…E retornamos à programação normal.
O Gamer.br está de volta, após (merecidas) férias e um pouco de descanso. Peço desculpas pela ausência por tantos dias, mas prometo aos poucos voltar ao ritmo “normal” de atualizações (e o resultado da promoção de aniversário do Gamer.br, que estou devendo o resultado). É que as coisas estão rolando, mesmo quando a gente fica parado.
Para dar uma compensada nesse hiato, venho aqui com uma Entrevista da Semana de peso. O nome do cara é James Cameron, e ele é simplesmente o cineasta mais bem sucedido da atualidade. Entre os filminhos que ele dirigiu, dá para citar Avatar, Titanic, O Exterminador do Futuro e Aliens: O Resgate – talvez você já tenha assistido a algum desses. Mas ele fez muito mais do que isso. Conversei com Cameron por telefone no mês passado, por conta do relançamento de Avatar nos cinemas (com nove minutos a mais), mas é claro que aproveitei para mencionar os videogames na pauta. Imaginei que ele, como um diretor de cinema sempre preocupado em enxergar adiante, teria uma opinião bem firme a respeito do papel dos jogos eletrônicos no mundo do entretenimento. E realmente, ele tem, como você poderá ler a seguir. E como sempre, Cameron consegue ser polêmico. Nem que só um pouquinho.
O restante da entrevista com James Cameron está na edição 49 da revista Rolling Stone Brasil, que já está nas bancas (com o Wagner Moura de Tropa de Elite 2 na capa). E eu recomendo.
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Gamer.br: Do que se trata essa nova versão de Avatar?
James Cameron: Incluímos quase 9 minutos. São 8 minutos e 50 segundos de cenas. É um monte de coisas que adorávamos, mas que jamais conseguimos finalizar. Como você sabe, Avatar foi feito em sua maioria com captura de movimentos e computação gráfica, e todas as novas cenas que incluímos são computadorizadas. Havia um “limite” do que conseguiríamos finalizar e, ainda assim, lançar o filme na data prevista. Então, tirei fora algumas cenas, para permitir que conseguíssemos finalizá-lo no prazo. E já que Avatar foi um sucesso, fui falar com o estúdio e pedi: ‘Ei, que tal vocês me darem mais alguns milhões de dólares para eu terminar aquelas cenas? A gente pode incluí-las no filme e daí relançá-lo no verão’. E eu estava pensando no fim do verão, que é quando as coisas estão mais tranquilas e os grandes blockbusters já foram lançados. E aí, faríamos apenas em 3D, para assim, todo mundo poder ver, inclusive aqueles que queriam vê-lo no cinema, mas não conseguiram porque havia outros filmes em 3D ocupando as salas disponíveis. E como você sabe, estávamos vendendo ingressos feito loucos, e acabamos ficando sem salas de cinemas 3D para atender a Avatar e Alice no País das Maravilhas ao mesmo tempo. Perdemos praticamente metade de nossas telas da noite para o dia. Havia muita gente que queria ver o filme nos cinemas, mas não teve a chance. Então foi o isso o que tínhamos em mente quando pensamos sobre o relançamento.
Você acha que Avatar é um filme que consegue conservar a mesma vibração quando assistido em tela pequena?
JC: Bem, não há duvidas de que a melhor maneira de ver o filme é em 3D, na tela grande. Não há duvidas quanto a isso. Mas, aparentemente, porque a conversão para home vídeo foi tão bem feita, há algo na vibração e nas cores que foi transportado perfeitamente para a tela da TV. Você tem que se lembrar de que todos os filmes acabam indo para a telinha. Então, não é preciso ser melhor do que é Avatar na telona –só precisávamos ser melhor do que todos os outros filmes em tela pequena. Entendeu? E temos que lembrar que as TVs com 3D embutido estão chegando, e em breve as pessoas poderão assistir a Avatar em casa. Mas isso é algo que não acontecerá até o ano que vem.
Mesmo sendo o filme mais rentável de todos os tempos, há também quem diga que não há nada de arte em Avatar, que ele é apenas e somente um produto de entretenimento. O que você acha disso? Seria ele um filme à frente de seu tempo?
JC: Eu acho que o filme foi lançado no momento certo de seu tempo. Ele pode ter usado a melhor tecnologia disponível, mas acho que a mensagem transmitida é do tipo que interessa às pessoas. Claro, é um filme de ação e aventura, e se é disso que você gosta, então ficará satisfeito. Mas se você quer mais do filme, se você quer uma conexão emocional, ou ainda, ouso dizer, espiritual, então o filme corresponde nesses níveis também. Eu acho que as pessoas sentem, coletivamente ao redor do mundo, que nossa civilização tecnológica está nos afastando de um estilo de vida “natural”, além de estar prejudicando a natureza que necessitamos para sobreviver. Existe, portanto, o senso de que o filme conecta nesse nível também, como “mensagem”. E é preciso ter mensagem em um filme de ação? Não, mas se o filme proporciona isso também, então acho que é algo positivo. Pois dessa forma, ele se torna um trabalho artístico, afinal apresenta opiniões, statements, em sua narrativa.
Qual sua relação com os videogames? Você os consideraria o próximo passo no que diz respeito ao entretenimento? Ou seria o cinema a principal ferramenta dessa transição do mundo virtual para o real?
JC: Eu acho que videogames e cinema são duas formas de arte completamente diferentes. Videogames são interativos – você está no controle, você cria sua própria narrativa, você é o herói em sua própria historia. E os filmes são completamente diferentes: são uma forma de entretenimento passiva – o cérebro permanece ativo, tentando analisar o que vai acontecer, mas você não consegue mudar a ordem dos acontecimentos. São duas formas de arte completamente distintas. O lance é: em termos de tecnologia e técnica, os dois estão se fundindo, no sentido de que estamos utilizando os mais avançados engines de games para elaborar tecnicamente os nossos filmes. Avatar foi feito dessa maneira, usando uma engine de game para criar uma interface em tempo real para eu, como diretor, interagir com esse mundo computadorizado. Então, estamos usando ferramentas em comum, e na verdade temos capacidade até de criar produtos em comum. Por exemplo, nós desenvolvemos elementos para o filme e repassamos para a Ubisoft utilizar no game de Avatar. Daí, eles criaram coisas para o game e repassaram para nós, para que as utilizássemos no filme. E eu acho que isso irá continuar a convergir daqui para frente. O videogame irá utilizar técnicas de autoração e tecnologias semelhantes aos dos filmes. Mas no que diz respeito à experiência, eu não acredito que eles irão se fundir em uma coisa só.
Porque essa seria justamente a minha pergunta: eu ia lhe questionar se o game e o cinema poderiam se fundir e se transformar em uma espécie de “máquina geradora de realidade virtual”, que as pessoas poderiam jogar todas juntas em um cinema…
JC: Bem, para mim, isso ainda seria um game. Você me entende? Não seria um filme. Porque um filme é uma espécie de narrativa passiva, você não pode modificar o que vai acontecer. E se é um simulador de realidade virtual, então é um game – afinal, você pode modificar os acontecimentos. Portanto, são meios fundamentalmente diferentes.
Você joga, ou já tentou jogar?
JC: Claro, já joguei. Mas não gasto muito tempo jogando videogames. E eu não estou menosprezando. É que eles são muito viciantes. Para eu permanecer focado, criativo e poder inventar coisas novas, eu não posso ficar “fumando um cachimbo de crack através de um videogame” por dez horas ao dia.