Entrevista da Semana: Gus Lanzetta
A Entrevista da Semana da vez é com Gus Lanzetta, um dos fundadores do site de podcasts Audiogame. Hoje um dos nomes mais atuantes da nova safra da imprensa de games, ele passou dois anos utilizando uma boa dose de talento e cara-de-pau para popularizar o podcast em nosso mercado. Funcionou. Hoje, o site está aposentado, mas Lanzetta, 19 anos, continua insistindo no formato no site da MTV, além de assinar textos em publicações impressas e digitais – sempre exagerando na sinceridade e colecionando desafetos.
Confira a entrevista – polêmica, é claro – e não deixe de comentar no final.
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Gamer.br: Você faz parte de um grupo de profissionais cada vez mais típico: o leitor que se tornou produtor de conteúdo. Como aconteceu essa transição?
Gustavo Lanzetta: Bom, eu fazia lá o Audiogame e decidi que só um podcast não preenchia bem o site. Assim comecei a escrever umas noticiazinhas aqui e ali, um reviewzinho, coisas assim.
Sendo mais específico: quando passou pela sua cabeça, lendo revistas, vendo sites, que você poderia fazer o seu você mesmo?
GL: Nunca passou pela minha cabeça desse jeito. Eu gostava muito do podcast da Gamespot na época. Aí eu e o Batalha decidimos fazer nosso prórprio podcast. Isso sem nem me tocar que eu estava fazendo o trabalho que eu acompanhava desde pequeno. Só fui me tocar que eu era um jornalista de games quando já estava escrevendo para as revistas da Futuro [Comunicação].
O que você pensou exatamente quando convidaram você para escrever lá? Algo como “foi mais fácil do que eu pensava”?
GL: Um pouco isso, mas o grande sentimento era de “Meu deus! Eu to escrevendo pras revistas que eu lia! Caramba!”.
O que significa isso hoje, na prática, agora que você já tem uma certa rodagem?
GL: Ah, é incrível. Não me vejo fazendo outra coisa, mas ao mesmo tempo é algo que nunca tinha me passado pela cabeça como possibilidade de emprego, quanto menos de carreira. Passei a vida inteira (como filho de jornalistas) falando pra todo mundo que perguntava que eu nunca seria um. E mesmo quando saquei que queria trabalhar com games eu achava que queria fazê-los, mas depois de um tempo escrevendo sobre a indústria eu percebi que era isso que eu queria.
Voltemos ao seu primeiro projeto, o Audiogame. Como surgiu a ideia de fazer? Por que você acha que quase ninguém fazia algo parecido no Brasil? Desinformação?
GL: A idéia surgiu, coincidentemente, no mesmo dia pra mim e para o Batalha. Eu estava pensando em fazer um podcast no estilo do Hotspot, do qual ele também era fã. E nesse dia conversamos sobre a ideia e umas duas semanas depois, em 1 de agosto de 2006, nós gravamos o primeiro Audiogame, com dois headsets baratinhos e um adaptador de 1 real para ligar os dois ao mesmo tempo no meu computador. Quanto à falta de podcasts na época, acho que não era por falta de informação, mas falta de iniciativa. Os podcasts estavam começando a fazer sucesso lá fora, principalmente os de games, mas aqui pouca gente ouvia e muita gente não entendia a proposta. Vi muita gente reclamando que o Audiogame era inútil pois eles já haviam lido as notícias durante a semana, mas a idéia não era só informar, era discutir as notícias, fazer uma conversa legal rolar em cima dum tema que interessava o público. Hoje em dia o pessoal já entendeu/aceitou melhor e tem podcasts de games brasileiros com muitos ouvintes.
Antes, era um projeto de vocês. Depois, surgiu a ideia de chamar jornalistas para participar. Como foi?
GL: Bom, começamos a escrever para as publicações da Futuro por causa do Audiogame. E depois de um tempo “lá dentro” veio a idéia de aproveitar o contato com esses profissionais da área para adicionar conteúdo e novidade aos podcasts. No começo eram participações mais esporádicas, mas com o tempo o negócio foi ficando mais fixo, depois de um tempo estávamos fazendo o podcast da Nintendo World, do Herói e outros, além do Audiogame “Classic”. Nessa época é que rolou contato com o pessoal da editora Europa, já que o Fabão [Santana] tinha ido trabalhar lá e aí o [Gustavo] Petró chamou a gente pra ir gravar um podcast com eles. Assim surgiu o Audiogameblog. Com a ida do [Rodrigo] Guerra para a editora Digerati, rolou o contato para fazer os podcasts de games deles, que fizemos até o fim do Audiogame.
Como você define a maneira como os profissionais te receberam? Você acha que foi algo normal? Ao que você atribui isso, essa “acolhida”?
