Alguns Pensamentos sobre a História dos Videogames no Brasil
Saudações!
Antes de entrar no fim de semana, publico minha coluna Gamer.br, que foi publicada na edição mais recente da revista EGW – o texto tem um quê de comemorativo porque apareceu na edição 100 da revista (é um marco histórico para qualquer publicação hoje em dia).
O tema da coluna é dos mais atuais – pelo menos para mim: a absoluta falta de registro sobre a história dos videogames no Brasil e como a imprensa de hoje está trabalhando para mudar essa situação. Você já parou para pensar nisso? Então pense comigo. O texto rendeu uma repercussão legal entre os leitores da revista, então acredito que por aqui será a mesma coisa. Se tiver algo a acrescentar, é só comentar ali no final.
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Velhos Tempos que Não Voltam Mais
Desde que virei jornalista “de verdade”, tenho constantemente recebido solicitações de estudantes de jornalismo. Explico: de uns anos para cá, virou praxe nas faculdades fazer trabalhos de conclusão de curso (os chamados “TCC”) sobre o assunto videogame. Tem gente que direciona bem o trabalho: alguns ex-estudantes, hoje bem sucedidos colegas de profissão, tiveram a ideia de criar uma revista independente sobre games. O projeto, eles me contaram, os ajudou a ganhar experiência que seria utilizada ao longo da carreira e estreitou os laços com profissionais que já se encontravam consolidados no mercado. Nesse caso, foi uma ideia que deu muito certo.
Mas há tantos outros estudantes – bem mais ambiciosos – que não se contentam em fazer um trabalho “simples”. Não são poucos os que me abordam pedindo uma força em tarefas árduas, como, por exemplo… em trabalhos de pesquisa sobre a história completa dos videogames no Brasil.
Esses dias, desencorajei um estudante dos mais dedicados. A proposta dele para o trabalho final do curso de jornalismo era uma reportagem investigativa, na forma de livro, sobre a trajetória da indústria de games brasileira dos os anos 70 até hoje. Em nossa primeira conversa, joguei a real: “Você simplesmente não terá de onde tirar informações sobre isso”. Emendei dizendo que a maioria das pessoas que participou desses acontecimentos ou não está mais viva, ou não se lembra de detalhes porque mudou de área. E não ajuda em nada o fato de não haver bibliografia decente publicada sobre o assunto. As revistas de games surgiram no Brasil no início dos anos 90, mas não passavam de páginas coloridas cheias de dicas e telinhas. Só se tornaram realmente informativas e interessantes em meados do século XXI.
(A publicação que você tem em mãos, aliás, faz parte deste processo de profissionalização da cobertura jornalística nacional dos games. A EGM Brasil surgiu em 2002 com uma proposta diferenciada, visando entregar informações competentes e reflexões aprofundadas a um consumidor cada vez mais interessado e de alto nível. Hoje a revista se chama EGW, mas dá uma grande satisfação vê-la alcançando a centésima edição firme e forte, após vencer tantos percalços e contrariar expectativas.)
Fechando o parêntese, voltemos ao tema. Existe um problema grave para qualquer um que se arrisque a investigar a saga do mercado de games no Brasil: simplesmente não existe registro confiável sobre o início e o desenvolvimento dessa história toda. Muito porque a imprensa “séria” sempre ignorou os games. Não havia especialistas assumidos sobre o tema. E muito menos se discutia o potencial positivo dos jogos em debates intelectualizados. Toda essa movimentação que você vê hoje é muito recente.
E talvez seja justamente este fato que me faça adiar a ideia de escrever um livro aprofundado sobre o assunto. Vou entrevistar quem? Pesquisar aonde? Onde andam os executivos responsáveis pelo lançamento do Telejogo nos anos 70? E o pessoal que trabalhou na Polyvox, que lançou o Atari, o que anda fazendo? Percebe o tamanho do problema?
Tocando especificamente na questão da imprensa, me parece óbvio o porquê de os veículos sérios não estarem interessados em videogames antigamente. O assunto realmente parecia banal e assustador para leigos. E isso demorou a mudar. Há até uns dez anos, os jogos só apareciam nos grandes veículos em matérias depreciativas ou não tanto lisonjeiras. Felizmente, a percepção geral mudou, e para melhor. Hoje, os games não são mais considerados os causadores de surtos psicóticos ou responsáveis pela má atuação dos jovens na escola. Mas isso você está cansado de saber, não é mesmo?
Apesar dos pesares, temos mais é que comemorar essa enorme aceitação dos videogames na sociedade. Se o passado permanece uma incógnita, pelo menos podemos ter certeza de que o período atual está sendo muito bem documentado. E que assim continue.
