Bons Tempos: Nolan Bushnell (novembro de 2004)
Nos últimos meses de 2004, eu havia completado quase um ano à frente da EGM Brasil e mergulhei realmente nesse negócio de “editar revista multiplataforma”. Era fascinante pensar em pautas absurdas e resgatar figuras já esquecidas. O fato de ter a marca EGM em meu crachá facilitou e estimulou bastante a busca por histórias legais. Sabia que seria mais fácil tentar entrevistar alguma personalidade estrangeira se meu pedido estivesse vinculado a uma marca de peso.
Mas quando inventei de entrevistar o fundador da Atari, achei que não bastaria falar que era de uma revista de games de marca mundialmente conhecida. Nolan Bushnell, o responsável pela criação de um dos primeiros grandes ícones dos videogames, há muito estava afastado do mercado “tradicional”. Um dia, fiquei imaginando o que o homem estaria fazendo da vida. Bushnell havia fundado a Atari no início dos anos 70, e vendeu sua parte para investidores em 1976 quando as coisas começaram a ficar mais complicadas. Mesmo tendo ficado meros quatro anos à frente da empresa, seu nome entrou para a eternidade como “o homem da Atari” e se tornou símbolo da criatividade que impera neste mercado. Um cara como esse precisava ser ouvido, pensei. E lá fui eu atrás dele.
Foi até mais fácil do que eu pensava. Uma pequena busca na internet revelou que ele era o dono de uma empresa chamada uWink, fabricante de arcades para espaços alternativos. Seu nome figurava no site da uWink de maneira bem discreta, na lista de funcionários (ele era o CEO, óbvio). Enviei um e-mail através do item “fale conosco”, alegando ser um repórter de um jornal brasileiro em busca de uma entrevista com Mr. Bushnell. Na época, eu nem pretendia publicar a entrevista na EGM. Meu alvo era emplacar uma matéria no caderno de cultura da Folha de S. Paulo, naquela época aberto a frilas e a reportagens sobre games e cultura digital. Achei que valeria o esforço, que seria divertido, e que eu não iria me arrepender da escolha. Além do mais, não havia gancho na EGM para aquela entrevista, pensei. E no jornal, o alcance seria bem maior.
Não demorou para a resposta da uWink chegar. O e-mail escrito por uma mulher muito simpática (o nome me foge agora) me dizia que o sr. Bushnell daria a entrevista com todo prazer, por telefone. E que poderia ser na semana seguinte. Eu só teria que discar e pedir para falar com ele. Ela mesma atenderia e transferiria a chamada. Vim a saber depois que a referida senhora não era a secretária de Bushnell, mas sim sua esposa (se não me engano, foi ele mesmo quem me contou). Fiquei pensando que a uWink deveria ser uma empresa das mais familiares, para o velho Nolan ter até colocado sua própria mulher para cuidar de sua agenda.
A semana passou, o dia chegou (se não me engano, a data da entrevista mudou algumas vezes até ser definida), e eu estava nervoso. Era esquisito entrevistar por telefone sem ao menos saber a cara do sujeito. Havia visto velhas fotos, mas não fazia idéia da cara dele atualmente. Na hora combinada, fui para uma sala de reuniões silenciosa no primeiro andar do prédio da Conrad e disquei o número. Não havíamos marcado a duração da conversa, mas estava disposto a esticá-la o máximo de tempo possível. Preparei umas 25 perguntas, tendo certeza de que algumas ele nem saberia responder. Nem estava muito confiante, para falar bem a verdade. A mulher dele, secretária naquela hora, atendeu e transferiu a ligação.
Nolan era simpático, isso eu não posso negar. Não me intimidou em momento algum. Quando perguntei se aquela era a primeira entrevista que ele dava para um veículo brasileiro, respondeu rapidamente “provavelmente é sim”. Não que isso fizesse alguma diferença para ele. Se eu dissesse que era do Camboja, provavelmente a resposta seria a mesma. Procurei esquecer do complexo de vira-lata que costumamos sofrer frente a um norte-americano e fui escolhendo as perguntas com a ponta da caneta, sempre olhando no relógio do gravador, o qual posicionei ao lado do telefone viva-voz. Liguei o speaker e apertei o REC. Era um gravador novo, aquela era sua estréia.