GL: Acho que fui recebido muito bem por todos quando comecei a escrever sobre games em revistas. E até mesmo antes disso, afinal eu fui convidado a escrever lá. Isso tudo acho que é resultado de eu ter mostrado o que já sabia fazer através do site do Audiogame e o fato do Audiogame existir já mostrava que tínhamos iniciativa. Em momento algum fomos garotos chatos que ficavam pedindo pra escrever algo na revista. A gente fez algo nosso e isso chamou a atenção do pessoal. Não que eu negue que eu seja chato, que muita gente não me receba nem no boteco da esquina e que, depois de começar a escrever sobre games, eu não tenha implorado por frilas.
A vida de frila no Brasil é impossível? quero dizer, você se sente obrigado a ter um emprego fixo ou uma marca própria funcionando para ter crédito no mercado?
GL: Acho que a vida de frila é complicada. Ela até é possível, mas trabalhando muito e escrevendo muita porcaria, sabe? Pra se virar como frila, você tem que escrever qualquer coisa, detonadinho, detonadão, reviews ruins, matérias patrocinadinhas do estilo “coisas legais que são caras, mas eu vou te falar porque elas são legais”. Coisas que ninguém GOSTA de fazer e que acabam dando uma cara mais feia ao jornalismo de games. Também acho que é difícil conseguir espaço suficiente hoje em dia para receber tantos frilas quanto se precisa para tirar uma grana legal. As publicações têm seus fixos e não precisam de material o suficiente pra sustentar uns três ou quatro caras.
Acho que marca própria é mais roubada ainda. Não sei se dá pra ganhar dinheiro com um site de games com o Brasil, pelo menos por enquanto. O Continue e o Gamerview tão aí e um deles eu espero que dê certo (dica: eu tenho uma coluna no que eu quero que dê certo), mas não vi indícios ainda de que teremos bons sites “se pagando” aqui no Brasil. Espero que isso mude.
Quanto a um emprego fixo: eu quero, todo mundo quer. Eu repito: EU QUERO (alguém aí tá me ouvindo? Alô!). Acho que trabalhar numa redação é muito mais legal do que ficar de cueca em casa postando num blog. Acho que a hierarquia duma publicação serve para centrar a pessoa, guiar, etc. Mas isso vai de cada um, tem gente que não suporta e quer mesmo é trabalhar do lado da cama, parando pra bater uma punheta de vez em quando.
Do ponto de vista de alguém que consumia, e hoje produz: como é o jornalismo especializado no Brasil hoje? O fato de o diploma agora não ser mais obrigatório mudará alguma coisa? E para você?
GL: Acho que, como você mesmo fala, o jornalismo de games no Brasil é muito chapa branca. Todo mundo tem medo de “ofender”, de irritar uma empresa. Não acho que antagonizar deve ser a norma, acho que avaliar os fatos deve ser a norma. Fez merda? Ué, eu vou falar disso. Mas aí rola um círculo vicioso, o jornalista paparica a empresa, a empresa se acostuma a um mundo infantilizado onde uma nota ruim é algo pelo qual se pede desculpas, ou é coisa que, pra alguns editores aí “não se faz pra não comprar briga”. Acho isso deplorável, acho que o jornalismo de games precisa crescer, amadurecer, aprender a ser honesto e, quem sabe um dia, ser combativo. Eu tô fazendo minha parte, mas enquanto essa for só a MINHA parte, eu vou ser o gordo louco que só reclama. Por mim tudo bem, eu sou mesmo.
Quanto ao diploma, pra mim não muda nada, nem pro leitor, nem pros jornalistas. Como em todo o jornalismo, o jornalismo de games está cheio de profissionais não-diplomados ou diplomados em outra coisa. Alguns são bons e outros não, mas normalmente é mais fácil um incompetente se esconder atrás de um diploma de jornalismo do que de um comprovante de conclusão do supletivo.
Para mim, muda menos ainda: nunca quis diploma, continuo não querendo. Quer dizer, se me derem um, eu não vendo no Mercado Livre.
Você tem alguma saída para o jornalismo no Brasil ser menos chapa-branca, mais combativo? Como fazer, se as empresas que podem ser criticadas também são as mesmas que anunciam?
GL: Aí entram dois fatores: 1. As revistas precisam dos anúncios, mas as empresas também precisam anunciar, ainda mais em veículos especializados; 2. É preciso esforçar-se muito mais em ir atrás de anunciantes de fora do mundo dos games; 3. Eu não trabalho com venda de anúncio, marketing e essas merdas, então eu não sei de nada. MEU NEGÓCIO É JOGUINHO!
Você acha mais confortável estar nessa posição de não depender exatamente do apoio do anunciante para trabalhar? ou preferiria estar em outra posição?
GL: Bom, todos dependemos da grana de anunciantes, mas eu nunca quero estar na posição de correr atrás deles. Quero que haja muitos anunciantes sempre, assim haverá grana para me pagar. Mas se eu preferiria estar em outra posição? Sim, prefiro estar empregado, porque aí não preciso correr atrás de frilas o tempo inteiro.
Como seria hoje o emprego perfeito? Ou o veículo?
