Você pode não conhecer o Vitor Ishimura, o entrevistado desta semana, mas talvez veja muito breve alguns de seus trabalhos. Nascido em São José dos Campos (SP) e com apenas 20 anos, Vitor é um dos mais talentosos ilustradores do cast da Glass House Graphics, uma empresa norte-americana que representa artistas na área de histórias em quadrinhos. Fã de videogames, Vitor teve o privilégio (e a sorte) de participar de vários projetos ligados a jogos famosos, como a graphic novel de Killzone, um crossover de Tomb Raider e ilustrações conceituais de Joanna Dark no mais recente Perfect Dark, só para citar alguns – isso sem contar os trabalhos secretos para jogos ainda inéditos, sobre os quais ele não pode contar muito… mas ele falou muito, sobre isso e outras coisas. Confira o papo:
Gamer.br.: Como você se meteu a desenhar quadrinhos ligados a videogames?
Vitor Ishimura: Bom, essa pergunta é muito fácil. Eu sempre amei videogames, e sempre sonhei em trabalhar com isso. Como comecei cedo com quadrinhos (que eu também adoro), sempre tentava fazer algo relacionado aos games. Conheço um pessoal que sabe disso e todo projeto ligado aos games que pintava, eles passam pra eu fazer. Eu ainda estou começando nessa área, mas sei que o inÃcio é devagar. E também estou fazendo uns projetos de quadrinhos que eu espero que virem games. O pessoal dos States está trabalhando pra isso acontecer.
Como funciona seu processo de trabalho? Você mora no Brasil, recebe roteiros e envia pelo correio os desenhos?
O processo também é simples. Eu recebo as instruções via e-mail ou Skype e aà faço rascunhos e envio por e-mail também. Após várias aprovações, o desenho final é enviado pelo correio. Fedex é a palavra mágica. Mas os contatos e a conversa inicial sobre os trabalhos eu fiz nos EUA mesmo. Estive nos eventos San Diego Comicon e Wizard World Chicago e foi lá que começou tudo.
E o que você já publicou por a�
Nossa, tem bastante coisa. Publiquei muito livro de RPG para editoras nacionais (MantÃcora e Daemon) e pra editoras inglesas (Mongoose Publishing, Ronin). Além de várias HQs pra editoras como APComics, Dreamwave, Image, Top Cow, Dynamic Forces, e recentemente, estou fazendo dois projetos que sairão na Marvel Comics.

Red Sonja, de Vitor Ishimura
E quais são os projetos de quadrinhos relacionados aos games de que você já participou e que pode falar a respeito? Não esconda nada!
Eu já trabalhei para a DreamWave quando eles adquiriram os direitos autorais de Killzone. Eu cheguei a desenhar algumas revistas, mas o projeto ainda não saiu, devido aos problemas da editora. Também já trabalhei com a Lara Croft de Tomb Raider no crossover Monster War, no qual ela luta contra o Frankenstein. Nesse mesmo crossover eu desenhei o Darkness, outro personagem que, em breve, sairá como um game de Xbox 360 (eu já joguei e achei o máximo!).
Eu também fiz ilustrações para a personagem Joanna Dark de Perfect Dark Zero, além de alguns concepts e ilustrações para algumas empresas, incluindo a Rare, da Microsoft. Recentemente, criei diversos personagens, para um tÃtulo que não sei qual é, devido à extrema cautela das empresas de manter tudo confidencial… Criei uns personagens, fiz ilustrações e concepts de muita coisa que nem sei pra onde é. Só sei que é pra algum game… Isso é meio estranho, apesar de ser uma ótima surpresa você estar jogando um game e descobrir que você fez o design daquele personagem…
E tem outros projetos do qual eu realmente não posso dar nenhuma informação por enquanto. Posso dizer que é uma grande personagem: a machine gun dela tem uns dois metros… [Risos]