No início, o estilo de trabalho da Atari era bastante conectado ao seu estilo de vida pessoal. Hoje, as pessoas dizem que você tornou foi o cara que tornou bacana a profissão de engenheiro. Dá pra dizer que é legal ser um “geek” hoje em dia?
Nolan Bushnell: Eu ainda acho muito legal sim. Mas uma das coisas que mais me orgulha é que fui eu quem começou com toda a idéia de não se usar gravata para trabalhar. Na década de 60 e 70, quando comecei a atuar nessa área, os engenheiros sempre usavam terno e gravata, eram todos iguais. Mas sempre achei isso uma grande besteira (risos). A Atari foi a primeira a fazer isso, então veio a Apple e seguiu a nossa idéia. Daí, todo mundo foi atrás.
Atualmente, consoles como o PlayStation 2 são considerados os perfeitos aparelhos para se jogar, se comunicar online, assistir filmes e outras coisas. Você acha que há espaço no mercado para mais um aparelho como os videogames?
Eu acho que não. O mais conveniente mesmo é você ter vários aplicativos conectados em um único sistema em que você possa jogar games, ouvir música e tudo o mais. Para mim, então você não precisa ter todas essas caixas em casa. Você só precisa ter um único sistema poderoso.
Então você acha que os videogames são mesmo a máquina de diversão perfeita para o século XXI?
Com toda a certeza.
Você sempre foi um defensor do uso de aparelhos multimídia como ferramentas educacionais em escolas. Você não acha que os videogames deveriam cumprir esse papel? Por que empresas como Nintendo e Sony não ajudam nesse sentido?
Infelizmente, isso não depende das empresas de games. Há diversos tipos de ótimos softwares educativos por aí para todos os tipos de funções. As escolas precisam se livrar da idéia de que a única maneira de ensinar é usando um professor. Há tantas coisas que as crianças podem aprender em frente a um computador… Não há porque não se ensinar matemática ou história dessa forma. As crianças responderiam bem a isso. A tecnologia usada nos games pode ter um papel muito mais atuante do que apenas no sentido de divertir.
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Percebi que o caminho para colocar o homem para falar era tocar no assunto “games educativos”. Bushnell sempre foi um dos defensores do uso dos jogos eletrônicos no ensino. A resposta da pergunta foi dita com uma empolgação diferenciada. Pela primeira vez, ele parecia relaxado e interessado. E já haviam se passado 10 minutos. Quantos mais eu teria?
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Quais foram os maiores feitos da indústria dos games nos últimos anos?
(Pensa) Acho que é o contínuo poder do jogo em rede, que socializa ao invés de isolar o jogador. (Pensa) Mais e mais pessoas estão se conectando através do Xbox Live ou em games online no PC, em lan houses… essa é uma tendência muito interessante.
Você parece estar bem por dentro do mercado atual. Quando foi a última vez que você jogou um game?
Há exatamente dez minutos atrás (risos).
O que você jogou?
Um game chamado Marry Coupling, que produzimos aqui na uWink para um de nossos consoles.
Hoje, lendo a entrevista crua, confesso que demorei a entender qual o nome do game que Bushnell estava jogando antes de falar comigo. Escutei a gravação umas 15 vezes até desistir e escrever o nome mais parecido com o som que ele emitira. Daí o tal “Marry Coupling”. Errar faz parte da experiência.
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E o papo continuou. Será que ele falaria sobre a Atari? Não sabia se aquele era assunto proibido. Sua mulher/secretária não me advertira sobre nenhum tema que poderia desagradar Bushnell. Mas, para minha surpresa, foi ele próprio quem tocou no assunto. Estava fácil.
O mercado é hoje dominado por Sony e Nintendo. Não aborrece saber que essas são empresas japonesas, e não americanas? Dá para tirá-las do topo?
