Entrevista da Semana: Franz Ferdinand
E aí, passou bem a semana?
Eu voltei da maratona roqueira no festival SXSW, no Texas, direto para um belo fechamento de revista. É assim que é, mas eu gosto.
Aproveitando o espírito rock & roll, aproveito para publicar a seguir alguns trechos inéditos da entrevista com a banda Franz Ferdinand que realizei ao lado do amigo Paulo Terron para a revista Rolling Stone Brasil. A banda acabou de finalizar uma turnê brasileira que passou por Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo (eu fui, você foi? Perdeu). Mas eles haviam passado por aqui antes, em setembro do ano passado, e foi quando tivemos o privilegio de encontrar frente a frente com Alex Kapranos (voz e guitarra), Nick McCarthy (guitarra), Paul Thomson (baixo) e Bob Hardy (bateria), que falaram sobre tudo um pouco, inclusive videogames – o tema, claro, começou com o tema “distribuição ilegal de músicas”. O resto você imagina. Já que a conversa foi longa, muita coisa ficou de fora da revista. Então publico agora alguns trechos interessantes (e inéditos) da entrevista.
E se quiser ver no papel também, corra para comprar a RS desse mês na banca. A capa é a do Pedro Bial (essa eu também assinei).
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Gamer.br: A distribuição de música ilegal pela internet atinge vocês?
Alex Kapranos: Isso chegou a um ponto em que as pessoas presumem que a música é gratuita. Acho que essa atitude não é tão fácil de se alterar.
Nick McCarthy: Quando você pensa em ouvir alguma banda, a primeira coisa que te vem à mente é o torrent.
AK: A Lily Allen foi destruída pela imprensa por dizer que as bandas mais novas sofrem mais com isso. Pode até haver hipocrisia no que ela falou, mas não é muita. É uma observação razoável: as pessoas estão consumindo algo pelo qual não pagaram. Muita gente tem reações ambivalentes nesse assunto, mas existe mais hipocrisia em quem ataca a Lily Allen do que nela. E não estou falando da pessoa média, que só baixa as músicas. Estou falando das pessoas que disponibilizam esse material. Elas tentam espalhar essa idéia de um mundo socialista, mas eu poderia apostar que elas vivem felizes dentro das vantagens que o capitalismo traz a elas. O debate sobre direito intelectual é muito amplo. Não acho que existe uma solução simples e direta. Não é tão fácil quanto ser dono de uma loja de doces e dizer: “estes doces são meus, se você roubá-los eu vou chamar a polícia”. É uma situação muito interessante. Tudo está mudando.
Vocês enxergam uma solução?
NM: Eu não vejo. [risos]
AK: Você vê uma solução?
Muita gente diz que a respostas é investir em outras áreas, como os shows e o merchandising. Tanto que as gravadoras têm feito novos contratos, que incluem participação nesse tipo de coisa. E também há a venda de músicas pelos jogos de videogame.
AK: É verdade, tudo isso está mesmo acontecendo. Mas ainda assim não vejo uma resposta definitiva. Acho meio triste essa conversa de que os músicos só ganham dinheiro com apresentações ao vivo, porque essa situação exclui os artistas que só trabalham em estúdio. Isso vai ser muito ruim para os produtores e pode implicar na queda da qualidade de gravação. Você precisa, sim, de investimento financeiro para fazer um disco como, sei lá, o Pet Sounds. Você precisa poder pagar os músicos, os engenheiros de som. Se isso tudo acabar, vai ser muito triste. Tudo o que vai existir será gravado em um quarto, em um laptop. E, claro, ótimas idéias são realizadas dessa forma, mas vai ser triste ver o outro lado desaparecer.
Vocês não gostam de fazer coisas por puro entretenimento? Tipo jogar videogames?
AK: Eu não gosto de games por um motivo simples: não sou muito bom neles. Não gosto de fazer coisas nas quais não sou muito bom.
Paul Thomson: É difícil chegar ao fim dos jogos! Quase nunca dá.
