No texto passado eu reclamei, botei o dedo na ferida, do novo projeto de incentivo a games no Brasil, o BRGAMES 09. Como já falei antes, aqui é a minha casa e vou SEMPRE falar como eu acho que devo. Eu não tenho medo de ser mal-visto por instituições que estão fazendo algo errado, enganando os outros, desde que meus leitores sempre leiam a verdade (pelo menos a minha verdade) no GameOver. Nesta segunda-feira, recebi um e-mail de uma assessora da Secretaria do Audiovisual, Jane de Alencar, se dizendo ofendida com o meu post passado. Ela deu sua opinião pessoal, que não representa a opinião da Secretaria, e eu respondi a ela, como faço com todos os e-mails que recebo.
Irei publicar agora nossa troca de e-mails, mas, antes, quero deixar uma coisa clara: eu publico o e-mail dela, assim como publiquei os do professor Valdemar Setzer, para sempre manter uma relação extremamente clara com você, leitor do GameOver. Meu objetivo nunca é ofender ou inibir alguém com essa atitude, e sim, mostrar que aqui neste blog, sempre há espaços para todos. Enfim, segue o e-mail de Jane e, logo em seguida, a resposta que enviei nesta manhã:

Prezado Caio: no seu blog você pode ser politicamente incorreto. Concordo. Vivemos em uma democracia e, desde que se preste atenção nos limites da ética e do bom senso, qualquer pessoa tem o direito de se manifestar, ainda bem!
Mas discordo da desqualificação que você faz do Programa BrGames.
Estou me manifestando como cidadã e não refletindo a opinião oficial da SAv.
Para vc o programa é pífio e não altera o quadro de insatisfação gerado pelos altos impostos cobrados dos jogos eletrônicos.
No entanto, para quem não vive nos grandes centros e ainda não se profissionalizou pode ser uma alternativa interessante.
O Brasil é imenso e, geralmente, a maioria dos incentivos, ofertas, programas etc se concentra na região Sudeste. Um dos objetivos do Edital é descentralizar e democratizar o acesso de todos.
Outra coisa que discordo: quando você perguntou se não seria melhor investir esse dinheiro na diminuição dos impostos, respondemos indicando o setor responsável para responder essa questão. Não “empurramos” a responsabilidade para a Softex. A SAv se propõe a estimular a ampliação do mercado dos jogos eletrônicos, mas não tem poder para interferir na regulamentação dos impostos. Quem pode atuar mais decisivamente sobre esse problema é a Softex.
No entanto, esse jogo pode virar. Os projetos só andam lentamente no Congresso porque os interessados em sua aprovação não se manifestam, com veemência e contundência, pressionando de forma organizada os responsáveis pela tramitação: deputados e comissões. Esse “lobby” do bem, se feito de forma eficiente – lembre-se que apesar de um deputado se “lixar” para a opinião pública, a maioria depende dos nossos votos! – pode render bons frutos. A indústria brasileira de jogos eletrônicos tem suas representações, associações, sindicatos etc. São essas entidades que podem atuar no Congresso para que o projeto do deputado Carlito Meers tramite rapidamente e seja aprovado. Os deputados e responsáveis pelas Comissões precisam ser convencidos que a lei será boa para o setor, aumentando os empregos, gerando renda etc.
Portanto, vamos dar um voto de confiança no 1º Edital do BrGames e fazer críticas construtivas. Quem sabe o próximo não será uma edição bem mais ousada e aperfeiçoada, graças às sugestões dos artistas e produtores da área?
Finalmente, uma sugestão: ao invés de desqualificar, você e outros sites voltados para os jogos, poderiam ajudar a criar uma teia articulada com a Softex, a SAv e todos os interessados para conseguir mais geração de emprego e renda no setor de jogos eletrônicos, além de ampliação do mercado interno e externo. Estamos abertos à sugestões e ao diálogo.
Agradeço a atenção e despeço-me cordialmente,
Jane de Alencar
E isso foi o que respondi para ela:
Olá, Jane!
Primeiramente: fiquei realmente impressionado que tenha entrado em blog, ainda mais no post sobre o BRGAMES, sendo que eu nem o destaquei na home do Arena. Logo, presumo que, de alguma forma, você descobriu o meu cantinho, e fico feliz!
