Sério, qual é o problema da imprensa que não é especializada com os games? Ou melhor: qual é o problema da sociedade com os games? Essa semana não está fácil para nós, gamers. Primeiro o Ministério da Saúde da Grã-Bretanha lança uma campanha colocando os videogames como vilões do bem-estar público (de novo), depois uma organização dos Estados Unidos repudia games violentos para Wii e agora essa do atirador alemão, Tim Kretschmer, ser jogador de “Counter-Strike”.
“Um rapaz de 17 anos que forneceu somente seu primeiro nome, Aki, disse que estava estudando com o atirador neste ano em uma escola privada, e o descreveu como uma pessoa quieta e reservada. Aki disse que os dois jogavam poker juntos, pessoalmente e online, assim como um jogo para multiplayer chamado ‘Counter-Strike’ que envolve matar pessoas para completar objetivos”, declarou a AP. Via Baixaki Jogos.

Tim Kretschmer
A primeira coisa que penso é: “e daí que ele jogava ‘CS’?”. É claro, é mais fácil a imprensa esquecer que o pai de Krestchmer tinha 16 armas licenciadas em casa. Mais fácil ainda é esquecer o quão idiota o mesmo pai foi de deixar o arsenal de fácil acesso para Kretschmer. Tampouco a imprensa cogitou a ideia de que, talvez, o governo tenha errado ao legalizar o uso de armas por civis (não que eu seja contra, mas a pauta deve ser levantada. Todos ângulos tem que ser abordados!).
Para piorar, o professor de Ciências da Computação da USP, Valdemar Setzer, afirmou algumas coisas “interessantes” na CBN hoje (ouça o áudio completo da entrevista na CBN, se tiver estômago):
“O problema é que os videogames violentos acabam condicionando imagem e ação, muito pior que a televisão. Com isso o jogador não pode parar para pensar, e isso tudo que ele experimenta acaba gravado em seu subconsciente, e em uma situação extrema, esse treinamento realizado pelos games acaba sendo colocado em prática.”
“Há algumas evidências sobre a relação entre games e violência, mas nenhuma científica. Por exemplo, no massacre da escola Columbine, os jovens usaram jogos de tiro para executar sua matança, simulando até o ambiente escolar nos jogos.”
“Houve um outro caso muito importante, na cidade de Paducah, no Kentucky, em que um garoto entrou numa sala de aula durante um curso dominical em uma igreja e começou a disparar. Deu oito tiros mirando cabeça ou tórax e acertou 100% dos tiros. O mais impressionante é que ele nunca tinha pego uma arma antes, foi tudo treinado com videogames. Em uma solução tipicamente americana, os pais dos garotos que foram atingidos nesse ataque processaram a companhia que transmitiu o filme que, se não me engano, era com o Leonardo DiCaprio, que era justamente sobre um garoto que entrava na sala de aula e matava seus colegas.
O argumento de Setzer continua por mais alguns minutos e nunca, em momento algum, dando uma prova cientifica e irrefutável da ligação entre games e violência. Além disso, o locutor Heródoto Barbeiro, que conduz a entrevista, também não questiona o professor sobre tais provas. A CBN errou FEIO ao tratar as palavras de Setzer, que não é psicólogo, como lei. Errou ainda mais em não trazer nenhum profissional especializado para mostrar o outro lado da história, e piorou a situação, pois o caso de Kretschmer é uma das notícias mais importantes dos últimos dias. Ou seja, tripudiou sobre uma questão secundária para “requentar” a pauta, fazer mais uma chamada e aumentar sua audiência.

No dia seguinte ao ataque, escola foi palco de homenagens às vítimas (foto: Reuters)
Resumindo: se seus pais escutaram tal entrevista obscena na CBN, eles foram instruídos a não deixar mais você jogar videogame e nem ter um computador próprio em seu quarto.
Enquanto não mudarmos essa mentalidade a sociedade perde, pois não são somente os games que são acusados de barbaridades que, na realidade, vem do berço. Isso acontece com todas as mídias, com todos os meios de informação e diversão. Enquanto os “defensores da moral e bons costumes” do Brasil não se informarem para opinar e ainda receberem atenção da mídia, nosso País, e o mundo, continuará sendo empurrado para a imbecilidade. E a família continuará respirando tranquila, podendo tirar a responsabilidade de suas crianças das costas e culpando terceiros.
Update: Como o amigo Tião afirmou, “fazer essa relação entre ‘Counter-Strike’ e soldados melhores é a mesma coisa que afirmar: garotos viciados em ‘SimCity‘ serão ótimos prefeitos”. Resumo perfeito, Tião!