GL: Não sei se o veículo perfeito existe. Mas acho que um emprego “perfeito” seria ser pago para escrever sobre essas besteiras das quais eu entendo, seja games, filmes, música, a gloriosa cidade de Imbé, no Rio Grande do Sul… Pô, acharia do caralho ser pago pra escrever umas críticas de filmes, games etc. E ao mesmo tempo poder bolar conteúdo original, notícias, matérias, entrevistas. Pautas interessantes escritas de maneira diferente, porque o jornalismo de games das revistas hoje em dia é muito formuláico e sem sal. Mas tem muita gente que gosta de fazer conteúdo assim, sem ter que pensar muito.
Como rolou de ir para a E3 sozinho? O que te compeliu a fazer? Você recomendaria pra qualquer um?
GL: Bom, o sonho de ir para a E3 é velho, desde pequeno eu lia sobre a feira nas revistas de games e parecia o evento mais legal do mundo (spoiler: e é!). Então quando a E3 sofreu aquele downsizing em 2007 e 2008 eu fiquei muito triste, pois achei que nunca iria visitar a E3 dos meus sonhos. Mas quando soube que ela ia voltar a ser uma extravagância, eu sabia que eu precisava ir.
Então desde o fim de 2008 eu estava me preparando para ir, me registrei logo que o processo de inscrição foi aberto, comecei a organizar horários e tal. A parte mais difícil foi arranjar frilas para cobrir os custos da viagem, mas felizmente consegui (aí você me levou na Virgin Megastore só para eu me endividar todo). Adorei ir, adorei os textos que pude produzir por ter ido e pude aprender muito sobre como o evento funciona, ou seja: estou preparado pra fazer muito mais no ano que vem.
Eu recomendo sim, especialmente pra quem já trabalha nesse meio. E já dou a dica: não fique muito apegado ao respeito que as empresas empregam no tratamento dos jornalistas lá, só dura pelos quatro dias da E3. Depois você volta para o Brasil e aqui não tem disso. Mas é uma puta experiência para se divertir. E trabalhar muito, mas pra mim os dois se misturaram pra caramba. É que eu sou muito nerd mesmo.
Qual você prefere, para consumir e para trabalhar: revista, site, TV ou tudo isso junto? Ou nenhum deles?
GL: Consumo muito conteúdo pela internet, principalmente em texto, mas um bom site é parte revista e parte TV. E acho que hoje em dia, uma boa revista precisa de um bom site. A presença do veículo não pode se limitar àquelas 100 páginas mensais, que são estáticas. Um site é um puta pilar na estrutura de uma publicação, mesmo uma que seja primariamente impressa. Eu ainda tenho fetiche por revistas, mas leio poucas, porque no final das contas papel é papel, o diferencial é o conteúdo.
Para trabalhar eu estaria satisfeito em qualquer um dos três, talvez não tanto somente em TV, porque acho que a escrita é muito importante pra mim e é uma forma de comunicação onde se pode controlar todo o produto. Quando eu escrevo uma crítica, os limites impostos a ela são impostos por mim, já outras linguagens dependem de mais gente, mais trabalho. Já escrever é saber falar.
Onde você se enxerga, profissionalmente, daqui alguns anos?
GL: É difícil dizer, o mercado ainda está muito pirado, surgem coisas do nada, projetos dão errado etc. Sem contar que eu não sou um cara muito bom de futuro e essas coisas, eu fico mais de olho no almoço de amanhã. Mas certamente gostaria de estar numa posição mais estável, como redator ou editor em alguma publicação (online ou não).
Vendo como funciona a rotina de um jornalista hoje, você consideraria fazer uma faculdade, mesmo que seja “apenas” para ajudar na sua formação?
GL: Não considero hoje pela mesma razão que nunca considerei: Pra mim, o sistema de aulas/provas/trabalho nunca deu muito certo. Terminar o colégio já foi um sacrifício e acho que me estressaria demais ao entrar de novo numa rotina dessas. Acho que a faculdade continua sendo uma maneira válida de se aprender muita coisa, mas eu decidi tentar aprender na marra. Acho que tem dado certo.
Se você que quisesse que tivessem lhe dado um conselho antes de entrar nesse mercado, qual seria?
GL: “They Don’t Really Care About Us” [risos]. É difícil pensar em um conselho, mas um aviso sobre o quanto a imprensa de games é ABANDONADA pelas empresas de games.
E qual conselho você daria pros jovens empreendedores como você?
GL: Corram! Passem longe do jornalismo de games. Mas se você realmente não consegue pensar em fazer outra coisa, aprenda a escrever. E tenha sempre em mente que se é pra fazer, faça direito, não seja aquele cara que vai em coletivas pra ganhar brindes e cafezinho de graça. Não seja “ista”, não seja puxa saco de ninguém (muito menos de empresas) e lembre-se de desconfiar de todo mundo (especialmente de empresas). E antes de se aglomerar com um bando de amiguinhos virtuais pra criar um blog, pense se isso vai te servir de algo, se isso vale a pena ou se é melhor criar um blog pessoal pra servir de portfólio.
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