Vamos deixar algumas coisas claras antes de eu responder suas críticas. Primeiramente, você acertou completamente em entender que o blog é meu e eu faço o que bem entendo dele, mas errou ao se sentir ofendida (“como cidadão e não refletindo a opinião oficial do SAv”, o que eu duvido, mas tudo bem) pessoalmente pelo texto. Não sei se teve chance de conferir os comentários, que foram poucos exatamente por não tê-lo destacado no Arena Turbo, mas TODOS concordam comigo. E não é só isso, no Twitter esse mesmo texto foi reproduzido em forma de elogio. Ou seja, de todos os acessos que recebi com esse post, você é a única que discorda da minha visão e de meu texto. E isso é ótimo! Precisamos de opiniões contrárias para construir ótimos debates. Mas acho que você não entendeu exatamente o que estão fazendo com esse edital.
Concordo com o problema de nem todos terem, no Brasil, acesso a uma profissionalização mais específica na área de games. Mas aí você esqueceu-se de alguns detalhes: por incrível que pareça, a maior parte das desenvolvedoras de games nacionais não estão do Sudeste e sim no Nordeste e Sul do País. Isso prova que a indústria, mesmo sem nenhuma ajuda do Governo (e incluo aí o Ministério da Cultura), está sendo expandida para fora do eixo, mais comumente relacionado com algo intelectual/industrial/cultural. Não concorda que uma forma melhor de fomentar a tal “profissionalização” da área seria dar educação? Criar cursos de especialização na área? O meu problema com o edital é que ele beneficia uma parte mínima dos profissionais de games e rende frutos apodrecidos, afinal, se o BRGAMES é uma espécie de continuação do “Jogos BR”, que rendeu APENAS 16 demos e dois games completos que NINGUÉM no Brasil jogou, isso, para mim, e todos os meus leitores que se manifestaram, é uma atitude, no mínimo, ingênua.
Quanto aos impostos, cara Jane, como uma cidadã que conclamou ser, você realmente concorda que o SAv, com a ajuda do Ministério da Cultura (estou assumindo que vocês devem manter uma relação próxima), também não poderia fazer o “lobby” do bem? Se você acha que isso está completamente fora das mãos do Audiovisual, que vocês não tem o poder de influenciar em NADA nas decisões, sinceramente, não entendo para o que existe essa Secretaria.
Sinto muito, quanto ao voto de confiança, vocês não receberão o meu. Infelizmente, o Governo me ensinou a não acreditar em nenhuma suposta ajuda que destinam ao setor dos Games. Até mesmo a Projeto de Lei 300/07, do Deputado Carlito Merss, me deixou na mão. A minha crítica construtiva é: não façam isso. Não façam um edital que só serve para enganar a opinião pública de quem não está tão “por dentro” da área e irá achar, graças ao BRGAMES, que o Governo está ligando para área, pois nós dois temos de concordar, ele não liga. Isso tudo é papo. Para mim, parece que o Governo, com esse tipo de ação, quer dar uma de “descolado” e tentar conquistar a opinião de jovens do País.
Entenda, quem desqualifica esse incentivo sou eu, Caio Teixeira, e o meu blog, o GameOver. O Arena Turbo e todos os sites da “grande mídia” não tem opinião sobre o projeto, e espero que você, e seus superiores, entendam essa imensa diferença. Os sites se limitam a noticiar e foi o que o Arena fez na matéria publicada – http://arenaturbo.ig.com.br/materias/511501-512000/511553/511553_1.html.

Agradeço a abertura sua, e do SAv, para diálogos, mas isso é o mínimo que eu espero de um órgão público: que ele SEMPRE esteja aberto a diálogos com qualquer pessoa, empresa ou instituição. Entretanto, o respeito dirigido ao Arena Turbo por Djalma Petit, que parecia não entender a importância da reportagem, nos faz ficar reticentes quanto a essa “teia” de ajuda. Mas a esperança é a última que morre! Afinal, você veio falar comigo! Que fique claro, esse diálogo será reproduzido no GameOver, afinal, acho que todo o cidadão merece saber o que acontece na mídia e por trás dela. Imagino que isso não será problema algum para o SAv, afinal, a opinião é sua!
Abraços e continue acessando!
Caio Teixeira
Relendo agora percebo que fui muito mais “suave” com Jane do que com Setzer… Tô ficando frouxo… Mas e vocês, leitores, o que acharam disso tudo?
[Update]: O blog GamedevBR também fez um texto legal sobre a pataquada do BRGAMES. Dá uma passada lá!