Entrevista da Semana: Gustavo Hitzschky (Arena Turbo)
Recebemos hoje a noticia de que o colega Gustavo Hitzschky, repórter do site Arena Turbo e colaborador da revista EGM Brasil, está deixando deliberadamente seu cargo no site para se dedicar a outros projetos não ligados ao jornalismo. Gus, o membro da imprensa nacional com o sobrenome mais impronunciável de todos os tempos (batendo com folga até o Daniel Nieuwenhuizen) é uma das grandes promessas da imprensa de games nacional e seu trabalho deve fazer falta, apesar de ele garantir que “a pausa é provisória de minha parte. Só espero que, no futuro, se pintar a oportunidade, alguém do meio me aceite de volta”. Como homenagem e despedida, ele é a figura central da boa e velha Entrevista da Semana do Gamer.br. Confira o papo e não deixe de comentar no final.
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Gamer.br: Você se formou recentemente em jornalismo e trabalhou durante um bom tempo no portal Arena Turbo. Como você resumiria esse período/transição de “estudante leitor” para “profissional no mercado”?
Gustavo Hitzchky: Primeiro que foi a realização de um dos meus sonhos. Inacreditável. Há muito tempo, ainda quando bombavam a Ação Games e a Super Game Power, eu tinha a idéia de escrever para publicações de games. Entrei no jornalismo justamente com esse objetivo em mente, mas pensava que era uma utopia da minha parte me imaginar em uma redação ao lado dos ícones do jornalismo de games. E aconteceu. Aqui no Arena, aproveitei para trabalhar com uma nova mídia e fazer contatos. Sentir na pele essa loucura de ter fechamento todos os dias em busca das melhores notícias e tal. É orgulho afirmar que trabalhei com a Rê Honorato durante esses dois anos. Sem ela, nada teria rolado, foi por conta dela que o sonho de infância se concretizou. Jamais vou conseguir agradecê-la ou retribuir o tanto quanto ela merece.
Então, como se deu essa transição? Como você entrou no mercado?
No terceiro ano da faculdade, em 2005, meu amigo Claudio Prandoni, hoje também no jornalismo de games, viu um anúncio no Orkut sobre uma vaga no Arena iG. Mandei currículo, fui para a entrevista com a Claudinha, antiga chefe, e a Honorato. Um bate-papo, elas só me explicaram como funcionava o Arena e pronto. Simples assim. Dias depois, me ligaram e falaram que eu estava dentro.
O que você recomenda para quem está procurando emprego nessa área e não sabe por onde começar?
Encha o saco de quem trabalha com isso. Papo sério. No primeiro ano de faculdade, se não me engano, decidimos entrevistar Pablo Miyazawa, o Jaspion do jornalismo, e fomos até a redação da EGM. Falamos com o figura, mostramos para ele que existíamos e mantivemos o contato. Em eventos de games e coisas do gênero, vá até lá e troque idéia com os figuras, se mostre interessado em ajudar em alguma matéria, review, o que for. Saia da toca, vá atrás dos caras.
Depois que você enfim começou a trabalhar na área, quais mitos caíram? O que se comprovou verdade? Você se sentiu enganado de alguma forma por um “glamour” da profissão que não se aplicaria na realidade?
Essa história de que jornalista de games passa o dia inteiro jogando. Nunca acreditei nessa balela, e quando entrei para o meio a tese foi comprovada. Aqui no Arena, pelo menos, posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes joguei durante o expediente.
Antes eu achava que os caras que trabalhavam com jornalismo de games eram quase lendas, inacessíveis, esse tipo de coisa. Não dava para imaginar trocar uma idéia com caras como você ou o Fabão [Santana], por exemplo. Sei lá, acho que era tanto respeito que pensava não estar no mesmo patamar para dialogar com os manos. Besteira pura, eles são humildes pra cacete e muito gente boa. Tem até uns retardados e afetados como o Renato Bueno, mas é melhor deixar esse papo pra depois.
Qual seria para você a maneira ideal de trabalhar com games e jornalismo no Brasil?
