Aonde o Brasil dos Games quer Chegar?
Ressaca de E3? Imagine…
Demorei mais do que o esperado para retornar ao batente por aqui. Está tudo uma confusão – na mesa, na sala, na vida -, então vou me organizar antes de qualquer coisa. Para compensar, faço um dos meus velhos truques de sempre aqui no blog: reciclo texto antigo com cara de inédito. Sempre funciona (até agora funcionou).
Esse artigo a seguir foi publicado na revista EGW do mês de abril (não sei a edição, alguém me ajuda?). Ele discute a questão do crescimento sempre constante da indústria nacional de games: afinal, estamos chegando ao ápice? Quantos degraus ainda precisamos superar? Será que dá para melhorar mais ainda? O que nos impede de crescer?
É claro que nenhuma dessas perguntas possui resposta simples, mas é aí mesmo que está a graça. Leia, opine, comente. Aproveite que o assunto é infinito e polêmico.
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Navegando por Altos e Baixos*
Talvez seja melhor que o mercado de games brasileiro jamais alcance o topo
Há alguns dias [o texto foi escrito em março] aconteceu o evento Gameworld 2011, em São Paulo. A festa durou três dias, de 11 a 13 de março, em um shopping center muito bem localizado, próximo ao coração financeiro da cidade. Na sexta, executei uma função nobre: apresentei a premiação Troféu Gameworld, ao lado do mito Carlos Eduardo Miranda. Devo dizer que foi divertido, descontando alguns percalços pelo caminho. Quem sabe faz ao vivo, bem dizia aquele poeta televisivo que continua no ar aos domingos desde o fim dos anos 80.
Não consegui passear pelo Gameworld naquele dia. Mas, no dia seguinte, lá estava eu circulando por aqueles corredores abarrotados de gente, desviando de empurrões, suando e encontrando velhos amigos. Confesso que gostei de estar lá, no meio da muvuca. A organização estimou em mais de 21 mil o público total do fim de semana. Fazia tempo que eu não comparecia a um evento especializado no Brasil (a E3 de Los Angeles, fechada ao público normal, não conta). A culpa em parte é de minha falta de tempo e desorganização crônicas, mas não é só por isso: festas para o público gamer são raras em nossa terra brasilis. Eles estão se espalhando aos poucos pelos grandes centros, mas ainda assim, dá para contar nos dedos das duas mãos os acontecimentos relevantes nesse sentido.
Mas será que quantidade é melhor que qualidade? Quero dizer, se houvesse um evento aos moldes do Gameworld em cada capital brasileira, será que isso significaria que estamos evoluindo em algum sentido? Mais eventos de games representariam um crescimento verdadeiro de nosso mercado?
Coloquei a questão e aproveito para eu mesmo discordar: acredito que não há relação entre uma coisa e outra. O fato é que há uma demanda muito reprimida por qualquer acontecimento ou fato relevante relacionado aos videogames no Brasil. O público gamer quer ter o que fazer além de jogar e gastar (muito) dinheiro. Estamos na crista da onda da tecnologia e somos considerados o porto seguro dos investimentos estrangeiros, mas ainda existe bastante lentidão em se tratando de uma evolução real. Há quase dez anos o Brasil engatinha para chegar lá – seja esse “lá” onde for. Há alguns anos, nossa referência de progresso era o México. Hoje, o mercado de lá anda saturado e estagnado – cresceu o que tinha que dar e não tem mais muito para onde ir. Sob esse ponto de vista, acredito que deveríamos almejar outra situação. Não é legal imaginar que iremos entrar em um processo de decadência após tantos anos lutando para que o “Brasil dos games” cresça e apareça.
Reflitamos juntos. Hoje, temos as três principais plataformas lançadas oficialmente por aqui. Os games chegam quase simultaneamente, muitas vezes traduzidos para o português. Os preços, aos poucos, se tornam mais adequados (se comparados aos preços de cinco anos atrás). Portáteis como smartphones, iPhones e iPads se popularizam, assim como seus games. O que exatamente falta para alcançarmos um topo? Melhorando a pergunta: será que precisamos chegar a esse topo? Porque você sabe bem: tudo o que sobe, um dia desce.
É aí que está: acredito que o Brasil jamais chegará ao ápice em se tratando do mercado de games. Estaremos sempre progredindo, evoluindo, mas jamais alcançaremos um estado em que nos daremos por satisfeitos. Tudo faz parte da tradição de ser brasileiro – essa insatisfação com as coisas, essa postura crítica e mordaz, esse jeitinho de ir empurrando com a barriga até tudo certo. É como muito bem proclama o belo estandarte nacional: (des) ordem e progresso (constante). E devagar vamos caminhando.
* Texto publicado na edição 113 da EGW, abril de 2011.
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Você notou que comentei sobre a possibilidade de novos eventos de games no país. Acabou atraindo boas notícias: durante a E3 2011, recebi a confirmação de que está tudo certo para o retorno do Electronic Game Show, ou EGS, à cidade de São Paulo. Melhor ainda, as negociações estão bem adiantadas com a maioria das publishers atuantes no Brasil. Quando esse evento vai acontecer? No segundo semestre de 2011. Se a informação é de fonte quente? Não poderia ser mais quente. Agora é torcer para se tornar realidade, porque já ouvimos essa história antes…
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