Bob Hardy: Acho que o objetivo nem é esse, chegar ao fim. É só algo para ocupar o tempo. Matar tempo mesmo. Por exemplo, se você vai de Sidney para Glasgow e tem um jogo desses, o tempo passa voando. Pode ser o game mais simples de todos, não importa. Não precisa nem exigir muito de você. Tem esse debate de que os jogos musicais estão matando a música, e não acho que isso seja verdade. Os moleques não estão tocando instrumentos, são umas merdas feitas de plástico! Por outro lado, muita gente nos escreve dizendo que começou a tocar um instrumento de verdade depois de jogar um game desses.
PT: Eu acho esses jogos [tipo Guitar Hero] ridículos! Mas só digo isso porque não os jogo.
Muita gente provavelmente chegou à música de vocês porque “Take Me Out” está no primeiro Guitar Hero.
BH: Eu já joguei. Você vai alternando entre a linha de baixo e a de guitarra, depois pula para a melodia. Chegou uma hora que pensei: “Não, não consigo”.
AK: Como compositor, acho que é uma visão fascinante sobre o modo como as pessoas que não tocam e escrevem vêem a música. As pessoas começam a notar a melodia, o baixo, a bateria. Isso me ajuda na hora de escrever, de vez em quando é bom ficar no básico e evitar as coisas espertinhas que o seu lado artístico te obriga a fazer. Você pensa: “Ok, qual é a parte boa disto aqui?”. E se você não encontrar essa parte boa, então a sua música provavelmente não é tão boa assim.
Por isso as pessoas cantam o riff de “Take Me Out”.
AK: É verdade! E quando a canção tem uma boa virada de bateria, todo mundo canta também. Eu faço isso, todo mundo faz.
Por outro lado, você tem artistas como Bob Dylan, que se irritam quando a plateia canta junto e muda o andamento da música propositalmente.
AK: É. Como são as músicas do Bob Dylan no Guitar Hero? [risos]
BH: Acho que tem a versão original de “All Along the Watchtower”.
AK: Sério?!? Nós já jogamos aquele SingStar, sabe? Tentamos cantar “Do You Want to You”, mas nossa performance foi um lixo. Você precisa cantar exatamente como ela foi gravada e nós… Nem todos os músicos são assim, mas nós mudamos a inflexão vocal e o modo de cantar a cada show! Não radicalmente, mas o suficiente para errar no SingStar. [risos]
BH: Depois de dois anos você nem se lembra mais da versão gravada, a música já mudou, evoluiu.
AK: Também acho que você escuta a música de uma forma diferente no contexto de uma apresentação ao vivo. Talvez você não queira que ela dure dois minutos e meio, você quer interagir com a banda, ser surpreendido. É uma forma de provar sua autenticidade ao vivo. É o que me anima em um show, saber que ouvirei uma música, mas não saber exatamente como ela será tocada. Por isso que sou radicalmente contra bases pré-gravadas. Não as sequências programadas, porque nessas você pode alterar os parâmetros. Mas nas bases é sempre a mesma coisa. É um modo pouco saudável… Para mim não é nem uma apresentação ao vivo se você estiver usando uma base.
Notas relacionadas:

[...] This post was mentioned on Twitter by Imprensa Gamer and Manoel Soares, Nós Geeks. Nós Geeks said: Entrevista da Semana: Franz Ferdinand http://bit.ly/98Nv6O (via @pablomiyazawa) [...]
adoro eles
Bacana a entrevista. Cheguei a conversar em off Liam Gallagher sobre games musicais, e me espanta que o assunto é pouco tocado em entrevistas oficiais. Parabéns ao Terron pela iniciativa!
opa, valeu geraldo. vou transmitir ao terron. e a mim também, né!
Hahha sem dúvida! Parabéns Pablo!
[...] Demorei para falar do show do Franz e também segurei pra linkar essa entrevista que a banda deu para o Pablo sobre música digital: [...]
Ótima entrevista. Parabéns!
Sempre bom ler coisas do Franz.
parabéns msm
hahahah
Agora compartilhamento de músicas é coisa de socialista.