Consumidor bom é o que sabe fazer conta
Jogador de videogame no Brasil é um bicho carente. E isso acaba com a indústria. Qualquer migalha é motivo de comemoração, qualquer promessa deve ser louvada sem pensar. Jogador de videogame pode ser colocado, tranquilamente, na mesma categoria dos fanáticos religiosos. O pensamento lógico é algo totalmente alheio à cabeça do coitado. À nossa cabeça.
Vamos lá, quantas vezes você já saiu todo feliz e animado após ler a proposta de um novo projeto que visa “alavancar o mercado nacional de games“? Quantas vezes os teus olhos se encheram de lágrimas quando prometeram que fariam o preço do Street Fighter IV sair da casa das centenas de reais para as dezenas? A ingenuidade do consumidor brasileiro (e aí é genérico mesmo) é algo triste de se ver.
E vamos lá, de tantas coisas que já foram prometidas para melhorar o mercado, quantas deram certo? Quantas realmente saíram do papel e ganharam as prateleiras? Não é pessimismo, é realismo. Ceticismo no mais puro sentido da palavra. Análise histórica de fatos. Só faço estas perguntas para tentar te trazer – nos trazer – de volta ao chão, afinal, eu vivo do mercado, meu ganha pão sai diretamente dele, logo, se ele melhorar, meu trabalho melhora junto. A curta história dos games no Brasil aponta para a direção da melhoria, sem dúvidas, mas algo rápido? Improvável.
Façamos contas: se algo é vendido nos Estados Unidos por US$ 60, como é possível o mesmo produto chegar ao Brasil por menos de R$ 100? Logicamente, o valor que chega ao consumidor vem acoplado a diversos custos (logística, marketing, margem de lucro do varejo e outros tantos pontos), mas, pelo bem de argumentação, vamos supor que nossos varejistas comecem a comprar jogos diretamente dos fabricantes, conseguindo fechar o negócio por US$ 40 cada unidade, traduzindo em uns R$ 65.
Hoje a taxa de importação de games chega a cerca de 80%, bom, isso já eleva o preço de R$ 65 para quase R$ 120. Isso sem nenhuma margem de lucro do lojista nacional, sem a logística de transporte do jogo e sem o marketing localizado para cada título. Poucas publishers estão oficialmente no País, então acrescente aí mais o valor de operação no Brasil. Me fala, vender um jogo no Brasil por menos R$ 100 – esqueça o seu bolso por cinco segundos, porque as empresas estão mais preocupadas com os delas – lhe parece rentável? Você, se fosse uma Publisher gringa, venderia um jogo aqui para ter prejuízo?
Basicamente três coisas precisariam acontecer no País para que um game de US$ 60 chegue ao Brasil por R$ 100:
a) Taxa de importação do jogo precisa diminuir mais da metade – isso significa mexer na arrecadação do Governo, quer dizer…
b) As publishers precisariam vender a unidade ao varejo brasileiro mais barato do que ao varejo norte-americano (tente imaginar toda a treta que isso causaria nos EUA, na CASA das produtoras…);
c) A pirataria tem que ser, pelo menos, diminuída em 2/3 para que as produtoras considerem o Brasil um mercado interessante para receber um investimento real (vai, sinceramente, você vai parar de baixar seus Halos pro seu Xbox 360 destravado?).
O mercado brasileiro de games irá melhorar? Sem dúvida alguma. Quando? Deve demorar ainda.
Pelo amor que você tanto tem à indústria, pense antes de apoiar qualquer causa, antes de aceitar qualquer esmola, antes de regozijar em ações “promocionais” aleatórias. Calcule, bote na ponta do lápis, olhe para a maldita lista de jogos que estão vendendo e pondere “isso é realmente algo bom, ou é simplesmente ‘algo ‘”.
Quando você toma atitudes sem pensar, segue toda uma turba manipulada para aceitar tal pensamento, você não passa de “massa de manobra”, não passa de um número em relatórios inflados para aparecer no jornal das 20h. Você é só mais um babaquinha sendo enganado.
Quero acreditar que ninguém quer ser só isso. Quero acreditar que a galera que compra videogame no Brasil consegue pensar no que está fazendo. Somos a geração multidisciplinar, com mais acesso a informação do que qualquer outra.
“Mas o que eu faço, então?! Não compro todos os lançamentos só para boicotar os preços abusivos?!”, gritarão alguns acéfalos. Você sabia que nenhum país no mundo consome videogames da mesma maneira que o brasileiro médio? Comprando todos os lançamentos “só para ter”? Essa coisa que o brasileiro enfiou na cabeça de que ele PRECISA ter TODOS os lançamentos NO DIA em que chegaram nas prateleiras é um câncer enfiado na nossa cabeça graças à “Época de Ouro” da pirataria do PS2, quando comprávamos cinco jogos por semana com uns R$ 40 em qualquer barraquinha. Você não precisa de tudo isso, a indústria não funciona dessa forma, caceta! Você simplesmente não irá ter tempo o suficiente para jogar tudo o que você quer comprar (a não ser que você tenha menos de 18 anos, só estude e não tenha uma vida social considerada saudável)! Pare de ser um maldito mimado e pense.
Você, que apoia ou faz parte de qualquer movimento deste tipo, por favor, entenda: também torço pela indústria e para que seus projetos funcionem (orra, será bom até para o meu trabalho), mas, infelizmente, não acredito em milagres. Se me mostrarem fatos e iniciativas concretas, podem me considerar um apoiador.
De qualquer forma… Nós temos uma escolha. Consumir de maneira saudável e responsável é mais importante do que promessas utópicas.
P.s.: Sim, o GameOver volta com esse texto… E sim, não é bem um artigo, está mais para um desabafo. Mas esse espaço sempre foi assim, certo?!
P.p.s.: Tecnologia é uma coisa fascinante, não? Se liga no primeiro link do “Notas Relacionadas” aqui embaixo… Que saudades deste blog! =)
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