Sim, e isso sempre foi algo que me aborreceu. Este é um dos motivos pelos quais eu desejava não ter vendido minha empresa (a Atari) naquele tempo. Acredito que não teria cometido muitos dos erros que eles cometeram (risos). Ao mesmo tempo, acredito que o mercado de games é dinâmico o suficiente para todo mundo trabalhar no mesmo nível. Há cinco anos, dizia-se que a Nintendo não poderia ser tirada do topo, mas hoje eles estão com um desafio grande pela frente. Já a Sony fez um trabalho consistente, criando coisas incríveis e malucas. Eu, pessoalmente, acredito que o Xbox é um produto superior e logo mostrará a força da Microsoft.
Existe algo de que você se arrepende em sua carreira?
Sim, eu gostaria de não ter vendido a Atari.
E há planos de investir no ramo de consoles domésticos novamente?
Não imediatamente, talvez no futuro. Agora, estamos focando nossos esforços em uma estratégia de entretenimento “fora de casa”, em celulares, coisas assim. Mas agora não é a hora.
Aqui, devo confessar meu pseudo-amadorismo: Nolan levantou a bola, eu poderia ter chutado com tudo, mas preferi dar um belo passe para trás. Eu poderia ter perguntado sobre suas razões para vender a Atari, sobre alguns podres daquela época, sobre o que ele teria feito para a empresa não ir para o buraco. Mas, sabe lá o porquê, eu resolvi ser bonzinho com o entrevistado. Apliquei a regra número 1 do “não fazer” em uma entrevista difícil e importante.
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Para fechar o papo, que já alcançava os 22 minutos, umas perguntas que pediam frases de efeito. Dava pra ver que o velho era lúcido o bastante para falar algumas ótimas. E assim foi.
Na indústria dos games, como você quer que o nome Nolan Bushnell seja lembrado?
Pelas coisas que eu farei no ano que vem (risos).
Mas e o seu passado?
Eu gostaria de ser lembrado pelo conjunto de meu trabalho, não só pelos games. Eu tenho muito orgulho do Chucky E. Cheese (rede de arcades-pizzarias criada nos anos 70), do sistema de navegação em automóveis que desenvolvi, de alguns dos brinquedos que bolei. Também acho que minha empresa atual, a uWink, tem feito coisas muito interessantes. Mas acho que meus maiores feitos ainda estão por vir.
As pessoas devem lhe perguntar muito sobre a Atari e como é ser o pai dos videogames. Você se cansa desse tipo de pergunta?
Não, mas eu prefiro falar sobre as coisas que estou fazendo agora (risos).
Olhei o relógio, 29 minutos, que passaram como vento. Senti a impaciência em seu tom de voz. Ele mesmo tratou de encerrar o papo, sem deixar de ser simpático: “Olha, agora acho que preciso desligar”. Ok, uma última pergunta?
Para terminar, quais são seus games favoritos de todos os tempos?
Acho que seriam Breakout e Asteroids.
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Pedi o e-mail do homem para o caso de eu ter alguma dúvida e perguntei se ele me responderia mais algumas perguntas por e-mail. Ele topou, passou o endereço e se despediu cordialmente. Prometi que mandaria o jornal para ele assim que a matéria fosse publicada. Agradeceu e se despediu. Ouvi o tu-tu do outro lado, desliguei o gravador digital, orgulhoso. Tinha ficado relativamente razoável. Naquela época, acho que eu nem me exigia tanto. Acho que não comemorei com ninguém aquele feito no dia. Guardei o gravador na gaveta e me esqueci daquilo por enquanto.
No dia seguinte, escrevi um e-mail para Bushnell com mais umas três perguntas que achei que faltaram. Jamais recebi respostas para as perguntas, mas não lembro de ter ficado chateado. Em compensação, recebi de sua esposa uma foto de divulgação bem bacana. Bushnell era a cara do Steven Spielberg, simpático, cara de velho gênio. Curti.