* Texto publicado na edição 100 da EGW, maio de 2010.
Notas relacionadas:

[...] This post was mentioned on Twitter by Pablo Miyazawa, Rafael Gomes and Imprensa Gamer, Thiago Jansen. Thiago Jansen said: RT @pablomiyazawa: Os videogames no Brasil não possuem história registrada – http://tinyurl.com/2fu5l6p #gamerbr [...]
Nossa, nunca tinha pensado por esse lado. Sou um ‘videogameiro’ há um bom tempo e jamais passou pela minha cabeçaque sua história vem sendo ignorada.
Mas, se é pra desestimular, vamos lá. A música do Brasil é vastíssima e só agora que foi lançado uma obra historiográfica oficial.
Espero que demore menos com o videogame, mas é preciso brotar mais interesse na investigação dos jogos para que eles realmente penetrem no campo científico no Brasil.
Perceber a ausência destes detalhes já é grande coisa. Agora, é arregaçar as mangas. Tomara que isso esteja nas mãos de gente competente.
abraços,
Tiago
Olá, Pablo. Parabéns a EGM/EGW, pelas cem edições de ótimo trabalho.
Sou um dos estudantes de jornalismo que gostaria de pesquisar a cobertura dos videogames na imprensa. Seu texto não me desanimou, ao contrário. Só me deu a certeza de que essa é uam área que vale a pena pesquisar.
Minha ideia é de analisar a cobertura atual dos games no Brasil, e acredito que a EGM e revistas subsequentes serão de grande valia como objeto de estudo. Espero não estar enganado.
Mais uma vez, parabéns pelo ótimo trabalho!
Muito legal sua matéria, e concordo com você também.
Se bem que a informação pode estar onde a gente menos espera.
Talvez aquele senhor que sempre toma café em frente a padaria vivenciou isso, aquele estrangeiro que veio para cá no início dessa época, já adorando os vídeogames, possa se lembrar de algo.
Sair perguntando é a melhor opção! ^^
Até mais.
É uma pena não existir nenhum documento relatando essa época do início dos games no Brasil. Já parei para pesquisar sobre o assunto e de fato é impossível.
Fico imaginando se daqui a uns 5 ou 10 anos alguém não vai fazer um documentário do tipo “A Era do Videogame no Brasil”, um pouco no estilo do que a Discovery Channel produziu, mas mostrando essa transformação do mercado brasileiro e também da aceitação.
Bem, antigamente o video game no brasil era bem menos elite!!! tinha uma maquina de street fighter em cada boteco da cidade…. hoje só se encontra ps3 em loja fina!!!!ou importabandistas de luxo….. lembro que no tempo do snes e mega tinha aquelas locadoras de bairro cheia de cartuchos originais!!!
Em 2008 me formei em jornalismo, como você bem sabe (e até me ajudou bastante nisso), escrevendo um livro reportagem sobre a História do Jornalismo de Games no Brasil. Fiz o trabalho todo sozinho, pois na minha sala, não havia nenhum funcionário do Uol ou do IG para me ajudar a promover o livro. Consegui conversar com todas as pessoas-chave do negócio, não deixei passar ninguém desapercebido. Estudei os vinte anos da história do jornalismo de games no Brasil, documentados por quem fez a coisa realmente acontecer. E depois? Não virou nada. Nenhuma editora se propôs a publicá-lo, aliás, sequer tiveram a audácia de conhecer o projeto. Valeu a pena? Só pra mim, exclusivamente…e sem fins lucrativos!
Será?
“Será” x2, Daniel’s…
Eu li seu livro, como você deve saber…você mesmo emprestou-o a mim e, na verdade, ainda aguardo sua visita para que você venha pegá-lo de volta conforme combinamos.
Seu livro – a obra em si e o caderno de entrevistas – estão lotados de anotações dos seus professores denotando erros e mais erros – todos eles, salientei a você, com forte fundamento – algo que você não discordou.
Lembre-se que qualquer jornalista, dono de editora etc. possui o mesmo conhecimento técnico de um professor de faculdade. Isso é teoria, decoreba.
Talvez “nenhuma editora” se prontificou a levar seu serviço adiante pelo simples fato de que, não obstante o assunto – bastante interessante, vale lembrar – as falhas que você cometeu na confecção de seu texto teriam falado mais alto.
É a resposta que eu te daria fosse eu um dono de veículo comunicativo.
Não quero ser flammer contigo, mas seu livro pecou.
E completo…
“Nenhuma editora se prontificou…”? Até onde o senso lógico percorre, a proposta tem que vir de você. Todo livro é assim, salvo as exceções de grandes autores…cujo nome sozinho já rende venda exemplar.