Cena de Perfect Dark Zero, no traço de Vitor Ishimura
E quem quer trabalhar com games nessa área de quadrinhos, o que você recomenda?
Quem quer trabalhar nessa área, tanto com games ou com quadrinhos, deve ter bastante contatos. Com as facilidades de comunicação via internet, pode parecer fácil, mas é meio difÃcil algum bom editor abrir e-mail de um desconhecido, ainda mais com a quantidade de spams e vÃrus. Se você tem algum amigo que trabalha nessa área, peça pra ele indicar você, ou então você tenta fazer contatos através de uma convenção (tanto aqui quanto lá fora) e conhecer o pessoal. Há também várias agências no Brasil que fazem esse trabalho pros artistas. Uma delas, sou eu quem representa no Brasil – a Glass House Graphics, uma agência americana que representa talentos. Eu vou todo ano para os EUA e estou sempre nas convenções (quando eu não estou, quem vai é o meu agente e CEO da Glass House que mora nos EUA). Eu cuido da maioria dos trabalhos que vem para o Brasil e, pra ser sincero, tem muito trabalho pra pouco artista. O pessoal que quiser oportunidade, é só me mandar um e-mail (vtishimura@gmail.com ) e um link com seu portfolio. É fácil, basta ter talento.

Um exemplo de imagem conceitual criada por Ishimura
No que diz respeito à linguagem, quanto você acha que os quadrinhos têm a ver com os games?
Acredito que ambos estão muito próximos, assim como o cinema e quadrinhos são quase a mesma coisa – a diferença é que no cinema, as imagens se movimentam. Claro que com games a interação é muito maior, mas ao ler uma HQ, é você que determina o ritmo da leitura, existe uma certa interação com as cenas e tal. Assim como o público é praticamente o mesmo, então eles querem ver um quadrinho do game que está jogando ou um game do quadrinho de quem são fãs.
Eu adorei ver o gênio Hideo Kojima mixar as duas coisas e fazer a primeira graphic novel Digital. E a HQ digital de Metal Gear é basicamente a mesma graphic novel, só que com recursos que uma HQ não pode oferecer, como uma trilha sonora, uma maior interação do leitor, como um puzzle a se resolver etc… Mas, basicamente, é a leitura de balões através de cenas contadas por quadrinhos. Uma HQ, só que digital.
Quais são as suas principais fontes de inspiração nos games para desenhar?
Bom, pode acreditar que isso não é desculpa pra jogar e dizer que estou “trabalhando” [risos]. Mas jogar o game em que você está trabalhando ajuda a mostrar melhor o universo, a imaginar todas as mais loucas poses que a personagem pode fazer e as diversas situações em que seria difÃcil de se imaginar sozinho. Além de que, os artistas que trabalham com games são sensacionais, são os melhores!
Não só quando eu estou trabalhando em algum game, mas quando eu estou desenhando uma HQ ou trabalhando em qualquer outra coisa relacionada à arte, eu costumo jogar pra me inspirar a criar um angulo novo, uma pose nova, um mundo novo etc. Dá pra se tirar proveito de TUDO num game. Já tirei milhões de idéias de Final Fantasy e Metal Gear, meus jogos favoritos. Além de que não só a arte é inspiradora, mas a trilha sonora também. Eu desenho o dia inteiro ouvindo as trilhas sonoras desses games. Acho que isso faz parte do desenho. Não há como fazer uma HQ sem uma boa trilha sonora ao fundo. [Risos]

Lara Croft em ação
Sei que você não pode revelar, mas insisto: dê umas pistas sobre o que você anda fazendo de trabalho relacionado a games.
Tive a sorte de trabalhar com algumas personagens muito gatas recentemente! Todo editor americano adora ver as mulheres desenhadas por brasileiros, por que será, hein? [Risos] A heroÃna que estou trabalhando atualmente é uma bruxa que tem um visual muito único e sensual, meio parecida com a Yuna de Final Fantasy X e com uma metralhadora que é quase maior que ela, num universo futurista cheio de magia, muito tiroteio e ação. O jogo sai no primeiro trimestre de 2007 para o Xbox 360.
E dá tempo de jogar além de desenhar?
Bom, atualmente, todo tempo livre que eu tenho eu dedico à Final Fantasy XII. [Risos] Pra quê consoles da nova geração agora quando você tem um game desse?
Eu também gosto muito de jogar Metal Gear Solid 3: Subsistence online, só que o problema é que andei um tempo sem jogar e aà fica difÃcil jogar com os viciados. [Risos] Eu também estou jogando o Final Fantasy III no DS e acredito que quando terminar os dois, os FFs e MGSs da próxima geração irão me manter ocupado novamente…