Só fui resgatar a entrevista e transcrevê-la uns três meses depois, quando começamos a produção da edição de janeiro de 2005 da EGM. Não havia assunto bom para a capa, aquele marasmo de sempre. “A História dos Games” parecia ser uma pauta fria, porém decente para o momento. Lembrei que aquela entrevista com Nolan Bushnell cairia bem no conjunto. A mudança total da equipe do caderno de cultura do jornal encerrava minha chance de vender a pauta para um veículo de circulação nacional. Desencanei. A entrevista com o criador da Atari iria para a EGM mesmo.
E foi publicada na edição 35, no recheio da matéria escrita pelo Marcel R. Goto. Ganhou chamada de capa, mas sem muito alarde. Não me recordo de ter recebido um único e-mail de parabéns pela entrevista. Passou batida, no fim das contas, nem era nada assim tão incrível. Foi mais interessante para mim do que para qualquer um, mas tudo bem. Hoje, quando me perguntam o que mais gostei de fazer na carreira, costumo me lembrar deste dia com carinho. Mudei de computador e perdi meus contatos e e-mails trocados com a mulher de Bushnell. O áudio da entrevista continua conservado intacto no velho gravador abandonado na gaveta, e é a única evidência de uma conversa que, imagino, o velho fundador da Atari nem deve se lembrar que aconteceu.
Mas tudo bem, eu me lembro.

Confesso que não usaa tanto o e-mail como uso hoje, talvez uso atualmente com mais frequência do que uso o telefone. =D
MAs com certeza essa matéria ficou ótima, e sabendo todo esse contexto ficou muito mais interessante. Eu lembro dessa matéria. Curti, alias essas coisas que sempre curti, matérias exclusivas. Sempre cobrei isso do pessoal da NW e sempre vou cobrar. Quando fazem aquela matéria FOD.A, dou os parabéns, seja por email ou Orkut
Um forte abraço
Histórias como essa, Pablo, só quem viveu pode contar.
E é por histórias assim que eu acompanho esse blog.
É impressionante que o Pablo ainda viva um estilo “sou um cara comum” mesmo sendo de tanta influência e com contatos diretos com gênios como Nolan Bushnell e Shigeru Miyamoto, afinal toda experiência nos faz evoluir.
Os fãs agradecem, grande Pablo, pelo trabalho de ontem, de hoje e certamente pelo que ainda está por vir.
Eternal Memories…
Pablo, não tem como fazer um podcast com esse material???
Ótima idéia…. podcast, mecanismo de busca… estamos trabalhando nisso. Queria colocar vídeos e áudio. Vamos ver se rola. Valeu a sugestão!
Abraços!
Sempre fiquei na dúvida sobre o método que vocês usariam para gravar entrevistas feitas por telefone. Agora pareceu óbvio… viva-voz(duh) hahaha.
O mais legal foi o que você descreveu, Pablo, a experiência que você ganhou e a felicidade de ter conseguido a entrevista.
Só uma pergunta, você mandou o exemplar da EGM para o Nolan?
E outra pergunta: você acha que se ele soubesse desde o principio que a entrevista iria para uma revista conhecida (mesmo que não fosse a ed. americana), teria sido diferente?
Eu me lembro dessa matéria, ainda tenho essa EGM aqui, me lembro que gostei dessa entrevista que mostrava que o Bushnell ainda tava ligado nos games, porque a entrevista que rolou com o criador do Odyssey (acho que era o Odyssey, era algo antigo) o cara nem ligava muito pra games mais e soava meio desinteressado com os games.
GUS
Aí, Pablo, tem uma surpresinha pra ti no meu blog. Agora, te vira!
BUDRUSH!!!
Xi, Rodrigo! Fala sério! que preguiça de fazer isso, hahaha.
Vamos ver se consigo! Obrigado pela citação!
Abraços!
Pô Miya, compartilha esse áudi com a gente, rapah.
E parabéns. Eu sorri aqui lendo a história e a entrevisto, espero que você se anime com as minhas palavras escritas.