Estados Unidos com muito pouca grana, e se o Notch consegue lá no frio da Suécia, certamente há alguém no Brasil que consegue, e esse alguém aparecerá logo.
Perceba que nada disso está ideal. Nem a presença das empresas, nem as localizações, nem os preços, nem a presença dos estúdios, nem a comunidade independente. Mas tudo isso existe, e tudo isso existe ao mesmo tempo, uma coisa validando a outra. Já me chamaram de Polyanna pelo meu otimismo às vezes infundado, e eu não tiro a razão. O otimismo às vezes faz com que o trabalho cesse, e isso não é bom para ninguém. Mas o fato é que, levando tudo isso em consideração, eu não vejo outra direção que não seja para frente.
Boom, headshot. E você nem terá percebido.
*Fabio Bracht (fabiobracht@gmail.com) é editor do Continue e escreve no Gizmodo.
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