
Cesena 0-2 Milan, na 2ª rodada
Na Itália, não são poucos os que dizem que foi Massimiliano Allegri o maior personagem do título do Milan. Não é um pecado dizer isso. O jovem ex-treinador do Cagliari foi buscado pelo administrador-delegado milanista, Adriano Galliani, e recebeu total confiança. Forte no vestiário e fora dele, conseguiu até convencer Galliani de que precisava de reforços importantes em janeiro, mesmo com o Milan na liderança da Serie A.
Allegri teve liberdade e soube aproveitá-la. Mesmo pressionado pela imprensa a escalar Ibrahimovic, Pato, Robinho e Ronaldinho juntos, não sucumbiu – e olha que a Gazzetta dello Sport fez até simulações táticas, mostrando como eles se encaixariam. No decorrer do campeonato, driblou as lesões de Inzaghi, Ambrosini e Pirlo, deu confiança a Abate, Zambrotta e Abbiati, reinventou Boateng e Robinho e mandou Seedorf para o banco quando achou necessário.
A engenharia de Allegri foi essencial para segurar um time com diversos problemas físicos – todos os atletas do elenco ficaram ao menos uma rodada no departamento médico. Dos jogadores de linha, quem mais jogou foi Thiago Silva: 31 partidas em 36 possíveis. Com isso, 35 atletas foram usados em 36 rodadas, número bem acima do que a Internazionale pentacampeã costumava usar. No Milan dos ausentes, Allegri conseguiu montar um quebra-cabeça que poderia ter custado a dele próprio.

Milan 3-0 Brescia, na 15ª rodada
Com o passar das rodadas, o Milan se tornou um time consistente e ganhou bastante em solidez, mesmo com mudanças constantes e 36 escalações diferentes durante o torneio. Talvez tenha sido o primeiro campeão da história italiana que não perdeu qualquer jogo de virada – nem sequer venceu partida alguma assim.
A chegada de Ibrahimovic foi um marco na campanha rubro-negra. O sueco foi contratado no fim de agosto e estreou contra o Cesena (veja o primeiro campinho tático, à direita). Ibra perdeu um pênalti e bateu-se com Pato, buscando os mesmos espaços do brasileiro. Tudo isso por conta do ataque isolado. Culpa de um meio-campo inócuo que era, no máximo, guiado por lançamentos de Pirlo. Isolado na ponta-esquerda, Ronaldinho não conseguiu decidir, ficou nervoso e acertou uma cotovelada em Pellegrino. Mas o caos foi mesmo na defesa, onde Sokratis, mal protegido por Bonera, falhou nos dois gols do Cesena.
Não demorou para que Allegri derrubasse o 4-3-3, o transformando em 4-3-1-2. O elo entre meio-campo e ataque foi dúvida por muito tempo. Na 15ª rodada (veja o segundo campinho), no início de dezembro, foi possível notar a primeira guinada tática do Milan. Allegri barrou Seedorf, em má fase, e inventou Boateng de trequartista. O ganês vinha jogando mais recuado e estreou na nova posição marcando gol. Recuperou bolas, distribuiu o jogo rapidamente e esbanjou caráter. Virou xodó, claro.

Milan 4-0 Parma, na 25ª rodada
Foi mais ou menos nesta época que Robinho começou a evoluir. Com um papel menos incisivo que o tradicional, o camisa 70 foi instruído a procurar mais jogos pelas laterais, onde encontraria mais espaços, e aprimorou seus cortes diagonais, praticamente impossíveis de serem marcados. Para não falar da consciência tática aprimorada: Robinho ajuda na marcação, se desdobra como garçom e ainda conseguiu colocar doze golzinhos na conta.
Na defesa, já era possível observar um Abate em evolução, bem acima do que mostrou no ano passado e com o trauma da expulsão no primeiro dérbi contra a Inter já superado. Com Gattuso em boa fase e a zaga segura sob o comando de Nesta e Thiago Silva, a tarefa do lateral-direito ficou mais fácil.
O Milan da perfeição defensiva foi encontrado na 25ª rodada, na goleada contra o Parma, com a ajuda de van Bommel (veja o terceiro campinho). Desde então, foram quatro gols sofridos em doze jogos. O holandês deixou o time mais seguro e atendeu à expectativa de Allegri em ter um verdadeiro cão de guarda à frente de sua defesa. Ele já havia testado Ambrosini por ali, antes de o capitão se lesionar, mas os resultados não haviam sido tão satisfatórios. Com van Bommel, Pirlo acabou no banco. Se o italiano ficou satisfeito, é outra história.

Milan 3-0 Inter, na 31ª rodada
Por toda a campanha, a defesa só aparentava ter um calcanhar de Aquiles, na lateral-esquerda. Fraco no apoio, Antonini parece não ter evoluído nos últimos meses e, lá atrás, cometeu várias falhas bobas. Não demorou a ser sacado. Allegri testou Jankulovski, mas escolheu o veterano Zambrotta, que retomou a titularidade no dérbi contra a Inter, na 31ª rodada (veja no quarto campinho). Mesmo depois de tanto tempo parado e uma cirurgia no joelho, o campeão mundial anulou Maicon com sobras, o que lhe deu garantias até o fim da temporada.
De resto, foram poucas alterações estruturais, que não mudaram a cara deste quebra-cabeça milanista. Seedorf também deu a volta por cima e reassumiu seu posto de titular no meio-campo, mostrando que não encerrou a carreira. No ataque, Allegri se virou para escolher a dupla ideal. Robinho parece ter uma vaga cativa de titular, o que deixaria a outra para Pato ou Ibrahimovic. Mas para que fazer uma escolha tão difícil numa hora dessas, não é mesmo?