Segunda-feira, como não poderia deixar de ser, é dia de Entrevista da Semana. O sabatinado da vez é considerado o mais importante executivo do mercado de games brasileiro (rótulo que ele próprio renega): Milton Beck, 43 anos, diretor da divisão de jogos e entretenimento da Microsoft no Brasil. Desde 2002 trabalhando na área de games da multinacional, Beck foi um dos responsáveis pelo aguardado lançamento do Xbox 360 no país. No papo a seguir, ele faz um balanço dos dois primeiros meses do console em território nacional. Leia, e como sempre, opine no final.
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Gamer.br: O Xbox foi lançado no Brasil há exatamente dois meses. Qual o saldo deste período?
Milton Beck: Não citando números, eu diria que ficamos muito felizes com o lançamento do Brasil. Principalmente do ponto de vista qualitativo, por diversos motivos. Nossas vendas sempre são consideradas de acordo com uma expectativa inicial. Os jogos estão se mostrando um grande sucesso. A métrica que levamos em consideração – quantidade de jogos vendidos por console – está bastante alta. Acreditamos que isso tenha ocorrido em função da base instalada que já existia antes do lançamento oficial. Alguns dos games que colocamos no mercado foram grandes sucessos, como Viva Piñata e Gears of War. Em termos de divulgação, conseguimos muita mídia espontânea, geralmente positiva, sempre comentando o quanto é importante a entrada dos consoles no Brasil. Acho que o lançamento foi positivo em todos os modos,seja na relação com os parceiros e varejistas, seja também na participação da Microsoft no cenário de games, que funcionou como um primeiro passo para estimular que as outras empresas também venham para o Brasil. Isso é bom para a concorrência e para os consumidores, de um modo geral.
Quais são os próximos passos do Xbox no Brasil? Quando teremos novidades, lançamentos? Com que velocidade eles vão rolar?
É claro que ainda temos muita coisa pra evoluir, mas já estamos preparando dois lançamentos para fevereiro: Crackdown e Fusion Frenzy, isso falando de títulos publicados pela Microsoft. E em março, teremos o Winning Eleven. Este, ainda não está definido quem irá publicar. Sempre teremos novos títulos saindo, jogos Microsoft e third parties, lançados por empresas como Electronic Arts, Ubisoft, entre outras.
O que mudou na questão do governo brasileiro e os impostos sobre os videogames? Alguma novidade nesse sentido nos dois últimos meses?
Eu não sei se [o processo] está parado, mas também não sei de nenhuma evolução. Não estou ciente de qualquer mudança que possa ter ocorrido.
Existe uma previsão de redução de preços do Xbox no Brasil e seus jogos? Dá para imaginar que isso acontecerá dentro de um ano?
Olha, a [matriz da] Microsoft por enquanto não fala sobre queda de preços, então não vejo sinais disso acontecer no mercado internacional. Desde que a gente siga as políticas internacionais de preços, não há sinais claros da redução no Brasil, pelo menos por enquanto.
Quando o console foi anunciado a R$ 2.999, houve reclamações sobre o valor, elevado para os padrões nacionais. Você acha que o preço esteja fazendo alguma diferença no número de vendas apresentado até agora? Quer dizer, as pessoas deixam de comprar porque está caro, ou compram independente do preço?
Eu acho que, como qualquer produto, existe uma curva de elasticidade de preço. O produto é vendido a R$ 2999, e à medida que os preços caem, aumenta o tamanho do que chamamos de “mercado interessado”. É obvio que o tamanho desse mercado interessado no país é menor do que se o Xbox 360 custasse R$ 2.000, ou R$ 1.500. É claro que o fator preço é importante, mas existem limites pelo o que as pessoas podem gastar.
Você acha que o brasileiro reclama demais do preço das coisas?
Eu não diria isso. Não é uma questão do brasileiro só reclamar do preço. Todo mundo sabe a dificuldade que é ganhar dinheiro, e cada um quer ter o melhor pelo o que gasta. Faz parte do direito do consumidor. Uma das grandes reclamações dos consumidores é sobre o preço dos jogos. Os jogos eram chamados de “joguinhos” e vendidos por R$ 5 nos camelôs, então se criou uma dificuldade grande para as pessoas entenderem o que significa o “valor intelectual” de um produto. As pessoas costumam achar que o custo de um game deveria ser menor de um show ou DVD. Na maioria das vezes, não se tem noção de quanto custa produzir um jogo. A enorme disponibilidade de produtos falsificados gera essa distorção de valores. Não existe “bala de prata” que vá resolver isso. O consumidor tem todo o direito de lutar por preços melhores, isso é um pedido justo. Só não é justo querer preços iguais aos da pirataria. Fizemos várias pesquisas qualitativas e alguns entrevistados disseram que não querem pagar mais do que um preço de um pirata. Ou seja, o que determina um preço hoje é quanto ele vale no mercado pirata.