Se as grandes empresas estivessem aqui, seria tudo tão mais simples. A gente se mata para conseguir entrevistas por e-mail, e essa nem é a maneira ideal de entrevistar alguém. Teríamos mais exclusivas e nosso material seria tão amplo e farto como o de qualquer publicação norte-americana. É verdade que hoje temos algumas revistas licenciadas que contêm reportagens produzidas lá fora, mas nada melhor do que conversar diretamente com fontes, sem intermediários. Talvez isso jamais aconteça, então vamos levando como podemos. O trabalho do jornalista sério, envolvendo apuração maciça e precisa, fica muito prejudicado quando se está longe da notícia. O cenário ideal, para mim, seria esse: empresas gigantes aqui dentro, organizadas e assessoradas.
O que você aprendeu de bom nesse período trabalhando, e o que ficou faltando?
Aprendi a trabalhar com prazos apertados, a escrever para ontem, porque a Internet exige isso de quem trabalha com ela. Agora tenho mais facilidade em fazer um texto em pouco tempo, você é obrigado a pensar mais rápido e isso te deixa mais ligeiro na hora de redigir uma matéria. Faltou sair mais do ambiente de trabalho para fazer pautas externas, disso eu sempre senti falta. Tem hora que você não agüenta mais ficar com a bunda na cadeira olhando para a tela do computador digitando como um robô.
E pro mercado brasileiro, está faltando o que?
Mercado editorial ou gamístico?
Ambos. Responda sobre os dois.
Pode parecer besteira da minha parte, mas eu gostaria que as revistas nacionais valorizassem mais o texto do que as imagens. Acho uma perda de papel e desrespeito com os leitores você colocar aquela foto ultra-gigantesca que preenche uma página inteira. A imagem vale mais do que mil palavras? Não acho, sinceramente. Foi isso que tentamos fazer na nossa revista de conclusão de curso, a Continue. Aumentamos o tamanho dos reviews e demos bastante ênfase à informação escrita em detrimento da visual. Pode até ser uma opinião isolada, mas é o que acho. Outra coisa que considero lamentável são os que tentam ser engraçados, mas a maioria não tem as manhas para fazer algo decente. Gosto do humor do [Eduardo] Trivella e, principalmente, do mestre Renato Bueno. Eles sabem como ser engraçados sem ser infantis e bobos.
Sobre o mercado brasileiro de games, vamos cair naquele papo de pirataria, impostos praticados pelo governo e aquela conversa que todo mundo conhece. Mas não tem como fugir disso mesmo, só vão olhar para o mercado brasileiro depois que a pirataria for combatida. Tenho orgulho de falar que só compro jogos originais para o meu videogame, mas não sou capaz de condenar quem compra produtos piratas.
Ainda bem que tenho condições de comprar produtos originais, mas eu também consumiria pirataria caso não houvesse outra escolha. As pessoas encontram essa forma para não ficar de fora das novidades nos games, e acabam consumindo a pirataria. Coloque um jogo original mais barato no mercado e faça uma campanha maciça sobre a importância do original, que a galera vai se conscientizar. Sabe outra coisa que irrita? O discurso das revistas contra a pirataria. Repare nas propagandas nas publicações: as páginas estão recheadas de anúncios de destravamento e produtos piratas, isso é absurdo. Claro que a receita das revistas, em grande parte, vem dos anunciantes, mas é meio incoerente você levantar uma bandeira contra algo e, indiretamente, alimentá-la.
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E o dia foi de perdas para a imprensa de games nacional. O portal No Mínimo decretou o encerramento de suas atividades, o que, conseqüentemente resulta no fim do sensacional blog Jogatina, do escritor gaúcho Daniel Galera. Eu e muitos outros leitores ficaremos órfãos de uma bela iniciativa que ajudava em muito a elevar o nível e a qualidade do nosso novo jornalismo de games. Desejo sorte ao Galera, a quem aprendi a respeitar ainda mais nos últimos meses, com a esperança de que não demore a voltar a escrever sobre videogames e as coisas que os cercam.
E que a semana que vem seja mais tranqüila e traga melhores notícias. Algo relacionado à E3, por exemplo…
Notas relacionadas:
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