Bons Tempos: Games Convention (2005) – Parte 2
A visita à Games Convention 2005 continua agora, do ponto em que o post anterior parou.
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Realmente, é uma sensação indescritível guiar em uma Autobahn, que é como se chamam as rodovias de alta velocidade alemãs. Não há limites de velocidade na maioria dos trechos, o asfalto é livre de imperfeições, a estrada é segura e bem sinalizada e é utilizada por pessoas que, em sua maioria, dirigem bem e com cautela – mesmo em estonteantes velocidades. Definitivamente, não é o local para se brincar de Need for Speed ou Burnout. Talvez dê para emular a sensação de um Gran Turismo, no máximo, mas com toda a cautela do mundo. Quem já dirigiu a 200 km/h na vida real sabe do que estou falando, Mesmo porque, nem dava para se brincar muito com o carro que aluguei – um VW Fox honesto e resistente. Porém, incomparável com o Porsche, o Audi e a Mercedes Benz que meu dinheiro de mochileiro não poderia nem sonhar em pagar.
E não é que o Fox agüentou firme e forte chegar aos 200 km/h? Por curtos períodos de tempo, quando a quantidade de carros na pista e meu medo permitiam. Mas posso dizer feliz que já voei nas Autobahns. E assim, os 281 km que separam Bremen de Erfurt passaram rápido demais até para se curtir a lindíssima paisagem e o nascer de lua mais lindo de minha vida.
Resumindo a história, sofri para encontrar um hotel no meio da madrugada, troquei de hotel no dia seguinte, consegui chegar ao festival (totalmente enlameado e cheio de gente embebedada, porém comportada e educada) e curti os shows que eu queria ver. Valeu a pena (acho que a descrição dos shows não cabe aqui neste blog temático…). Dormi e acordei cedo no domingo, pronto para encarar uma não tão longa viagem até Leipzig e tentar pegar o finalzinho do último dia da tal GC. Umas duas horas de viagem, rumo ao nordeste do país.
A cidade fica localizada na região um dia conhecida como Alemanha Oriental e é uma das mais modernas do país, arquitetonicamente falando. Isso se dá por uma razão trágica: Leipzig foi uma das cidades alemãs mais destruídas durante a Segunda Guerra Mundial, Pouquíssimos prédios terminaram em pé após a derrocada de Hitler, e foi preciso um esforço monstro para reconstruir a cidade praticamente do zero. O que se vê hoje é bastante diferente de outras cidades alemãs mais tradicionais, sem o clima provinciano que habita os mais freqüentes estereótipos sobre o país. E no melhor estilo alemão de ser, Leipzig é certinha, arrumadinha, linda. Pelo menos foi a impressão inicial que tive quando adentrei os limites da cidade, mais ou menos ao meio dia e meia do domingo ensolarado.
Se eu disser que demorei três horas para encontrar o pavilhão da Games Convention dentro da cidade, você pensará que estou exagerando. Mas aconteceu, e posso jurar que não foi por burrice ou inexperiência com leitura de placas: as sinalizações para a Games Convention simplesmente não existiam! Na pressa, esqueci de imprimir o mapa enviado pela organização do evento (junto com a confirmação de minha entrevista com a organizadora, marcada para as 16h daquele dia). Pensei que não seria complicado encontrar o lugar sozinho na cidade, uma vez que um evento daquele porte deveria estar mobilizando toda a população e movendo multidões. Basicamente, seria só questão de seguir o fluxo.
