Morreu, na sexta passada, 17 de dezembro, o jornalista Claudio Batistuzzo, o Batz, dono do site Games Brasil.
A morte tem o poder de redimir pecadores, mas não é esse o caso em se tratando do Batz. Para mim, ele era o símbolo do empreendedorismo no tal do “jornalismo de games brasileiro”. Assim como alguns poucos outros exemplos, Claudio chegou onde chegou sozinho, só contando com seu talento, sua dedicação e sua excelente capacidade de se relacionar e se fazer querido. Ele, humilde e generoso como poucos, incluiria também a sorte nessa equação, mas eu continuo a crer que sorte é algo que apenas as pessoas realmente boas possuem o privilegio de ter. E era esse o caso do Batz.
Afinal, Claudio fez por merecer tudo o que se diz sobre ele. Sem mais nem menos, criou o Games Brasil em 1999 e o fez acontecer, isolado em uma salinha de escritório em Sorocaba. Se fez conhecido, repercutiu suas próprias noticias, batalhou anunciantes sem ter nenhuma experiência para isso. Depois, quando o trabalho já não lhe era novidade, conseguiu uma parceria com o UOL, a qual durou anos. Recentemente, assinou um contrato generoso com o IG, que também hospeda este Gamer.br. Enfim, éramos colegas de empresa, não só de profissão. E pelo respeito mútuo que exercíamos, nos considerávamos amigos também.
As histórias foram várias. Recordo do final do primeiro dia do evento Electronic Game Show, em 2004. Estávamos no estacionamento ao ar livre do local, eu, ele e nosso amigo jornalista Théo Azevedo. Iríamos para a festa do lançamento de Half-Life 2, mas fomos impedidos porque o alarme de meu carro disparou, causando um estardalhaço insuportável. Não consegui resolver a situação sozinho, até que o Batz, mostrando intimdade com a eletrônica, abriu o capô do carro e desligou o alarme com as mãos, na raça. Fiquei impressionado. Ele deu risada. Como sempre. Estava sempre rindo, como se nenhum problema fosse grande o suficiente para atrapalhar o bom humor.
Eu o encontrava apenas nos raros eventos do mercado de games nacional, e, vez ou outra, em festas de confraternização cada vez mais escassas. Mesmo morando em Sorocaba, ele jamais faltava a alguma festa. Me chocou particularmente quando me contou que vinha para São Paulo de carro e voltava logo após o evento, mesmo que fosse tarde da noite (e com umas cervejas a mais). “Não creio que você vai dirigir de volta a essa hora”, eu sempre lhe dizia, já meio embriagado. Ele sorria como se não fosse grande coisa. Eu sempre me preocupava, ele dizia que estava acostumado. Deve ter sido esse ímpeto, essa falta de preguiça, essa dedicação ao mercado e aos colegas, que fizeram dele um cara que, se é que é possível dizer isso agora, “deu certo na vida”.
Outra lembrança feliz é o aniversário do Théo, em 2009. O Batz comandou a churrasqueira durante toda a festa, sem reclamar nada, satisfeito com a tarefa. Diziam que aquela era uma de suas especialidades, e comprovei ali pela primeira e única vez. Nos divertimos, especialmente quando tirávamos onda da cara do Théo, que respondia de volta de forma ainda mais grosseira. E era um festival de xingamentos saudável entre esses caras que tinham bastante em comum além da profissão (e o fato de torcermos pelo São Paulo, mas para mim esse era só um detalhe. Para o Batz, era coisa séria).
Fiquei particularmente arrepiado quando, no casamento do Théo, mais de um ano depois, uma foto daquele churrasco surgiu no telão: nela, nós três nos abraçávamos, caras de bêbados, expressões de tranquilidade. Nem me lembro de a foto ter sido tiirada. Aliás, jamais poderia imaginar que esses momentos vividos serviriam de inspiração para um texto-tributo meses mais tarde (obviamente, preferiria não ter de escrever algo com tal conteúdo. Paciência).
Na festa de casamento, aliás, conversei bem com o Batz. Ao final, quando a maioria já se encontrava impraticável ou já havia tomado o rumo de casa, apenas os poucos e bons permaneceram em meio a mesas vazias e copos sujos. Batz era um deles, acompanhado da esposa Suely. Estávamos todos semi-engravatados, já amarrotados, celebrando a felicidade do amigo que acabara de se prender para o resto da vida. Relembramos histórias, gargalhamos, nos despedimos bêbados na porta do buffet. Me lembro do abraço e de meu pedido a ele, que soltei ao escutar que estariam retornando para Sorocaba naquela hora da madrugada.
“Batz, toma cuidado na estrada, porra!”
Ele riu: “Claro, é sossegado. Tranquilo. Pode deixar. Se cuida!”
Eu realmente me preocupava, mas ele tirava de letra. Como sempre. Depois desse dia, não me lembro mais de ter encontrado o Batz pessoalmente.
Há um tempo, Batz passou por problemas de saúde. Poucos souberam disso. Ele se isolou durante um período, se recuperando. Certo dia, conversamos por MSN, e ele me descreveu o que estava se passando. Parecia complicado, mas ele, otimista como sempre, só pretendia passar a mensagem de que estava melhorando. E como não haveria de ser? “O pior já passou, Pablito, graças a Deus”. Respondi “amém” em pensamento. Um cara como aquele não precisava sofrer, nao é mesmo? Porque a vida deveria ser justa com quem só transmite o bem para os outros. Não deveria?
Em alguns momentos especiais – que ainda estão perdidos em minha memória -, dividimos risadas, conversas, preocupações e elogios mútuos ao vivo e através dos nossos sites. Trabalhamos juntos, quando editei a revista EGM Brasil: por causa de sua boa fama com o Games Brasil, o convidei para escrever resenhas de games para PC, sua especialidade, tarefa a qual exerceu até depois que me desliguei da revista. Todos os anos, ele tomou parte da eleição de Melhores do Ano que organizo neste blog, sempre sendo um dos primeiros a votar. Da eleição deste ano, aliás, ele também participou. O email com seus votos chegou no dia 14 de dezembro, iniciado por um “Segue aí Pablito” e finalizado por um “Abraços e feliz 2011!!!”. No dia seguinte, trocamos umas mensagens no Twitter. Foi uma ironia mórbida notar que as duas últimas mensagens que ele escreveu em vida se referiam a mim. Antes dessa, um verso enigmático de Humberto Gessinger.
Em 2009, sabatinei o Batz seriamente para meu blog, no que muito provavelmente foi a maior entrevista que ele concedeu sobre seu trabalho. Reli o post no dia de sua morte e fiquei chocado ao comprovar o talento do cara como empreendedor de sucesso e a maneira clara, objetiva e sincera com que relatou suas vitorias e ensinou suas lições. As respostas remetem a um sujeito que foi lá, fez e jamais ficou contando vantagens – exatamente o que ele era na vida real, fora do ambiente virtual, sempre distante de qualquer holofote. Aquela conversa, efetuada ao longo de algumas sessões via MSN, define o que o Batz representa para essa profissão, mas também serve para deixar para a posteridade as palavras, a memória e os ensinamentos do jornalista que o Brasil perdeu.
Mas por todos que o conheceram, ele será também lembrado por seu imenso caráter, sua imbatível cordialidade e sua sincera amizade.
Valeu, Batz. Onde você estiver, com certeza estará bem.