Hoje é dia do derby d’Italia, apelido do encontro entre Juventus e Inter. Há uma certa lenda em torno desta nomenclatura. Costuma-se dizer que ela existe porque Juventus-Inter é a partida entre as duas maiores campeãs italianas da história. Falso. Surgiu no campeonato 1966-67, quando as duas disputaram o tÃtulo. No encontro direto, a quatro rodadas do fim, dizia-se que ali seria a decisão. Foi aà que o jornalista Gianni Brera (o mesmo que chamou Berlusconi de Il Cavaliere pela primeira vez) criou a definição: quem vencesse, sairia praticamente como campeão italiano. A Juve levou.

Boniperti, 182 gols pela Juventus
Desde 1909, foram 215 jogos entre as equipes. A Juventus venceu 95 vezes, contra 67 da Inter. O que nos interessa hoje é a maior goleada da história do confronto, portanto voltemos a 10 de junho de 1961. Juventus 9-1 Inter.
Na época, o jogo ficou envolvido por polêmicas e conhecido como “a partida fantasma”. Na bagunça, ninguém esperava que aquele dia entrasse para a história por conta de uma grande coincidência. A goleada foi a despedida de Giampiero Boniperti, maior Ãdolo da história da Juventus, e marcou a estreia de Sandro Mazzola, um dos grandes da história da Inter.
Naquela temporada 1960-61, o mestre do catenaccio Helenio Herrera começava seu trabalho em Milão. O inÃcio foi ótimo e os nerazzurri viraram o ano na liderança da Serie A. Quando o fôlego acabou, em abril, vieram quatro derrotas seguidas e a Inter foi ultrapassada pela Juventus. A chance de recuperação seria o confronto direto, em Turim. Com o estádio Comunale lotado, havia gente até na pista atlética e ao lado do banco de Herrera. Com 31 minutos de jogo, o árbitro, temeroso, encerrou os trabalhos e entregou a causa aos tribunais. O regulamento era claro e a Inter foi, então, declarada vitoriosa por 2 a 0.
Nove jogos se passaram. Faltando um dia para a última rodada do campeonato, a federação italiana acatou o pedido da Juventus: a vitória da Inter foi revogada e a partida, marcada para a semana seguinte. Na época, não faltaram acusações, já que Umberto Agnelli era presidente da Juve e da própria federação. Desmotivada pela decisão, a Inter nem fez força contra o Catania e foi derrotada.

Mazzola, 160 gols pela Inter
Quando Juventus e Inter se reencontraram, na semana seguinte, a Velha Senhora já havia se sagrado campeã e os nerazzurri estavam classificados para a Copa das Feiras (a Liga Europa de hoje). Para protestar, o presidente Angelo Moratti mandou a Inter ir a campo com o time sub-19. Nenhum dos garotos havia estreado na Serie A até então. Sandro Mazzola estava entre eles e tinha um problema a mais: o jogo era na mesmo instante das provas finais de contabilidade. Ele insistiu para fazer os testes no inÃcio da manhã e um carro da Inter foi buscá-lo para que pudesse jogar naquela tarde.
A Juventus, por outro lado, escalou o time titular completo, inclusive Boniperti. Com 33 anos e problemas fÃsicos crescentes, o artilheiro histórico atuou como meio-campista. Em campo, é claro que não houve emoção alguma. Aos 17 minutos, Sivori havia marcado três vezes e fechado as contas. A partida se encerrou com nove gols para a Juve, seis de Sivori. O zagueiro Morosi, responsável por marcá-lo, não voltou a jogar pela Serie A. Terminou a carreira rodando entre a terceira e a quarta divisões, em clubes como Fanfulla, Poggibonsi e Aglianese, de sua terra natal.
O único gol da Inter naquele dia foi marcado justamente por Mazzola, de pênalti. Dos jovens interistas, apenas ele conseguiu uma carreira de sucesso. Foram quatro tÃtulos italianos, duas Copas dos Campeões e uma Eurocopa pela seleção. Quando a partida fantasma finalmente terminou, Boniperti entregou suas chuteiras ao massagista dizendo que não voltaria a jogar futebol. Encerrou a carreira com cinco tÃtulos italianos. A vingança veio quatro meses depois. Novamente em Turim, a Inter bateu a Juventus por 4 a 2. O time da casa terminou aquele campeonato na 12ª posição, pior campanha de sua história.