Eu não poderia estar mais enganado. Encontrei uma Leipzig que praticamente ignorava a tal GC, Rodei por toda a região central, ao redor da estação de trem, procurando por indicações que pudessem dar uma luz sobre qual direção seguir. Nada. Em uma avenida maior, encontrei um cartaz que apontava para frente e indicava uma distancia em quilômetros, seguido de outro cartaz adiante, outro… Até desaparecerem! Percebi que deveria ter virado à direita antes quando percebi que saia de Leipzig em direção a outra cidade. Perdi a conta de quantas vezes refiz o caminho das placas, na esperança de avistar a indicação perdida. Diversas obras nas principais vias do centro tornaram a aventura ainda mais complicada, já que nem sempre eu podia seguir para a direção que eu pensava ser a correta. E isso tudo sem um único mapa de Leipzig para ajudar. Uma hora depois, eu já me sentia o maior otário da Alemanha. E o tempo correndo, e minha entrevista virando poeira,
“Games Convention, was ist das? Ich kenne es nicht!” , escutei de um homem para quem pedi informação em um posto de gasolina. Encontrei outra pessoa que realmente sabia do que estava falando e deu indicações bem claras do que eu precisaria fazer. Segui à risca, mas devo ter perdido um detalhe crucial, porque quando me dei conta, estava dirigindo em uma área estritamente residencial, proibida para veículos. A bronca absurda que recebi da mulher revoltada me fizeram compreender a gravidade de não prestar atenção a uma regra escrita em uma placa. Trazendo um pouco os games para a história, estava me sentindo como quando me perdia dirigindo pelas ruazinhas de Los Santos em GTA: San Andreas. A diferença principal – além de o fato de aquilo ser a vida real – é que eu não tinha um radar para me orientar. E em situações de stress, minha intuição simplesmente pára de funcionar. E é nessas horas que é preciso contar com a sorte e nada mais. E fui guiando, torcendo para em algum momento chegar lá, como mágica.
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E cheguei. Demorei, mas cheguei. O local, o Leipziger Messe (uma espécie de Palácio de Convenções do Anhembi alemão), era bastante afastado do centro da cidade, de modo que me senti felizardo assim que percebi o quão difícil era encontrar um lugar daqueles sem usar um mapa. Tive sorte de encontrar – só demorei três horas, que tal?
Me identifiquei como jornalista na guarita de entrada e acabei estacionando o carro em um local completamente afastado da entrada principal. Senti que estava no lugar errado, uma vez que não havia um único sinal de que aquele era um evento de games aberto ao público. Sei lá como, entrei na área destinada à imprensa, recebi minha credencial e respirei semi-aliviado. Dez minutos – o atraso não havia sido tão condenável assim. Solicitei ao balcão que me localizasse o objeto de minha entrevista – a organizadora do Games Convention, Angela Schierholz. Fiquei esperando em uma salinha tipo “lounge”, com mesinhas, poltronas e água mineral. Tudo muito fino, limpo e arrumado – me senti mal naquela hora, com meu tênis completamente enlameado da noite anterior, soltando pedaços de barro no carpete branquinho. Procurei pensar que a camiseta amassada, a calça de barras sujas e o cabelo despenteado combinavam com o que se espera de um jornalista internacional especializado. Me sentei na poltrona confortável e esperei, rezando para ninguém me tirar dali.
Nas poltronas ao lado da minha, alguns japoneses conversavam e comiam. Prestei atenção à conversa – era realmente japonês. Prestei atenção às fisionomias. Não reconheci três deles. O quarto, esse eu já havia visto diversas vezes anteriormente. Um tal de Hideo Kojima. Sabe quem é?
Achei engraçado ver o criador de Metal Gear sentado tão próximo, se comportando tão naturalmente. Parecia usar o mesmo terno cinza e camisa branca de todas as outras E3 em que o vi. E ele deve ter percebido que eu reparei quem ele era, porque imediatamente pareceu visivelmente desconfortável. Passou a olhar para os lados enquanto falava. E isso porque nem o encarei tanto assim. Pensei em me apresentar, mas olhei para o rastro de lama que deixei pelo caminho e não me senti seguro o bastante para incomodá-lo. Registrei o momento com minha filmadora, no melhor estilo paparazzo, para o caso de alguém não acreditar. E antes que Kojima se levantasse, Angela chegou e me cumprimentou em alemão.
Era uma senhora loira de 42 anos (no máximo), de cabelos curtos, vestida elegantemente, expressão amigável, porém imponente. Pedi que a conversa rolasse em inglês, obviamente, pois não me sentia seguro em travar um diálogo mais longo em seu idioma natal. E começamos a entrevista sem perder muito tempo. Liguei o gravador, a filmadora e o meu modo “esperteza”. Ela estava de bom humor, mesmo com o stress de quatro dias de feira. Perguntei tudo o que quis – pensei no material que eu precisaria para um artigo para a revista e um para o jornal (ofereci a pauta para a Folha de São Paulo, que topou – abaixo, um trechinho do texto, publicado em 24 de agosto de 2005).