Com o Xbox no Brasil, a Microsoft se vê mais à vontade para participar de eventos, fazer anúncios na TV e colocar mais a cara para bater no mercado brasileiro?
Não sei o que você quis dizer com “colocar a cara para bater”, mas sim, o objetivo é aparecer cada vez mais na mídia, aparecer e fazer campanhas, principalmente nos períodos sazonais, como Dia das Crianças e Natal.
O que pode ser feito então para haver melhorias em nosso mercado? Depende de quem? Governo, empresas, consumidores?
É preciso haver um aumento no número de pessoas interessadas em desenvolvimento de jogos. A popularização das ferramentas de criação, como a plataforma XNA, ajuda nesse sentido. A abrangência de títulos de diversas camadas de preço também é essencial, uma vez que é preciso haver jogos pra todos os gostos e bolsos. De forma geral, estamos relativamente bem servidos. Já na área de consoles ainda não estamos aonde deveríamos estar… a concorrência não entrou de forma massiva e a falsificação ainda é grande.
No Brasil, os MMORPGs para PC fazem bastante sucesso. Você acha que isso indica que o mercado brasileiro é mais parecido com o coreano do que com o norte-americano, por exemplo?
Eu não sou um expert em Coréia, mas o que eu sei que um dos motivos para o mercado de videogames não ter entrado lá foi porque existia uma certa rivalidade comercial com o Japão. O fato de haver uma restrição comercial entre os paises tornou os videogames caros demais para os coreanos. E o PC sempre foi mais barato que o console. Houve também os incentivos do governo, o aumento da conexão banda larga, o surgimento de milhares de lan houses, canais de TV para transmissões de partidas de StarCraft… [...] Existe muita diferença entre o brasileiro e o coreano. Eles gostam de jogar somente Estratégia e MMORPG, algo muito diferente das comunidades internacionais. Há narradores em torneios online, as pessoas idolatram os jogadores profissionais… . Eles têm um modelo que agrada aos consumidores deles. Se esse modelo é replicável em outros países ou não, isso é outra historia.
Eu não vejo esse tipo de coisa acontecendo no Brasil. A característica do brasileiro é diferente, o perfil é outro. O coreano usou muito desses Internet Cafés como um local de integração social, é uma característica cultural deles. No Brasil não funciona assim, não há uma parte tão significativa da população que freqüenta esses lugares. As culturas são muito diferentes, são mais áreas de diferenças do que similaridades.
O que você, Milton Beck, gostaria de ver no mercado brasileiro que ainda não viu?
Um quadro ideal seria o que se vê em um país com os Estados Unidos, onde existe uma proliferação grande de propagandas de jogos novos em TV aberta, programas especializados em várias emissoras, grande quantidade de revistas, a possibilidade de se comprar jogos em grandes cadeias de lojas. Mais ou menos algo parecido com o que existe nos EUA, Inglaterra e Japão. Trazendo para uma realidade mais próxima, o cenário mexicano está hoje bem mais avançado do que o nosso. No México, todos os players estão presentes, os preços são mais acessíveis, todos os consoles foram lançados, o preço de venda é mais próximo ao poder de compra da população, as propagandas são mais massificadas. O Brasil não tem isso ainda. Estamos melhores do que estávamos no dia 30 de novembro [dia anterior ao lançamento do Xbox 360 no Brasil], mas ainda há um longo caminho a ser percorrido, temos uma etapa longa para o Brasil se ver inserido nesse contexto. Enquanto a falsificação estiver em níveis tão altos, a produção de produtos nacionais será inibida. Estamos melhores, mas longe do que deveríamos ser.
Você é considerado o principal executivo do mercado de games nacional. Como é lidar com isso?
Eu não sei. Eu acho que sou aquele que mais responde entrevistas, talvez por falta de interlocutores na concorrência. Por um lado é interessante – eu gosto de falar com a imprensa, e é através da mídia que faço nossa mensagem chegar ao consumidor final – mesmo que as respostas que eu tenha não agradem, ou se eu não puder passar todas as informações por motivos “polítcos”. Espero continuar assim no futuro, mas espero que meus concorrentes também tenham uma presença aqui, à medida que o mercado for crescendo. O principal beneficiado com isso é o consumidor: daí ele poderá fazer suas escolhas baseado em critérios “normais”.