La vida es un Juego
Passei pela Espanha, voando.
Nem tão voando assim. Cheguei voando, mas pousei e lá permaneci por cinco dias. Foram dias frios e chuvosos, mais úmidos que na Alemanha. Acho que tive azar. Me disseram que eu trouxe o tempo ruim para o país. Preferei me eximir de tal responsabilidade. Ainda não aprendi a fazer chover.
A primeira parada foi Barcelona, local que já havia visitado duas vezes anteriormente. A última, deve se lembrar quem lê este blog desde seus primeiros dias, foi por ocasião do X06, evento organizado pela Microsoft em setembro de 2006. Desta vez, minha passagem pela cidade embelezada por Gaudi seria de natureza bem mais turística, mas, assim mesmo, foi difícil escapar do trabalho: os games estavam por toda parte. Melhor dizendo, não por toda parte, mas não era preciso procurar muito para encontrar alguma referência à guerra dos consoles. Aliás, estaria este termo deveras ultrapassado? Alguém ainda chama isso de “guerra”? Acho que não.
Seja como for, Barcelona, apesar de já ter abrigado a festa maior do Xbox, não parece em princípio o tipo de cidade que tenha uma forte relação com o entretenimento eletrônico. Pelo menos, na aparência. As lojas de games existem aos montes, e se disfarçam bem entre o comércio convencional. Descendo por uma larga avenida na direção da mítica Igreja da Sagrada Família, encontrei dois estabelecimentos bem discretos, um misto de locadora com loja de usados. Ambas com pouco ou nenhum glamour, mas o cartaz escrito com letras coloridas, pendurado do lado de fora de uma dessas lojas, denunciava: aqui o jogo é coisa séria. Só produtos recentes à venda, todos com preços pouco distantes dos apresentados em grandes cadeias de lojas como Fnac.

Tudo baratinho. Ou não
Uma chuva torrencial assim que cheguei à Plaza España mudou minha programação – para melhor. Acontecia ali perto, em um imenso pavilhão chamado Fira Barcelona, o vigésimo-sexto Salão Internacional de Quadrinhos de Barcelona. Eu tinha tempo, e as condições climáticas e o baixo preço do ingresso inevitavelmente me conduziram para o tal evento, que imaginei ser uma “feirinha” de revistas bem pouco pretensiosa. Felizmente, minha ignorância me foi recompensada. O espanhol leva a paixão por HQs muito a sério. Me vi diante de uma feira de gigantescas proporções, com atrações de fazer inveja a qualquer evento semelhante que já acompanhei em São Paulo. Editoras grandes se misturavam a escolas de desenho, barracas de fanzineiros, lojas de brinquedos e coleções (miniaturas eram o must) e exposições especiais, tudo em perfeita harmonia e sem parecer fora de contexto. Meus olhos abriram especialmente para o estande destinado a artistas consagrados, que ali ficavam só para autografar livros e desenhar para os fãs – que se posicionavam educadamente em filas longas e demoradas. Era quinta-feira, e amaldiçoei meu azar por já não ser domingo – ali estariam, dando autógrafos, mestres absolutos como Quino (aquele da Mafalda), Milo Manara e Moebius. Não sabe quem são eles? Deveria. Por pouco não modifico meus planos de deixar Barcelona no dia seguinte.
Deu gosto ver um evento tão bem organizado. Os espaços destinados a fanzineiros e editoras pequenas ocupava o mesmo espaço de selos conceituados, o que me pareceu uma prova de imenso respeito com os autores independentes. A oferta de material era absurda (quase 100% dos livros e revistas vendidos eram em espanhol ou ainda em catalão – senti falta de obras em inglês, ou ainda de qualquer material brasileiro por ali. Faz parte). Havia ainda uma exposição de figurinos e criaturas utilizadas em dois filmes do cineasta Guillermo del Toro (que, por sinal, irá dirigir o filme baseado em O Hobbit): Hellboy e O Labirinto do Fauno. Gastei um bom tempo por ali, só apreciando a paisagem.

Que Resident Evil o quê!
Aficionados por games não tinham muito do que reclamar também – ou você achou que eu não falaria sobre isso? Era enorme a quantidade de lojas vendendo brinquedos, miniaturas, revistas e jogos. Sim, me segurei para não gastar dinheiro (se bem que conheço gente que não resistiria à incrível Samus Aran de resina que encontrei por ali).

Pelúcias para marmanjos

Quem quer? Só 89 Euros
A Microsoft – sempre ela – não perdeu tempo, e montou sua arena particular cheia de games para Xbox 360 à disposição dos interessados.

Eles não perdoam nada
Já a Sony, aproveitou o estande que promovia o próximo filme do Hulk (estrelado por Edward Norton) para divulgar a versão para PlayStation 3 do game baseado no longa. Parecia bonito, e o povo até jogava. Sem filas, sem pressa.

Nenhum marmanjo se atraveu a encarar este aqui
Mas o negócio ali, óbvio, eram os quadrinhos. Haviam lojas só especializadas em mangás (claro), ou em quadrinhos eróticos, ou em alternativos, ou em super-heróis, ou em tudo ao mesmo tempo. Me chamou a atenção a média de idade do público: basicamente, jovem-adulto, de 25 a 35 anos. Muitas mulheres desacompanhadas. Quase nenhuma criança. Pouquíssimos adolescentes. Nem mesmo o estereótipo físico do nerd de quadrinhos era respeitado: com raríssimas exceções, o público presente ao Salão de Barcelona era formado por gente absolutamente normal, pelo menos na aparência. Pouca gente “montada” ou vestida a caráter. Já me dirigia à saída pensando que não veria nenhum cosplay bizarro, quando… bem, nem tudo é perfeito.

Sem dúvida, uma família feliz
Nem dentro do vagão do metrô, na volta para casa, era possível me livrar dos games. Os anúncios estão por toda parte – um cartaz que divulgava a versão de God of War para PSP era particularmente bonito. E nas prateleiras recheadas da livraria da estação de trem, era possível se dar conta da grande oferta de publicações especializadas à disposição do gamer catalão. Vi até a versão espanhola da querida NGamer por ali.
***
Dias depois, já em Madri, capital espanhola, procurei não cavocar muito atrás dos games. Mas quem disse que é possível escapar? Em uma volta no Shopping da estação de metrô Principe Pio, dou de cara com uma voluptuosa loja especializada em games. Seu nome? Game. Precisa mais? Como toda loja boa que se preze, a Game não se limita a vender: ela também compra jogos usados dos consumidores, e os repassa por preços ainda convidativos. O Wii, para variar, se encontrava em falta. Já os bundles diversos de PlayStation 3, a 400 Euros (por volta de R$ 1100), lotavam a vitrine. Por que será?
Na saída, um susto: um PlayStation pirata gigante?

Nao, apenas uma máquina automática de validação de tickets de estacionamento. Mas foi boa a piada, vá?