A Europa respirou jogos eletrônicos durante a última semana. Realizada na cidade de Leipzig (região leste da Alemanha), a quarta versão do evento Games Convention recebeu mais de 134 mil visitantes entre 18 e 21 de agosto, um crescimento de quase 30% em relação à edição anterior.
Neste ano, apresentaram-se 280 exibidores de 15 países (25 a mais do que no ano passado), que mostraram 189 produtos inéditos para o mercado europeu, ocupando cerca de 80 mil metros quadrados de área de exposição. Os números sagram a GC a maior feira exclusivamente dedicada ao entretenimento digital do continente.
Aberta ao público -o ingresso custava 7 por dia (por volta de R$ 20)-, a GC teve um clima festivo e familiar. “Metade dos visitantes tinha menos de 20 anos, com destaque para a faixa entre 14 e 17 anos”, disse Angela Schierholz, coordenadora do evento.
Segundo dados divulgados pela GC, o mercado de games europeu movimentou 99,7 milhões em vendas de software durante o ano fiscal de 2004. De olho nesse mercado, as principais empresas do setor mostraram o que têm (ou pretendem vir a ter) de melhor.
Fiquei satisfeito com a conversa de 20 minutos. Peguei as informações que precisava e umas boas aspas (um dia, se eu tiver tempo, coloco o vídeo da entrevista no blog. Talvez demore). Olhei para o relógio – eu tinha menos de uma hora e meia para visitar a feira propriamente dita. Me despedi de Angela com um aperto de mão, prometendo em breve enviar cópias das matérias pelo correio. É claro que jamais cumpri o dito. E tenho certeza que ela se esqueceu da entrevista dez minutos depois de ela acabar.
E acabei nem prestando atenção se o Kojima foi ou não embora. Tudo bem, ele parecia estar bem de mal humor.
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A Games Convention 2005 era dividida em diversos pavilhões não muito distantes entre si, mas todos enormes. O esquema era diferente de uma E3 – e o fato de ser aberta ao público contribuía para aumentar as discrepâncias. A faixa-etária era baixíssima, as filas eram enormes e havia mais barulho de vozes e gritos do que de jogos propriamente ditos. Sinceramente, não me lembro se joguei alguma coisa por mais de cinco minutos. A pressa me impedia de parar e prestar atenção nos detalhes técnicos. A maioria do que estava ali, aliás, eu já havia visto na E3 daquele ano (e quem se lembra, sabe que aquela foi a melhor de todos os tempos em diversos sentidos).
No mais, achei bacana o estilo da GC, e lembro de ter pensado que um evento brasileiro teria tudo para ser daquele jeito. Mas logo caí na real que aquilo era Europa, e precisaríamos andar muito em frente para chegarmos àquele nível. Até a revista diária distribuída gratuitamente era um capricho só. E estava bem cheio, mesmo para um domingo, quase 17h. Peguei o clima de fim de feira, com mais gente indo embora que chegando. Hora de ir embora, a estrada me chamava, a distância de 310 km era grande demais para ser ignorada.
Saí do pavilhão da Leipziger Messe direto para o carro. Não cheguei a passar mais de três horas ali dentro, pensei na hora. Peguei a estrada ainda com sol brilhando. Enchi o tanque de benzin bleifrei, a gasolina sem chumbo mais barata e menos poluente. Pedi informação: “Moço, quero ir para o Norte”. “É só seguir por ali”, indicou o cara no posto. Na Alemanha não existe frentistas, mas nesse ponto da viagem eu já havia aprendido a colocar gasolina sozinho.
Liguei o PSP, improvisado como mp3 player e pendurado no espelho retrovisor, coloquei o cinto de segurança e acelerei Autobahn adentro.
No fim das contas, tinha valido a pena.
Autor: pablo - Categoria(s): Tudo ao mesmo tempo Tags:
O Gamer.br precisa de mais textos como esse! Muito bom, mas o link para o ‘texto’ não funciona. =/
Não poderia deixar de comentar. Falando da Alemanha (pra mim o melhor país do mundo)? Li praticamente tudo. A GC 2005 ficou em 2º plano, fiquei mais interessado em saber das peripécias do Pablo no meu país favorito (e que um dia espero ficar lá – já tenho 1 ano de alemão =D ).
Parabéns Pablo, como sempre, ótimo texto. E ótima história.