No caso de um autor de obra técnica, especializada – o seu caso, Dani’s – a proposta deve partir do autor. Isso não valeria apenas para você, mas para mim, para o Gus, o Théo Azevedo, talvez até mesmo o próprio Pablo.
A razão disso é que ninguém aqui é um Galvão Bueno da vida, que, se quisesse, poderia fazer um livro “A História do Futebol” que a Globo publicaria. Teríamos que brigar por isso – e brigar muito.
Da forma como você colocou, eu entendo que você esperou que algum empresário entrasse em contato contigo.
Foi isso ou eu entendi errado? Esclareça, por favor..
“Desapercebido”. Vai ver por isso ninguém prestou atenção.
Conhecer o passado é importante para qualquer segmento da economia, mas confesso que mais me preocupa hoje o futuro do que um passado pouco glorioso.
Excelente matéria Pablo.
Olha, não sei nos anos 70, mas nos anos 80 teve sim muita coisa documentada. Pega as revistas Micro Sistemas, MSX Micro e CPU, que você vai ver muito anúncio, entrevista e até código fonte de jogo feito aqui no Brasil.
Tá não é exatamente video-game, mas o uso primordial dos computadores dos anos 80 (Spectrum, MSX e coisas mais antigas) era essencialmente para Jogos.
Existem ainda algumas fontes daquela época: eu mesmo já conheci 2 pessoalmente – Ademir Carchano (que vendia coisa de MSX) e Renato Degiovanni (Hoje ainda atua no site tilt.net) e ambos podem dar muita, mas muita informação sobre o mercado nacional nos anos 80.
E dizer que o povo dos anos 70 não está mais vivo…? Conta outra, vai
Quem tinha 20-30 anos nos anos 70, agora está com 60-70 – e podem perfeitamente bem lembrar de como eram as coisas na época… Conheço idoso com mais de 80 anos e que tem a memória melhor que a minha ^_ ^
Foi impossível ler sua matéria e não me lembrar de um fato recente: um jogador pediu indicações de bons livros em português que contassem a história dos games no Brasil, porque pensava em fazer graduação na área. Travei. Disse que pesquisaria e perguntei a alguns amigos meus que fazem pós. Moral: só vieram indicações em inglês. O guri ficou a ver navios e eu fiquei impressionada não só com a falta de material, mas por nunca ter pensado no assunto.
Enfim, nosso mercado ainda é muito jovem e só está começando a ter atenção agora. Quem sabe daqui alguns anos alguém não se arrisca?
A propósito, embora me pareça politicagem, o Serra disse hoje (ou ontem?) no twitter dele que pediu um estudo completo a respeito do mercado de games no país. Será que devemos esperar algo disso?
Juliana,
penso que o comentário em si pelo twitter pode ser politicagem, mas cada vez mais o mercdo de games está mais dificil de ignorar. Games movimenta muito dinheiro e politicos ja perceberam isso. Qual politico não gosta de dinheiro?
Bom… sou eu o aluno que o Pablo falou. Não desisti do meu projeto, estou entrevistando muitas pessoas… algumas ativas no mercado hoje, que podem contar histórias do passado, e algumas ativas no mercado das antigas… queria agradecer ao Pablo por me “desestimular”, na verdade isso só me fez ter mais vontade de levar meu projeto adiante e, mesmo que aconteça o que aconteceu com o Daniel Tenreiro, vou me sentir realizado pessoalmente. E, Pablo, vou te mandar o trabalho final em breve e, se possível, gostaria que você escrevesse o prefácio. Tenho certeza de que vai gostar do trabalho.
O Brasil só será um país sério, quando, como em algumas outras culturas, o cidadão primeiro pensar no bem do país, e somente depois no bem da familia e no seu próprio…Infelizmente somos um país com 200 anos de civilização…temos muito o que caminhar ainda!
Me desculpe a sinceridade, mas o fato do trabalho ser árduo deveria ser um estímulo, e não o contrário.
Arbulu, sinto muito, mas o que está nas suas mãos é o projeto do livro, somente, e as anotações são minhas. Você notou que aquilo só tem entrevista? Não é o livro-reportagem sobre o jornalismo de games no Brasil, entendeu? Aquilo era uma base introdutória ao assunto. A reportagem partirá daquilo que eu colhi nas entrevistas. E não, eu não esperei ninguém vir atrás de mim (opa!). Eu fui mesmo atrás de um pessoal, apresentei o livro (não o caderno de entrevistas), de capa dura, bonitão, mas ninguém quis mesmo. Posso dizer que fui em três editoras, e não foi a Tambor, nem a Digerati, nem a Europa e nem a Escala. Chega!